Notas iniciais
Oi pessoas. Estamos na reta final. Obrigada a todas que acompanharam. Esse é curtinho, e o próximo vem sem demora, com fé no Pai. Divirtam-se... Ou não. 4...

Uma freada brusca me tirou do topor. O som do pneu rasgando o asfalto me fez perceber a quê motivo eu viera até aquele lugar, pois até o momento, eu estava ocupada em apenas afastar a voz de dentro do meu cérebro. A respiração de Adriano era pesada. Ele ainda segurava o volante com tanta força que os nós de seus dedos tinham perdido a cor.

Deixei o mundo entrar nos eixos e encostei a cabeça no encosto do banco da velha picape. Respira. Inspira. Respira. Inspira.

O menino tomou minha mão na sua. Estava suada e tremia.

— Brisa – continuei com meus olhos fechados, mas sabia que os seus estavam pedindo ajuda. Ele sentia o mesmo perigo que eu. – Não importa o que aconteça, eu quero que você saiba que eu...

— Sem brincadeirinhas agora, Adriano! – eu larguei a sua mão e abri a porta do carro.

Deixei a raiva tomar o lugar do medo por um segundo. Isso antes de ver a casa. Se é que aquilo era uma. Parecia um dia ter sido bonita, mas hoje não passava de um velho casarão caindo aos pedaços. Algumas janelas quebradas, a pintura se desmanchando, a erva-daninha tentando esconder toda a bagunça, todo o problema, o provável caos lá dentro. Olhei para Adriano e ele tinha uma expressão de dor estampada no rosto.

Tinha algo errado. Eu sabia. Eu senti em meus ossos. O meu corpo inteiro me mandava correr. Mas algo me mantinha ali. Algo precisava ser feito. Deus – orei. –, me ajude, pois não sei como continuar. Deixei um suspiro escapar dos lábios e bati na porta de madeira enegrecida. Adriano estava atrás de mim sem ousar nem respirar.

A porta abriu dando passagem a um menino muito mais alto que eu (Como todas as pessoas no mundo são.), ele tinha os olhos avermelhados e parecia não dormir a décadas. Ele segurou a maçaneta da porta e ficou nos encarando com a boca aberta. Fala alguma coisa, Brisa.

— Foi você quem nos ligou...

— Adriano? – O menino alto me interrompeu. A sua expressão era de puro assombro – O que você ta fazendo aqui?

Olhei para trás e Adriano estava com a cabeça baixa. Culpado.

— Oi Lucas – ele disse sem ânimo. – Sentiu minha falta? – a voz sem expressão.

O garoto cruzou os braços sobre o peito e nos encarou. Adriano pôs as mãos nos bolsos e os dois ficaram parados, travando uma batalha eu desconhecia. Uma guerra de olhares que eu não estava a fim de suportar.

— A gente veio aqui pra vocês se encararem? – os dois me olharam. – Não sei de onde vocês se conhecem e nem quero saber. O que eu vim fazer aqui foi ajudar o seu amigo que está a ponto de se matar, estou certa?

Ele lançou um último olhar azedo e fez um gesto nos convidando a entrar. Adriano foi na frente. Pus o pé na soleira da porta e senti uma barreira invisível. Algo me impedia. Pesava. Empurrava para fora. Algo não me queria ali. Era óbvio que eu tinha que correr. Mas uma pessoa precisava ser salva. E eu conhecia o Salvador necessário para aquilo.

Enterrei o medo e todos os meus instintos de fuga para um lugar bem fundo dentro e mim e entrei na casa. A gravidade foi alterada, o ar pesou sobre mim me deixando tonta. Me sustentei no batente da porta. A casa não era só preenchida pelo cheiro das drogas e da poeira. Havia uma escuridão em cada canto. A inquietação manchava as paredes.

O medo e o desespero me levaram para algum lugar. Senti o chão de madeira debaixo de mim se abrir sob os meus pés. A casa toda desmoronando sobre mim. Me soterrando, me esmagando, tornando tudo escuro e vazio. Silêncio. Meus ouvidos só captavam um som. Inspira. Expira. Inspira. Expira.

