Beyond
42 Adriano
— Adriano?
Uma voz me tirou do sono conturbado em que eu estava, fazendo com que as trevas em meu sonho se tornassem em raios de sol.
— Mas será que um ser humano não pode dormir? – resmunguei para a garota que me cutucava e virei a cara, mascarando minha alegria de ser salvo de mais um pesadelo.
— Você tá na minha cama, seu preguiçoso! – ela continuou me cutucando.
— Fazer o quê? Ela é bem mais confortável que o seu sofá... – mantive meus olhos fechados e bocejei preguiçosamente.
— É, mas eu durmo aqui, imprestável!
— Brisa, larga de ser egoísta! – eu a repreendi, ainda virado de costas – Jesus dividiu cinco pães pra quinhentas pessoas...
— Essa desculpa sua já tá velha, e eu basicamente ando dividindo um pacote de miojo pra dois. – ela argumentou sabiamente, tirando algum aprendizado de mim – E eu não sou Jesus pra fazer milagre, agora sai da minha cama! A gente concordou que você não ia ficar invadindo meu espaço pessoal!
— Se alguém pegar tua coberta, dai também tua cama.
— Para de fazer paráfrase pra conseguir o que você quer!
— Faço isso não, eu sou crente.
Seguiu-se então o grito de frustração da garota tempestade por eu ser lindo, maravilhoso e imbatível numa discussão. Passada a raiva ela logo se acalmou, sentando na beirada da minha cama pra fazer o que quer que ela queria fazer. Ela começou então a escrever alguma coisa.
Eu queria muito poder voltar a dormir, a repousar tranquilamente e apagar a sensação da última experiência que eu tivera. Relaxei meu corpo rapidamente, agora que alguém não estava mais tentando me arrancar do meu sono de beleza, e senti a dormência se espalhar pelo meu corpo. O som da caneta de Brisa escrevendo o que quer que fosse me ajudando a dormir.
Não importava o que ela estava escrevendo, mas aquele som (tão doméstico, tão normal) era mais do que o bastante.
Mas o que ela estava escrevendo? Isso não importava, certo?
Não importava nem um pouco.
Porque eu me importaria com o que a Brisa estava escrevendo?
Não é como se eu fosse uma criatura curiosa que quer sempre saber o que as pessoas em volta estão fazendo, não é?
Então não, não me importava o que a Brisa estava escrevendo, eu ia dormir.
Dormir era certamente mais importante do que saber o que a Brisa estava escrevendo.
— Tá escrevendo o quê? – Sempre posso dormir mais tarde.
— Não é da sua conta. – Sempre me surpreendo com a brutalidade dessa garota.
— Vai, fala. É o quê?
Ela suspirou, ainda correndo a caneta sobre o papel, evitando me responder.
Carinhosamente chutei-a para arrancar uma resposta.
— Ai! Imbecil! – ela largou a caneta e provavelmente começou a massagear a área atingida; que eu não sabia qual era, já que ainda estava virado de costas. – Virou criança, foi?
— Diz… – choraminguei como um menino de quatro anos.
Ela murmurou por um tempo antes de responder evasivamente mais uma vez:
— Você tem sorte que eu te amo, senão já tinha terminado contigo há muito tempo.
Oi, é o quê? Pausa pro solo de coração repentinamente acelerado e pro Brasil entrar em erupção. Ela disse o quê? Como? É isso mesmo produção? É o fim do mundo? Deus, segura minha mão que eu sinto que hoje minha alma vai sair do meu corpo!
Me engasguei com meu próprio ar, o último resquício de sono deixando meu corpo em velocidade recorde.
— Quer me dar um ataque do coração, mulher? – bradei me erguendo da cama e virando uma feição de extremo choque e extremo desespero pra ela.
— O quê? Você acha que eu não termino? – ela respondeu levantando uma sobrancelha, meio brincando meio falando sério. Ai, eu num me guento!
Estava prestes a morrer de um ataque cardíaco quando notei algumas coisas em volta de mim. Primeiro foi o quarto, sem mais livros de menininha e cores alegres, em um tom mais neutro, e visivelmente menor. As roupas que ela estava usando eram mais adultas, como se ela tivesse um trabalho sério, de adulto responsável, que definitivamente não estariam no guarda-roupa de alguém do ensino médio. E por fim, a própria Brisa também tinha um semblante diferente, seu rosto mudado por debaixo de seu agora longo cabelo.
Ela estava velha, mas eu definitivamente não diria isso em voz alta.
Certo. O que foi? O que é que tá acontecendo? Eu tava dormindo, certo? Mas o que é que tava acontecendo agora? Respira, Adriano. Lembra. Você tava dormindo. Certo. E antes? Antes era o quê? Eu tava indo pra casa de alguém? Não isso foi um sonho também. Foi? Foi um sonho, mas isso tinha acontecido. Que dia é hoje? Sexta. Okay. Mas e o ano. Contei na cabeça. Uma súbita vertigem tomando conta de mim. Se eu não me enganava eu tinha já uns vinte e sete anos. Oi?
