Beyond
40 Adriano
Notas iniciais
“Antes que se escureçam o sol e a luz, e a lua, e as estrelas, e tornem a vir as nuvens depois da chuva; porque o homem se vai à sua casa eterna, e os pranteadores andarão rodeando pela praça; antes que se rompa a cadeia de prata, ou se quebre o copo de ouro, ou se despedace o cântaro junto à fonte, ou se desfaça a roda junto à cisterna” (Ec 12:2, 5c, 6)
A terra parecia engolir o caixão conforme ele descia na cova. Como uma trilha sonora de fundo podia-se ouvir o choro desesperado de uma mãe que abraçava um pai desconsolado. Amigos se reuniam em grupos, apoiando-se uns nos outros. O restante dos familiares ainda não conseguiam acreditar.
— Cê tá legal? — Minha voz saiu baixa. Vozes sempre soam baixas quando você está em um cemitério.
Brisa não respondeu.
Brisa também não buscou conforto, consolo ou qualquer outro tipo de apoio durante toda a cerimônia e o cortejo fúnebre. Apenas assistiu silenciosa e a uma certa distância, olhos frios e sem emoção.
— Brisa, já podemos ir. — Toquei seu cotovelo de leve, mas se ela tinha percebido não demonstrara.
Voltei meus olhos para os últimos momentos do processo de despedida daquelas pessoas que eu nem sequer conhecia. Dois homens com rostos inexpressivos prosseguiam, encarregados do trabalho duro de volver a terra de volta ao seu lugar inicial. O som das pás, fazendo companhia à melodia irregular do choro materno, parecia ecoar até os limites do cemitério.
Nenhum barulho ecoa para fora do cemitério.
Assisti a areia cobrir lentamente o fundo da cova e então o casulo de madeira. O choro da mãe ficou mais alto, mas meus olhos estavam fixos no caixão que a cada movimento dos trabalhadores desaparecia mais um pouco.
Eu ainda podia ver os olhos dela. Podia sentir o sangue dela na ponta dos meus dedos. Podia lembrar do peso do seu corpo sem vida. E agora, apesar de todos eles já estarem sendo devolvidos à terra, eu sentia como se eles ainda estivessem bem ali, me observando.
Me estudando.
Me julgando.
Me dizendo:
“Não há esperança.”
O choro da mãe morreu subitamente, a exaustão vencendo seu luto.
O som das pás virando a terra não parou por um segundo.
— Eu não quero falar sobre isso. — Foi tudo o que ela disse quando entrou no carro.
— Tudo bem. Mas você devia. — Voltei o olhar para ela, mas ela se recusou a encontrá-lo. — Eu sei que vocês tinham brigado e tal, sem falar sobre a situação dela, mas você precisa encerrar esse assunto de alguma maneira.
— Ela morreu. E acabou de ser enterrada. — Seus olhos não se desviaram do para-brisa quando ela deu de ombros — Não vejo de que outra forma eu poderia encerrar o assunto.
Dei partida no carro — minhas preces haviam trazido a Berenice de volta à vida — e atendi o seu pedido de não conversar sobre os eventos recentes, mantendo meus olhos fixos no trajeto. De maneira alguma pensando no cadáver que acabara de ser sepultado, ou no seu olhar vazio, como dois buracos negros que sugavam minha vida.
Não há esperança.
Pisei no freio bruscamente, quase não vendo o quebra-mola à minha frente, e já me preparando para o discurso de consciência no trânsito da Brisa. Tudo bem que a Berenice era preciosa pra mim, ela não perderia a chance de tirar uma com a minha cara e começar a me acusar de imprudência. Então eu responderia ela de alguma maneira, em um nível totalmente superior, e ela iria entrar na defensiva, e sem perceber tudo voltaria ao normal antes mesmo de chegar em casa.
Exceto que o discurso nunca veio.
Olhei rapidamente para o meu lado, e vi que ela observava quietamente o mundo através de sua pequena janela. Nem sequer parecia ter notado que eu quase jogara o carro em cima da lombada, nem percebera a parada súbita do veículo. Ela estava fora de órbita, e apesar de não ter procurado por conforto, e até mesmo ter declarado que não estava a fim de conversar, eu sabia que tinha que dizer alguma coisa para ela se sentir melhor. E, sinceramente falando, eu nasci pra esse tipo de coisa.
— Então... — Ótimo começo, Adriano. Grande garoto, agora elabora — Já que seu pai está fora hoje... — Não pisa na bola agora, meu filho — Eu queria saber... — É sua chance! — Se você vai almoçar lá em casa hoje.
