Notas iniciais
10...

Senti Adriano se afastar de mim, e se a minha percepção funcionava bem, ele parecia bem apressado. A garota em minha frente tinha a franja espessa jogada sobre um olho. Brincos povoavam o lóbulo de sua orelha. E apesar de todas as mudanças na aparência – e de toda a raiva também. -, eu via em seus olhos que ela só estava pedindo ajuda.

— O que aconteceu com você, Letícia?

Ela riu.

— Você não se toca, hein, Brisa? Não sabe o quão tapada você é.

Ela carregava uma arrogância na voz que eu nunca ouvira antes. Ela não era nem de longe a mesma Letícia que participava do grupo de adolescentes da Igreja, que cantava, que atuava, que participava da nossa família. A saída dela foi tão repentina quanto a chegada. Deixou de ir à Igreja e fez questão de não se relacionar com ninguém que fazia parte dela.

— Letícia, Deus tem o melhor pra você, Ele te amou tanto que entregou Seu único filho para morrer no seu lugar...

— Não venha recitar versículos para mim! – ela me interrompeu. — Eu já li a Bíblia, já escutei a pregação, já tive fé, e o que você acha que eu recebi em troca? Nada! Essa vida com Jesus não tem nada a oferecer além de promessas falsas. Vocês só estão tentando enganar um monte de babacas que acreditam que o seu precioso ‘salvador’ vai voltar um dia. É tudo ilusão! Historinha pra criança.

— Letícia, não diga isso – senti a raiva subir pela garganta. – Você sabe muito bem que Deus é real. Que Ele opera maravilhas ainda hoje e que Ele vai voltar na hora certa.

— Chega, Brisa! – ela levantou o indicador para mim. – Pode parar de tentar me enganar com esse teu discursinho decorado. Essa enganação que teu pai te ensinou. Eu não vou cair nessa de novo.

— Você só pode estar brincando – me recusei a aceitar que ela pensava assim. – Você não acredita nisso de verdade.

Ela gargalhou com deboche.

— Verdade? Você quer a verdade? Eu estou vivendo a verdade, Brisa! E você continua no seu mundinho de mentiras!

— Isso não é vida, Letícia! – alterei o tom de voz em resposta.

— E o que você vive é? – ela estreitou os olhos. – Você precisa abrir os olhos, garota! Há tanta coisa para viver aqui fora! Tantas oportunidades! Eu tenho liberdade aqui. Não preciso ficar presa a uma vidinha de religião, cheia de regras! Igual a você! Encarcerada nessa prisão que você chama de Igreja.

Ela achava que eu estava atrás das grades? Talvez fosse bom pra ela olhar por outro ponto de vista e saber que ela mesma estrava trancando o cadeado de sua própria jaula.

— Você só precisa dar uma olhada aqui para fora e ver o que está perdendo. – ela ofereceu.

— Jesus é a minha casa – estabeleci com palavras convictas. Ela bufou, negando com a cabeça. — Foi Ele quem me tirou da prisão – olhei em seus olhos. — E eu, sinceramente não me importo com o que tem lá fora.

“Por causa disso muitos seguidores de Jesus o abandonaram e não o acompanhavam mais. Então ele perguntou aos doze discípulos:

— Será que vocês também querem ir embora?

Simão Pedro respondeu:

— Quem é que nós vamos seguir? O senhor tem as palavras que dão vida eterna!”.

João 6:66-68

***

Retornei marchando para a loja de roupas. Provavelmente tinha fumaça saindo da minha cabeça agora, pelo olhar que uma atendente me deu, mas sinceramente? Eu não estava dando a mínima! Eu só queria agarrar aquela outra criatura que me importunava e arrastá-lo de volta pra casa.

SÓ QUE O IMBECIL NÃO TAVA NO LUGAR QUE EU MANDEI ELE FICAR! Sério, o que custa obedecer uma única ordem minha? Espera. Eu mandei ele ir a algum lugar? Não importa, ele deveria ler meus pensamentos e estar bem aqui!

Rodei os olhos pelo lugar rapidamente. Não, não estava mesmo lá, o que resultaria em mais uma punição. Um mês sem comida, no mínimo! Entrei na boutique.

Caminhei em direção à uma parte da loja que eu sabia que tinha uma linda camisa cor de rosa. Adriano iria adorar!