A letargia e a dormência começaram a se esvair da minha mente. O sono que antes nublava minhas memórias agora completamente dissipado. Compreendi minha confusão. O sonho me fizera lembrar do passado, na época em que Brisa e eu ainda estávamos no colégio, nos primórdios do Exército da Paz (nome provisório) e tendo que viajar na Berenice pra ajudar as pessoas. Mas ao esfregar os meus olhos consegui me lembrar do tempo presente.
A gente já estava terminando a faculdade. Brisa tinha conseguido um emprego numa revista, e provavelmente estava escrevendo um artigo agora mesmo. O Exército da Paz (nome provisório) tinha agora membros o suficiente para fazer escalas e plantões alternados, até mesmo participando de eventos e sendo entrevistado por youtubers. O mundo estava salvo. E Brisa e eu estávamos namorando.
Deixei a realidade afundar mais um vez, respirando fundo e ignorando o olhar confuso dela. Tudo estava bem, embora não tivesse estado no passado. Tudo estava bem, e tudo ia continuar bem.
Me joguei novamente na cama, e fechei os olhos. Mas dessa vez eu não tinha a menor vontade de dormir.
— O que foi? – ela perguntou preocupada.
— Nada. – sorri levemente, comparando meu presente com meu passado – Eu só estava sonhando.
— Preguiçoso. – ela voltou a escrever, fingindo indiferença ao meu breve surto.
— Tava sonhando com a gente indo pra casa do Matheus.
— De todos os dias pra se sonhar… – ela murmurou, mas finalmente entendeu o motivo do meu estado desesperado.
— Não fala assim. – abri os olhos encarando o teto – Foi um dia bom…
— Até deixar de ser.
Os detalhes me voltaram a mente. O restante do dia, que havia sido definitivamente horrendo, ficando cada vez mais claro.
— Retiro o que disse. – concluí depois de alguns segundos.
— Mas se não fosse aquele dia a gente não teria ficado junto. – Ela observou depois de um tempo, parando de escrever e sorrindo pra mim.
— Por favor! Não subestime o poder do amor verdadeiro! Eu teria achado outra maneira pra gente ficar junto.
Se fosse qualquer outra pessoa, ela teria rido, mas Brisa era uma pessoa desalmada que não acreditava no poder do amor verdadeiro, então ela apenas rolou os olhos, sorriso subitamente desaparecido, e voltou a escrever.
— Parece que foi a uma era atrás… – ela comentou à parte e eu concordei com um aceno de cabeça, embora o sonho fizesse parecer que havia sido à apenas alguns segundos.
Ainda assim, era bom ver a luz do sol entrando no quarto do apartamento da Brisa e ver que as trevas haviam desaparecido. Eu estava em paz, e, apesar da dor temporária do meu chute — que havia sido ligeiramente forte — minha namorada também estava.
Minha namorada. Deixe esse conceito afundar em sua mente.
Minha namorada linda que me deixava nas nuvens toda vez que me olhava nos olhos. Minha namorada maravilhosa que conseguia aguentar um moleque insuportável que nem eu por quase dez anos. Minha namorada, que eu esperava ter ao meu lado pelo resto da minha vida.
Espera aí…
— Brisa, acabei de lembrar. – me levantei da cama mais uma vez, lembrando o motivo de eu ter invadido o apartamento dela e capotado na cama esperando ela chegar do trabalho. – Tenho uma coisa pra você.
— Se for outro boneco dos Power Rangers pode guardar. – ela disse se referindo a uma ocasião que não vale a pena relatar agora, mas que Brisa se provou novamente como uma estraga-prazeres sem alegria alguma no coração.
— Né isso não, coisa! – me levantei e caminhei até minha mochila, encostada no guarda-roupa dela. – Mas eu já estou começando a desistir de lhe dar.
Ela rolou os olhos.
— Me dá logo!
— Eu não, você provavelmente vai jogar na minha cara…
— Ai, que sensível! – ela zombou – Me dá logo, eu não vou jogar na tua cara não. Mas você tem que prometer que não é um boneco dos Power Rangers ou de qualquer coisa desse tipo.
— Não é um boneco. – afirmei, enquanto enfiava a mão na mochila pra pegar meu presente – Mas brilha tanto quanto um Power Ranger.
— Adriano, não tô com paciência pra brincadeira! – ela fechou a cara e senti que ela queria me bater.
— Não tô brincando. – falei com meu tom mais sério e a raiva dela se dissipou.
Ela me deu uma boa olhada, averiguando a veracidade da minha declaração, e após se satisfazer com minha seriedade ela suspirou, deixando o caderno e caneta de lado por um tempo.
— Me dá. – ela estendeu a mão, seu semblante agora mais paciente.
Respirei fundo. Talvez ela odiasse meu presente e me expulsasse do apartamento. Talvez ela amasse meu presente e eu ganhasse um beijo. O que quer que fosse, não seria algo que eu não tivesse acostumado, constatei. E afinal, eu nunca saberia qual deles seria se eu não entregasse para ela.
