Beyond
41 Brisa
Notas iniciais

O braço para fora da janela, ondulando o vento com a mão.
As partículas passando por entre os dedos e partindo para algum lugar. Ou lugar nenhum. Mas nunca voltando para sua origem. Passam sem marcar a minha pele, ou deixar lembranças. Apenas indo embora. Sem vestígios ou pegadas. Quase inexistente. Mas pessoas?
Não. Pessoas não são vento. Não conseguem passar por você sem deixar uma marca. Uma cicatriz. Um passado. Mesmo assim vão embora. Partem para algum lugar. Lugar nenhum. E quem fica? Quem fica espera. Que a ferida um dia se feche, ou que ao menos a dor se torne suportável. Nunca se sabe o que a próxima rajada trará. Ou levará. Talvez algumas feridas nunca se fechem. E viver com elas é necessário.
Porque pessoas não são vento.
Mas eu sou Brisa.
Devagar. Repentina. Suave.
E a qualquer momento, posso estar partindo.
Girei a cabeça. Adriano me encarava.
— Olhos na estrada, mocinho.
Ele saiu do transe e segurou o volante com firmeza, respirando fundo.
— Você anda muito calada. Isso me assusta. Não é da sua natureza.
O que é da minha natureza, o que realmente estava na minha cabeça, eis aqui: as pessoas ao meu redor geralmente morrem. Simplesmente desaparecem. Como vento. Como Brisa.
— Tá vendo? – ele arregalou os olhos na minha direção. – Você congela. Fica olhando para o nada. Você nem gritou comigo hoje!
Ele parecia só um pouco histérico.
— Eu tô bem, Adriano.
— E você fica repetindo isso quando sabe que não é verdade.
Fiquei calada.
— Já faz mais de uma semana, eu estou o tempo todo ao seu lado, e você nunca desabafou. Ninguém aguenta por tanto tempo, Brisa!
Mexi nas minhas unhas para focar a atenção em qualquer coisa que não fossem meus pensamentos.
— Você é forte, menina Tempestade. E exatamente por isso não pode se deixar quebrar por dentro.
— Eu sei – admiti. – Quando o momento chegar, vou falar.
— Espero estar lá quando esse dia chegar.
— E porque não estaria? – franzi as sobrancelhas.
Suas costas enrijeceram. Esse garoto não consegue esconder nada mesmo.
— E você? Quando você vai se permitir falar?
Ele me olhou de canto, claramente desconfortável.
— Não há nada pra falar.
— E você está em negação.
— E você não é psicóloga.
— E você vai passar fome hoje.
— Parei – ele fingiu passar um zíper sobre os lábios.
— Sério, Adriano. O que está acontecendo com você? Você está com essas olheiras há semanas, tem pesadelos sempre que cochila no meu sofá e não quer me contar sobre o que são, fica todo assustado a cada esquina que passa, o que está acontecendo?
Ele encarou a pista.
— Eu sou a coisa mais perto de uma amiga que você tem, já passei pelas situações mais esquisitas ao seu lado e mesmo assim você não confia em mim. O que você fez de tão errado que não deixa ninguém se aproximar ou te ajudar? Qual é o seu grande segredo?
Deixei tudo sair em uma enxurrada.
— Eu não posso – falou entre dentes. – Não agora. Eu confio em você, eu só... – engoliu em seco. – Não é a hora certa.
— Eu espero que não seja tarde demais quando você finalmente conseguir contar a verdade.
Desviei o olhar para fora da janela novamente. A velha picape rangeu ao subir a ladeira até a escola. Há algo escuro rondando Adriano. Sei que há. Não importa o que aconteça, eu não vou correr da escuridão.
“Eu, porém, olharei para o Senhor; esperarei no Deus da minha salvação; o meu Deus me ouvirá. Ó inimiga minha, não te alegres a meu respeito; ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei; se morar nas trevas, o Senhor será a minha luz.”
Miquéias 7:7,8
O sinal tocou dando início ao intervalo. Esperei que todos saíssem da sala e me levantei.
— Vai saindo sem mim? – Adriano questionou, me seguindo.
— Como se isso fosse possível.
— Uma palavra e eu vou embora.
— Vai! – enxotei-o com a mão.
— Assim como Pero Vaz de Caminha, num dia de sol quente, às margens do rio Tietê declarou, eu digo agora: Eu fico! A não ser que Deus me incinere com um raio.
Ele fechou os olhos como que esperando pela descarga elétrica.
— Está vendo? – ele fez a cara de sabichão. – Nossa união é plano divino.
