Beyond
48 Adriano
Notas iniciais
Um grito ficou preso na minha garganta quando vi Brisa ser arrastada pelo matagal. Mas logo ele saiu quando as árvores e a noite a esconderam. Ele saiu e ecoou com um rasgo pela pista escura e deserta, mais parecido com um uivo de um animal do que com qualquer som inteligível proferido por um ser humano.
Era um grito de puro desespero, sem qualquer razão.
Minha mente ainda era um branco, mas meu corpo pulou para a ação. Pela primeira vez na vida me vi correndo atrás das sombras, ao invés de fugir delas.
Mas tudo o que eu pensava era em Brisa, arrastada para onde quer que fosse.
Nunca as tinha visto assim antes, agindo de forma tão ousada ao ponto de causar dano físico. Mas elas sempre conseguiam o que queriam de mim, de um jeito ou de outro.
E eu sabia o que elas queriam.
Matar, roubar, destruir...
Eu corri sem direção e sem pensar, os galhos me cortavam nas mãos, nos braços, no rosto. Eu me batia contra pedras e raízes soltas, difíceis de ver no escuro. Eu caia e me levantava, sem me importar se sequer estava sangrando. Eu não me importava comigo, só com a única coisa de bom que se acontecera na minha vida, e que agora estava sofrendo por minha causa. De novo.
Devia orar? Agora? Cantar ‘O Sangue de Jesus Tem Poder’ ajuda nessas coisas? Devo repreender? Tenho essa autoridade? Tenho esse direito?
— Você não direito a nada!
Quem disse isso? Olhei para um lado, para o outro, para o nada, para o vazio dentro de mim. Quem disse isso? Eu disse. Eu apenas repeti o que elas vinham me dizendo há muito tempo.
Que não há esperança.
Não para alguém como eu.
Não para quem já foi marcado por eles.
— Você não tem direito a nada! – repeti para mim mesmo mais uma vez, batendo a palma da mão com força na testa, tentando abrir meus olhos e raciocinar direito, – Você não tem direito a nada, mas Brisa tem.
Brisa tem o direito de continuar vivendo em paz, como teria sido se nunca tivesse encontrado um cara como eu. Ela tem o direito de sair viva desse monte de mato e recomeçar lá fora.
Quanto a mim — esse patético e lamentável eu — aceitaria qualquer pena ou sina que recaísse sobre mim.
Afinal, o que alguém como eu poderia pedir ou contestar.
Eu não tinha direito a nada, mas enquanto não encontrasse Brisa e a tirasse dali, eu continuaria ignorando as vozes na minha cabeça; eu continuaria me debatendo e lutando contra o toque gélido que parecia tentar me impedir de continuar correndo; eu continuaria resistindo ao desespero que ameaçava me afogar.
Eu continuaria caminhando em direção à luz que me trouxera paz, mesmo que breve e passageira.
.
.
.
.
“Afasta-te de mim, para que eu tenha um instante de alegria, antes que eu vá para o lugar do qual não há retorno, para a terra de sombras e densas trevas, para a terra tenebrosa como a noite, terra de trevas e de caos, onde até mesmo a luz é trevas.” (Jó 10.20-22)
.
.
.
.
Eu segui a luz.
Dessa vez não no sentido figurado, mas uma luz literal, que fracamente iluminava um ponto meio distante, perdido no meio do nada.
Eu segui a luz e encontrei um barraco velho e abandonado. Uma lamparina acesa lá dentro, o brilho amarelado da chama o que me atraíra para lá.
Era lá que ela estava. Eu não precisava perguntar, não precisava bater na porta cerrada, não precisava chamar.
As sombras sempre pareciam se afastar, como se a presença de Brisa as machucasse.
Abri a porta com força — ela estava quase que lacrada contra a parede, mesmo que não tivesse fechadura ou ferrolhos — e tossi quando a poeira subiu na pouca luz que havia ali.
Fechei os olhos por um segundo, esperando que minhas pupilas se ajustassem à claridade que, embora pouca, parecia queimar minha retinas, e assim que os abri novamente, eu a vi novamente.
Brisa estava inconsciente, encostada num canto do barraco, sentada com as costas apoiadas na parede. Corri para o seu lado, procurando qualquer marca de violência, mas ela parecia estar intocada. Se eu não a tivesse visto sendo sugada para dentro do mato, pensaria que ela estava dormindo.
