Notas iniciais
Amei esse capítulo de paixão. Espero que vocês também! :) Comentários me deixam feliz. E atualizações sobre seu ano novo também. Deus abençoe!

— Ok, Brisa. Você só tem que respirar como um ser humano normal.

— Adriano, eu vou te matar.

— Não demonstre o seu lado homicida na frente dos meus pais. Eles podem interpretar mal.

— Como você me enfiou nessa, mesmo? – a raiva transbordava de seus olhos.

— Prometi pra meus pais que traria a menina que eu levara para outra cidade no carro deles para o jantar. – sorri, sem jeito.

— Eu vou acabar com a tua raça.

— Por favor, não dê mais ideias para o meu pai me xingar. Ele já tem nomes criativos o suficiente. E vê se se comporta. Eu falei pra eles que você era moça de família e com bons modos.

Fui interrompido com o abrir inesperado da porta. Era meu pai. Brisa ficou tensa. Eu travei. Nunca tinha me acontecido algo parecido. Mas acho que... Depois eu explico o motivo do meu silêncio.

Brisa olhou pra mim, implorando por ajuda. Meus olhos se fixaram nos meus tênis. Embora velhos, eram de muito bom gosto. E a garota ao lado me obrigada a limpá-los ao ponto de ficarem quase novos.

— Boa tarde, Senhor Pedro – Brisa falou, segurando a mão do homem grisalho. – É um prazer finalmente conhecer o senhor. – fiquei assistindo espantado à cena, vendo meu pai desfazer os braços cruzados e cumprimentar a menina.

Tenho que dizer que Brisa se arrumara como uma moça puritana, toda educação e meiguice. Ela estava com um vestido rodado com uma estampa clara. Usava os cabelos soltos e partidos de lado, bem penteados. E apesar do tamanho, trazia no tom de voz uma maturidade que eu jamais percebera. Belo disfarce, menina Brisa. Aprendeu com o melhor.

Eu trouxe isso para sua esposa – ela falou, entregando o buquê de flores ao meu pai.

Se eu o conhecia bem, poderia jurar que ele estava bastante satisfeito com aquele gesto.

— Você pode entrar e entrega-lo você mesma – disse para Brisa, educadamente. – Ela está na cozinha.

Meu pai falou, guiando a menina e me dando as costas. Entendi aquilo como um convite e entrei também. Fiquei sem saber o que fazer. Se ia para a cozinha também ou sentava no sofá. Afinal era minha casa, não era? Fiquei em pé.

O Seu Pedro voltou da cozinha com uma expressão mais leve. Passou por mim sem dizer uma palavra e sentou-se na sua poltrona. Entendi o aviso. Ele queria conversar comigo. Sentei de frente para ele. A televisão ainda desligada. Apenas ouvia a conversa animada de minha mãe com Brisa. Fiquei feliz por um de nós estarmos saindo bem na missão “Convencer meus pais de que eu mudei”.

— Comprou roupas novas, hein? – meu pai disse, e senti uma leve ironia. Tão leve quanto um tanque de guerra.

— Agora que eu estou trabalhando na lanchonete, resta um dinheirinho para comprar o que preciso.

Ponto pra mim! Eu estava trabalhando há quatro meses e no mesmo lugar. Omiti a parte de que o dinheiro sobrava porque a maioria das minhas refeições eram feitas na casa de Brisa. Mas ela também era responsável por me arrastar para o shopping na tarde anterior e pelas calças jeans claras e a camisa social que eu vestia. Nem a cor ela me deixara escolher, opinando que se eu chegasse em casa de preto, meus pais iam entender que o rebelde estava de volta. Gastei meu salário todo, e ela ainda queria que eu comprasse um sapato à prestação! Mulher é mesmo uma destruição na vida de um cara.

— E como vai a escola? – aquilo era mesmo um interrogatório?

— Tudo bem. Creio que eu vou passar direto esse ano.

— Depois de perder duas vezes na mesma série, era esperado que passasse, mesmo.

Ei! Já era golpe baixo. Segui o conselho de Brisa e mordi minha língua.

— Sobre essa menina... – ele começou, mas foi interrompido por Brisa.

— Desculpa interromper, mas a Dona Lúcia mandou avisar que o jantar está na mesa.

Santa Brisa, devotarei minha vida a agradecer-te por me livrar dessa.

— Te devo uma – sussurrei quando passei por ela.

— Me deve várias – ela sussurrou de volta e eu não pude deixar de rir.