Respirei fundo de novo. Calma, Adriano. É só a Brisa. O amor da sua vida. A única garota no mundo que fez você querer ser uma boa pessoa e apresentá-la pros seus pais. A única menina que poderia fazer você cogitar comprar um presente desse tipo. Não é como se a possibilidade dela odiá-lo fizesse você querer correr e se esconder debaixo das cobertas.
Respirei fundo mais uma vez, e ela levantou uma sobrancelha, preocupada com minha súbita seriedade. Carreguei a mochila, colocando-a no meu colo ao me sentar do lado dela.
— Se você não gostar, promete não ficar com raiva?
— Adriano… – ela começou a se irritar novamente, e eu peguei uma mão dela para reter a tempestade que começava a se formar naquela cabecinha.
— Promete? – perguntei mais uma vez.
— Prometo. – ela apertou minha mão, reassuring*.
Respirei fundo novamente e cheguei a conclusão que tava na hora de parar de fazer isso, senão eu ia acabar desenvolvendo o tique mais estranho da humanidade e aí era que Brisa me largava de vez.
— Então, Brisa… – busquei as palavras, mas as ingratas tinham decidido que essa era a melhor hora para fugir – A gente se conhece à quanto tempo mesmo?
— É sério isso?
— Calma, calma! – impedi-a de dar uma na minha cara – É que eu ainda me confundo com a contagem dos anos, e eu preciso desse número pra continuar minha fala.
— Esquece os anos e fala logo o que você quer falar!
Impedi a respiração funda e só suei frio. Eu sabia que tinha que ter conferido isso antes de começar meu discurso mega importante! Mas Brisa tinha demorado tanto de chegar que eu acabara caindo no sono e perdendo a conta, e quando acordei esse detalhe tinha fugido da minha mente.
Olhei fixamente para ela, seus olhos ameaçando uma tempestade que não me pouparia por ter interrompido o que quer que ela estivesse escrevendo, e ainda estar utilizando a cama dela. No entanto, agora que ela tinha me interrompido e ordenado que eu pulasse a parte essencial, eu só tinha uma opção.
Respirei fundo.
Ela me deu um empurrão — metade de raiva e metade de vingança — e começou a se levantar da cama, decerto prestes a buscar uma arma que tinha um maior potencial em me ferir, quando eu, ainda segurando a mão dela, me joguei de joelhos.
E não, não foi para implorar por misericórdia, caso seja isso que você esteja pensando! E, honestamente, se alguém não descobriu até agora porque eu fiquei de joelhos, então Brisa está errada e eu não sou o indivíduo mais estúpido do mundo.
— Tudo bem, deixa meu discurso pronto pra lá, eu já esqueci ele todo mesmo…
— É o quê? – ela estava presa entre a ira e a confusão.
— Me escuta, por favor! – segurei a vontade de gritar de frustração – Eu quero falar uma coisa importante mesmo!
— Então fala, e não fica suspirando como se fosse me pedir em casamento.
Dessa vez eu não respirei fundo. Eu não respirei de maneira alguma, pra falar a verdade. Eu só olhei diretamente nos olhos dela, um choque elétrico desceu a minha espinha, e o restante das borboletas que ainda estavam vivas dentro de mim decidiram dar o kamikaze e se arremessaram contra a parede do meu estômago.
Tirei minha outra mão da mochila e depositei a pequena caixinha vermelha de veludo na mão dela, e então foi a vez de Brisa mudar de feição.
— O… o… o... o que você… Você… O quê? – ela murmurou em choque, mas não soltou a caixa.
— Quando uma pessoal é especial, você percebe logo; e eu percebi que você era especial no dia em que você esqueceu sua agenda na escola e me largou na chuva. Mas quando uma pessoal é especial pra você, você só percebe quando tenta imaginar uma vida sem ela, e simplesmente não consegue. – abri então a caixa, permitindo que ela visse as duas alianças reluzindo na almofada – Eu não consigo pensar em viver sem você, Brisa. Então eu não tenho outra escolha a não ser viver com você. – pra todos aqueles que duvidaram da minha capacidade de falar bonito, vou lhes lembrar que já fui compositor e ainda conservo um pouco do meu talento. – Casa comigo?
Olhei pra ela com os olhinhos mais brilhantes que os do Gato do Shrek, coração na mão e os pés quase congelando, enquanto esperava uma resposta de Brisa, que continuava com a mesma expressão de quando eu tinha mostrado a ela a caixa das alianças.
Controle-se, Adriano. Não entre em desespero, não antes dela responder!
— Cadê o diamante? – foi tudo o que ela disse depois de um silêncio torturante.
Quando eu digo que a mulher não tem coração ninguém acredita…
— Sabe como foi difícil conseguir uma de ouro, sua ingrata? – bradei, completamente indignado.
— Quantos quilates?
— 12. – respondi me referindo à dela. Ninguém precisava saber que a minha era bijuteria mesmo.
— É só isso que eu valho pra você? – ela desmereceu minha linda aliança, que eu comprara com muito sofrimento.
— Ah, me desculpa se eu sou pobre! – larguei a mão dela, qualquer espécie de romantismo que já existira em mim aniquilado pela frieza daquela mulher. – Pois fique sabendo que qualquer outra garota no mundo ficaria feliz em ter um namorado tão dedicado quanto eu, que se preocupa em…
— Sim. – ela me cortou.