“Em ti, Senhor, confio; nunca me deixes confundido. Livra-me pela tua justiça. Inclina para mim os teus ouvidos, livra-me depressa; sê a minha firme rocha, uma casa fortíssima que me salve.”

Salmos 31:1,2.

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Respirei fundo. Abri os olhos e estava novamente na sala. Era preciso continuar.

Segui os meninos por um corredor. Apesar do sol forte do lado de fora, o interior estava na penumbra. As portas se espalhavam pelas paredes. Adriano ficou de frente para uma e manteve a mão sobre a maçaneta. Ele me olhou nos olhos antes de girá-la. Segui-o quarto adentro. O cheiro foi o que me pegou primeiro. Parecia que algo estava morto ali há semanas. Meias, camisas e cuecas sujas, pizzas e hambúrgueres em decomposição, mofo, fumaça e outras coisas que não pude identificar formavam o odor mais repulsivo que eu sentira até agora.

Adriano estacou no meio do quarto, em frente à pilha de lençóis, jogados de forma a parecer uma espécie de cama improvisada. Deviam ter sido brancos algum dia, mas estavam amarelados sujos de algo que eu não queria saber o que era. Pela fraca luz que atravessava as fendas das telhas era possível ter um relance de uma figura jogada sobre os panos amarrotados.

A princípio pensei que fosse um gato morto, devido ao mau cheiro, mas vi que aquilo se mexia, e era grande demais para ser algum animal. Ah não, pensei, era um garoto.

Adriano abaixou levemente a cabeça e então falou em um tom um pouco mais brando.

— Ei cara, sai dessa.

Captei um movimento no monte de panos. Uma voz grave e levemente rouca como se estivesse doente resmungou baixinho, como se pedisse por mais cinco minutos de sono. Então ele virou o rosto na direção da voz e percebeu quem estava falando.

— Adriano... – a voz tinha um tom sarcástico. — O que foi? Veio ver se terminou de me desgraçar?

— Para com isso Matheus – o menino reclamou com a voz mais firme. – Você sabe muito bem que eu não quero nada de mal para você.

Uma gargalhada estourou do seu peito, fazendo o corpo todo tremer.

— Você sempre foi um bom piadista, Adriano. Bom saber que você não perdeu o dom da comédia – ele se sentou sobre o monte de panos. As costelas desenhavam seu tórax magro em contraste com a pele branca. – Ainda toca, menino prodígio?

— Eu vim te ajudar, Matheus. Você não precisa viver assim.

— Me ajudar? – ele delineou um sorriso de escárnio nos lábios. – Me perdoe, minha memória não está muito boa depois que comecei a usar, você sabe, o que todos usamos para queimar o neurônios e esquecer o mundo lá fora. Mas já que você veio me ajudar, pode me dizer por que eu estou largado aqui nesse monte de lixo como um animal esperando o abate?

— Isso foi escolha sua – a voz de Adriano era rocha pura. Fria e cortante.

— Não. Não foi – Mateus disse acusadoramente – Eu escolhi uma vida de fama para mim! – Ele ficou de joelhos, pronto para se levantar. As pernas tremeram ao sustentar o peso do corpo magro – Planejei toda a minha vida aos doze anos de idade. Minha carreira seria brilhante, eu teria tudo. Estava tudo certo, estava pronto para viver a minha vida. Quase consegui – ele controlou os ânimos e falou mais baixo – Quase. Mas você escolheu por todos nós, não foi mesmo?

— Você não me deu escolha – Adriano estava ficando irritado de novo. – Nenhum de vocês.

— Não se faça de inocente, Adriano. Não tente jogar a culpa de tudo sobre nós. – Mateus falou entredentes. – Você também estava de acordo. Ou o que? Nós corrompemos uma criança inocente?

— Fiz o que era certo – o olhar culpado novamente.

