Notas iniciais
Prometi e cumpri. Voltei ligeiro. Tenho poucas ideias para o próximo capítulo, portanto, me ajudem, dando sugestões nos comentários. Eu estava sentindo falta de um capítulo com mais versículos (não sei vocês),por isso, este aqui vai recheado deles. O diálogo foi escrito por Jenifer. Os devaneios por mim. Espero que gostem! Deus abençoe vocês com Sua infinita ALEGRIA. :)

O edifício em minha frente era relativamente alto, três andares ou mais. Ele era pintado de azul e as janelas eram grandes e feitas de um material escuro — não que houvessem muitas. Pintado com letras brancas, com a tinta descascando, estava o letreiro:

DELEGACIA FEMININA
PRESÍDIO PARA MULHERES

— Tem certeza que quer fazer isso, filha? – meu pai me perguntou com o olhar preocupado.

Fiz que sim com a cabeça. Respirei fundo. Ignorei a minha metade racional que me mandava dar no pé e abri a porta do carro, me direcionando para a entrada do prédio.

— Boa tarde – falei, me dirigindo a recepcionista.

— Boa tarde – ela respondeu. – Posso ajudá-la com alguma coisa?

Falei o meu nome, lhe entregando a identidade e disse o que queria.

— E por que a mocinha acha que eu vou deixar uma menor de idade falar com uma detenta?

— Porque eu sou a vítima dela. E eu estou – me corrigi. – eu e meu pai estamos retirando todas as queixas acerca do que ela fez a mim.


***

A sala era escura, mas quente. Duas cadeiras e uma mesa entre elas, todas parafusadas ao chão. Uma lâmpada amarelada pendia sobre a mesa. Sentei-me. Não sabia onde colocar minhas mãos, então deixei-as no colo. Apesar do calor elas estavam geladas e tremiam.

Uma porta foi aberta dando passagem a uma garota. Ela vestia o uniforme padrão do presídio que de alguma forma, ficava bem nela. O guarda a guiou até a mesa e depois se afastou, mas ainda nos observando com olhos cautelosos.

Ela era jovem, mas tinha um certo ar de maturidade – tinha pouco mais de dezoito anos, mas as pessoas geralmente davam bem mais. Os cabelos castanhos haviam sido cortados na altura dos ombros. Os braços, visíveis devido a blusa regata que ela usava, eram fortes e musculosos. Ela pisava firme no chão, uma característica que me chamara a atenção na primeira vez que a vi entrar no ginásio para mais um jogo. A diferença é que dessa vez ela andava com a cabeça baixa.

Sentou-se pesadamente na cadeira. Levantou a cabeça devagar e olhou em meus olhos para desviar o olhar logo depois. As mãos algemadas estavam escondidas debaixo da mesa. O silencio era quase palpável. Até que ela falou.
— Oi, Brisa – sua voz era rouca e trêmula.
— Oi, Larissa – respondi em um tom neutro.
Ela respirou pesadamente e pôs as mãos sobre a mesa. O ferro das algemas estalou ao entrar em contato com a mesa feita do mesmo material. Passei algum tempo tentando lembrar o porquê de eu querer falar com ela. Não consegui formular nenhuma frase coerente, então ela fez isso por mim.

— Você deve me odiar... – ela disse.

— Eu não te odeio. – falei – Eu não odeio ninguém. Ódio é um sentimento muito pesado para eu carregar.

Ela deu uma pequena risada de escárnio.

— É, eu meio que esperava que você fosse dizer algo do tipo. — retrucou — A boa e gentil Brisa, que é boazinha demais pra agir como um ser humano normal… — ela disse com desdém.

— O que você quer que eu faça, afinal?

— Ah, eu sei lá — ela exclamou exasperada. — Grite, me xingue, me odeie, e principalmente não venha me visitar! É uma surpresa que seu guarda-costas tenha aceitado esperar do lado de fo-

— Adriano não está aqui — interrompi-a.