Claro que ela me cortou. Ela é uma mulher ingrata e insensível que não tá nem aí pra mim, mesmo embora eu tenha me dedicado à ela durante quase dez anos, amando aquela coisa mesmo que depois dela me recusar um abrigo e me alimentar com apenas meio pacote de miojo.
Epa. Peraí…
Congelei.
Produção, uma ajudinha aqui, por favor! Eu já tive meu segundo quase ataque cardíaco num espaço de meia hora! Meu Deus, se continuar assim vou chegar no seio de Abraão mais rápido do que eu previa!
— Oi? É o quê? – pisquei rapidamente pra ela, olhos arregalados e boca estupidamente aberta, o que a fez rir.
— Sim, eu quero me casar com você.
Pai, nas tuas mãos eu entrego meu espírito.
Sério. Tô morto.
Quer dizer, eu queria que ela dissesse sim, mas eu não esperava que ela realmente dissesse. Eu estava pronto para um longo debate sobre os prós do casamento para cada contra que ela pudesse levantar (tinha até uma apresentação no PowerPoint salva no meu pendrive pra ilustrar melhor a coisa toda), mas ela disse assim? Numa boa?
Tudo bem que ela tinha tirado uma com a minha cara, mas quem ligava quando ela tinha dito sim? É pra glorificar de pé!
E foi isso que eu fiz, logo antes de arrancá-la do chão, rodopiando-a no seu minúsculo quarto, e lascando um beijo digno de Hollywood nos lábios dela.
— É melhor que você não se arrependa, porque essa era sua chance de se livrar de mim. – expliquei rapidamente – Agora você está presa para sempre.
— Umm, subitamente me lembrei de uma cena de uma mulher vestida de noiva fugindo do casamento… – Ela perturbou, mas ainda estava sorrindo e com os braços em volta do meu pescoço.
— Até parece que você seria uma desses. – retruquei também sorrindo – Você me ama demais pra isso.
— É tem razão… – ela deu de ombros – Eu avisaria os convidados com antecedência e nem sequer entrava no vestido.
— E depois você comeria o bufê sozinha?
— Eu definitivamente comeria o bufê sozinha. – ela fechou os olhos e sorriu – E faria questão de comer em lugar de onde você pudesse ver, mas nunca alcançar.
— Acabei de mudar de ideia, me devolve minha aliança.
Ela gargalhou mais uma vez, e eu não pude evitar meu sorriso.
— Já era. – ela se afastou de mim, um sorriso bobo no rosto (que provavelmente também estava no meu) e correu pra escrivaninha dela, sacando o celular da bolsa – Agora vamos ter que avisar todo mundo, inclusive meu pai.
Ela olhou para mim na expectativa de que eu estivesse tremendo nas bases, amedrontado com a perspectiva de me encontrar com o pai da minha noiva.
Minha noiva. Deixe esse conceito afundar na sua mente, Adriano.
Mas o que minha noiva — grito interno — não sabia, era que eu não estava nem um pouco nervoso em me encontrar com o pastor Calebe.
Sorri.
— Seu pai já está plenamente consciente dos meus planos. – Voltei a me sentar relaxado em sua cama, totalmente despreocupado à vista do olhar levemente frustrado dela.
— Bem, então vamos avisar o seu pai…
Sorri de novo. Tolinha…
— Ele era meu cúmplice também… – afinal, como mais eu conseguiria escolher as alianças senão com a presença de dois homens adultos que já haviam passado pela mesma experiência.
— Oh… – ela soou falsamente desapontada – Então eu suponho que sua mãe também saiba…
Pausa dramática.
Respira fundo, Adriano. Não deixe ela saber. Ela fareja o medo e se você não parar de suar frio nesse instante ela vai ter vencido.
— Ou não! – a voz triunfante dela anunciou a sua vitória – Já faz tanto tempo que eu não falo com minha sogrinha, acho que ela vai adorar a ligação.
Brisa tinha um sorriso maníaco no rosto. É, minha morte definitivamente estava próxima, e provavelmente seria infligida pela minha genitora, que não tinha sido informada dos planos de seu filho único de pedir a namorada em casamento, nem consultada acerca do onde, como e quando o fazer.
Grunhi algumas palavras sem sentido ainda encarando o teto. Sinceramente, de todas as mulheres do mundo eu fui me apaixonar logo pela mais sádica, e eu não falo isso de brincadeira. Claro que minha mãe ia ficar feliz com a notícia, mas ela ia também fazer uma cena de novela por não ter sido convidada pra entrar no grupo dos cúmplices.
Em minha defesa, se eu tivesse falado coisa alguma pra ela com antecedência, eu acabaria pedindo a mão da Brisa vestido de terno, em alguma espécie de festa de alta costura, rodeado por pétalas de rosa em um antigo castelo europeu com iluminação artística e fogos de artifício escrevendo nossos nomes no céu quando ela dissesse sim. Nem mesmo o anel eu teria a liberdade de escolher — minha mãe definitivamente me faria comprar um com um diamante.
