Beyond
33 Sofia
Notas iniciais

Bip.
Ai, meu cérebro.
Bip.
Parece que eu caí de cabeça do Monte Everest.
Bip.
Ao não ser o fato de eu nunca tê-lo subido.
Bip.
Esse bip-bip tá me deixando louca.
Levantei as pálpebras que pesavam pelo menos umas quinhentas toneladas. Tudo branco ao redor. Morri e fui pro Céu. Amém.
– Ei. – escutei uma voz estranha soar ao longe, como se viesse de um túnel.
– Deus? – perguntei, minha voz rouca.
Ele riu.
– Deus, não é hora pra brincadeira. Eu morri ou não?
Minha visão foi ganhando nitidez até que eu consegui enxergar um garoto. Um menino de uns dezoito anos.
– Sofia? – ele questionou, me encarando.
– Deus, eu esperava encontrar um velhinho de barba, e não um adolescente galã. Então deixa só eu me estabilizar um minuto.
– Eu não sou Deus, Sofia – ele disse, rindo. – Mas obrigado pela parte do adolescente galã. Eu sou Adriano. É um prazer te conhecer.
Analisei o garoto forte, de cabelos negros e barba mal feita. Ele vestia uma jaqueta de couro e tinha aquele estilo meio largado. Cara, ele tem um sorriso bem marcante, apesar do lábio partido e do queixo arroxeado.
– A Brisa se deu bem, hein? – eu disse, caçoando dele.
– Só ela não percebe – parece que ele quer me cegar com esse sorriso de propaganda de creme dental.
– Por falar em Brisa, onde ela está? – perguntei, estranhando a ausência da minha amiga mega-atrasada.
– Ela fez a sua mãe descer para comer alguma coisa. Seu pai acabou de sair para ir ao banheiro.
Reparei novamente seu lábio cortado e questionei:
– Só por curiosidade, o que aconteceu com seu rosto?
– Pergunta pra sua amiga Brisa.
Eu gargalhei imaginando minha amiga nocauteando o possível futuro namorado dela. Senti uma vertigem. Odeio quando isso acontece. De repente, tudo se anulou ao meu redor, e eu me dei conta de um fato. Enquanto eu conversava, eu estava movimentando os dedos do meu pé direito. A cirurgia tinha dado errado? O que teria acontecido? Arranquei a coberta branca de cima de mim e vi. A parte de mim que não existia mais. O colchão sem ondulação alguma. O vazio depois do meu joelho. Meus dedos continuavam se mexendo.
Agarrei os dois lados da cama e gritei.
***
Dor.
Dói tudo, desde a cabeça até a ponta dos meus dedos inexistentes.
Dor.
Eu me debato, grito, exijo uma explicação. O que está acontecendo comigo e com meu cérebro?
Dor.
A enfermeira diz que estou em choque e aplica uma injeção rapidamente, enquanto minha perna direita e invisível chuta o colchão com toda a força.
***
– Graças a Deus! – minha mãe falou quando eu finalmente abri os olhos. Ela me abraçou com força e vi os olhos de meu pai se encherem de lágrimas quando ele beijou minha testa.
Minha garganta ainda estava fechada, talvez por cause de pânico que eu acabara de passar. Aquela parada de membro fantasma não era brincadeira. Eu ainda a sentia, embora dormente, mas ainda assim, lá.
Precisava clarear minha mente e esquecer a ideia. Forcei a voz.
– Onde está a Brisa?
A garota só podia estar com a orelha grudada na porta, porque entrou logo após eu ter pronunciado seu nome. Cruzou o quarto rapidamente (Também não tinha por que demorar, já que era um cubículo) e me abraçou.
– Cadê a garota sombria que deveria me visitar umas doze horas atrás?
– Só não te dou um murro porque estou muito feliz de te ver viva.
Ela deixou uma lágrima escorrer pela bochecha.
– Pai – chamei. – aumenta a potência do ar-condicionado porque a Brisa tá derretendo.
Ela beliscou meu braço.
– Ai! – gritei.
– Eu disse que podia ser má.
– Você não respeita nem meus pais no recinto?
Meu pai e minha mãe olharam-se e riram.
– Vamos deixar as senhoritas colocarem o papo em dias – meu pai disse, saindo pela porta, acompanhado por minha mãe. – Já voltamos.
– Que bofe escândalo é aquele? – quase gritei quando eles fecham a porta. – Como que você não me conta que o engomadinha da Bíblia é o top gospel mais sexy da galáxia?
– Por que você tinha que ser tão exagerada? – Brisa disse, batendo com a mão na testa como se o que eu acabara de dizer fosse a pior bobagem que ela havia escutado. – O Adriano é normal.
– Normal? Quem é normal aqui é você. Aliás, não. Você é anormal por tentar destruir aquele rosto lindo, o que me leva a outra pergunta – me permiti respirar. – O que ele fez pra merecer um murro mesmo?
– Ele me mandou pedir desculpa ao carro – ela disse com cara de deboche.
– E você, desprovida de bons modos, não obedeceu.
Brisa ia revidar, mas eu a interrompi antes.
– Brisa, quando você vai aprender? Você precisa ser mais delicada, eu já te disse! E o que aconteceu com o carro, afinal?
– Lata-velha, você quis dizer. Aquela coisa quebrou no meio do nada. E foi o motivo de eu não ter chegado aqui a tempo.
– Bem feito! Pra você aprender a se desculpar quando faz coisa errada.
Brisa ficou calada, como se esperasse a pergunta seguinte. Demorou só um segundo para eu juntar as peças na minha cabeça recém-recuperada do trauma de perna-fantasmite.
– Se o carro quebrou no meio do caminho da noite anterior, onde vocês dormiram?
Senti o sorriso que começara no canto dos meus lábios se espalhar pela boca inteira. Brisa enfiou o rosto em uma almofada. Cara, eu vou ter sobrinhos lindos.
***
Observei meus pais, dormindo abraçados no sofá desconfortável do quarto do hospital. Embora tendo o rosto cansado, eles pareciam aliviados. O pior passara. Deus tinha se mostrado fiel mais uma vez. Mesmo eu não merecendo. Mesmo quando minha fé estava por um fio, Ele permanecia o mesmo.
Brisa e Adriano pegaram a estrada à noite para voltar para sua cidade. O quase namorado da minha amiga veio me ver no final da tarde para me desejar melhoras e eu aproveitei e exigi que ele cuidasse dela direitinho. Brisa corou imediatamente, reforçando a minha teoria de que, se o que ela sente não for amor, as andorinhas não voam mais.
Senti uma paz imensa me invadir. Fechei os olhos e pedi que Deus protegesse a viagem do casal-quase-formado-Brisa-Adriano. Agradeci pela cirurgia bem sucedida, pelo apoio dos meus pais, e acima de tudo, por Sua presença em minha vida, que não me deixou duvidar de seu poder para conduzir qualquer situação.
Eu sei que outras pessoas no meu lugar se desesperariam. Exigiriam o porquê de se encontrarem naquela situação. Buscariam respostas que, com certeza, não iriam encontrar. Mas eu conheço um alguém que sabe de todas as coisas. Que segura o Universo na alma de suas mãos e está no controle da minha vida.
Alguém que sabe quando você está perdido e quando está com medo. Está com você nos altos e baixos. Alguém com quem contar, alguém que se importa. Ao seu lado, aconteça o que acontecer.
“não te deixarei nem te desampararei.”
Josué 1:5b
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