Beyond
47 Brisa
Notas iniciais
“Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo.” (Salmos 23.4a)
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O que é que tá acontecendo?
Minha cabeça dava mil voltas. Minha mão suava tanto que eu não conseguia desbloquear o celular. Tentei novamente o celular do meu pai: caixa postal.
— O que é que tá acontecendo?! – gritei pra ninguém.
— Calma.
— Você se concentre em dirigir, Adriano.
Ele assentiu calado. Meu Deus, o que estava acontecendo? Minha cabeça ia explodir. E a única pessoa adequada para resolver aquilo — vulgo meu pai — estava em alguma congregação fora da cidade, já que hoje é quarta-feira. Olhei o horário no visor. E não me recordava da congregação ser tão distante.
— O que é que tá acontecendo? – cobri meus olhos com as mãos.
As piores coisas do mundo resolveram acontecer hoje. Coisas que eu nunca ouvi falar nem sei explicar. Tipo uma voz igual a minha falar dentro da minha casa. E outra pessoa além de mim escutar essa voz. Isso é muito irreal. Isso é filme de terror daqueles feios. Só que real.
Qualquer oração que eu tentasse fazer, acabava virando o Salmo 23. Se não, era um série frenética de ‘o sangue de Jesus tem poder’. Fechei os olhos rapidamente e só conseguia pensar ‘Meu Deus! Meu Deus!’
Eu estava aterrorizada, as ondas praticamente já virando meu barco. Mas a calmaria que eu sentira mais cedo parecia ter sido apenas o olho da tempestade, porque não me via nenhuma solução, nenhuma paz, nenhum conforto.
Comecei a clamar que o Senhor é o meu pastor, e abri os olhos.
Levantei a cabeça. A estrada era pouco movimentada. Um mato alto estava dos lados dela. A única parte iluminada eram as faixas e o trechinho de estrada na frente dos faróis.
Isso já havia acontecido antes?
— Nunca – Adriano respondeu, sem tirar os olhos da estrada, – Elas falavam dentro da minha cabeça. E não tinham a sua voz.
— O que elas queriam com você lá em cima? Nossa, não quero nem pensar nisso. Eu quero meu pai pra me explicar tudo o que aconteceu hoje.
Coloquei a cabeça entre os joelhos e fiquei tentando fazer as coisas adquirirem certa lógica. Aquele dia estava sendo tão longo que eu nem me lembrava o que tinha feito de manhã. Era preciso recapitular os fatos: fui expulsa da aula de física por causa de Adriano, nos reunimos na casa do Giga, foi lá que eu recebi a ligação do Lucas. A partir daí todos os acontecimentos sinistros se materializaram.
Algo cutucava minha mente. Esses episódio estranhos começaram muito antes. Quando foi mesmo? No shopping. Aquela confusão na loja. O irmão gêmeo de Adriano. A ligação com interferência. A mulher de olho amarelos. As sombras. O menino possuído. Então eu escutei um clique de toda as peças se encaixando. Tudo estava ligado a alguém.
— Adriano, – eu perguntei ainda com a cabeça abaixada, – O que você fez?
Ele parou de respirar e o único som era o dos pneus contra o asfalto.
— O que você fez de tão grave que acha que não merece perdão? – Levantei a cabeça para ver um vulto cruzar a faixa iluminada pelos faróis quando não havia nenhum carrro vindo no sentido contrário – O que foi isso?
O sangue de Jesus tem poder! Misericórdia, Deus! Tá amarrado no nome de Jesus!
Meu coração estava para sair pela boca. O que era aquilo? Foi apenas uma sombra ou…
— Elas estão nos seguindo desde que deixamos a cidade – suas mãos apertaram mais forte o volante. – Desculpa, Brisa. É tudo culpa minha.
Me virei, pronta pra mandar ele parar de ficar falando isso. O coração martelando forte contra o peito, mas a luz me interrompeu.
A luz do farol de um carro, vindo em direção à janela do lado do Adriano.
Não sei se eu gritei. Não sei se houve tempo para isso. Mas o impacto que se seguiu foi como se uma onda de vinte metros tivesse acertado o carro em cheio. Senti o carro girar algumas vezes, meu corpo chacoalhando como se a gravidade no planeta tivesse sido anulada. Vidro voava em todas as direções e eu sentia pequenos beliscões pelo rosto. O carro se arrastou com o teto para baixo por alguns metros (que pareciam quilômetros), deixando a poeira entrar pelas janelas abertas. Um nuvem poeirenta cobriu o interior do carro e eu não conseguia respirar. Tossi até tudo ficar negro.
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“Mil cairão ao teu lado, dez mil à tua direita; mas tu não serás atingido.” (Salmos 91.7)
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Eu morri.
Tudo está branco, eu só posso estar no Céu.
— Brisa? – senti uns tapinhas no meu rosto, – Brisa, você está viva!
— Estou, mas tira esse flash do meu rosto, ou vou ficar cega – senti o gosto ferrugíneo de sangue na boca – Você está de cabeça pra baixo.
— É você quem está! Eu vou te soltar do cinto. Se segura.
