Beyond
39 Brisa
Notas iniciais

— Já posso colocar no forno, dona Lúcia? – perguntei segurando a travessa de vidro que pesava meia tonelada.
— Pode, minha filha, e não se atreva a me chamar de dona novamente. É Lúcia para você.
Era notável de onde Adriano tinha puxado as gracinhas. Depositei o recipiente no forno sentindo as bochechas queimarem com o calor. Girei e reparei na bagunça. A cozinha estava um caos, mas o almoço seria uma delícia.
—Tem certeza que seu Pai não vem? – ela perguntou, com as mãos ocupadas com a louça que nunca acabava. Peguei uma vassoura e tratei de limpar o chão.
— Não, ele está em uma Congregação hoje, fora da cidade. Só deve chegar à noite.
— E você vai ficar a tarde toda sozinha? – e o seu filho vai deixar?, pensei. – Você pode ficar aqui comigo.
— Não tem problema dona – olhar de repreensão. – Lúcia, só Lúcia. Eu estou precisando mesmo ficar sozinha e pensar em algumas coisas...
— Adriano fez alguma coisa? Eu quebro aquele garoto se ele tentar machucar você.
— Não, não. Seu filho tem sido muito bom pra mim – que ele não ouça, que ele não ouça. – Foi uma amiga. Quer dizer, eu achava que era. – a reparei franzindo as sobrancelhas. – Mas isso é algo de que você não quer ouvir falar. Eu tenho certeza.
Ela enxugou as mãos no pano de prato sentando na cadeira e dando dois tapinhas ao seu lado me convidando – ou obrigando. – a fazer o mesmo.
— Você precisa desabafar com alguém, e este alguém sou eu.
— É que – deixei escapar um suspiro. Aquilo estava me consumindo. Eu tinha que falar com alguém. Mas uma pessoa trinta anos mais velha que eu? Que seja! – Eu tinha uma amiga na Igreja, e ela louvava e adorava junto com o grupo de adolescentes. Sempre convicta do que acreditava. Era um exemplo. Então eu encontrei-a há uns dias e ela... Ela está completamente mudada – Lúcia virou para mim. — Ela me provocou e ofendeu a minha fé, a mesma que ela antes defendia. Eu não consigo entender como uma pessoa muda tão rápido...
— Menina, eu sei que você é novinha, mas eu percebo que você já passou por muita coisa para alguém da sua idade – ela segurou minha mão nas suas. Não pude não pensar que poderia ser minha mãe naquela mesma situação. Olhou em meus olhos, como quem tem algo importante para falar. – Há pessoas que guardam coisas escuras por dentro. O seu verdadeiro eu, debaixo de chaves e cadeados. Escondem tão profundamente que seus segredos são quase imperceptíveis. Mas por mais que tente ninguém é capaz de mantê-los encobertos para sempre.
“Assim, se a luz que está em você virar escuridão, como será terrível essa escuridão!”
Mateus 6:23b
***
— Mentira, que a Letícia agora é menina rebelde sem medidas – Sofia ironizou do outro lado da linha. Eu não contaria aquilo pra todo mundo. Mas Sofia era uma das pessoas que testemunhara a versão cristã da garota. E eu ainda precisava de uma solução para o caso. – É assim que a gente conhece as pessoas... E você falou o que pra ela?
— O que eu poderia dizer? Falei que Deus ainda a amava. Que ela poderia voltar, mas ela só quis me ofender, dizendo que a igreja era a minha prisão.
— Ela está nas drogas. Só pode.
— Nem brinca com uma coisa dessas... – me estirei no sofá, sentido os músculos reclamarem. Eu estava tensa desde aquela conversa. – Não consigo tirar isso da cabeça.
— Pois eu vou tirar agora. Que história é essa de ser best friend da sogra? Já está me substituindo?
— Quem te disse isso? – sentei sobre as pernas.
— Meu futuro cunhado assaltou seu celular e me atualizou sobre as coisas que você esconde, senhorita.
Ele vai morrer.
— Eu não sei como Adriano é fruto de uma pessoa boa como a Lúcia.
— Lúcia, olha que intimidade... – ela riu como uma hiena. – E onde está o Adriano bonitão, que não te deixa sozinha um dia sequer? Ainda mais quando seu pai está fora da cidade...
— Aquele tormento está na lanchonete trabalhando. Vai virar a noite fazendo entrega.
— Ai, como eu queria um tormento desses...
Aquele silêncio se fez. Aquele quando as duas mentes estão ocupadas em pensamentos aleatórios. Sofia em adolescentes galãs – longe de o Adriano levar um título desses. –, eu na pessoa que trocou sua fé pelo mundo de ilusões.
