Beyond
44 Adriano
Notas iniciais
— Adriano!
— Tá atrasado, cara.
— Seus pais não deixaram você sair mais cedo?
Joguei a mochila no chão, ignorando o súbito bombardeio de perguntas que eles jogaram pra cima de mim, e disfarçando a raiva com meus pais por continuarem a querer controlar minha vida inteira, como se eu fosse o fantoche especial deles.
Ninguém precisava saber que não, eles não tinham me deixado sair mais cedo porque estavam preocupados com o tipo de companhia que eu estava mantendo. Eu deveria sair apenas depois de ter concluído toda e qualquer tarefa escolar, e tinha que dizer exatamente para onde estava saindo, com quem estava saindo e que horas eu iria voltar. Acho que eles só não tinham instalado um radar em mim porque isso violaria os direitos humanos e eles acabariam perdendo a minha guarda, tendo assim que abrir mão do filho perfeito que eles esperavam criar.
Eles fariam um escândalo e provavelmente me expulsariam de casa se soubessem que o garoto exemplar não era nem um pouco como eles descreviam para os amigos; embora eles nunca fossem descobrir que eu era um dos drogados arruaceiros que eles alertavam que eu evitasse.
Resumindo: meu dia não estava sendo legal e eu não tava com cabeça pra brincadeira.
— Viu a mensagem que eu te mandei?– Matheus perguntou então, o cabelo negro caindo nos olhos vermelhos, e eu finalmente me lembrei do motivo de ter ido lá.
— Vi, mas quase apaguei achando que era trote... – peguei o celular no meu bolso, abrindo a última mensagem que ele me mandara naquela tarde e recitei-a em voz alta – Fama e fortuna imediatas. A melhor solução pra banda decolar de vez. Se você colocasse “Envie SIM e ganhe!” eu teria entregado teu número pra polícia.
Joguei o celular na cara dele, errando feio a mira e estilhaçando o aparelho na parede. Sem problemas; minha mãe me comprava outro depois.
— Que palhaçada é essa mesmo?– indaguei confuso, mas a raiva da discussão recente com meu pai ainda estava presente na minha voz, que saiu rouca e irritada.
— É aquilo que eu te expliquei, cara. – ele se adiantou, nem um pouco acuado pelo meu tom, me lembrando da conversa que havíamos tido no dia anterior e da proposta que ele tinha feito. – Já tá tudo certo, só faltava você chegar pra gente decidir tudo junto. Tá aqui um exemplo da capa.
Ele jogou uma folha de papel cartão pra mim, e eu a peguei no ar fumacento, antes que caísse no chão de madeira escura, virando a imagem para mim. A arte conceitual poderia facilmente se passar por uma arte final, a imagem surreal de uma mulher ruiva com olhos amarelos, e uma roupa feita completamente de penas negras, gravando-se permanentemente na minha memória e eu me lembrei do que a gente tinha discutido sobre a capa do primeiro álbum.
Uma imagem bela, mas sinistra, do tipo que ninguém pode apagar da mente depois de vê-la uma primeira vez, e que continua perseguindo quem quer que a tenha visto eternamente, ao ponto de que mesmo o mais desatencioso ou o menor narrador poderiam descrevê-la ao menor dos detalhes depois de um breve e simples olhar.
“Perfeito”, pensei.
— E aí? Achou o quê?
— Exatamente o que eu esperava!
Então eu ri e me joguei no chão pra acender um cigarro.
— Fama e fortuna imediatas, certo?– soprei um anel de fumaça, que se dissolveu junto aos demais na atmosfera do quarto.
Ele riu de volta e tornou a se deitar no chão.
—Imediatas, cara! – ele fez outro anel de fumaça pra se juntar ao meu.
— E dá certo?
— Sucesso garantido. – ele rolou o cigarro nos dedos, erguendo a mão para o alto, como se estivesse fazendo uma referência sutil à clássica cena do Rei Leão – O mínimo de esforço e de tempo, com o dobro do resultado. E então o mundo será nosso.
— E o que a gente faz agora?