Ela estava lá, e estava bem como pude constatar depois de uma breve examinação dos seus sinais vitais.
Brisa estava bem, e confirmar esse fato me encheu de alívio. Pude respirar normalmente, inalando bem fundo antes de exalar pela boca.
O alívio durou um segundo, enquanto eu puxava o fôlego.
E então a cacofonia de vozes voltou mais uma vez.
.
.
.
.
“Por que se dá luz aos infelizes, e vida aos de alma amargurada?” (Jó 10.20)
.
.
.
.
Minha cabeça doía. Meus ouvidos doíam. Meu corpo, meus músculos, meus órgãos doíam. Meus ossos doíam.
Meu ser doía.
Não havia nada no mundo além da dor e das vozes.
As sombras. A escuridão.
O vazio, as trevas, a falta de som, a falta de luz, a falta de todos os meus sentidos. Abri a boca e gritei, mas não ouvi minha voz. Abri os olhos, mas não vi as sombras — não vi nada. Cravei as unhas na minha carne, mas não pude sentir meu sangue verter e cair ao chão.
As vozes eram uma multidão — eram uma só.
Era a minha.
Eu queimava. Meu corpo inteiro queimava numa chama que eu sabia que não era real, mas que ardia mais que qualquer outra coisa que eu já sentira. Minha alma estava envolta em línguas de fogo que jamais se extinguiriam.
Roubar sua paz...
Matar seus sonhos...
Destruir sua esperança…
Arrastá-lo para esse poço de vazio e morte, onde a dor não acaba.
Onde a luz não te alcança.
É assim que é o inferno?
Não foram as sombras que me perseguiam que me levaram para lá, mas eu mesmo que me arrastei até ali. Quando cortei minha pele para marcar um contrato. Não, foi antes disso. Foi quando ri, me joguei no chão e acendi um cigarro. Também não. Foi antes, muito antes. “Ninguém acorda refém. Toda grande queda vem depois de uma centena de escolhas ruins.”¹ E agora eu precisava arcar com as consequências dela.
Um lugar onde a luz não te alcança. Um lugar onde a esperança não te encontra.
‘É assim que acaba?’
Eu queria morrer. Eu implorei para morrer. Eu sabia que elas ainda estavam me observando, mesmo que não conseguisse ouvi-las por cima da minha dor, da minha agonia, do meu desespero.
O que mais eu poderia esperar?
Elas não iam fazer nada por um tempo além de assistir o espetáculo horroroso e patético de um ser humano reduzido a nada. Quando ficassem entediadas, elas iam acabar com o jogo e procurar outro brinquedinho.
Meu corpo ficaria abandonado ali, e eu definharia até virar pó. Aguardando a chegada do Juíz para então ir com elas até as profundezas.
— Mas e Brisa?
Arquejei como se tivesse passado uma eternidade debaixo d’água e respirasse pela primeira vez. Algo semelhante a um choque elétrico desceu pela minha espinha e voltei ao controle de minhas faculdades.
Eu estava encharcado de suor, caído no chão poeirento. Brisa continuava onde estava antes de eu entrar em colapso. Mas eu precisava tirar ela de lá. Agora.
— Você pode não ter direito a nada, mas Brisa tem. – Repeti mais uma vez, tentando ganhar forças para arrastá-la dali.
As sombras não iriam machucá-la. Disso eu sabia. Mas não queria que a primeira coisa que ela visse ao abrir os olhos fosse meu cadáver. Não queria magoá-la mais uma vez, com algo que estava fora do alcance dela.
Mas eu não tinha o direito de querer nada.
Eu não tinha força alguma, nem para me arrastar de volta para o mato.
Ela ia se magoar de novo, e a culpa era toda minha.
— Eu realmente mereço ir pro inferno por causa disso. – murmurei para o nada, murmurei para o ninguém.
Murmurei para ela, mas Brisa não ia me ouvir.
Brisa nunca mais ia me ouvir.
Aquele seria meu último instante de lucidez. Logo eu perderia o controle novamente, e elas iriam me afogar na loucura até que minha vida acabasse — e então, elas me atormentariam pela eternidade.
“Você pode até merecer o inferno, mas você não vai para lá.”