— Esse não é ponto, Brisa. — ela me cortou de volta. — O fato é que você anda agindo como uma santinha quando eu sei muito bem a farsa que você é…

— Você quer dizer quando eu vivia praticamente bêbada e achava que tinha que ser que nem você? – aquilo a deixou muda por um instante.

— Ainda assim – ela continuou. -, eu arruinei sua vida só porque não conseguia te entender.

Fiquei confusa.

— Sabe, o motivo pra te encher o tempo todo? Nós todas queríamos que você voltasse a ser como era antes. Não aceitamos muito bem o fato de você ter virado a Madre Teresa de Calcutá do dia pra noite. Por isso começamos a atacar você. Mais cedo ou mais tarde você explodiria. Sua máscara iria cair.

— Eu mudei de verdade. Pensei que vocês aceitariam isso – falei mais calma.

— Mas não aceitamos! Você simplesmente nos largou para se tornar uma santinha! Você começou a fingir que nós nem existíamos!

— Eu estava de luto! A minha mãe tinha acabado de morrer. O que você queria que eu fizesse?

— Queria que continuasse a ser minha amiga! Mas você mudou. Por isso nós decidimos te dar uma lição. Procuramos uma maneira de te machucar. Mas nada deixava você furiosa. Então eu tive a ideia de pegar a Bíblia da sua mãe, porque sabia que você não se desgrudava daquele objeto desde o dia do acidente – ela me estudou e como eu não disse nada, ela voltou a falar. – Foi aí que aquele menino entrou na história. Ele te defendeu. E você nos trocou por ele! – seus olhos crepitavam com o ódio. — Naquele momento, eu nem queria que você voltasse a fazer parte do grupo. Eu só queria que você sofresse.

Apesar dos olhos molhados, suas palavras destilavam raiva, mágoa.

— Eu queria que você sofresse, Brisa, porque eu estava sofrendo! – ela gritou e eu me afastei instintivamente da mesa.

Larissa começou a chorar baixo. Então era isso. Ela achou que eu estava feliz por ter mudado. Que eu havia sido imunizada de toda dor por ser uma nova pessoa. Ela não entendia. Doía tanto que não dava mais pra juntar os estilhaços, costurar os farrapos, não havia outro jeito de atenuar o machucado que não fosse uma restauração completa. Porque há certas dores, que machucam tanto, que fazem você tomar uma decisão: Se entregar a ela, ou deixa-la transformar você.

— Vocês queimaram a minha Bíblia – ali estava minha ferida exposta. Aquilo que me machucou mais. Ela me conhecia muito bem para me atingir no meu ponto mais fraco. Era por causa daquilo que eu estava naquela sala escura.

— Você pode me odiar agora – ela disse, interrompendo meus pensamentos.

— Pelo contrário, Larissa – eu levei meus olhos até os dela. — Eu te perdoo.

— Você o que? – ela perguntou ironicamente.

— Eu desculpo você por tudo o que fez – minha voz era clara, sem mágoas, sem dor. — Pelas agressões, pela perseguição, por todas as vezes que você me machucou. Inclusive quando você queimou a última parte que restara da minha mãe.

— E quem disse que eu estou pedindo o seu perdão, garota?

Engoli em seco.

— Eu não estou fazendo isso por você. Estou fazendo por mim – aí sim ela ficou surpresa. – Eu tenho motivos suficientes para te odiar pelo resto da minha vida. Mas esta decisão é minha, e eu não quero. — Deixei-a absorver o significado daquelas palavras. – Espero que você me perdoe um dia.
Levantei da cadeira. Já tinha feito o que eu pretendia. Ela permaneceu com a cabeça baixa.
— Se Deus perdoou os meus e os seus pecados, quem somos nós para não fazermos o mesmo?
Olhei novamente para a garota. Alguém que um dia fora minha amiga. Alguém que sentia um ciúme irracional e que no fundo, só queria que a amizade perdurasse. O guarda entrou na sala dizendo que tempo já havia se esgotado. Ele a levantou, segurando seu braço com força.

