Beyond
45 Brisa
Notas iniciais
— Ok, pai, mas por que mandar os espíritos para os porcos? E se um deles fosse o Baby?
Primeiramente ele teve uma crise de risos com aquela referência de um filme tão antigo. Depois sentou-se no sofá e deu dois tapinhas do seu lado para que eu pudesse sentar. Eu sei que aquela dúvida minha era um pouco infantil. Mas eu não conseguia entender por que Jesus mandou os demônios para os porquinhos inocentes.
— Filha, você está interpretando de maneira errada – ele sugou o miojo, fazendo aquele barulho que eu odeio. – E não me olhe com essa cara feia — impossível. – Pois bem, se eu e seu precioso Baby estivéssemos prestes a cair de um precipício, e você só tivesse forças para salvar um de nós, quem você salvaria?
— Só quero deixar bem claro que eu não teria forças para puxar nem o porco, mas eu escolheria o senhor. Afinal, o porco não me dá mesada.
— Olha o monstro que eu criei…
Foi a minha vez de cair na gargalhada. Com um humor tão ácido assim a gente derrete até diamante.
— Mas, falando sério, Brisa. Aquelas pessoas não sabiam o valor de uma vida. Aquele pobre homem estava há anos dominado por espíritos imundos, vivendo em um cemitério, ferindo-se diariamente, e quase não sobrara nada para considerá-lo humano. Mas Jesus sabe o verdadeiro valor de cada um de nós, pois foram suas mãos que nos formaram. Porque o seu fôlego de vida é o que nos sustenta. Porque nós somos imagem d’Ele, filha. E sem explicação ou lógica, o próprio Deus morreu em nosso favor. Nós somos importantes para o Criador, por isso ele aceitou o sacrifício.
— Pai, mas Jesus não poderia só mandar os demônios embora, sem ter que condenar os porcos?
— Ó jovem padawan… Você vai precisar aprender muito mais…
Ele buscou a Bíblia que estava na mesinha próxima ao sofá e começou a folhear.
— As escrituras nos revelam que quando um espírito imundo sai do homem, ele procura um lugar para repousar. Não o achando, ele volta para o homem liberto, trazendo mais outros sete demônios para poder habitar ali novamente. Quando Jesus chegou em Gerasa, não precisou dizer nada, porque a autoridade que exalava da sua presença fez com que os próprios demônios pedissem que Ele os deixasse em paz. Eles sabiam que Jesus era o Filho de Deus e que tinha o poder de lançá-los no inferno. Mas não tinha chegado a hora ainda. Jesus veio primeiramente para libertar. E ao permitir que os porcos morressem, saciou a sede de sangue dos demônios e deixou o homem livre. Acaso não somos mais preciosos do que um bando de porcos?
Concordei com a cabeça.
— E você acha que Jesus vale mais do que os porcos? Porque Ele mesmo se atirou do despenhadeiro por nós. Por cada perdido de nós.
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“Visto que foste precioso aos meus olhos, também foste honrado, e eu te amei [...]”
Isaías 43:4
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Cada uma das minhas terminações nervosas estava eletrificada. Minhas pálpebras pesavam. Meu corpo inteiro tremia.
O garoto estava possuído.
Adriano conseguia ver coisas que eu não enxergava.
Eu não sabia o que fazer.
A única passagem sobre expulsão de demônios que vinha à minha mente era o episódio dos porcos. Mas eu não era Jesus. Jesus é Deus, e Ele não precisava dizer nada para que os espíritos imundos batessem em retirada.
Eu repetia a cantiga mil vezes em minha mente, “o sangue de Jesus tem poder”, “o sangue de Jesus tem poder”, repetia mesmo sem precisar o sentido daquela frase. Eu estava em pânico. Me perguntava se eu conseguiria fazer aquilo. Se eu cria o suficiente. Se eu estava em santidade. Porque se eu estivesse me enganando… De nada valeria, todas as palavras seriam em vão.
Eu temia ser drasticamente humilhada pelo inimigo. Eu temia pela vida do menino com a seringa na mão. Eu temia pelas coisas que estavam ao meu redor. As coisas que Adriano via. Cada vez que eu respirava parecia que a atmosfera intoxicava mais os meus pulmões. E eu puxava o ar cada vez mais forte, mas aquilo não oxigenava meu cérebro, não tornava meus pensamentos mais claros.