Pois é, dá pra acreditar? Eu de terno?!
E agora Brisa estava ligando para ela. Jesus Cristo, a mulher ia ficar fazendo planos a noite inteira pra esse casamento! Sem falar dos planos que ela já tinha feito pros netos. E meu pai ia fazer o favor de ficar fora da conversa, bem longe e a salvo dos pedidos de opinião de mamãe. Quanto à Brisa, bem…
Me virei para a traidora, que esperava minha mãe atender o telefone. Agora que não estava jogando certas verdades na minha cara, ela olhava delicadamente para a aliança em seu dedo, um leve sorriso nos seus lábios, e eu não pude evitar sorrir também.
Tudo estava bem, mesmo que no começo não tivesse estado. Tudo estava bem e tudo ficaria bem.
Quem diria que alguém como eu encontraria seu final feliz?
A campainha ressoou, anunciando a chegada de mais alguém pra festa de noivado particular de Adriano e Brisa, provavelmente uma das amigas dela já que eu tinha avisado pra todos que eu conhecia que hoje não era pra ninguém aparecer.
Brisa já estava envolvida numa conversa com minha mãe, que eu sabia que iria durar algumas horas, então levantei e fui depressa atender.
À porta estava uma garota mais ou menos da minha idade, uma ruivinha simpática que eu certamente vira antes em algum lugar. Ela usava roupas meio indie, uma mistura entre hippie e roqueira, com clássicos óculos escuros estilo John Lennon e tinha um sorriso profissional no rosto.
— Oi, boa tarde! – ela me cumprimentou animada – Desculpa incomodar, mas eu só queria convidar você pra um evento que vai ter na minha faculdade nesse final de semana. É especial pra comunidade. – ela me disse enquanto me entregava um panfleto – Aí tem todas as informações.
— Certo. – peguei o papel da mão dela automaticamente, sorrindo de volta – Não tenho certeza se posso aparecer lá, mas vou ver o que posso fazer. – baixei o olhar para o material de divulgação que ela me entregara, para as letras brancas em contraste com o fundo escuro, para as incontáveis penas negras que se espalhavam pela imagem, e para os diversos corvos que pareciam querer saltar da página a qualquer momento.
A voz da Brisa desapareceu, o Sol ficou repentinamente mais frio, e os olhos da ave negra não deixavam os meus.
E no fim tudo era um sonho! Que reviravolta…
Eu não precisava olhar para trás de mim pra saber que o apartamento da Brisa desaparecera — junto com as memórias artificiais do meu sonho e os planos de um futuro feliz -, sendo substituído por o que quer que esse pesadelo bizarro fosse. Um pesadelo que me dava tudo o que eu poderia querer por um breve momento antes de desfazer tudo em sombra e fumaça.
A tarde estava quente, mas senti meus dedos ficarem gélidos e um arrepio descendo pela coluna.
Olhei de volta para a garota ruiva. A expressão dela era a mesma, com seu sorriso branco e convidativo, mas ela tinha tirado os óculos escuros — ela sequer os estivera usando em primeiro lugar? — e eu finalmente pude ver seus olhos amarelos.
Respirei fundo e permaneci em silêncio, esperando o que quer que ela tivesse preparado fosse lançado pra cima de mim. Não havia como esconder meu medo dela, mas eu não daria a chance dela me ver correr.
— Matheus mandou um oi. – sua voz tinha leve sibilar, como o de um córrego de água fresca à sombra de um pomar, embora sua simples fala carregasse incontáveis acusações e inúmeras ameaças.
Eu não me enganaria tão facilmente por aquela voz, nem deixaria que ela me acuasse.
— Cansaram de brincar? – respondi com toda a coragem que eu tinha.
— Não. – ela riu como se eu tivesse acabado de contar uma ótima piada – Você simplesmente passou de nível. E essa é uma fase bônus.
Uma falsa ilusão de paz, só para que seu coração se quebre com mais eficiência e sua alma se renda ao desespero mais rapidamente quando te lembrarmos de que é tudo uma mentira. Uma arfada por ar antes que te arrastemos novamente para o fundo do mar e enchamos seus pulmões com água. Uma falsa sensação de segurança, para que sua dor seja ainda maior quando se der conta da realidade que te cerca.
Afinal, um jogo que acaba rápido não tem graça.
E suas expressões de surpresa são sempre divertidas.
Ignorei as sombras ao meu redor. Ignorei o vento frio que começou a atingir minhas costas. Ignorei a dor lancinante no peito. Ignorei os comandos do meu próprio cérebro que insistia para que eu corresse para qualquer lugar. Ignorei meu sistema emocional que desejava se jogar aos prantos no chão e implorar para que aquele pesadelo acabasse.
Ignorei todos os meus instintos, e tentei me fazer sorrir sarcasticamente, conseguindo apenas uma expressão de dor.
— Vocês não podem me controlar. Eu já conheço a Verdade. Eu sei como fazer você ir embora.
— Então porque você está com tanto medo?