— Então Deus pegou muito pesado comigo.
— Você está me chamando de gordo? – pôs a mão na cintura.
— Gordo não – Gigabyte interrompeu. – Eu prefiro que me chamem de fofo, fofuxo ou infladinho. Gordo é muito ofensivo.
— Infladinho? – Fernanda caçoou ao seu lado.
— Pode me chamar de airbag, gata. Em caso de emergência eu salvo tua vida.
Fernanda e eu nos olhamos.
— Argh – fizemos em coro.
— Gordo? – Adriano indignado. – Músculos – ele apontou para o próprio bíceps. – Isso são músculos. Eu mesmo comprei. Quer pegar?
— Dá pra ver. Agora vai pegar o lanche que a fila está indo até Marte.
— Quem é a gorda agora? – ele provocou.
— Eu sei quem não vai comer lasanha hoje...
Ele marchou direto para a aglomeração de famintos.
— Só vou porque minha dieta me manda comer bocado de massa envolta em molho bolonhesa com fatias de derivados do leite com presunto.
— Esse Adriano... – Fernanda disse rindo, sentando na nossa mesa de costume. – Você gosta mesmo dele, não é? Porque ele é louco por você.
— Nós somos só amigos.
— Fala sério, Brisa. Dá pra ver como vocês se olham.
— Quer dizer, o meu olhar Power Esmagador 3000?
— Se você prefere enganar a si mesma...
Adriano e eu? Jamais. Nem em uma galáxia bem, bem distante. E não, não estou em negação.
— Você está bem? – Fernanda me encarou com aqueles olhos verdes invasivos questionadores. – Sobre a morte da sua amiga? Você nunca tocou no assunto...
Mordi o lábio inferior com medo das palavras escaparem.
— Sabe, Brisa, eu confiei em você quando nem te conhecia. E colocar tudo para fora mudou a minha vida. Você deveria fazer o mesmo.
Deixei o ar ser expulso dos meus pulmões em um longo suspiro. Estava na hora.
— Não faz sentido. – minha inquietação tomou forma nessas três palavras. A frase que estava presa por semanas em minha mente agora estava livre. Solta e sem resposta.
Ela continuou me encarando sem dizer uma palavra.
— Primeiro ela acredita em Deus com todas as suas forças, depois ela nega-o com todo o vigor, e agora ela está morta, debaixo de toda aquela terra. Ela volta ao pó de onde veio. E o que restou? Nada. Suas crenças, seus sonhos, o seu possível arrependimento agora são nada. Acabou. Sem história, sem legado. Parece que ela nunca existiu.
Fernanda continuou me olhando.
— Depois que eu partir, o que eu vou deixar? Que semente vai florescer, se é que alguma vai? Que sentido faz se quando eu for embora, nada de mim permanecer aqui? E se tudo o que eu viver for apenas ilusão?
“Quem poderá contar-lhe o que acontecerá debaixo do sol depois que ele partir?”
Eclesiastes 6.12b
Não é natural.
Torna as coisas sem sentido.
Um pai enterrando um filho.
O mundo de ponta cabeça.
Coisas estranhas debaixo do sol.
Nem sempre o mais veloz vence a corrida.
Ou o mais forte ganha a luta.
O mais velho morre primeiro.
O tempo e o acaso afetam a todos, dizem as escrituras. Ninguém sabe quando virá a sua hora.
O sábio permanece calado. O insensato grita pelas ruas.
Uma jovem morre sem se arrepender.
Uma garota de quatorze anos perde sua mãe.
Uma mãe morre sem se despedir de sua filha.
Outra mãe enterra a sua própria menina sem dizer adeus.
Duas mães não vão ter olhos marejados no casamento das filhas.
Duas mães não vão segurar os netos no colo.
Duas mães não estarão lá quando suas filhas precisarem.
Uma porque está morta. A outra perdeu sua filha.
Plante a semente. Ela pode algum dia germinar.
Você conhece o caminho do vento? Pode correr atrás dele?
O ciclo das coisas.
Nascer. O ventre de uma mulher, que inexplicavelmente cresce a cada mês e dá origem a um ser humano. Milagre divino.
Viver. Dançar, chorar, rasgar, pintar, descobrir, inventar, arrepender, surpreender, respirar. Viver.
Envelhecer. Dias de chuva. Luz que escurece. Pernas que tremem. Janela embaçada. Quando o barulho das aves o faz despertar, mas o som de todas as canções lhe parece fraco.