— Ah, é uma lista de um monte de coisa pra confirmar o contrato – ele deu de ombros, soltando outra baforada de fumaça, e eu comecei a sentir os efeitos do que quer que estivesse naquele cigarro. – Mas também tem uma lista de um monte de coisa que não podemos fazer. Você sabe como essas coisas funcionam...
— Cara, eu tô dentro com certeza! – ri novamente, deslumbrado com a perspectiva de fama e fortuna imediatas. – Só não me peça pra sacrificar virgens, senão eu caio fora.
— Larga de ser frouxo, essa história de sacrificar virgem é mito. No máximo pede pra sacrificar uma guitarra.
— Não abro mão de nenhuma! – gritei indignado. – Jogue você a sua no fogo!
— Ai, dramático! Tanto faz, eu compro uma e sacrifico, mas isso não vem ao caso agora. – ele se levantou rapidamente. – A gente tem é que fazer logo essa coisa, com todo mundo aqui, senão não dá certo.
— Certo. – sentei também, olhando pros outros largados que estavam rindo que nem lesados. – Lucas e JP já concordaram?
— Só faltava você, cara. – ele se levantou e foi em direção à caixa que estava no meio da sala, chamando a atenção dos outros dois que também se aproximaram. – Mas já sabe, não pode se arrepender porque não tem como sair. – Matheus avisou.
— Tá, tá. – rolei os olhos. Como se eu fosse voltar atrás em fama e fortuna imediatas! – Agora começa logo.
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Não tem como sair.
Porque quando você sai, você morre.
E se não morre, chega perto.
E quem estava morrendo agora era Matheus. Um cadáver putrefando no fundo de um quarto cheio de mofo, uma agulha pronta a dar o golpe final à uma vida agonizante. Um moribundo num lugar que cheirava à morte.
Eu conhecia aquele cheiro muito bem. Ele me acompanhava quando eu me arrastei para uma casa abandonadatara para uma mansão abandonada, debaixo de um chuva torrencial, o corpo tremendo de febre.
Quando olhava para os olhos oscilantes de Matheus e ouvia sua conversa desconexa, uma lembrança me atacou como que um déja vú, e a sensação de ver a mesma cena se desenrolar uma segunda vez me deixou mudo e sem ação.
Eu cheguei perto de morrer uma vez. Me joguei pra dentro de uma espelunca, caindo de dor e certo de que já ia partir dessa — embora não para uma melhor — e que iam achar meu corpo sem vida depois de dias. Me encostei numa parede gélida, as roupas encharcadas me impedindo de me aquecer, e pensei estar delirando.
Pensei que as sombras que dançavam em frente aos meus olhos naquele dia fossem uma ilusão.
Pensei que os sons que ecoavam nos meus tímpanos fossem um devaneio causado pela febre.
Mas depois que a chuva parara, o sol nascera e minhas roupas se secaram, eu vi que não tinha morrido. A febre deixara meu corpo, e eu estava são.
Eu não tinha morrido, mas chegara perto. Eu estava vivo, e as sombras continuavam lá.
As sombras ficariam lá para sempre.
Eu quase morri naquele dia. Que nem Matheus estava morrendo agora. Naquele dia elas me seguiram de perto, e agora não queriam mais parar. Talvez ele as visse também. Talvez fosse isso que seus olhos procuravam como loucos, em cada canto do quarto. Talvez ele achasse que estava louco, talvez ele achasse que fosse alucinações por causa da droga.
Talvez elas fossem mesmo ilusão, e eu estivesse louco.
E a súbita mudança no ar do quarto fosse apenas coisa da minha cabeça.
Minha mente saiu do estupor causado pelos flashbacks, e meus olhos se abriram para a realidade.
Para o cheiro estranho que eu sentia.
Para os arrepios que levantavam meus pêlos.
Para o sibilar de algo atrás da porta.
Para as garras que arranhavam a madeira.
— Não há esperança… – ouvi Matheus sussurrar.