Adriano me soltou e eu cai feito uma pedra.
— Eu falei pra você segurar!
— Isso é hora de gritar comigo? Me tira logo daqui!
Adriano saiu e me puxou para fora. A luz da lua iluminou seu rosto preocupado. Tentei ficar em pé mas o esforço foi em vão. Eu estava muito tonta para conseguir me equilibrar sobre o dois pés.
Adriano estava com o celular na mão. Começou a andar de um lado para o outro e gritar “sem sinal!”.
— Adriano, você está me deixando tonta.
— Não consigo ligar para uma ambulância.
— Calma, eu tô bem – Além da tontura, eu não sentia nada. Talvez a descarga de adrenalina percorrendo minhas veias estivesse me impedindo de sentir as dores que eu deveria.
— É tudo culpa minha – ele começou a bater o celular contra a própria cabeça.
— Não é culpa sua, Adriano! Aquele carro nos acertou!
— É minha culpa, é minha culpa – repetia baixinho.
— Faz o seguinte, vai até o outro carro ver se alguém precisa de ajuda – ele me lançou um olhar inseguro. – Vai logo! Eu vou ficar bem aqui, deitada. Não vou a lugar nenhum, mesmo se eu quisesse.
Ele foi a contragosto. Enquanto eu fiquei praticamente envolta na escuridão. Com filetes de luar banhando o matagal.
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“Não temas, porque eu sou contigo; não te assombres, porque eu sou o teu Deus; eu te fortaleço, e te ajudo, e te sustento com a minha destra fiel.” (Isaías 41.10)
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Eu tinha estado em um acidente antes.
Na noite em que as luzes vermelhas queimavam meus olhos e eu era uma matilha em busca de diversão.
Eu era Tempestade. Não. Eu era o Furacão. Eu, que deixava um rastro de destruição por onde passava.
Pisquei e vi os estilhaços sobre o asfalto. Pisquei e vi as rodas do carro viradas para cima. As duas realidade se misturavam. Ora eu era a menina drogada e sem rumo, ora eu era a garota acidentada e desorientada.
“Brisa”, era a voz da minha mãe. “Onde você está?”
Eu nem me dei ao trabalho de respondê-la. Eu só queria magoá-la. E saber que eu nunca consegui pedir perdão me machuca até hoje.
Os abutres pousam por cima do carro. Eu só posso estar delirando.
Tento levantar, e novamente a gravidade me atinge. Fico mais perto do chão e observo um padrão. A grama se curva em um círculo ao meu redor. O carro está fora desse círculo. Os destroços estão do lado de fora. Só eu permaneço aqui dentro. E nenhum mal me alcança. E os abutres não ultrapassam os limites. Porque por mais que as ondas batam contra a areia, elas não invadem a terra por completo. Por mais que o mar arremete contra o casco, o barco não afunda.
A Tempestade obedece. A bonança vem.
Me dou conta de que há limites pré estabelecidos desde a eternidade. E que, a não ser que Deus permita, nada pode me tocar. Nenhum fio de cabelo cai sem sua permissão. Nenhum mal prevalecerá contra mim.
Me ponho de pé e vou atrás de Adriano.
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“Porventura não me temereis a mim? diz o Senhor; não temereis diante de mim, que pus a areia por limite ao mar, por ordenança eterna, que ele não traspassará? Ainda que se levantem as suas ondas, não prevalecerão; ainda que bramem, não a traspassarão.” (Jeremias 5:22)
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Encontrei Adriano transtornado. Indo de um lado para o outro como um louco.
— O que foi que aconteceu? Alguém morreu?
— A culpa é minha. A culpa é toda minha. – ele repetia para ele mesmo.
O outro carro estava em melhores condições do que a pobre Berenice. O para Brisa estava inteiro e, a não ser alguns amassados no capô poderia considerá-lo intacto. O farol aceso projetava a sombra de Adriano que não parava quieto.
— Para um pouco – disse, segurando seu braço. Ele não conseguia nem fixar seus olhos nos meus – Você encontrou alguém?
Ele fez que não com a cabeça. Nunca tinha visto o garoto naquela situação. Ele parecia fora de si. Eu conseguia sentir a sua pele gelada por baixo da camisa de mangas.
— Você olhou ao redor? Eles podem ter voado pelo vidro.
— O vidro não rachou – ele respondeu no automático, olhando para o nada e com uma voz metálica – As portas estão trancadas. Não tem ninguém. Não tem ninguém ao redor. Eu olhei. Eu procurei. Não tem. – olhei para trás e constatei a verdade. O vidro intacto. As portas fechadas. – Não faz sentido. Não. Não. Não. Não tinha nenhum cruzamento. Por que o carro bateu de lado? Por que não tem ninguém no volante?
Meu corpo todo se eletrificou. Senti o gelo que começava na ponta dos pés subir e subir. O que tá acontecendo?
— Isso é impossível – um arrepio apoderou-se do meu corpo. Adriano deixou os braços inertes caírem ao lado do corpo. – Adriano, me explique o que está acontecendo. Como esse carro atingiu a gente se não tem ninguém dentro dele?