— Brisa – sua voz era fraca. — A Bíblia da sua mãe. Está guardada num fundo falso no chão de madeira, debaixo do sofá.

Ela me olhou por um instante. Eu ainda estava paralisada. O guarda a empurrou porta afora.

Quão profundo pode ser um olhar? Quanta coisa pode esconder? Quantos sentimentos pode derramar? Embora os nossos olhos serem contempladores de tudo o que é sujo, feio e cruel neste mundo, eles não ignoram a verdade. Mostram claramente quem nós somos. Nos expõem por dentro, crus, humanos, despidos de toda a camuflagem.

A Bíblia fala de um olhar. Lançado pelo homem mais puro que esta Terra já conheceu. Um amigo particular chamado Pedro o traíra. Ele poderia gritar insultos, cuspir desaforos, dizer o famoso “Eu te avisei!”. Mas ele preferiu o olhar.

Jesus perdoou com um olhar.

Amou com um olhar.

Convidou com um olhar.

Curou com um olhar.

Agradeceu, levantando os olhos para o Céu.

Ainda parada na sala escura, lembrei-me de Larissa.

Seu olhar pedia perdão.

“Mas Pedro respondeu: — Homem, eu não sei do que é que você está falando!

Naquele instante, enquanto ele falava, o galo cantou. Então o Senhor virou-se e olhou firme para Pedro, e ele lembrou das palavras que o Senhor lhe tinha dito: “Hoje, antes que o galo cante, você dirá três vezes que não me conhece.” Então Pedro saiu dali e chorou amargamente.”

Lucas 22:60-62.



***

Abri a porta. A casa cheirava a vazio, mofo e pó. Estava abandonada. Assim como a garota que morava ali. Os pais de Larissa viviam pelo mundo, fazendo viagens de negócios, cuidando de mil empresas, menos de sua filha. Ela devia se sentir sozinha. Certamente por isso, transformava a mansão em que morava em um clube, onde muitas pessoas apareciam para beber, namorar ou se divertir. Mas não buscavam a amizade da dona da casa.

Segui pelo corredor até encontrar a sala luxuosa. Pensando que o dinheiro muitas vezes, faz as pessoas esquecerem-se do que é realmente importante. Do que a gente leva quando morre. Do que a gente deixa enquanto vive.

Empurrei o sofá para o lado. Procurei o fundo falso. Retirei o pó de cima da Bíblia da minha mãe, remexendo nas folhas para ter a certeza de que estavam inteiras. Dei uma última olhada na casa vazia e na sensação ruim que ela emanava e imaginei quantas vezes Larissa se sentira assim: Infeliz.

Eu não precisava daquela Bíblia para ser feliz.

O motivo da minha felicidade tem nome, endereço, e hora marcada para voltar.

Eu não sei o nome do seu motivo.

Mas o meu se chama Jesus.

“Aos que têm riquezas neste mundo ordene que não sejam orgulhosos e que não ponham a sua esperança nessas riquezas, pois elas não dão segurança nenhuma. Que eles ponham a sua esperança em Deus, que nos dá todas as coisas em grande quantidade, para o nosso prazer! Mande que façam o bem, que sejam ricos em boas ações, que sejam generosos e estejam prontos para repartir com os outros aquilo que eles têm. Desse modo eles juntarão para si mesmos um tesouro que será uma base firme para o futuro. E assim conseguirão receber a vida, a verdadeira vida.”

1 Timóteo 6:17-19

Notas finais
Para os que querem pesquisar. Amou com um olhar. Marcos 10:21 Convidou com um olhar. Lucas 19:5 Curou com um olhar. Mateus 9:22 Agradeceu, levantando os olhos para o Céu. João 11:41 Cheiro!!! Comentem!