O buquê estava dentro de um vaso, no meio da mesa. Mais um ponto! Sentamos nas cadeiras – antes eu puxei a cadeira de Brisa, porque ela insistiu que ao ver aquilo, meus pais estariam presenciando a um verdadeiro milagre. -, enquanto minha mãe corria afobada pela cozinha, tentando fazer tudo perfeito. Brisa se oferecera para ajudar, mas ela repreendeu-a insistindo que convidados devem ser servidos. Era engraçado ver meu pai, todo desajeitado obedecendo às ordens da minha mãe.

— Por que você está rindo? – Brisa perguntou.

— Não acredito que vou dizer isso, mas, é bom estar em casa – olhei em seus olhos. Sem ela, aquilo não seria possível. – Obrigado.

Quando todos finalmente se sentaram, começamos a comer. O silêncio só era interrompido vez ou outra quando Brisa elogiava a refeição e minha mãe faltava explodir de tanta felicidade.

— Então... – meu pai disse, limpando a boca no guardanapo. – Há quanto tempo vocês estão namorando?

Engasguei.

— Pedro! – minha mãe repreendeu.

Socorro, Jesus! Quero ar.

Um tapa nas costas liberou minha garganta.

— Obrigado – Brisa estava completamente corada, mas ainda assim, salvara minha vida.

— Seu Pedro, Adriano e eu somos apenas amigos.

O velho não pareceu acreditar.

— Mas... – Dona Lúcia falou timidamente. – Vocês formam um belo casal.

Brisa riu sem graça. Assuntos assim só poderiam vim depois da sobremesa.

— Eu posso garantir a vocês dois de que a nossa relação não passa de amizade. Aliás, gostaria de agradecer a vocês por emprestarem seu carro – Tenho que aprender com aquela menina a mudar de assunto tão bem. — Não sei se Adriano contou, mas minha melhor amiga passou por uma cirurgia muito séria, e eu precisava estar ao lado dela. Adriano – ela corrigiu. – o filho de vocês foi um perfeito cavalheiro em toda a viagem. Ele tem me ajudado muito durante esses meses de amizade. Tenham certeza de que vocês fizeram um bom trabalho em cria-lo.

Fiquei bem na fita demais! Minha mãe estava com os olhos cheios de lágrimas e vi meu pai estufar o peito com o canto do olho.

— Ai, menina, você é tão gentil – minha mãe riu, enxugando os olhos. – Me deixou até emocionada.

Até eu estava emocionado, cara! Nem sabia que eu era tão bom assim. As mulheres deixaram a mesa a fim de buscar a sobremesa e ficamos sozinhos novamente. Sem ter o que dizer, repeti mentalmente o discurso de Brisa. Eu tinha sido um perfeito cavalheiro durante a viagem. E sabia sobre o que ela estava falando. Foi depois que a Berenice quebrou na estrada...

***

Acabei de levar um murro. Calma. Tenho que fazer um drama.

— Senhor, leva minha alma! – gritei, me jogando no chão.

— Adriano, levanta logo daí e dá um jeito nesse carro!

— Você acerta minha cara e depois vem me pedir ajuda? Não, obrigado – toquei meu lábio dormente. Meus dedos voltaram molhados de sangue. – Minha vida está me abandonando!

— Se você não levantar em três segundos, eu juro que vou ligar pro meu pai e aí sim você vai estar morto.

De um só pulo fiquei em pé. Liguei para todos os mecânicos que eu conhecia até achar algum que tinha uma filial onde eu estava. Demorou pelo pelos trinta minutos para o socorro chegar. Brisa ficou o tempo todo reclamando e murmurando, indo de um lado para o outro no acostamento.

— A gente nem começou a namorar ainda e parece que já estamos casados! Deixa de reclamar, mulher!

Brisa ficou muda.

— Eu sei que você tá uma pilha de nervos porque queria estar com sua amiga, mas não há nada que eu possa fazer!

Os olhos da menina se encheram de lágrimas.

— Ah, não! Não sei lidar com mulheres chorando! – reclamei. Ela veio em minha direção e me abraçou.

— Eu não vou ver a Sofia a tempo – ela repetia entre os soluços.

— Eu prefiro quando você grita comigo.

O mecânico chegou na hora certa. Não aguentava mais aquela molhação na minha camisa. Ficamos de lado enquanto ele tentava dar um jeito na Berê.

— O problema é grave. Vou ter que rebocar para a oficina. Acho que vou ter que substituir algumas peças.

Lá se vão todas as minhas economias nesse maldito conserto.