Senhoras e senhores, esse foi eu, estragando tudo o que construí.
A pergunta fora idiota e meio (muito) fora de contexto, mas ela finalmente se virou para mim, então eu contei como uma pequena vitória.
— Achei que sua mãe fosse viajar hoje... — ela respondeu, a voz sem emoção alguma — Eu não teria ido ao cemitério se eu soubesse que ela estava me esperando.
— Você não precisa ir se não quiser. — Me apressei a corrigir meu erro — Tenho certeza que minha mãe vai entender.
— Não. Eu vou. Só passa em casa antes pra eu tomar um banho antes.
— Tem certeza?
— Eu tô bem, Adriano.
Ela não estava bem, e isso era óbvio, mas eu não achava que havia uma maneira de fazer ela admitir isso. Também não conseguiria oferecer a ela palavra alguma de conforto. Que tipo de coisa eu poderia dizer em uma situação daquelas?
Prosseguimos o restante do percurso sem falar nada; eu sem mais nenhuma tentativa de estabelecer uma conversa, ela sem qualquer sinal de querer iniciar diálogo. O cemitério não era tão longe da casa dela, mas o silêncio fez parecer que uma eternidade havia se passado quando finalmente chegamos à sua casa.
— Pode entrar e esperar enquanto eu me arrumo. — ela falou antes de tirar o cinto e sair do carro. — Acho que tem alguma coisa na geladeira, se você quiser fazer um lanche.
Fiquei imóvel no meu banco por alguns minutos. Tudo bem, é claro que eu ia entrar na casa, e é óbvio que eu ia assaltar a geladeira dela. Mas Brisa me oferecendo abrigo? E comida? Deliberadamente me dando permissão para invadir seu lar? E livre acesso aos seus mantimentos? Ela estava pior do que eu imaginava.
Era hora de partir pro ataque. No fim das contas talvez não fosse tão ruim assim ter feito o convite da minha mãe à Brisa, porque ela realmente precisava de um pouco de distração; talvez assim ela se abrisse mais. Porque se Brisa pensava que ela podia simplesmente dar uma passadinha para uma breve visita, então ela definitivamente não conhecia a mãe.
Evitei o sofá perto da mesinha de centro na sala.
Me chame do que quiser, eu não ligo. Mas eu definitivamente estava evitando o livro com o rato na capa.
Então, ao invés de relembrar coisas que ficam melhores deslembradas eu caminhei pela sala enquanto esperava Brisa.
É claro que antes eu fui na cozinha pegar um delicioso sanduíche de patê de peito de peru (tá, foram cinco, mas em minha defesa eu amo patê de peito de peru), mas enquanto eu dava o máximo de mim para olhar para qualquer lugar exceto o livro repousando inocentemente sobre as outras revistas eu percebi que nunca dera atenção aos porta-retratos espalhados pela casa da Brisa, mesmo depois daquele tempo todo sendo um semi-hóspede na casa dela.
Por isso a caminhada.
Aquela casa tinha muitos porta-retratos. Sério, eu sempre achara que minha mãe era exagerada, até perceber que praticamente todas as mobílias da sala de estar da Brisa tinham no mínimo uns três à quatro retratos. E eu nem vou falar das paredes.
Haviam diversos tipos de fotos, espontâneas, ensaiadas, de aniversários, de momentos aleatórios, de momentos especiais, de parentes distantes e de amigos próximos.
E por fim o quadro que quase me passou despercebido: o nosso. O único numa mesinha de canto, quase como que num local de honra, separada das demais. Numa moldura verde limão que, apesar de não ser cara, definitivamente havia sido escolhida a dedo e comprada especificamente para aquela foto.
Não falei? Perdidamente apaixonada.
Claro que ela tinha colocado uma foto da galera toda na casa do Giga, o que o pai dela diria se assim não fosse?
Ainda assim, 'nós' estava lá, sorrindo que nem idiotas por já ser tarde e estarmos caindo de sono, mas tava rolando esse desafio de selfies e eu fui obrigado a aparecer numa câmera depois de muitos anos vivendo longe das lentes.
A foto não estava boa, eu me mechera demais na hora e meu rosto ficou todo embaçado, mas ainda assim ela se dera ao trabalho de arranjar uma moldura para ela.
Uma moldura para a única foto de nós dois.
Meu coração correu a maratona de São Silvestre e sambou pela Marquês do Sapucaí inteira no meu peito, e eu segurei o sorriso mais idiota da minha existência.