— Sofia?
— Fala.
— Não consigo pensar em outra coisa – suspirei, sentindo o turbilhão de culpa.
— De novo esse assunto da Letícia, Brisa?
— Eu vou deixa-la desse jeito? Sem acertar os erros dela, sem tentar corrigi-los?
— Vai. Não há nada que você possa fazer.
— Como nada, Sofia? Eu vou ceder à teimosia dela?
Foi a vez de ela suspirar. Quando voltou a falar, tinha um tom de voz suave.
— Jesus bate à porta, Brisa. Ele não invade. Faz o convite. Oferece. Dá uma alternativa. Promove uma reflexão. Abrir ou não é uma decisão de quem está lá dentro.
Calei-me. Odeio admitir, mas a garota que na maioria das vezes não falava coisa com coisa estava certa. Eu só poderia atribuir uma reflexão dessas ao Espírito Santo, porque deste ser humano sem juízo não saiu.
— Amiga, tenho que desligar. – ela me tirou dos meus pensamentos. — Vou fazer fisioterapia agora e testar minha nova perna.
— E eu nem te perguntei... Como você está?
— Ontem dei seis passos, eu nunca pensei que demoraria meia hora pra realizar esse feito, mas me sinto o Usain Bolt depois de bater um recorde. Estou louca pra ir ao shopping e comprar tudo o que o meu coração anseia: sanduíches super gordurosos com copos de meio livro de milk shake.
Shopping. Só aquela menção me fez lembrar a mulher dos olhos amarelos que também me atormentava.
— Por falar em shopping, tenho que te contar uma coisa estranha que aconteceu semana passada.
— Depois você me conta. – ela interrompeu. — E não pira. Você já fez tudo o que podia pela Letícia. Deixe que ela decida o que vai fazer de si mesma.
“Escutem! Eu estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa, e nós jantaremos juntos”.
Apocalipse 3:20
***
— Larga a minha mão – eu disse, empurrando-o.
— Você não pode ser nem um pouquinho meiga, hein? Quem é o macho da relação aqui?
— Que relação?
— Agora você machucou meus sentimentos – ele sentou no meio fio emburrado.
— Adriano, eu estou cansada. A gente ajudou umas dez pessoas hoje. Eu só quero chegar em casa, tomar um banho, comer e dormir.
O Sol já estava se pondo. A rua vazia. E eu não estava a fim de adular ninguém.
— Você vai me dar comida? – ele tentou parecer fofo.
— Tenho outra escolha? – ele fez que não com a cabeça.
Virei as costas para ele, esperando que me seguisse.
— Brisa... – ele sussurrou.
— O que foi agora? – Girei.
Protegi os olhos com as mãos. Um clarão me atingiu com força.
Silêncio.
Caminhei em direção à luz.
Silêncio.
Minha respiração ofegante. O coração aos pulos.
Som. Vozes. Multidão de Vozes.
“Aleluia! Aleluia! Aleluia!”
O chão tremeu debaixo dos meus pés.
Um trovão fez o céu se abrir.
Uma nuvem extremamente branca descendo à Terra.
Mais vozes. Trombetas. Luz.
Minhas pernas tremiam. Eu vivi até esse momento. Eu vivi para ver isso. As lágrimas molhavam meu rosto.
A Luz era tudo.
Dei mais alguns passos e focalizei a visão.
De cima da nuvem estava um cavalo branco e sobre ele, o Cavaleiro, o Príncipe da Paz, o Rei do Universo, Aquele que era, é, e finalmente veio.
Ele brilhava mais que o Sol, sua presença fez o tempo parar. Uma música distante soava.
O Coral de anjos!
Ao redor do trono, vários pontinhos luminosos, que foram se aproximando até eu reconhecê-los: O Exército Celestial.
Ele voltou! Ele veio nos buscar!
— UHUUU!!! – gritei com os braços levantados, pulando de alegria. – Adriano, Jesus voltou! O grande Rei voltou! Adriano?!
Ele não estava ao meu lado. Estava indo na direção contrária. O que deu nesse menino? Corri até ele.
— Onde você está indo? – ele parou abruptamente. O capuz preto cobrindo a cabeça. – Adriano, Jesus voltou, a gente vai poder ir para o Céu!
Ele murmurou algo.
— O que? – perguntei me aproximando. Meu sorriso se desfazendo.
— Não há esperança. – Ele disse, me encarando com seus olhos, duas poças negras, sem nenhum vestígio de outra cor.
“Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre.”
1 Tessalonicenses 4:16,17
***
Esses dias eu estava orando mais. Estava pedindo a Deus que me mostrasse o que estava errado. O que meus olhos não enxergavam, mas que meu espírito percebia e estranhava. Não era algo bom.
Definitivamente, era assustador.
Primeiro a história do shopping. As ligações cruzadas, os manequins, a mulher de olhos amarelos... E Adriano. Me tirando do sério como um total desconhecido – irmão gêmeo, por sinal. – na loja. Me assombrando nos meus pesadelos.
Depois de olhar em seus olhos escuros, eu acordei ofegante no sofá. Tinha caído no sono depois de conversar com Sofia. O pesadelo me fez pensar em algo espiritual que está ao meu redor. Não apenas rodeando, mas provocando. Arquitetando. Buscando brechas, conexões.
Algo estava ligado a ele. Adriano. Eu só precisava descobrir o que.
Meu pai abriu a porta num relance. Me assustei.
— Minha filha, acordada até essa hora? – ele fechou a maçaneta, jogando a chave sobre a mesinha e beijando minha testa. – E essa cara de assustada?
— Só um sonho. – coloquei o cabelo atrás da orelha e tratei de disfarçar. – Vai comer alguma coisa?
— Não, está muito tarde.
Ele se jogou no sofá. Passou o braço sobre meus ombros.
— Tudo bem por aqui? Onde está Adriano?
Levantei a sobrancelha.
— Muito bem, pergunta por Adriano antes de mim?
Ele apertou minha cabeça junto ao seu peito.
— Porque eu já sei que você ainda está preocupada – ele alisou meus cabelos. – Não faça isso consigo mesmo, minha filha. Há coisas que não dá pra entender.
Senti os olhos se encherem de lágrimas. Por que meu pai me conhece tão bem?
— Como alguém abandonar a Jesus desse jeito? A odiá-lo desse jeito? Tendo-o conhecido...
Meu pai suspirou e deixou eu me acalmar. Depois falou com suavidade.
— Há um verso em 2ªPedro que diz que era melhor para alguns nunca terem conhecido a verdade do que conhecendo-a darem as costas à sua fé. Você pode orar por sua amiga, mas não obrigá-la a crer no que ela não quer. O próprio Jesus não obriga ninguém, todos devemos ir a ele por vontade própria.
O sentimento de impotência ainda apertava meu peito. Eu sabia que tinha que deixa-lo ir, mas o fato de eu ajudar as pessoas todos os dias de seus mais variados medos e dramas só me dava a impressão de que conseguiria salvar a todos. Mas eu não podia.
— Você entende, minha filha? – seus olhos buscavam uma confirmação nos meus. — Eu espero que ela mude, o caminho que ela está trilhando não a leva para um lugar bom. Mas essa escolha é dela. É de cada um de nós.
“Ó Senhor, esperança de Israel, todos os que te abandonarem Sofrerão vergonha; aqueles que se desviarem de ti terão os seus nomes escritos no pó, pois abandonaram o Senhor, a fonte de água viva.”
Jeremias 17:13
***
— Brisa?
— Adriano, seu idiota – esfreguei os olhos, focalizei o visor do celular – São três da manhã, e eu não te dei a liberdade de me acordar de madrugada. Muito menos em qualquer outro horário.
Ele escutou pacientemente às minhas reclamações. Há algo muito errado.
— O que aconteceu? Desembucha logo.
— Você está sentada?
— Deitada. Fala.
— Em primeiro lugar, eu não queria te acordar assim...
— Vá logo ao ponto, Adriano! — gritei impaciente.
— Aquela garota com quem você discutiu no shopping, aquela que quase te incinera com os olhos, ela...
— Ela o que, Adriano?
— Ela morreu, Brisa. A moto capotou em frente à lanchonete – o garoto tremeu a voz. — Eu consegui alcançá-la. Mas não havia nada a fazer. Seus olhos estavam abertos e não havia mais vida neles.
Ela não teve tempo de se arrepender.
“Antes de nascerem os montes e de criares a terra e o mundo, de eternidade a eternidade tu és Deus. Como uma correnteza, tu arrastas os homens; são breves como o sono; são como a relva que brota ao amanhecer; germina e brota pela manhã, mas, à tarde, murcha e seca. Conheces as nossas iniquidades; não escapam os nossos pecados secretos à luz da tua presença. Todos os nossos dias passam debaixo do teu furor; vão-se como um murmúrio. [..] a vida passa depressa, e nós voamos!”
Salmo 90:2,5,6,8,9,10b.
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