Beyond
7 Brisa
Notas iniciais
Soltei o ar pela boca tentando manter o controle sobre minha raiva. Olhei para baixo e vi que minhas mãos estavam tremendo.
– Grrr! – Rosnei enquanto atravessava a sala.
Meu pai abaixou o jornal e me olhou intrigado.
– Algum problema, filha? – Ele se dirigiu a mim, quando eu estava subindo a escada.
– Não é nada!
Quando eu estava quase no topo ele murmurou algo como:
– Eu podia jurar que ela estava apaixonada...
Bati a porta com força. Aquilo já estava se tornando um hábito. Joguei-me na cama e tentei esvaziar minha mente. Logo me peguei elaborando estratégias de guerra contra... Como era o nome? Adriano, é isso. Ele teria me dito alguma vez durante seus longos interrogatórios sem respostas.
Ao menos, eu teria dois dias longe daquela criatura infeliz. Talvez na segunda, ele cansaria de me atormentar. Ou isso ou... Não. Desistir nunca. Eu passaria a... Bem... Me esconder também não. Então o que?
Se eu perguntasse a uma amiga... Ah é! Eu não tenho amigas. Não mais, pelo menos. Só resta... Meu pai.
Esperei anoitecer, e quando estávamos os dois sentados a mesa eu reuni toda coragem e falta de noção e falei:
– Pai, preciso te fazer uma pergunta.
Ele levou o garfo à boca e falou de boca cheia:
– Pode perguntar.
Mantive meus olhos no meu prato.
– O que se deve fazer quando alguém indesejável resolve implicar com você pelo resto da vida?
Meu pai estreitou os olhos e disse:
– Bem, se esse alguém for um alguém qualquer, eu diria que você deveria ignorá-lo.
– É o que eu tenho feito – eu o interrompi.
– Mas se esse alguém for o menino que te leva e traz da escola, eu te aconselharia a desistir e se tornar amiga dele, porque nada do que você faça para mantê-lo distante vai fazê-lo parar.
Passado o choque inicial formei outra dúvida em minha mente.
– E como o senhor tem tanta certeza disso?
Após alguns segundos ele depositou os talheres sobre o prato e passou as mãos pela barriga levemente arredondada, satisfeito pela refeição.
– Esse garoto me faz lembrar como eu era na adolescência. Sua mãe não foi nada fácil de conquistar... – ele deu um meio sorriso. – Esse garoto, assim como eu, parece não desistir de uma boa garota.
Retirei-me da cozinha com uma carranca e fui para meu quarto. Até meu pai resolvera tirar uma comigo. Eu e aquele esquisito juntos? Nunca! Ele nem tomava banho e sempre afastava os outros... Se bem que nesse último quesito nós tínhamos algo em comum. Mas estava fora de todas as possibilidades algum dia nós ficarmos juntos. Era uma ideia tão agradável que me dava ânsias de vômito.
Pensei no que meu Pai me dissera antes. A parte de me tornar amiga dele. Aquela também não era a melhor solução de todas. Avistei minha Bíblia sobre mesa do computador. Abri-a e encontrei a solução.
“Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoe como o Senhor lhes perdoou”.
Colossenses 3:13
Então, era isso o que eu iria fazer. Suportá-lo.
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