Morrer. Quando os pranteadores seguem pelas ruas, e o homem encontra seu lar eterno.
Nessa ordem. Mas debaixo do sol, as coisas não são assim.
E uma mãe chora sem a filha.
E uma filha não esquece da mãe que perdeu.
“Tudo sem sentido! Sem sentido!”, diz o mestre. “Nada faz sentido! Nada faz sentido!”.
Eclesiastes 12
— A óptica estuda os fenômenos relacionados à luz. – o professor explanou diante da turma. – A sua propagação, os seus efeitos sobre a visão humana, as conhecidas ilusões de óptica.
Ah, até aqui esse assunto me persegue. Olhei Adriano ao meu lado, esparramado sobre a carteira, dormindo. Sua mochila em cima da minha mesa. Abri-a e vasculhei o lixo. Entre latas de refrigerante e pacotes de salgadinho encontrei um velho caderno de desenho.
Olhei o professor novamente. Escrevendo mil fórmulas no quadro. Física nunca foi e nunca será o meu forte. Excluí a sala da minha visão e comecei a folhear o caderno. Havia vários desenhos em grafite. Vários rostos, muitos de pessoas da escola e alguns desconhecidos. Uma banda de garotos tocando, nenhum deles tinha rosto. Uma caricatura de Giga, extremamente gordo. Um desenho meu e do meu pai, sentados no sofá de casa. Uma de mim de perfil, ocupando a folha inteira. Eu estava lendo. As linhas delicadas e precisas. O garoto sabe desenhar e nunca me falou? Vai morrer.
— Ei! – Eu disse cutucando-o – Você fez isso?
Ele abriu um olho e espiou.
— Fecha isso e vai assistir tua aula, garota tempestade!
Continuei passando as folhas. Vi sua mãe e seu pai, seu avô sentado numa poltrona de veludo lendo o jornal, o desenho de uma guitarra. As outras páginas em branco. Nenhum desenho seu.
— Adriano! – sussurrei para não chamar a atenção do professor. – Por que você desenhou o mundo todo menos você mesmo?
Ele girou os olhos.
— Não sou obrigado.
— Desembucha!
— Minha cara Brisa – disse se ajeitando na cadeira. -, eu sou um ser de beleza acima de qualquer espécie de formosura nesta Terra. Não há possibilidade de reproduzir tamanha perfeição.
— Ah, então você não consegue se desenhar? – provoquei. – Pouco talento, é isso?
— Menina enjoada! Dá essa folha aqui.
Ele puxou o caderno e deixou o lápis preencher a folha limpa.
— Adriano, eu não sou idiota. – olhei o desenho que ele me entregara. — Esse é o galã da série que eu assisto.
— Não, sou eu. E obrigado pelo elogio. – ele sorriu.
— Claro que não é! Você não é tão bonito.
— Tão? – Ele zombou.
— Você não é bonito! – corrigi.
— Sou sim, esse sou eu! –apontou para a imagem.
Olhei novamente. Não era não...
— Se você não quer fazer, eu faço – decidi.
Entreguei-lhe minha obra de arte.
— O que é isso?! Tá horrível! Uma criança de dois anos desenha melhor! Não posso deixar que um cara lindo, maravilhoso e modesto como eu seja tão mal representado.
Adriano de debruçou sobre o papel e passou os quinze minutos seguintes retocando as linhas do seu pequeno ego.
— Agora sim! – Ele disse contemplando-se na folha de papel – Vê se aprende com um bom profissional.
— Sonha, garoto! – E rimos.
Na folha, ele dedilhando um violão debaixo da árvore do jardim da minha casa.
Alguém pigarreou.
Olhei para cima.
O professor.
— O que o casal de pombinhos está achando graça?
O professor Arnaldo estava em nossa frente. Os alunos olharam para nós. Senti o rosto esquentar. Maldito defeito.
— Da sua aula é que não é! – Adriano disse em alto e bom som.
Todos arregalaram os olhos. Eu arregalei os olhos! Adriano idiota vai me fazer ser expulsa! A cara do professor se contorceu de um jeito estranho.
— Já para fora!— Gritou apontando para a porta.
— Com todo o prazer... – Adriano disse com um sorriso cínico.
Os alunos abafaram as risadas.
— Professor, não expulsa ele... – eu tentei fazê-lo alterar sua sentença.
— E você vai com ele! Vão namorar lá fora!
Juntei minhas coisas e saí de cabeça baixa evitando o olhar da turma. Os cochichos eram ouvidos até do lado de fora. Atravessei a porta e Adriano estava encostado na parede do corredor.