— Acabou com o nosso futuro! Isso é o certo pra você?

Adriano não disse nada, a tensão era visível em seu corpo petrificado. Matheus deu um passo em sua direção e eu recuei instintivamente. O garoto arregalou os olhos ao me ver atrás de Adriano. Ele passou a mão pelos longos cabelos assanhados e deu um meio sorriso.

— Ora, ora, ora... Trouxe a namorada, Adriano?

Minha garganta fechou. Vi as costas do garoto a minha frente se retesarem. A tensão aumentou e decidi interferir. Engoli o bolo formado em minha garganta. Dei um passo à frente.

— Oi Matheus, meu nome é Brisa – ele continuou a me encarar sorrindo. Adriano me olhou espantado por eu ter sido capaz de romper o silêncio – Eu sei que você quer continuar xingando o Adriano pela eternidade, mas eu vim aqui pra te ajudar. O seu amigo nos ligou para pedir que nós ajudássemos você.

— Ah, então foi o covarde do Lucas que chamou vocês? – olhei para trás e o garoto tinha sumido. A porta fechada guardando apenas três dentro do quarto escuro – Belos amigos eu tenho. – ele girou no quarto vazio com os braços abertos e um sorriso nos lábios. – Vê Brisa, como estou cercado de amigos? Todos me abandonaram – ele fuzilou Adriano. – O único amigo que me resta é este.

Ele levantou a mão ossuda com o objeto plástico, a ponta metálica desafiadora. O líquido alaranjado brilhando. Seus olhos vidrados, sem medo de nada. Senti um arrepio.

— Vamos lá, Mateus – Adriano disse, pondo as mãos na frente do corpo na tentativa de acalmá-lo. – Você não precisa fazer isso.

Os olhos de Mateus chisparam.

— Quem é você pra dizer o que eu preciso ou não? — Adriano olhou para trás, não para mim, mas para a porta fechada. — Você é bem pior do que eu! – o garoto continuou gritando. – E se eu quiser enfiar essa maldita agulha na minha veia eu vou fazer isso e não são vocês quem vão me impedir!

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O menino na minha frente empunhava a seringa sobre o braço. Os movimentos em câmera lenta. Eu estava novamente na caixa de vidro, envolta n’água. A realidade fora do meu alcance. Os movimentos arrastados. O medo pulsante em meus ouvidos.

O que fazer? Quando confrontados com o tenebroso invisível? Quando os segredos são profundos e impossíveis de descobrir? Quando as palavras perdem o sentido, perdem o caminho, perdem... Elas não vêm, não rimam, não existem. As palavras me abandonaram, escaparam dos meus lábios deixando um rastro por se apagar. Deixando o frio. O vazio. O silêncio.

Olhei para Adriano ainda em slowmotion.

As palavras me abandonaram.

A Palavra não.

“No começo aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e era Deus. Desde o princípio, a Palavra estava com Deus. Por meio da Palavra, Deus fez todas as coisas, e nada do que existe foi feito sem ela. A Palavra era a fonte da vida, e essa vida trouxe a luz para todas as pessoas. A luz brilha na escuridão, e a escuridão não conseguiu apagá-la.”

João 1:1-5

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— Calma Matheus, ninguém está aqui para te obrigar a nada – de alguma forma eu estava em frente ao garoto, as mãos sobre o seu antebraço.

Ele me lançou um olhar assustado.

— Eu não quero te julgar. Eu não sei pelo que você passou nem o que te levou até aqui, eu só quero que você me escute – tentei prender os seus olhos nos meus. Ele engoliu em seco sustentando o olhar. – Você tem uma vida inteira pela frente. Você pode conquistar os seus sonhos, pode continuar tocando, mas você tem que se dar uma chance de viver.

Ele olhou para baixo.

— Não é assim tão simples, princesinha – ele caçoou. – Não há mais esperança pra mim.

— Há sim, Matheus – ele abaixou a seringa, me fitando com os olhos verde escuros. – Todos nós fizemos coisas erradas, eu já estive no seu lugar, achando que eu não teria uma segunda chance, mas nós temos! Mesmo sem merecer, nós podemos recomeçar.