Com o olhar perdido ele se sentou no chão de terra, a cabeça entre as mãos.
— Adriano! Porque essas coisas estão acontecendo com a gente, Adriano?! Você precisa me explicar! – olhei para o céu e as estrelas se fundiam como um caleidoscópio.
Eu ouvia a respiração acelerada dele. Ele repetia baixinho “É tudo minha culpa”. Sentei-me bem de frente a ele.
— Adriano, você precisa me contar a verdade, e agora. – Segurei seu rosto em minhas mãos. Seus olhos transbordavam. – Eu não me importo com o que você fez. Eu só quero que você me conte, pra que a gente possa resolver isso juntos. Confie em mim, Adriano! Eu não vou te deixar. Mas eu preciso saber o que você fez.
Ele tentou controlar os soluços. Olhou em meus olhos e eu senti que aquilo estava exigindo tudo dele, porque seus olhos pareciam opacos e sem esperança. Ele puxou o punho de sua camisa até o cotovelo e colocou minha mão sobre uma cicatriz grossa no seu antebraço.
— Pacto de sangue – a voz dele era fria como gelo – Eu fiz um pacto de sangue.
Senti como se eu marreta tivesse sido afundada na minha cabeça. Eu esperava que ele tivesse assassinado uma pessoa, assaltado um banco ou ser associado ao nazismo. Mas aquilo não. Em apenas um segundo tudo fez sentido. As criaturas, as roupas sempre de mangas compridas, a resistência em ir a Igreja, todo o mistério que envolvia seu passado.
— É tudo minha culpa – ele sussurrou. – Eu não queria que você se machucasse. Não queria que você se envolvesse nisso.
Eu estava atônita.
— Eu não sabia o que estava fazendo, eu só queria fazer sucesso, e não havia uma maneira mais rápida de chegar ao topo. Quando percebi já estava envolvido demais e decidi sair, mas ele não deixa, Brisa. Eu fui perseguido durante muito tempo, e quando conheci você, eu encontrei paz. Porque as sombras se afastavam de mim quando eu estava com você. – ele limpou o nariz que escorria com a manga da camisa. – Eu fui egoísta. Eu queria me livrar delas mas pra isso coloquei você em perigo, eu não deveria. Me perdoa, Brisa. É tudo culpa minha.
Levantei e senti o mundo girar. Como eu nunca tinha percebido? Como eu convivi com ele por meses, dentro da minha casa, todos os dias na escola e eu nunca desconfiei? Como eu nunca desconfiei que seria algo espiritual?
— Eu mereço ir pro inferno por fazer isso com você.
Girei e fui até ele. Estendi minha mão para que ele pudesse levantar.
— Adriano, me escuta bem. Você pode até merecer o inferno, mas você não vai pra lá. Porque Jesus é maior do que o seu pecado, é maior do que sua culpa. — eu sentia suas mãos tremerem e ele balançava a cabeça. – Me ouve! Não existe pecado grande demais que não possa ser perdoado. E Jesus já pagou por todos eles na cruz. Ser livre é uma decisão, Adriano. Você só precisa aceitar a liberdade.
— Brisa, você não entende. – O rosto dele molhado. O semblante destruído.
— Quem tem que entender é você. Eu não me importo do quão sujo você esteve. Jesus também não se importa. Você só tem que se entregar a ele.
Eu chorava também. Jesus morreu pra isso. Pra que nós não fôssemos condenados. Rejeitar o sacrifício é cuspir na cruz e menosprezar a fonte de todo amor. Ele não podia fazer isso.
— Você precisa se afastar de mim, ou vai se machucar mais. Eu quero que você desista de mim, de me ajudar, de tentar me salvar. Já chega! Eu desisto.
— Mas eu não, Adriano! – mesmo entre as lágrimas, gritei com ele. – Eu suportei muito pra desistir agora! E mesmo que eu desistisse, Deus não desiste de você. Nunca. Agora, cala essa sua boca. Você não vai fugir agora. Não depois de tudo pelo que passamos. Não depois de Jesus te dar uma alternativa. Escolha, Adriano.
— Você não sabe o que elas me dizem... Eu não mereço ser perdoado. Você tem que se afastar de mim, ou vai se machucar ainda mais.
— Elas estão mentindo – eu sentia todas as minhas energias sendo gastas naquilo. Eu suava frio e pedia a Deus que vencesse aquela batalha – Eu não posso ser machucada, porque meu Pai luta por mim. E você também pode ser chamado de filho. Você só precisa…
Meu braço foi puxado para trás de repente e pendeu solto do lado do meu corpo. Adriano arregalou os olhos com profundo terror. E em apenas um abrir e fechar de pálpebras, eu estava sendo sugada por uma força invisível para dentro do matagal em uma velocidade impressionante. Levantei a mão para segurar na dele, que se ergueu para me puxar, mas Adriano sumiu em milésimos de segundos. E eu só tive tempo de fechar os olhos e fazer uma última prece.
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“Mas livrai-nos do mal, amém.” (Mateus 6.13b)
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