— Você pode nos dar uma carona até alguma pousada? – perguntei.

— Claro, tem uma aqui perto.

Ele nos deixou em uma pousada simples na entrada de uma cidadezinha. O mecânico disse que cedo, pela manhã, traria a Berenice de volta. Olhei para Brisa. Ela parecia cansada. E com fome. Pedi que ela conversasse com o dono do estabelecimento enquanto eu ia comprar alguma coisa para comermos.

Quando voltei, Brisa ainda estava na recepção com uma cara apreensiva.

— O que foi agora?

— Eles só têm um quarto vago.

— E quem disse que eu iria pagar dois? – ela me repreendeu com o olhar. – Desculpa, Brisa. Eu não sou milionário. Moço, ficamos com o quarto.

Paguei pela estadia e subimos o lance de escadas.

Abri a porta. Brisa ainda me olhava do lado de fora.

— Vai ficar aí?

Ela relutou e entrou. O quarto tinha uma cama de casal, um banheiro, uma TV – que pegava apenas o canal de notícias. – e um tapete velho. Liguei a televisão esperando diminuir o constrangimento.

— Você não quer tomar um banho?

Ela tirou uma roupa da sacola e carregava e foi para o banheiro. Ouvi quando ela trancou a porta com a chave.

Deitei na cama e imaginei porque Brisa estava com tanto medo. Eu não faria nenhum mal a ela. Mas eu acho que o fato de ela nunca ter ficado em um quarto sozinha com um homem era o que a assustava.

Ela saiu do banheiro ainda meio acuada. Entreguei-lhe a sacola e disse que comesse. Tomei uma ducha demorada, e quando voltei, ela estava encostada na cabeceira, abraçando os joelhos.

— O que está acontecendo, Brisa? – perguntei de uma vez, enxugando o cabelo que eu acabara de lavar. Se eu paguei aquela estadia era para usufruir tudo o que eu podia! Inclusive os sabonetinhos que eu peguei e joguei na mochila.

— Não consigo parar de pensar que meu pai desaprovaria isso.

— Isso o que?

Ela apontou para nós dois.

— A gente não está fazendo nada demais!

— Você está sem camisa. Nós vamos passar a noite inteira neste quarto. E ninguém além daquele mecânico sabe disso. Não parece errado para você? – a implicância voltou rápido...

— Brisa – eu disse, sentando na ponta da cama. – Eu nunca vou fazer com você nada que você não queira. E se te incomoda tanto o fato de estarmos no mesmo quarto, eu vou dormir do lado de fora.

— Não é pra tanto, Adriano. Eu só... – ela escolheu as palavras. – Eu confio em você. Eu só nunca fiz isso antes.

Eu levantei, peguei o travesseiro e uma coberta que eu joguei em cima do tapete surrado. Vesti uma camisa e fui até o lado de Brisa.

— A cama é toda sua, princesa – falei, beijando sua testa. – O seu príncipe vai dormir no tapete hoje.

Ela riu, e eu me dirigi aos meus aposentos reais, pensando que nada daquilo era um conto de fadas. E eu certamente não era o melhor dos príncipes. Mas a nossa história era digna de ser contada.

***

Eu e meu pai estávamos de volta à sala. Minha mãe se deu tão bem com a garota ventania que preferiu lavar os pratos e conversarem sobre não sei o que. Voltamos à posição inicial. Eu estava de frente para meu pai, que agora não parecia com raiva, mas pensativo.

— Parece que essa garota tem te feito bem – aquela foi a coisa mais suave que meu pai me disse em anos.

— Mais do que o Senhor pode imaginar – eu reuni a coragem que me sobrara e resolvi fazer o que eu planejara fazer. – Pai, eu vim hoje te pedi perdão – vi a surpresa em seu rosto. Continuei. – Eu errei demais, com o senhor, e minha mãe. Não tratei vocês com o respeito que mereciam. Mas eu quero dizer que estou tentando ser uma pessoa melhor. Eu não quero ser um fardo nas costas de vocês, nem um peso em suas consciências. Eu quero ser o filho que vocês merecem.

Meu pai me olhou. Demorei a reconhecer que tipo de olhar era aquele. Talvez porque em muito tempo, não o via sendo direcionado para mim.

Não estava ressentido. Nem irado. Muito menos triste.

Ele estava orgulhoso.

— “Respeite o seu pai e a sua mãe, como eu, o seu Deus, estou ordenando, para que você viva muito tempo, e tudo corra bem para você na terra que estou lhe dando.

Deuteronômio 5:16

Notas finais
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