A voz de Brisa pareceu ressoar dentro da casa, mas eu sabia que era só na minha cabeça. Que era só meu lado egoísta e covarde que não queria que aquele fosse o fim.
Eu podia não saber muita coisa, mas eu sabia que o que eu tinha feito era sério demais, pesado demais. Que, pelos meus pecados, eu só poderia merecer a morte e a eternidade no vazio.
“Jesus já pagou por todos eles na cruz.” A voz de Brisa que não era de Brisa se recusou a calar a boca, se recusou a me deixar em paz mesmo nos meus últimos instantes. Sempre me dando bronca, mesmo que fosse parte da minha imaginação revivendo lembranças, “Você precisa aceitar a liberdade.”
— Liberdade? Para mim? – Perguntei em voz alta, mas Brisa — tão perto e tão distante — não respondeu.
Liberdade? Para um cadáver? As coisas à minha volta riram sardonicamente, e então eu vi novamente o quão louca aquela ideia era, Você já teve sua chance, e a perdeu. Agora não há mais esperança. Não há salvação. Não há mais nada.
— Não há nada. – Concordei. Não havia como fugir. Isso era verdade, pois eu já sentia a escuridão que eu viera carregando dentro de mim ganhar vida e congelar e matar tudo o que havia de bom em mim.
Não havia salvação para o garoto amaldiçoado, e elas tinham razão.
“Elas estão mentindo!”
O berro de Brisa me fez abrir os olhos de supetão, e de repente uma lucidez diferente tomou conta do meu corpo. Mentindo? Elas? Sobre o quê? Então esse não é o fim?
A lembrança de Brisa me respondeu, sua voz desesperada, um apelo de urgência, “Você também pode ser chamado de filho.”
Eu? Filho? Depois de cuspir na cara dEle? Depois de tudo isso? Como eu poderia? Com que direito?
“Você só precisa…”
Ela nunca acabara de me dizer o que eu precisava fazer. As sombras a arrastaram para longe antes que ela terminasse de falar.
Elas não queriam que eu ouvisse.
Elas não queriam que eu entendesse.
Mas mesmo que eu sempre tivesse me esquivado desse processo no passado — eu era muito culpado, muito sujo; muito orgulhoso para aceitar esse perdão do qual ela sempre me falava — eu já tinha visto ela ajudar muita gente no passado.
Eu sabia o que as sombras tinham impedido Brisa de me contar.
Eu sabia o que eu precisava fazer.
Reuni forças o bastante para me rolar no chão, mas acabei deitado de costas, encarando o teto esburacado.
Encarando o vazio.
Encarando o céu, que me parecia tão longe — que me parecia impossível de alcançar — e comecei a orar.
— Deus? Você tá aí? Eu não sei… Eu não sei quase nada sobre Você. Acho que nunca me dei ao trabalho de entender direito… Mas se não for tarde demais pra um lixo como eu... Se Você realmente tá me ouvindo agora… Se realmente houver esperança… Se esse não for o fim, eu preciso que você me diga. Por favor, apareça aqui e me diga. Me diga se eu posso ser perdoado por tudo o que eu fiz. Dessa vez eu não vou desviar o olhar.²
As vozes foram silenciando, uma a uma. Algumas gritaram, outras simplesmente se dissiparam. Seguiu-se o silêncio. Um silêncio ensurdecedor. A cabana foi se tornando mais clara até eu não conseguir manter os olhos abertos. Fui preenchido por um profundo temor. Mas não era medo. Era respeito. Era reverência. Era algo que eu nunca tinha sentido. Era amor. Chorei por tanto tempo que nem sei. Então ouvi sua voz, e meu corpo inteiro tremeu.
Sua voz é a coisa mais poderosa que existe. É a coisa mais tremenda e mais bonita. É como um trovão que ressoa infinitamente mais alto e majestoso, é como gotas de diamante caindo sobre um lago estagnado. Não há uma parte sequer em que não haja ondulações.
Sua voz preenche. Vem de dentro. Sua voz ressoa. Sua voz é o universo. É infinitamente o universo. O próprio Deus estava dentro do meu cérebro, falando tão alto que meu corpo todo ouvia, não só meus ouvidos.