— Eu não… Não…
— Não está com medo? Não sabe por que está com medo? Meu querido, você está com medo. E você sabe por quê. Depois de tantos anos se escondendo e chorando, você realmente achou que bastaria alguns sermõezinhos pra se livrar da gente? Acha que aquele livro tem algum valor na sua mão? Acha que vai entrar no Santo dos Santos, erguer as mãos em direção à cidade de Jerusalém, clamar ao Santo de Israel e Ele vai te ouvir, rugir como o Leão de Judá, e nos fazer correr?
— Eu não vou ficar preso pra sempre. – coloquei toda a minha força na minha voz, que não se ergueu mais alta do que um sussurro – Eu vou me livrar de vocês. Logo.
O sorriso dela se alargou mais do que era possível, lentamente e assustadoramente, se espalhando por todo o seu rosto, e permitindo que eu pudesse ver todos os seus dentes. As pupilas dela se dilataram, deixando seus olhos mais escuros, mas sempre fixos em mim.
— Vai ser divertido ver você tentar.
Você nunca se livrará de nós.
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“Ponha a sua boca no pó; talvez ainda haja esperança.” Lamentações 3:29
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Quando um pesadelo é um pesadelo ele não segue nenhuma regra física.
Assim, quando a ruiva nada simpática assumiu um rosto nada simpático e eu decidi que já era hora de virar de costas e enfrentar o que quer que tenha sido preparado para mim dessa vez, eu não fiquei exatamente surpreso ao ver a porta de uma casa que eu não via há anos.
Se bem que casa é só uma forma de falar. O prédio era um pequeno chalé, extensão da casa principal, que apesar de um dia ter sido lindo já começava a mostrar sinais de falta de cuidados. A pintura das paredes já havia desbotado e começava a descascar, e as manchas de umidade se espalhavam como uma estampa abstrata. As janelas de vidro estavam cobertas de poeira e as cortinas por detrás delas estavam puídas e cinzentas. As ervas daninhas se espalhavam em volta dela, e o jardim que antes decorava a sua frente já era praticamente inexistente.
Ainda assim, sempre que nos referiamos à ela, eu e meus antigos amigos a chamavam de casa. A casa do Matheus.
A casa havia sido um presente dos pais, que queriam apoiar os sonhos do filho de começar uma banda e ficar conhecido por sua música. Uma prova de boa fé, de confiança no filho único.
Confiança que ele não merecia.
Os pais do Matheus não sabiam sobre as festas tardias, a bebedeira e as drogas. A música alta sempre era justificada como um ensaio, uma passagem de som ou uma gravação. As horas incomuns eram explicadas como surtos de inspiração no meio da noite. As olheiras debaixo dos olhos não eram nada, ele só tivera que ficar até mais tarde acordado para poder conciliar os estudos e a banda. Estava tudo bem.
E sempre que eu via os pais dele eu concordava. Sim, estava tudo bem. Não nos meteríamos em problemas.
Quando você é jovem você pensa que é imortal, e que sabe fazer suas próprias escolhas melhor do que ninguém. (Não que eu seja velho, mas o Adriano de quinze anos me dá raiva de tão retardado que era.)
A casa era parte do pesadelo, eu sabia disso. Uma esquete bem teatral. Haviam várias coisas das quais eu me arrependia que haviam acontecido naquela casa, e eu não podia dizer exatamente o quê eu veria quando abrisse aquela porta.
Ainda assim, parte de mim sabia exatamente o que era, só não entendia porque eles haviam demorado tanto para me mostrar.
Olhei para trás mais uma vez. A ruiva havia desaparecido, e não havia nenhuma sombra à vista.
Estamos só assistindo...
Respirei fundo e tentei acalmar meu coração.
Abri a porta e entrei.
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“A armadilha o apanha pelo calcanhar, e o laço o prende; a corda do mesmo está-lhe escondida na terra, e uma armadilha na vereda. Terrores o amedrontam de todos os lados, e de perto lhe perseguem os pés.” Jó 18:9-11
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Depois de um certo tempo você se acostuma com o cheiro da fumaça.
Mesmo que você não goste do cheiro dela, mesmo que você nem sequer goste de fumar, a partir de um certo momento seu corpo para de se afetar pelas toxinas que se espalham pelo ar, criando ou uma imunidade ou uma dependência delas.
Aprendi isso sozinho.
Então, mesmo que eu já estivesse limpo há um tempo considerável, não senti a invasão agressiva das drogas tentando destruir cada célula do meu corpo e explodir meus pulmões. O ar branco apenas me deu um abraço de reencontro, trazendo memórias perdidas com seu calor.
Naquele momento eu era o filho pródigo retornando para casa, e ela estava muito feliz em me receber.
Depois de alguns instantes me acostumando com a penumbra, consegui ver melhor o interior da casa esfumaçada. E dessa vez me tranquilizei ao ver que as sombras caídas no chão sujo eram apenas os corpos letárgicos de um grupo de meninos. Meninos que há muito tempo eu não via, nem mesmo em sonho, e que preferia nunca chegar a vê-los.
Os ex-integrantes da banda Crow's Cacophony (novamente, o Adriano de quinze anos me dá raiva de tão retardado que era), presos em mais um torpor, presente do que quer que estivesse naquele cigarro.