Não falei? Completamente apaixonado.
Ai ai, esses jovens...
— Brisa, tem certeza que não quer mais um pedacinho de lasanha? — Minha mãe era toda sorrisos.
— Não, eu já tô cheia. — Brisa respondeu pela terceira vez.
— Mas já? Você quase não comeu do frango assado.
— Mas comeu rocambole o suficiente. — Intercedi pela pobre garota.
— Sem falar do peixe grelhado. — Meu pai também se compadeceu.
— Então eu vou deixar o estrogonofe pra próxima vez que você vier. Tem algum compromisso pra amanhã?
— Mãe…
— Só estou sendo educada, querido.
— Brisa volta quando tiver tempo, não precisa pressionar ela.
— Tudo bem. — Minha mãe desistiu da luta levemente chateada antes de perguntar com uma voz alegre — Quem quer sobremesa?
Falei que Brisa não ia conseguir ir embora tão cedo...
Depois do lindíssimo jantar, duas sobremesas e um docinho básico, eu me ergui sutilmente da mesa, ignorando o olhar assassino e frio de uma certa menina que definitivamente não queria mais estar ali. Meu pai aproveitou a deixa e escapou comigo.
Brisa não teve tanta sorte.
Mas se ela não queria conversar nem comigo, então certamente minha mãe era a melhor opção pra fazê-la sair da concha e se abrir para o mundo. Você não consegue sair do luto por conta própria, eu sabia disso, minha mãe sabia disso. Você precisa de alguém ao seu lado, minha mãe sabia, eu sabia. Minha mãe só não sabia que Brisa agora estava passando por um desses processos.
Me chame de desumano, de covarde ou de fraco, eu não ligo.
Provavelmente é verdade.
Mas ao menos Brisa estava conversando, e olhando diretamente para minha mãe enquanto fazia isso, o que era mais do que eu conseguira desde quando eu fora vê-la naquela noite. Na noite em que eu vira o corpo de uma garota ser arremessado contra o concreto.
“Vocês não vão levar ela pro hospital?!”
“Garoto, já fizemos tudo o que podíamos.”
“Mas o equipamento…”
“Não tem nada, garoto! A gente podia carregar uma UTI inteira naquela ambulância que não adiantava! Ela morreu na hora!”
“Mas o desfribilador…”
“Já é tarde! Não há esperança.”
Minha mãe não ia deixar Brisa sair antes de tomar uns três cafezinhos. Minha mãe também ia me matar quando soubesse a condição que a menina tava quando eu a trouxera. Sendo assim era melhor eu ocupar o meu tempo com algo útil, e também que fosse me livrar de uma morte lenta e dolorosa da minha genitora.
Fui lavar a louça.
Não há tarefa tão insuportável quanto a de lavar louça. Mas era exatamente o que eu precisava para tirar minha mente de eventos recentemente passados.
Nem sabia quanto tempo havia se passado — a pilha de utensílios que minha mãe tinha usado parecia ser infinita — quando ela falou atrás de mim:
— Fugindo de mim ou dos seus pais?
— Da minha mãe. — respondi depois de ponderar um pouco.
Ela se aproximou da pia e ficou ao meu lado; braços cruzados e olhos fixos no chão.
— Você armou pra mim... — a voz dela já estava menos apática.
— Minha mãe. — joguei a culpa pra outro.
— E agora tá querendo parecer legal?
— Pra minha mãe.
— Você queria me fazer conversar.
— Não tem ninguém melhor que minha mãe pra fazer isso.
— E ignorou o fato de que eu não quero falar sobre isso.
— Brisa…
— Eu não vou, Adriano. — Ela ainda não olhava para mim
— Você precisa…
— Você não sabe do que eu preciso, então para de me forçar a fazer o que eu não quero. — Ela me cortou, sua voz agora com uma centelha de raiva. — Isso é desumano!
— Desumano? — abandonei os pratos e me virei pra ela — Sua amiga morreu e você nem sequer fez uma expressão de tristeza!
— Ela não era minha amiga.
— Era alguém que você conhecia! Alguém próximo a você! Não vai nem se sentir mal?
— Pra quê? A gente não se falava há meses.
— Porque se você não botar pra fora vai acabar se sufocando nesse luto, e eu não vou ver isso acontecer. — Aproximei-me dela rapidamente.
— Não sinto luto.
— Sente sim.
— Cala a boca! — A voz dela se ergueu e ela finalmente se virou pra mim, seus olhos queimando — Você não sabe como eu me sinto! Você nem sabia que ela existia um mês atrás!