— Não... – ele choramingou, me dando as costas.

— Você pode melhorar. Por favor, se dê uma chance.

Ele começou a bater com as mãos nos ouvidos. Girando em círculos sobre os lençóis. Dei mais um passo em sua direção.

— Eu vim te ajudar.

— Saia daqui – ele gritou. – Saia daqui com suas mentiras e sua enganação! Eu prefiro morrer a acreditar nisso!

O silêncio seguiu-se com seu olhar suplicante. Seu queixo tremia, enquanto ele balbuciava alguma coisa. A pouca luz que atravessava as cortinas rasgadas revelavam a pele pálida que recobria o corpo deteriorado tremendo. Eu sentia o seu desespero, o meu próprio corpo tremia com o medo, temia que aquela seringa fosse de encontro ao seu braço, acabando com a sua curta e triste vida. Ele sussurrava e batia com as mãos repetidamente dos lados da cabeça.

— Não há esperança – Senti meu coração gelar. A frase viajou pelo quarto escuro. As palavras ditas com sofrimento, de novo e de novo – Não há esperança. – Matheus disse, com olhos lacrimejantes. — Não há esperança.

Ouvi Adriano arquejar atrás de mim, como se tivesse levado um soco no estômago. Girei para encontrá-lo encurvado.

— Você tá bem? – eu perguntei, tocando em seu peitoral. A camisa ensopada de suor. Seus olhos expressavam o puro terror. As lágrimas cobriam seu rosto. Ele segurou minhas mãos.

— Elas... Elas... – ele soluçava sem conseguir falar, e de repente... Silêncio. Os olhos de Adriano cravados nos meus – Elas estão aqui.

Então eu senti. O cheiro forte dentro do quarto. Não era a sujeira. Muito menos a comida estragada, ou os lençóis por lavar. O odor forte e azedo era enxofre.

Adriano me jogou para o lado segundos antes da porta ser arrancada das fechaduras.

— NÃOOOOOO! – um grito desumano arranhou a garganta de Matheus. Que não era mais Matheus. Vi o garoto se contorcer com as mãos sobre o rosto, debatendo-se pelo quarto, e quando deixou as mãos caírem... Seu rosto deformado. O sorriso tenebroso repuxando as bochechas. Os olhos de um líquido e puro tom amarelo. Olhos amarelos. Não era ilusão de óptica.

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Quando o medo é tão grande e escuro que parece esmaecer a mais forte luz. Quando um mar de incertezas se sobrepõe à coragem. Quando não importa para que lado você olhe, aonde a vista alcança, no mais distante horizonte.

Não há ninguém.

Não há sinal de viva alma.

Não há nada.

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Onde está a esperança?

“O Universo todo espera com muita impaciência o momento em que Deus vai revelar o que os seus filhos realmente são. Pois o Universo se tornou inútil, não pela sua própria vontade, mas porque Deus quis que fosse assim. Porém existe esta esperança: Um dia o próprio Universo ficará livre do poder destruidor que o mantém escravo e tomará parte na gloriosa liberdade dos filhos de Deus. Pois sabemos que até agora o Universo todo geme e sofre como uma mulher que está em trabalho de parto. E não somente o Universo, mas nós, que temos o Espírito Santo como o primeiro presente que recebemos de Deus, nós também gememos dentro de nós mesmos enquanto esperamos que Deus faça com que sejamos seus filhos e nos liberte completamente. Pois foi por meio da esperança que fomos salvos. Mas, se já estamos vendo aquilo que esperamos, então isso não é mais uma esperança. Pois quem é que fica esperando por alguma coisa que está vendo?”

Romanos 8:19-24

Notas finais
Mesmo na escura noite, eu correrei pra Ti meu Pai. Tens o que preciso. És quem eu procuro. — Laura Souguelis https://www.youtube.com/watch?v=DsZOMf99URs . Ilana.