— Adriano!
— Tá atrasado, cara.
— Seus pais não deixaram você sair mais cedo?
Não falei nada. Minhas palavras não importavam ali. Quer eu dissesse algo ou não, o pesadelo ia continuar.
— Viu a mensagem que eu te mandei? — Matheus se sentou, tirando o cabelo escuro da frente do rosto.
Cerrei meus punhos. Aquele não era um pesadelo fabricado para me aterrorizar, era uma lembrança minha. Uma que eu tentei apagar de todas as formas possíveis, voltar no tempo e me impedir de entrar naquela casa naquele dia. Um marco na minha memória, que sempre retornava para mim.
Elas não queriam me assustar, elas queriam esfregar minha maior fraqueza na minha cara. Sempre tinha me perguntado por que elas nunca tinham feito isso antes. Creio que elas estavam esperando pelo melhor momento para usar a carta na manga.
— É aquilo que eu te expliquei, cara. – Matheus prosseguiu depois de uma pausa, como se eu tivesse respondido – Já tá tudo certo, só faltava você chegar pra gente decidir tudo junto. Tá aqui um exemplo da capa.
Ele jogou uma folha de papel cartão pra mim, mas dessa vez eu não peguei. Dessa vez eu deixei ela flutuar por alguns segundos no ar fumacento antes de finalmente pousar no chão.
Eu não precisava olhar para a imagem que nunca conseguira realmente apagar da minha mente. Eu não precisava olhar para a foto de alguém — algo — que acabara de ver. Eu definitivamente não precisava ver a gravura de uma mulher ruiva com olhos amarelos vestida com penas pretas.
Então eu deixei a folha no chão, que misericordiosamente caíra de cabeça pra baixo, e permaneci olhando para o quadrado branco que contrastava com o piso escuro.
— E aí? Achou o quê?
Eu também não respondi dessa vez. Mas isso não mudava o fato de que na primeira vez eu havia respondido.
Eu havia rido e me jogado no chão pra acender um cigarro.
Eu havia respondido da primeira vez, e elas faziam questão que eu não me esquecesse disso.
Quando a fumaça ao meu redor ficou mais densa, e eu senti ela se fechando em volta de mim como uma cortina, eu sabia que já estava acordando.
Elas só tinham mais uma coisa pra me mostrar.
Fechei os olhos, e quando os abri novamente eu estava de volta à casa do começo do meu sonho, sentado na cama. Brisa não estava em lugar algum. Não esperava que ela estivesse.
A garota ruiva, no entanto, estava de pé bem na minha frente.
— Sabe por que te mostramos isso?
Eu continuei em silêncio. Minhas palavras não iam alterar nem impedir nada. Mas isso não a impediu de continuar a falar.
— Porque parece que você esqueceu do que aconteceu naquele dia. – ela se aproximou de mim e com um dedo ergueu meu queixo, fazendo com que eu olhasse diretamente para ela – Você estava todo corajoso, ignorando a gente, e fazendo todo tipo de coisa de gente da luz… Pensamos que seria melhor te lembrar porque você não pode.
— Eu não me esqueci de nada.
— Ainda assim. – ela sorriu, seus olhos amarelos com pupilas contraídas fazendo mais uma vez uma dupla com seu sorriso sinistro de tubarão – É bom refrescar a memória de vez em quando, não é?
— O que vocês querem de mim? O que mais? – quis gritar, berrar e cuspir na cara dela, mas minha voz não era mais do que um sussurro.
A garota apenas fez um muxoxo, sua cabeça balançando em decepção.
— Quanta raiva… – ela resmungou zombeteira – Isso é jeito de falar com as pessoas? E eu ainda me dei ao trabalho de tentar ser solidária! Fazia quantos anos que você não via o Matheus?
— Me deixa sair! – choraminguei, querendo que aquele pesadelo acabasse de uma vez, junto com as piadinhas dela.
— Sair? – ela inclinou a cabeça em diversão e riu em voz alta antes de voltar a falar – Vou deixar você acordar. Mas você não vai estar mais seguro lá fora, não importa quem esteja do seu lado. Você sabe disso, não sabe?
Fechei os olhos e cobri os ouvidos. Não queria mais ver o rosto assustador dela, nem ouvir suas palavras sombrias. Me concentrei no vazio e no silêncio, e esperei pela boa vontade delas.
Creio que chorei, creio que berrei.
Creio que lamentei não poder ter o futuro que eu queria ter.
Creio que esmurrei meu peito e amaldiçoei quem eu tinha sido, apesar de não ser capaz de voltar atrás e mudar o passado.
Creio que implorei por paz e por consolo.
Creio que ouvi ela dizer “Manda um abraço pro Matheus.” antes que eu sentisse a fumaça branca voltar a me envolver.
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“Cairá a ave no laço em terra, se não houver armadilha para ela? Levantar-se-á da terra o laço, sem que tenha apanhado alguma coisa?” Amós 3.5
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Dessa vez, quando eu acordei, eu sabia que tinha realmente acordado.