Houve silêncio então, se meus pais tinham ouvido nossa discussão haviam preferido ficar fora dela, e eu repassei meu discurso que preparara no carro antes de começar a falar.
— Quando eu era mais novo eu tinha um amigo…
— Eu não quero saber. — Ela voltou a olhar para o chão.
— É sério, ouve aí. — Falei com meu tom mais pacifista possível — Eu tinha um amigo chamado Tiago. Era um daqueles meninos que todo mundo gosta, que faz todo mundo rir, sabe? E era mão aberta, ajudava todo mundo…
— Parece um cara legal. — Ela murmurou.
— Eu não suportava o imbecil. Tinha um humor sujo, ria alto demais, espalhafatoso demais, achava que o mundo era o playground dele. — Prossegui minha história antes de ser interrompido.
— Parece com você.
— Não ouse! — Exclamei indignado — Não sei explicar bem, mas ele me dava dor de cabeça só de olhar.
— Familiar.
— Silêncio! — Cortei as interrupções de uma vez — E o imbecil era falso. Não tinha uma pessoa que ele não falasse mal pelas costas. Mas a galera andava com ele, e todo mundo chamava de amigo, sabe porque? Porque era rico. E mesmo que ele agisse de maneira arrogante quando pagava uma rodada pra geral, a gente tava ganhando bebida de graça, então tinha que tolerar o cara.
Liguei a torneira e terminei de enxaguar os pratos que havia ensaboado quando Brisa chegara, ganhando um breve espaço de tempo de prosseguir.
— Daí o pai dele faliu, e tudo o que era ruim nele aumentou. — Rolei os olhos ao lembrar do cara — Ele era estúpido, achava legal ser estúpido e chamava todo mundo de estúpido. E era intrometido, sempre gritando besteira sem graça, e ninguém ria, mas ele continuava se achando o máximo.
— E tinha gente que gostava dele?
— Na verdade ninguém aguentava ele. Eu só chamo ele de amigo por força do hábito mesmo, perdi todo o contato quando ele se mudou pra São Paulo. — Fechei a torneira e suspirei — Uns quatro meses depois chegou a notícia que ele tinha morrido. Ninguém sabia como, uns diziam que tinha sido um assalto, outros batida de carro, ouvi até que tinha sido um incêndio familiar ou suicídio. O fato é: o cara tava morto. E acredite ou não, todo mundo ficou arrasado.
Houve mais um instante de silêncio, Brisa ainda olhando para o chão.
— Era um menino da nossa idade. Andou com a gente, bebeu com a gente, conversou com a gente. A gente fazia rodinha pra falar mal do cara, e o cara tava morto. Não existia mais. Simples assim. — Enxuguei as mãos e me pus ao lado dela, meu corpo meio apoiado na pia — Mas sabe, o pior não foi o choque.
— Não? — Os dedos dela se contorciam em volta da bainha de sua camisa.
— Não. O pior foi me sentir insignificante, incapaz de mudar coisa nenhuma, uma coisa pequena que não tem influência alguma nesse mundo. Ele era um cara da minha idade, e apesar de chato ele nem sempre tinha sido insuportável. Eu poderia ter tido alguma espécie de influência nele? Foi o que sempre me perguntei. Se eu tivesse tentado ajudar o cara de alguma maneira diferente, se eu não tivesse me contentado com a situação dele, já que não era problema meu, ele ainda estaria vivo? Eu poderia ter evitado a morte dele com alguma ação inicial minha? Se eu podia, então porque eu não fiz?
— Porque não havia nada a ser feito, talvez.
— E como eu poderia ter certeza disso? Eu nunca vou saber. Depois que ele morreu eu me perguntava todo santo dia: o que mais eu poderia ter feito?
— Já conseguiu alguma resposta?
Dei de ombros.
— Uma não muito satisfatória, mas que aprendi a aceitar com o tempo: Só podemos fazer o nosso melhor, mesmo que às vezes não seja o bastante. E, pegando as palavras de um cara muito massa: “Basta a cada dia o seu mal, por isso comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”.
— Você misturou duas falas, idiota. — ela rolou os olhos antes de virá-los para mim.
— Importa? Meu discurso foi lindo.
— Me deu vontade de te bater.
— Mas você vai é me abraçar que eu sei.
— Imbecil.
Ela se desencostou da bancada/pia e me abraçou.