Estava na caixa de vidro novamente. Submersa. Presa dentro de mim. Observei pelo vidro embaçado. Adriano tremia inteiro e eu percebia a tensão em seus ombros. Ele havia derrubado o colega sobre as cobertas e o segurava pelas costas com uma espécie de chave de braço. O menino se debatia como se estivesse convulsionando. Mas eu sabia que não era ele quem estava controlando o corpo. Era a força maligna que o queria destruir que o sacudia daquele jeito.
Deixei todo o ar ir embora e observei os cacos de vidro caindo ao meu redor, a caixa se desfazendo. Decidi abandonar minhas certezas, meu medo, minha insegurança. Pedi que Ele me guiasse. E foi aí que eu senti.
A paz.
A paz que excede todo o entendimento.
A paz que desafia todas a leis da lógica.
Em um momento de extremo terror e turbulência, fui preenchida pela calmaria. Fui transportada para outro lugar. Para o barco. Uma figura com vestes simples e olhar bondoso estava na proa.
“Você consegue sentir, Brisa?”, Ele perguntou. “Quando você se concentra nas ondas batendo no casco, você não enxerga quem está dentro do barco.” Eu não conseguia ver claramente o seu rosto. Mas a sua presença transbordava confiança e paz. Um vento suave balançou as velas, e Ele me ofereceu sua mão. E me convidou a andar sobre as águas.
Ao sentir o toque de suas mãos calejadas, percebi outra textura sob os meus dedos. Pisquei repetidamente até enxergar os cabelos negros e suados que estavam debaixo da minha mão.
— Como você conseguiu fazer isso? – pisquei os olhos novamente e Adriano estava na minha frente. Com a expressão bastante assustada.
Olhei para baixo, e eu estava de joelhos, segurando a cabeça de Matheus. Ele se sentou sobre os lençóis sujos, me abraçou e começou a chorar. Chorou como uma criança abandonada pela mãe. Por entre os soluços ele repetia “obrigado”.
Deixei os meus braços ao seu redor, sem entender muito bem o que havia acontecido. Mas tendo a certeza de uma coisa: Deus havia me guiado por sobre as águas.
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Então, na sua angústia, gritaram por socorro, e o Senhor Deus os livrou das suas aflições. Ele os tirou da escuridão, das trevas, e quebrou em pedaços as correntes que os prendiam.
Salmo 107: 13,14
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— Você precisa de ajuda?
— Não, não — Adriano respondeu à enfermeira por mim. — Ela está bem. A gente só veio trazer um amigo.
Eu estava encolhida no banco. A cabeça entre os joelhos. Completamente confusa. Eu entendia que de alguma forma maravilhosa Deus tinha me usado para libertar aquele menino. Eu estava feliz e grata por isso.
Obviamente depois que tudo acabou, nós levamos Matheus para o pronto socorro, porque ele precisava de cuidados médicos depois de consumir tantas drogas. Nós contatamos os seus pais, e sua mãe chorou no meu ombro e me abraçou com tanta força que eu acho que fraturei uma costela. Eu perguntei se ele queria aceitar Jesus como salvador e começar uma vida nova ao lado d’Ele, e Matheus decidiu que queria uma segunda chance. Claro que não seria fácil, porque ele também precisaria lutar contra a dependência química, mas certamente ao lado de Cristo, o fardo seria mais leve.
Eu estava exultante por tudo o que acontecera.
Mas aquilo era demais pra mim.
Não me entenda mal. Eu não estava sendo ingrata, porque tudo o que aconteceu era sem dúvidas obra do Espírito Santo. É que eu precisaria processar algumas coisas ainda. É como se uma nova realidade espiritual tivesse se aberto para mim e eu ainda estava tentando captar os detalhes. Ainda estava me acostumando àquela gravidade. Eu me sentia literalmente flutuar. No entanto, havia algo mais me incomodando.
Adriano esfregou minhas costas.
— Tá tudo bem?
Soltei um “uhum” e continuei com a cabeça abaixada.
— Você quer ir embora?
— Quero.
— Então vamos — ele me estendeu a mão. Continuei parada. — O que foi?
Levantei a cabeça e olhei em seus olhos. Deixei ele ver meu rosto completamente molhado. Ele franziu as sobrancelhas e ficou totalmente atordoado.
— Eu não consigo ir com você – senti o gosto de sal na boca. Eu nem conseguia enxergar mais em função da cascata que jorrava dos meus olhos. – Adriano, me desculpa. Mas eu não sei quem você é.