— Meu Deus! A filha do Pastor foi expulsa da sala de aula! – ele disse, fingindo uma voz feminina.
— Por sua culpa, garoto!
— Olha, ela está pondo a culpa no pobre garoto indefeso!
Dei-lhe um tapa no braço esquerdo.
— Ai! – Ele disse com voz afetada. – Você precisa ser mais delicada. A gente só vive mesmo quando é expulso da sala um dia. Eu estou te ajudando a crescer, menina Brisa.
— Me ajudando a levar uma bronca quando chegar em casa.
— Veja pelo lado positivo – ele girava a chave do carro no dedo. – Você vai chegar mais cedo em casa e poderá preparar uma lasanha para o seu motorista.
— Há, há, há – fingi uma risada. – O circo está perdendo por não te contratar como palhaço.
Passamos pelo terceiro ano e Gigabyte vinha saindo no mesmo instante.
— E sua mãe vai ser notificada disso, David!— a professora gritou.
O que há com esse pessoal? Revolveram se unir contra a classe estudantil?
— Ei cara, o que aconteceu? – Adriano perguntou.
— Eu estava prestes a matar o Demogorgon, cara. Você sabe o que é isso? Esses professores não entendem que o futuro da raça humana depende de mim! Me interromper no meio de um jogo deveria ser considerado um crime gravíssimo! – ele me olhou espantado. – Brisa? Você expulsa? É o fim dos tempos!
Adriano teve uma crise de risos.
— Mas ainda bem que você saiu mais cedo porque eu estou morrendo de fome e minha mãe viajou. O que você vai cozinhar hoje?
Os dois me encararam com olhos brilhantes.
— Às vezes eu acho que vocês me olham e veem um fogão ambulante.
— Ora Brisa, não faça caso da sua melhor qualidade. Se não fosse por isso a gente nem andaria com você. Certo, Giga?
— Com toda a certeza.
— Perdi muita coisa? – Fernanda chegou apressada, jogou a mochila em cima do sofá e sentou ao nosso lado no tapete.
— Nada. Só umas duas competições de arroto.
— Brisa, minha cara, o termo certo é “Batalha de Emissão Ruidosa de Gases do Estômago pela Boca.” Ou BERGEB, como preferir. – Giga oferceu um prato de lasanha para a menina. – Guardei um pedaço pra você, Fernandinha – ele fez a melhor cara de apaixonado.
— Porque eu obriguei, senão não teria nada.
— Shhh! – ele me silenciou. – Não dê ouvidos as artimanhas de satanás contra o nosso amor.
— Nosso o que? – Fernanda riu.
— Adriano, pela a vassoura para varrer os cacos do meu coração que estão no chão. Pode cortar o pé de alguém.
— Acabou a novela mexicana? – cortei de uma vez. – Quem vai fazer o estudo hoje?
— Hoje serei eu – Fernanda se ofereceu. – Uma pessoa me perguntou hoje, o que seria dela quando morresse. Não dela, do que deixaria, sua marca no mundo.
Eu sabia que ela estava falando de mim, embora seus olhos se fixassem em Adriano.
— Eu tenho lido muito o livro de Eclesiastes, pois ele me ensina sobre as coisas da vida, também sobre a morte, sobre o tempo para todas as coisas. Então, encontrei esse versículo que poderia ajudar essa pessoa – ela abriu a Bíblia e leu com suavidade. — “Descobri que não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive. Descobri também que poder comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho, é um presente de Deus. Sei que tudo o que Deus faz permanecerá para sempre; a isso nada se pode acrescentar, e disso nada se pode tirar.” (Eclesiastes 3:12-14a). Nós devemos fazer o bem, e aproveitar o máximo da vida, o quanto pudermos. E espalhar a verdade de Deus por todo o mundo, pois não importa o que fizemos ou o que deixamos de fazer. Porque ganhamos o presente.
Seus olhos brilharam e senti uma felicidade imensa, porque o amor do Pai transformara aquela menina.
— Foi-nos entregue o melhor presente do Universo. Maior do que as mentes mais brilhantes pudessem imaginar. Mais precioso que todas as jóias. Perfeito e arrebatador. Que marcou o mundo e nunca se apagará.
Encarei Fernanda em silêncio.
— Deus deu a si mesmo. – concluiu sorrindo. – E é a marca do nome d’Ele que devemos deixar quando o nosso corpo for embora.
— E precisa de um suspense todo desse pra falar algo que a gente já sabe? – Adriano reclamou.