— Eu prometo que converso sobre isso, — a voz dela saiu abafada, o rosto enterrado na minha camisa — mas agora eu quero ir pra casa.
— Tá certo. — apoiei meu queixo na cabeça dela, envolvendo sues ombros com meus braços — Deixa eu dizer pra minha mãe que o petit gateau fica pra próxima.
— Berenice parece estar inteira ainda.
Meu pai disse assim que eu desci da varanda, olhos fixos no carro que ele prezava desde a juventude. Brisa se despedia da minha mãe dentro de casa, e sabendo o tanto de coisa que minha mãe ia falar (que tipo de coisa ela ia falar) eu preferi ir me adiantando e ligar a Berenice. A pobre coitada havia ficado aquele tempo todo sem nenhuma companhia, alguém tinha que remediar aquela situação.
— Até parece que eu ia deixar alguma coisa acontecer com ela. — comentei abrindo as janelas para o ar quente escapar.
— Sempre pensei que algum dia você ia vender ela pra comprar drogas. — meu velho comentou, ainda sem olhar para mim.
— Nunca cheguei a esse ponto. — Retruquei em uma voz baixa, sem saber o que mais dizer. Incomodava ter o meu pai lembrando que tipo de pessoa eu costumava ser.
— Era só uma questão de tempo até chegar.
Não havia como negar o que poderia ter acontecido, então dei de ombros.
— Parece que até nisso eu lhe decepcionei. — Respondi da maneira mais calma o possível, não havia pra quê jogar na cara dele o meu orgulho ferido.
— Mas nunca sua mãe.
— Decepcionei ela sim. — Baixei a cabeça, preferindo admirar meus novos tênis.
— Não, não é isso o que eu quis dizer. — Ele se virou para mim, mas não encontrei seu olhar — Ela nunca achou que você estivesse perdido para sempre.
— Eu achei que estava.
— Mas você nunca achou que alguém lhe salvaria. — Ele completou meu próprio pensamento.
— Como você sabe? — Dessa vez eu olhei para ele.
— Porque eu nunca achei também. — Meu pai respondeu meio sem graça.
Sorri sem jeito, já compreendendo o ponto que ele queria chegar e interrompendo-o antes que ele concluísse seu discurso entrecortado.
— Mas não foi a Brisa.
— Não?
— Brisa foi um dos motivos pra eu me consertar, sim. Mas não foi ela que me salvou. Na verdade ela mesma disse que não poderia me salvar. E eu aprendi com o tempo, ninguém pode salvar ninguém, nem mesmo a si mesmo.
— Deus? — sua pergunta carregava diversos questionamentos.
— Deus. — minha fala oferecia a única resposta
— Acha que foi ela que te levou pra Ele?
— Acho que foi Ele que me levou pra ela.
Ficamos em silêncio por alguns instantes, nenhum de nós sem saber como continuar a conversa.
— Talvez eu dê permissão pra você voltar pra casa.
— Talvez minha mãe não lhe dê outra escolha.
Eu sorri e ele sorriu. Nunca pensei que esse diálogo aconteceria de outra maneira.
— Mas quando você voltar, talvez você possa contar essa história desde o começo.
Fiz que sim com a cabeça e ergui as chaves da Berenice para meu pai — a casa da Brisa não era longe, eu bem podia levar à pé — mas ele continuou com as mãos no bolso.
— Cuide da Berenice como você cuida daquela garota. — ele disse simplesmente, ainda olhando para ela, mas dessa vez em despedida.
E não, eu não chorei de emoção, caso você esteja se perguntando.
Cerca de dois minutos depois minha mãe e Brisa saíram na varanda. Eu lutei bravamente para ignorar, ou até mesmo ser incapaz de ouvir, o que elas estavam falando, até minha mãe proclamar em alto e bom som:
— Namore alguém que lhe trate como meu marido trata aquela sucata.
— EI, SUCATA NÃO, MÃE!
— MAIS RESPEITO À BERENICE, !
— NÃO FOI SEU CARRO QUE COZINHOU PRA VOCÊ DURANTE VINTE ANOS!
Olhei para Brisa ao meu lado, o semblante ainda abatido, mas agora eu sabia que ela me responderia quando eu falasse com ela. Pra ser sincero eu estava orgulhoso de mim mesmo, pois, apesar de eu sempre ter sido um apoio e/ou ajudante das pessoas atualmente, eu ainda não tinha sido de apoio moral à ninguém até agora. Eu sempre permanecera em segundo plano, deixando os abraços e as palavras bonitas para os demais. Afinal, eu nunca achara que alguém como eu poderia oferecer alguma influência positiva em alguém como Brisa.