Nesse momento eu comecei a soluçar. Ele se jogou ao meu lado e ficou com aquele olhar perdido no rosto. Eu tenho consciência de que eu estava fazendo drama. Eu sei que aquela cena era ridícula, e que eu tinha acabado de expulsar um demônio de um menino e estava lidando até bem com isso. Só que o que mais me doía. O que apertava meu coração ao ponto de fazer meus olhos transbordarem é que Adriano não confiava em mim ao ponto de esconder quem ele era.
Quando ele me disse o que estava ao meu redor, a ficha caiu para todos os momento sinistros que eu passei ao seu lado. Todas as vezes que ele se comportava de maneira esquisita, ficava olhando para o nada, travava uma batalha interna. Ele as via. Todos os dias ele era atormentado por aquilo, seja lá o que aquilo era. E ele nunca, sequer considerou me contar.
Aquilo me machucava porque, ao não ser digna de saber aquilo, eu havia perdido a confiança nele também. E eu não conseguia nem pensar em tê-lo sentado no meu sofá sem saber o que mais ele escondia. Adriano era o mais próximo de um amigo que eu tinha, e se nem ele confia em mim, quem mais deveria?
Levantei de supetão e quase corri pelo corredor. Eu queria ficar sozinha. Queria organizar minhas ideias. Queria o colo do meu pai. E só ficar lá quietinha, chorando até me desintegrar. Corri até não sentir mais minhas pernas. Até não enxergar mais o caminho. Até que uma mão segurou meu braço e me puxou para si.
Chorei mais. Chorei e esmurrei o seu peito. Tentei me soltar mas seu abraço me apertava mais forte. Chorei até desistir e me deixar no seu abraço, que me encaixava perfeitamente, mas me magoava profundo. A sua voz no meu ouvido me pedia desculpa. Mas lá dentro, eu não conseguia distinguir se era tudo enganação, ou se era real.
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Ele desligou a ignição. A cabeça jogada para trás, encostada do banco. Meus olhos fechados.
— Brisa, desculpa.
— Eu já escutei, Adriano – respondi secamente.
Olhei para fora da janela do carro. O sol descia por entre as casas da minha vizinhança. O céu tinha aquele tom rosa e alaranjado que eu adoro. Mas hoje, parecia mais melancólico do que bonito.
— Brisa, me desculpa mesmo.
— Cala a boca, Adriano – me virei e o encarei. Eu estava sendo grossa, mas eu estava me corroendo internamente, e aquela raiva tinha que sair ou iria me consumir. – Você pode repetir mil vezes, e não vai conseguir anular o que você fez nem o que eu estou sentindo agora.
Agora foi ele que começou a fungar.
— Você tem noção do tanto que eu estou magoada? Você consegue entender que eu te considerava o meu melhor amigo, mas você destruiu tudo o que eu achava que nós éramos?
— Ah, Brisa. – a voz dele era ácida e cheia de ressentimento. – Me conta aí o que nós éramos.
— Eu achava que nós poderíamos confiar um no outro! Eu achava que eu podia contar com você pra tudo! Mas você não pensa a mesma coisa de mim, não é mesmo? Senão você poderia simplesmente me contar o que estava acontecendo com você!
— Simplesmente contar. Ok, então seria tipo: Oi, Brisa. Eu sei que você é toda crente, mas eu vejo sombras por todo lugar que eu ando.
— Sim, você poderia…
— Não é tão simples assim, Brisa! – ele gritou comigo, me interrompendo. Pulei do banco com o susto. Respirei fundo e abri a porta do carro decidida a sair.
— Você não sai daqui até a gente terminar essa conversa — ele passou o braço por cima de mim e puxou a porta de volta.
— Me deixa em paz, Adriano.
— Não até você me escutar – ele pegou na minha mão a contra gosto. – Brisa, eu sei que você é uma menina forte, e já passou por situações que qualquer ser humano surtaria. Mas você não vê o que eu vejo – sua voz perdeu a agressividade de outrora. – Elas são assustadoras, Brisa. Elas fazem cada um dos meus neurônios surtar de terror. Não porque eu tenho medo delas, mas eu tenho medo de por causa delas perder você.
Agora eu tomei um soco no estômago. Adriano largou minha mão e olhou para fora do carro. Ele provavelmente estava chorando e não queria me encarar. Eu ainda estava considerando aquelas palavras. Ele tinha “medo de me perder”. O que isso significava? Ele achava que eu me afastaria dele por causa de algo que eu tento ajudar as pessoas todos os dias? Ele acha que eu teria medo?
— Então você decidiu esconder tudo de mim para preservar a nossa amizade?
Ele soltou um suspiro bem profundo. Limpou os olhos com as costas das mãos e virou para mim.