— Adriano, só porque a garota tem o dom da dramaticidade não quer dizer que você tem que ser o recalcado da história – Giga rebateu.
— Recalcado? Eu? Gordinho, você ta a fim de apanhar hoje?
O celular de emergências vibrou no meu bolso.
— Tenho cara de baby beef? – Giga gritou.
— Tem.
— É o que?! – o garoto elevou o tom ficando todo vermelho.
Pressionei o celular no ouvido para tentar ouvir.
— Ei, tem alguém aí? – a ligação estava falhando. – Alguém aí?
Como os imbecis não paravam de falar, eu saí pela porta da frente até o jardim.
— Alô? –o menino tinha a voz rouca. Mas também abafada, como se estivesse sozinho em um quarto.
— Oi, pode falar.
— Eu recebi uma mensagem – ele parecia nervoso. — Dizia que se eu precisasse de ajuda deveria ligar para esse número.
— Isso mesmo. Eu sou Brisa, qual o seu nome?
— Lucas.
— O que você precisa, Lucas?
Silêncio.
— Alô – tentei contato.
— Eu não queria. Eu juro, eu não queria que tivesse chegado a esse ponto.
O garoto começou a chorar.
— Calma, a gente vai dar um jeito. O que aconteceu?
— Eu só queria um pouco de diversão – ele continuava a falar sem dar atenção ao que eu dizia. – Eu só queria dar um pouco de cor aessa vida cinza e sem graça. Mas isso me levou a um redemoinho de destruição que só me leva mais para o fundo. Nos leva mais para o fundo.
— Nós quem, Lucas? Do que você está falando?
— Das drogas, garota estúpida! – ele gritou e o silêncio reinou. – Desculpa, desculpa. Eu não deveria ter dito isso. Eu nem devia ter ligado.
— Não, não – procurei acalmá-lo. – Tá tudo bem, você só está sob muito estresse. Nós vamos dar um jeito nisso.
— Como você acha que vai ajudar todo mundo?
— Eu tenho uma equipe. E o nosso Chefe é bem poderoso, eu diria. Ele pode reverter qualquer situação.
O garoto riu.
— Esse chefe tem que ser bom mesmo, porque meu amigo está à beira da morte aqui.
Senti meu corpo gelar.
— Ele nunca usava muito. Era só por diversão no início, mas agora isso alcançou um novo nível. As coisas começaram a dar errado e ele tem usado cada vez mais. Eu estou tentando evitar que ele injete a última dose que sobrou, porque se ele chegar a fazê-lo, não haverá chefe que o faça voltar à Terra.
Ele me disse o endereço que eu tratei de gravar na mente.
— Brisa – ele me chamou. – Se quiser encontrar alguém vivo para ajudar, corra.
Um arrepio não parava de percorrer o meu corpo. A voz daquele menino me revelou um terror obscuro. Um desespero em vez seu amigo se destruindo.
Ao chegar na sala, contei rapidamente do que se tratava a ligação. Senti meu sangue se esvair do rosto. “Você está bem?”, perguntaram. “Precisamos correr.”, respondi. Adriano pediu que Giga ligasse para a emergência e pegou a chave, se encaminhando para a porta. Eu assistia tudo como um filme em slowmotion. As cenas diante dos meus olhos se desfazendo como as ondulações em um lago estagnado. As vozes vindas de um túnel distante.
“Brisa?”, a voz chamou “Você está bem?”.
Pisquei duas vezes. O mar nos ouvidos. Algo está errado. Entrei no carro sem sentir as pernas, sendo guiada por não sei o quê, menos meu cérebro.
“Brisa?!”, ele chamando minha atenção novamente. A chave já na ignição. Olhos suplicantes. “O endereço!”.
Os lábios pronunciaram. O menino franziu as sobrancelhas. Abaixei a cabeça e cobri os ouvidos com as mãos, tentando anular o refrão repetido mil vezes em minha mente.
“Uma coisa me foi trazida em segredo; e os meus ouvidos perceberam um sussurro dela.
Entre pensamentos vindos de visões da noite, quando cai sobre os homens o sono profundo,
Sobrevieram-me o espanto e o tremor, e todos os meus ossos estremeceram.
Então um espírito passou por diante de mim; fez-me arrepiar os cabelos da minha carne.
Parou ele, porém não conheci a sua feição; um vulto estava diante dos meus olhos; houve silêncio, e ouvi uma voz que dizia:”
Não há esperança. Não há esperança.
Fale com o autor