Passei as camisas em vários tons rosados duramente, sem nem me importar com a outra mulher que dividia a arara comigo. Se ela estava lá, provavelmente também conhecia um idiota que iria receber o que merecia. Companheiras de guerra se reconhecem.

Repassei tudo o que Letícia me dissera na cabeça. Sério, como ela ousa insinuar que tudo o que ela viveu, todas as experiências com Deus que eu vivenciei ao seu lado foram em vão? Bem verdade que há algum tempo atrás, eu estava fora da Igreja. Mas eu nunca insultei Deus por isso. Eu usei pessoas, abusei das bebidas, machuquei meus pais, mas Deus? Eu sabia num escaninho da consciência que Ele tinha o poder de me fulminar em segundos se quisesse. Apesar de eu saber que Ele preferia me transformar a me destruir. A Letícia? Eu não sei o que Deus estava sentindo, eu estava furiosa.

— Problema com garotos? — minha companheira de guerra quebrou o silêncio, o olhar ainda fixo nas camisas.

Suspirei.

— Problema com todo mundo. — afirmei honestamente. Adriano não podia levar o crédito da minha completa e total irritação.

Ela deu uma risadinha, e eu não pude evitar erguer uma sobrancelha.

— Não se preocupe. — ela disse divertida — É da natureza deles nunca contar tudo. Eles sempre adoram uma mentirinha. — ela então ficou séria e virou para mim, me olhando fixamente com seus olhos amarelos.

Espera aí…

O toque alto do meu celular me deu um susto. Peguei-o rapidamente, atendendo Adriano e me voltando para a mulher estranha apenas pra ver que ela já fora embora.

— Cadê você? — perguntei de uma vez, não estava com paciência.

O silêncio foi a resposta.

— Deixa de gracinha, garoto. Cadê você? — minha voz abafou algo, então agucei os ouvidos para ouvir melhor. Um barulho distante durou por alguns segundos, então começou o que parecia ser uma música de rock.

Ah, pronto, agora o idiota ia ficar mandando implicância com as músicas dele que eu nem conhecia. Maravilhoso.

— Adriano, chega de brincar… — um barulho alto na ligação me interrompeu, estática forte substituindo a música — Alô? Alô? — perguntei várias vezes, mas ainda assim a ligação caiu.

Brincadeira sem graça.

Larguei as camisas de volta onde estavam e suspirei. O dia certamente não estava indo bem pra mim. Primeiro a Letícia, e agora o menino que eu tinha pego pra criar some. Sinceramente, eu vou acabar explodindo se ninguém…

— Adriano? — chamei o implicante que tinha acabado de passar direto por mim, sem nem se virar, mas ele continuou caminhando em frente — Ei, onde é que você vai? — segui-o rapidamente, suas pernas longas rapidamente aumentando a distância entre nós. — Adriano, espera. — acelerei o passo para alcançá-lo, virando uma manequim logo atrás dele — O que você pensa…- parei.

Ele não estava lá.

Ninguém estava lá.

Pra começo de conversa eu nem lembrava daquela parte da loja, que apesar de ser praticamente igual a outra, definitivamente não estava ali antes — e que roupas eram aquelas? O lugar estava completamente deserto.

Mas não fazia sentido. Eu tinha acabado de ver Adriano vir para cá, ele não poderia ter caminhado tanto ao ponto de eu perdê-lo assim de vista. A única explicação seria ele ter corrido para uma daquelas araras mais altas, que bastariam para escondê-lo.

— Adriano? — chamei mais uma vez, minha voz ecoou pelo recinto.

Pensei em investigar melhor, mas de repente todos os manequins pareceram estar virados para mim. Não ousei dar mais nenhum passo.

— Adriano, para de brincar. — reclamei. Nem ele poderia ser tão insensível assim.

Meu celular tocou, me assustando mais uma vez. O silêncio absurdo deixava o toque mais alto do que o normal. Olhei no visor antes de atender. Mais uma vez o nome dele estava lá.

— Alô. — minha voz estava trêmula, silêncio na ligação mais uma vez — Adriano, é sério! Não gostando dessa brincadeira.

Dessa vez a ligação ganhou vida. O som que eu ouvira antes agora estava bem mais alto. Era um pássaro. Não, dois. Ou seriam cinco? Muitos, talvez vinte ou trinta, não conseguia contar. Mas aquele canto eu reconhecia, embora só o tivesse ouvido antes em filmes.