— Brisa, você me conhece há pouco tempo. E você não conhece nem um terço da minha história. Grande parte porque eu nunca te contei. Porque se você soubesse o que eu sei ao meu respeito, você nunca consideraria ser minha amiga. Você se recusaria até a sentar ao meu lado no banco da escola. Eu sei que eu não presto e pra mim não tem jeito…
— Eu não acredito que estou escutando isso…
— Me escuta, Brisa. Tudo o que eu fiz na minha vida foi errado. Desde as coisas mais simples, tudo o que eu decidia desagradava meus pais, minha família, meus professores. Mas ao escolher andar com você, as coisas mudaram. Minha vida começou a andar bem, porque você viu algo em mim que valia a pena. E foi aí que as sombras apareceram.
Senti uma sensação gelada subir da ponta dos meus pés até a cabeça.
— Logo quando eu estava bem, quando meu pai tinha me aceitado em casa e comecei a me dar bem na escola, quando eu tinha um bom grupo de amigos que me levavam a ajudar as pessoas, elas começaram a me atormentar. No começo eu as via apenas à noite. Durante a madrugada. Mas depois, elas foram perdendo cada vez mais a timidez e apareciam em pleno sol, num beco, num cruzamento, atrás das árvores, em todo lugar. Elas me diziam coisas horríveis. E eu não poderia deixar isso afetar você.
Eu estava totalmente arrepiada. Ele enfrentou tudo aquilo sozinho. Porque não queria que eu me machucasse. Mas eu não estava querendo ser protegida.
— Adriano, eu poderia ter te ajudado. Eu te ajudaria a enfrentar isso e se livrar desse fardo. Nós não temos que carregar nada, foi para a liberdade que Cristo nos libertou.
— Brisa, isso sou eu. Como eu posso ser liberto de mim? Eu não culpo as sombras, eu culpo a mim mesmo. Eu que sou sujo, eu que não mereço.
— Mas é lógico! Ninguém merece. Nunca foi sobre merecimento. Foi sempre sobre graça. Você não tem que merecer, só tem que aceitar!
— Pode ser até para os outros, mas pra mim é diferente. Como você disse, você não me conhece. Eu sou ruim demais!
— Pare de tentar encontrar justificativas, e deixe Deus te salvar! — tentei controlar o tom de voz. — Eu sei que é ilógico, mas é assim. Você não tem que ser digno de nada. Jesus já fez tudo por nós. Já pagou pelo preço dos nossos pecados. A escolha foi d’Ele! A gente só precisa aceitar e viver para honrar essa escolha.
Ele ainda parecia perdido. Segurei em sua mão e isso o deixou um pouco desconcertado.
— Você nunca fez realmente a escolha, hein? – não respondeu. – Você leva Jesus para tantas pessoas e não se deixou ser salvo ainda. Não vou mentir, estou com raiva de você. Primeiro por não ter me contado e segundo por não ter aceitado a sua própria salvação. Mas essa obra só pode ser concretizada pelo Espírito — encostei a cabeça no seu ombro. — Eu nunca me afastaria de você. Você conhece o meu amor e a minha paciência. Eu vou esperar você ser convencido pelo Espírito, e vou ficar extremamente feliz com o que Ele vai fazer na sua vida.
Senti sua tensão se desfazendo, enquanto a noite caía sobre Berenice. Com o polegar ele acariciava minha mão, que ainda estava junto a sua. Ficamos ali durante alguns minutos, esperando que tudo aquilo passasse.
— E que papo é esse sobre eu conhecer o seu amor? – ele perguntou com uma cara debochada.
— Cala a boca, Adriano! — Meti um murro em seu braço. Porque ele mereceu.
— Apesar de tudo, eu sei que você me ama! – ele disse, alisando o braço onde eu tinha acertado.
Bufei e rolei os olhos. Ele não estava tão longe da verdade afinal.
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“Mas você tem seguido os meus ensinamentos, a minha maneira de agir e o propósito que tenho na minha vida. E tem seguido também a minha fé, a minha paciência, o meu amor, a minha perseverança, as minhas perseguições e os meus sofrimentos. Você sabe tudo o que me aconteceu nas cidades de Antioquia, de Icônio e de Listra. Que terríveis perseguições eu sofri! Porém o Senhor me livrou de todas elas. Todos os que querem viver a vida cristã unidos com Cristo Jesus serão perseguidos. Porém as pessoas más e fingidas irão de mal a pior, enganando e sendo enganadas. Quanto a você, continue firme nas verdades que aprendeu e em que creu de todo o coração[...]”
2 Timóteo 3:10-14
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