Procurei pelas sombras durante o trajeto, mas só encontrava luz.
Quem imaginaria que minha sina chegaria ao fim?
Quem imaginaria que a maldição que eu carregara por tanto tempo ao ponto de não me lembrar da minha vida antes dela seria arrancada dos meus ombros?
Ergui os olhos para o céu, e não pela última vez agradeci a Deus por ser capaz de ver tanta beleza depois de viver por tanto tempo na escuridão. Também agradeci a Deus por ser uma criatura implicante e ter seguido a Brisa quase que 24 horas por dia depois de ter salvo ela de um time de jogadoras de vôlei loucas. Eu sabia que havia um motivo divino na minha entrada na vida dela.
Agradeci por agora poder me chamar de “uma pessoa boa”, por poder me caracterizar como alguém que faz o bem. Alguém que influencia as outras pessoas a fazer o bem.
O Exército da Paz, por mais ridículo que esse nome seja era uma prova disso. Pois pela primeira vez em toda minha vida eu via um projeto meu (meu e da Brisa, claro, mas ainda assim meu) gerar frutos — embora poucos, eram frutos, e eu estava feliz em ter sido usado para tal.
“Doce é a luz, e agradável é aos olhos ver o sol.” Ec11:7
Chegamos na casa dela afinal, e eu acabei decidindo ficar com ela durante a noite até o pai dela chegar. E também, quanto mais cedo ela conversasse sobre tudo o que acontecera recentemente, melhor.
— Vou esquentar os sanduíches de patê de frango pro jantar. — Brisa falou, a voz menos fria do que tinha sido toda a manhã.
— Só tem um. — eu falei, minha voz com o cinismo de sempre.
Ela não me matou, mas ela também não me ignorou.
— Então passe fome. — ela disse depois de cinco segundos de raiva controlada — Aquele é meu.
Ela subiu as escadas pro quarto — a menina tinha uma compulsão instintiva para tomar banhos — e eu preferi não arriscar minha sorte e comer o último sanduíche (só porque ela estava abatida não quer dizer que ela não acabaria arrancando minha pele). Ao invés disso, fiz uma nova caminhada pela sala de estar da Brisa.
A vida era linda, pensei. Breve e passageira, mas ainda assim linda. E uma outra conclusão que eu acabara de chegar era que vida era curta demais pra ficar me preocupando com o que ia acontecer comigo. E uma vez que eu deixara de ter medo, as sombras que me seguiam não tinham mais controle sobre mim, concluí. Elas farejavam o medo, e agora que eu não temia mais nada, eu me sentia mais leve do que já me sentira depois de toda uma vida na escuridão.
Minha vida um dia chegaria ao fim, e eu sabia disso. E apesar de meu passado ser uma mancha que eu preferiria esquecer, eu sabia que fazia algo bom com meu presente, e por seguir agora um alvo fixo e imutável eu me tornara inabalável, e podia ver com clareza uma luz brilhando no meu futuro.
A foto do Exército da Paz (minha e da Brisa) era mais uma vez a última do meu tour pela sala, e, assim como eu fizera mais cedo, me aproximei lentamente dela, após ter observado todas as outras. Caminhei em direção à moldura verde limão na mesinha de canto, desde o primeiro instante procurando o rosto dela e o meu na confusão que uma selfie em grupo sempre é, e me reconhecendo como o borrão disforme mais separado dos demais.
Senti um arrepio descer pela minha espinha, meu fôlego escapar dos meus pulmões e o calor ser roubado do meu sangue, à medida que me aproximava da foto, a sala agora envolta em trevas e os dedos gélidos que achei que tinham partido para sempre se envolverem em meu pescoço.
Minha garganta se apertou quando me lembrei nitidamente que eu não me mechera em momento algum quando tirara a foto. Minhas mãos começaram a suar frio quando tive a certeza que minha maldição ainda não me abandonara (não me abandonaria tão cedo). Minha mente foi nublada pelo medo quando notei que o vidro protegendo a fotografia, incólume quando eu o observara mais cedo naquele dia, agora tinha uma longa rachadura, cortando exatamente por sobre o meu rosto.
Um corvo gritou à distância e meu coração afundou.
O livro repousando sobre a mesinha atrás de mim me levou de volta à ilha imersa nas trevas.
Quando o pesadelo não é um pesadelo ele também não tem fim.
Não há esperança.
E que o espírito volte para Deus, que o deu.
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