Uma nova chama se espalhou por mim, e desse fogo que me aquecia, me iluminava, me purificava, Sua voz chamou meu nome.
“Você quer esperança? Eu sou a esperança. Você quer vida? Eu sou a vida.”
“Eu sou o fogo que nunca se apaga. Eu sou o rio que não se secará.”³
Como tanta gente na Bíblia conseguia falar com Deus? Porquê depois que sua voz ecoou pelo meu ser, eu não tinha mais palavras. Eu só tinha uma bolha de dores e mágoas, misturadas com o temor e a reverência. Eu não tinha nada para falar.
Eu não tinha nada para falar, só.
Meu coração ouvia e tremia, e respondia também. E uma casca cinza, fria e morta foi arrancada. Doeu, mas foi como um espinho sendo arrancado. Uma pedra encravada dentro de mim sendo puxada por inteiro, e depois do choque da dor, veio o alívio.
É esse quem é Deus?
Uma risada veio de uma parte de mim que eu nem sabia que existia. Uma risada que só vem quando se sente uma paz sem fim, uma alegria sem limites. A risada foi subindo para o céu, e nada que eu pudesse falar poderia descrever o que se passava dentro de mim.
É esse quem é Deus?
Como não me entregar? Como não me apaixonar?4
Ele disse “Meu filho”, e só essa frase me quebrou inteiro, “o meu amor te libertou”.
Eu estou livre.
Eu que sempre fui vil. Eu que nunca fui merecedor de nada.
Eu. Estou. Livre.
Fui liberto pelo amor.
Eu fui liberto, e encontrei a verdadeira luz.
Encontrei a salvação.
.
.
.
.
“Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus” (João 1.12)
.
.
.
.
Os raios de sol atravessavam as janelas empoeiradas. Era manhã. A cabeça de Brisa estava no meu colo, e eu acariciava seu cabelo — um pouco sujo por sinal. O rosto dela tinha pequeno cortes e um maior na sua têmpora com o sangue já coagulado. Mas a expressão dela era de paz. Estar com Deus era assim, sempre? Porque se for pra continuar sentindo isso, eu quero ser filho pra sempre.
Filho de Deus.
É maravilhoso demais falar isso — mais maravilhoso ainda ouvir do próprio. O Rei dos Reis, o dono da Eternidade me adotou. Dá pra acreditar? Meu Pai é o dono do mundo. Que louco, mano. Fiquei com um sorriso bobo no rosto. Nossa, eu gosto mais de Deus do que eu gosto da Brisa. Não achei que isso fosse possível, mas é.
Até a poeira da cabana girando pela espiral de luz dava uma sensação de paz. Quem usa drogas não conheceu Jesus. Que bagulho louco. Eu tinha vontade de rir. De gargalhar até ficar sem ar. Meu coração estava completo. Preenchido. Completamente transbordando. Nossa, que sensação maravilhosa. Fechei os olhos e repeti “obrigado” incansavelmente. E mesmo que eu terminasse minha vida repetindo aquela palavra não seria o suficiente para agradecer. O sacrifício valeu a pena. Cada uma das chicotadas valeu a pena. Se ter as mãos e os pés furados era o preço, acho que Jesus faria um milhão de vezes mais. Estar com Deus não tem preço. Não tem comparação. Não tem fim. Obrigado.
Brisa piscou os olhos como se a luz a incomodasse. Seus olhos claros focalizaram meu rosto. Eu ainda acariciava seus cabelos. Ela franziu a sobrancelha. Nossa, eu amo essa garota.
— O que aconteceu? – sua voz guardava uma rouquidão característica do sono.
Eu sorri. Eu estava leve. Eu sentia que era outro. Beijei a testa da garota antes de responder.
— Deus me salvou na noite passada. – o sorriso não abandonava meus lábios. – Está na hora de irmos para casa.
.
.
.
.
“Porém, se vivemos na luz, como Deus está na luz, então estamos unidos uns com os outros, e o sangue de Jesus, o seu Filho, nos limpa de todo pecado. Se dizemos que não temos pecados, estamos nos enganando, e não há verdade em nós. Mas, se confessarmos os nossos pecados a Deus, ele cumprirá a sua promessa e fará o que é correto: ele perdoará os nossos pecados e nos limpará de toda maldade” (I João 1.7-9)
Fale com o autor