Meus pulmões inflaram subitamente, como se eu tivesse ficado muito tempo debaixo d’água e finalmente conseguira respirar. Eu ofegava esbaforido, como se tivesse acabado de correr uma maratona. Minha testa suava frio, e eu sentia milhões de olhos fitos em mim.
Brisa se virou, assustada com meu movimento súbito. Uma pergunta pronta em seus lábios, mas que virou outra completamente diferente quando ela notou as lágrimas descendo descontroladas no meu rosto.
— Você tá bem? – ela parecia preocupada ao tocar meu coração, tentando me acalmar, mas ela não tinha ideia nenhuma do que estava acontecendo agora. Se tivesse, ela já teria fugido há tempos.
Segurei as mãos delas, quentes contra as minhas gélidas, tentando encontrar força para não desmaiar ali mesmo.
— Elas… Elas… — Eu não sabia como falar. Eu não sabia o que falar. Não tinha possibilidade nenhuma, nem forças, de explicar o que estava acontecendo nos arredores do casebre. Então fitei-a diretamente nos olhos, implorando que ela entendesse o que eu queria dizer. — Elas estão aqui.
Vi o raciocínio de Brisa na sua expressão. A confusão inicial com minha fala sem sentido, depois seu cenho franzido enquanto ela ligava os pontos, e por fim, seus olhos arregalados, boquiaberta, quando ela compreendeu.
Uma risada sibilou baixa atrás de mim, e só tive tempo de puxar Brisa comigo para perto da parede antes que a porta fosse arremessada para o lado oposto do cômodo.
“Você apenas mudou de nível.” Elas me disseram.
E agora as cortinas se abriram para a entrada do chefão.
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Tudo era uma brincadeira para elas. Um jogo de estratégias. Era simples manipular os sentimentos. Era ainda mais fácil me fazer de peão. Me mover de casa em casa e finalmente me dar o xeque-mate. Envolver Brisa naquilo era o pior, o meu ponto fraco. Elas eram sujas o suficiente para irem tão longe.
Mas o jogo precisa continuar.
Pegue o tabuleiro.
Gire de cabeça para baixo.
Deixe as peças se espalharem pela mesa.
Cuidadosamente ponha-as no lugar, em outra perspectiva. A cópia escura do antigo mundo. Uma dimensão sombria.
As peças acompanhadas de algo que olhos humanos não podem ver.
Os medos se desgarram das sombras e se tornam reais.
Agora sim.
Pode continuar o jogo.
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O tempo era fluido. Eu sabia que o que para mim pareciam horas eram segundos na verdade. Eu sabia que Brisa não ouvia o que eu escutava, e que definitivamente ela não estava segura ali. Por isso eu a joguei para longe. Porque eu sabia o que aconteceria a seguir. Sabia que a multidão de vozes pertencentes a todas as sombras entrariam no quarto.
Elas prosseguiriam seu show.
Elas me fariam pagar pelo que fiz.
Mas eu esconderia Brisa, eu a livraria do que eu estava por passar. Pois ela não merecia aquilo. Não merecia que eu tivesse omitido as partes mais escuras do meu passado. Não precisava pagar pelos meus pecados.
Observei a porta ser arrancada violentamente das fechaduras espatifando-se na parede oposta. Elas só queriam uma entrada triunfal. Elas queriam aparecer.
Vieram sibilando, se arrastando para dentro do quarto. Uma hora pareciam humanos, outra hora pareciam animais. Uma hora pareciam ser imensas, outra pareciam ser minúsculas. Eu sabia que elas podiam assumir uma forma bela se quisessem, mas naquele momento elas não se preocupavam com isso. Elas não estavam ali para seduzir ou enganar ninguém. Elas estavam ali para acabar o trabalho. Para matar, roubar e destruir. Aquela forma horrenda que a legião assumira bastaria para isso.
Elas prosseguiram o seu percurso, irradiando sua aura de horror. Enroscaram-se pelas paredes, pelo chão e pelo teto. Eu podia ouvi-las falando, sibilando e gritando, sussurrando e berrando dentro da minha cabeça. Algumas delas sabiam meu nome. Outras repetiam a cantiga “Não há esperança”. Mas todas riam e zombavam ao me ver ali, subindo umas sobre as outras; disformes como fumaça sendo movida pelo vento, rápidas e bruscas como serpentes e predadores. Eu sabia o que queriam, até porque suas vozes estavam na minha cabeça. Seu único propósito, a razão para aquelas criaturas existirem era destruir. Acabar com a esperança. Dizimar a paz.