Eu continuava jogado no sofá da sala de estar da casa da Brisa — a casa dela mesmo, com o pastor Calebe, não um apartamento fantasioso — e Giga continuava jogando o que quer que fosse aquilo que ele sempre jogava. Exatamente como ele estivera quando eu desistira de entender o negócio dos reflexos e das refrações que o professor estava explicando mais cedo sobre os efeitos e as leis da ótica… Ou qualquer coisa parecida.
Agora que eu conseguia pensar claramente, eu também percebia que pouquíssimo tempo havia se passado desde que eu propositalmente jogara meu caderno sobre a mesa de centro, e inclinara a cabeça sobre o braço do sofá resmungando. Cinco minutos, se muito.
Quando um pesadelo é um pesadelo, ele não segue o tempo humano.
Dessa vez, quando eu acordei, eu não gritei, não esperneei, não fiz som nem movimento algum. Continuei imóvel, olhando para o teto, as mãos cruzadas sobre o peito, os pés alinhados com os ombros — a morbidez em pessoa, mesmo durante o sono.
Mas ao esfregar os meus olhos consegui me lembrar do tempo presente.
A gente ainda estava lutando pra concluir o ensino médio. Brisa ainda não tinha feito o jantar. O Exército da Paz (nome provisório) ainda era uma organização emergente que gravava vídeos no quarto do Giga e postava em uma conta com doze inscritos. O mundo ainda era um caos. E Brisa e eu continuávamos do jeito que sempre tínhamos sido.
Quanto a mim, eu continuava um caso perdido, eterno prisioneiro.
Depois dessa, talvez fosse mesmo melhor fazer as malas e ir embora de vez. Antes que fizesse danos irreparáveis.
Suspirei, prestes a falar uma frase muito filosófica e cheia de impacto moral pro Giga, quando Brisa desceu as escadas que nem uma louca correndo do fim do mundo numa Black Friday em pleno dia de pagamento.
Eu estava quase falando isso em voz alta quando ela finalmente chegou até a sala e eu pude ver que seu rosto estava pálido, seus olhos arregalados não conseguiam se fixar em lugar algum, e sua respiração estava errática e pesada.
— Você está bem? – minha boca estava aberta, mas foi Giga quem fez a pergunta, abandonando seu jogo devido à preocupação. Levantei-me do sofá e segurei-a firme quando ela começou a cambalear, e quase tive que impedir que ela caísse no chão quando seus joelhos amoleceram.
— Um rapaz… Me ligou agora, está desesperado… O amigo dele está quase tendo uma overdose ou algo parecido – a voz dela estava ansiosa, o corpo trêmulo, mas ainda assim ela conseguiu reunir firmeza o bastante para agarrar meu ombro com força e finalmente focalizar seus olhos em mim – Precisamos correr!
Normalmente eu evitaria levar uma pessoa em um estado semelhante ao de choque para ver um garoto prestes a morrer de tanta droga no corpo, mas se ela queria ir havia um motivo, e eu não vou contra os motivos da Brisa.
Se ela estava tão nervosa assim também havia um motivo, uma vozinha sussurrou no fundo da minha cabeça, mas eu ignorei.
Quando Brisa conseguiu se equilibrar sozinha, soltei-a e fui até Berenice — que dessa vez conseguiu ver o clima da situação e ligou sem problema — já me preparando para o que quer que o mundo real tinha preparado para mim, até que vi que Brisa ainda estava parada onde eu a tinha deixado, olhando fixamente para o chão.
— Entra no carro. – Apressei-a. Se tem uma coisa que é rápida pra acabar com a vida de alguém é uma overdose. – Brisa, você está bem? – Claro que ela não estava, mas se ela queria chegar à tempo de salvar alguém ela tinha que correr.
Ela praticamente se jogou na poltrona do carona, suas mãos tremiam demais para conseguir puxar o cinto de segurança, então começou a mastigar suas unhas, a ansiedade e o medo mais evidentes do que qualquer outra coisa no seu rosto.
— Brisa?! – esperei que os olhos dela se voltassem para mim – O endereço.
Ela assentiu muda, e eu temi que ela não tivesse entendido direito, até que ela ditou para mim, sua voz ressoando como um sussurro ensurdecedor.
Meu coração parou no peito, e o mundo ficou congelado por alguns instantes.
Mas é claro que sim. Por que não? Pensei enquanto escutava o nome do local que estava indo visitar naquele exato momento. Afinal, elas gostam de se divertir. E uma boa novela sempre tem que ter as melhores reviravoltas, as melhores ironias. As melhores brincadeiras e pegadinhas.
“Sabe porque te mostramos isso?” Bem, agora eu sabia. Palmas para vocês.
Não há esperança alguma. De fato, nunca houve. Não para mim. Quando um pesadelo não é só um pesadelo ele não acaba nunca, não importa o quão longe você vá.
Tirei o carro da garagem e comecei a dirigir para a casa do Matheus.
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“Onde está então a minha esperança? Alguém saberá encontrá-la? Não, a minha esperança vai comigo para a cova. Descansaremos ambos debaixo da terra.” Jó 17.15
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