Busquei Brisa com o olhar, ela estava caindo em câmera lenta, perto da parede. Seus olhos fechados, e eu preferia que ficassem assim para poupá-la de ver o que eu estava vendo. Direcionei a cabeça para frente. Matheus em pé sobre os lençóis. As mãos cobrindo os ouvidos. Então eu senti a presença do terror. A maior delas se aproximava. Todas as outras fizeram um movimento como se prostrando.
Uma sombra maior atravessou o portal. Era vazia e disforme, como uma brecha aberta no espaço, um buraco absorvendo a energia de todas outras. Ela não parecia andar quando chegava mais perto do menino que se contorcia e debatia, os olhos revirados, numa convulsão. Ela... Aquilo subiu pelo teto abrindo caminho entre as coisas em volta. Fez um movimento estranho, semelhante a um mergulho e pareceu se dissolver ao entrar no corpo de Matheus.
Então eu passei a enxergar dos dois lados. Eu via o garoto que foi antes meu amigo, e ao piscar via a criatura das trevas que tinha possuído seu corpo.
O tempo parecia ter congelado. Pareciam ter sido apenas segundos, mas eu estava certo de que aquilo durou mais tempo. Porque, após o grito que mexeu com cada nervo do meu sistema, dava para ver que o quarto havia ficado mais escuro. Olhei para Brisa aterrorizada no canto, os olhos vidrados em Matheus.
— Brisa... – minha voz não passava de um murmúrio. Eu queria me desculpar, queria confessar que parte de tudo aquilo era culpa minha, e quando tudo isso passou em minha mente, eu percebi algo fora de comum. Brisa brilhava, ela estava envolta em luz. Reparei que as sombras se afastavam delas como se o toque da luz as queimasse. A menina era protegida. Ela podia fazer o pesadelo acabar – Comece a orar! – eu gritei para ela, que pareceu não me escutar, com os olhos atemorizados postos no rosto de Matheus que gritava e fugia do invisível.
Olhei para as coisas que nos rodeavam. Elas ficavam em volta, misturando-se umas das outras, amontoando-se a nossa volta como se hesitando em seguir em frente. Era Brisa. Elas temiam Quem habitava dentro de Brisa.
— Brisa! – Me aproximei dela, segurando seu braço com força. – Você precisa começar a orar agora!
Ela ainda estava atordoada, ajudei-a a se levantar. As sombras gritaram comigo em resposta.
— Adriano, eu... Eu não sei como fazer isso. – ela segurava meu braço com tanta força que eu sabia que as marcas de suas unhas ficariam cravadas nele.
— Então peça a Deus pra fazer um download urgente aí na sua cabeça. Se não fizermos nada, ele vai morrer.
Ela arregalou os olhos em compreensão e fechou-os em seguida. Sacudi seu braço com força.
— De olhos abertos! – falei olhando para as paredes. – Elas estão perto demais…
— Você consegue vê-los. – ela deixou a mão cair do meu braço. A boca aberta ao constatar a verdade. – Adriano, você… Como você…
Brisa não pôde formular sua pergunta. E mesmo se tivesse conseguido, eu não teria como responder. Porque naquele momento, a sombra resolveu se manifestar.
Primeiro parecia um choro, um soluço baixo preso dentro do peito dele, sua cabeça caída, o cabelo cobrindo o rosto. O corpo dele tremia, enquanto o som se tornava mais e mais alto, e Brisa e eu pudemos constatar que era uma risada. Ele jogou a cabeça para trás, como um maníaco fora de si, e gargalhou frenético, o som ecoando e preenchendo todo o quarto. Então a risada foi se tornando mais grave e macabra, até que não parecia sequer humana. Era fria, malévola, sombria, e sobrenatural.
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