Eram corvos.

Em questão de segundos o canto deles ficou bem mais alto, e quando pensei em desligar a mesma música de antes voltou a tocar. Antes que eu conseguisse entender o que a letra dizia o barulho de estática voltou.

Era impressão minha ou minha mãos estavam suando?

— Adriano? — tentei falar mais alto dessa vez, mas minha respiração estava muito irregular e tudo o que saiu foi um sussurro fraco — Pelo amor de Deus, o que tá acontecendo?

A ligação caiu novamente.

Tirei o telefone do ouvido e olhei meus arredores mais uma vez. Ainda estava de pé, na entrada da mesma sessão. Adriano ainda não tinha saído ou eu teria visto — ninguém tinha saído — então se eu ligasse para ele eu ouviria o toque e saberia onde ele estava. Respirei fundo.

— Tá vendo, Brisa… — murmurei para mim mesma — Mesmo assustada você é um gênio. Não que você esteja assustada.

Aos menos os manequins agora pareciam estar um pouquinho mais longe.

Disquei o número dele e me preparei pra bronca. Ele ia perder o esconderijo em pouco tempo. Apertei em chamar, mas a ligação não completou. Estava sem serviço.

Mas o quê? Bela hora para cair, muito obrigada Operadora mais eficiente do Brasil!

Estava prestes a entrar de qualquer jeito nas araras quando o celular tocou de novo. E lá estava mais uma vez o nome do Adriano. E minhas barras de sinal ainda estavam em zero.

Certo, agora eu estava assustada.

Olhei em volta, minha respiração como a de um maratonista. Definitivamente tinha algo estranho acontecendo e eu não ia atender aquela ligação. Dei meia volta, provavelmente teria uma recepção melhor lá fora e eu finalmente poderia retornar àquele imbecil e dar a ele o sermão da vida por ficar brincando fora de hora.

Caminhei, os olhos fixos na tela, meio que esperando que ele ligasse de novo. Nem dei bem uns dez passos quando vi que meu sinal voltara — todas as barrinhas lindamente cheias, obrigada Operadora mais eficiente do Brasil! — e comecei a digitar o número do Adriano quando uma voz me interrompeu.

— Você demorou. Eu tenho que te ajudar a esconder algum corpo?

Adriano estava lá. Jogado no banco onde era para ele ter esperado antes. Me segurei pra não enfiar meu celular na goela dele.

Ele observou bem minha expressão de ira antes de voltar a falar.

— Você tá muito revoltada mesmo. — ele levantou as sobrancelhas em um espanto sarcástico — A conversa com a garota foi tão ruim assim?

— Oi? — eu simplesmente odiava quando ele se fazia de desentendido.

— A conversa? Com aquela Larissa ou Letícia, não lembro o nome dela.

— Isso não importa agora. — cortei a fala dele — Porque você não me esperou aqui? Porque você não parou quando eu chamei? E que brincadeira sem graça foi aquela?

Ele franziu o cenho antes de responder.

— Eu não saí daqui. E você não me chamou. E que brincadeira?

— Adriano. — falei fechando os olhos em frustração — Eu prometo que não vou te bater. Só me diz por que você saiu caminhando que nem um doido pela loja e ficou me ignorando quando eu te chamei.

— Brisa. — ele se levantou e pôs as mãos nos meus ombros — Eu não sei se você está alucinando ou se simplesmente viu um cara quase tão lindo quanto eu e se confundiu, mas eu não saí caminhando pela loja, eu odeio aquele lugar. Eu não te ignorei, eu tenho trauma de fazer isso. E eu não saí do meu lugar, pode perguntar á moça ali, ela tava rindo da minha situação nestante.

Minha raiva desapareceu, até porque o que ele falava fazia sentido. Mas eu definitivamente o tinha visto passar, até a roupa era igual!

— Então, você também não me ligou? — perguntei só pra ter certeza.

— Não, eu liguei. — ele pegou o celular do bolso e virou para mim — Mas você não me atendeu. — e estavam lá claramente, duas chamadas não atendidas.

Minhas mãos voltaram a suar.

— Não entendo. — murmurei. — Eu tenho certeza que você foi pra lá. — me virei apontando para a entrada da sessão estranha da loja. Exceto que não havia entrada alguma.

— Para a parede. — ele falou em um tom condescendente — Faz sentido, ir para uma parede é definitivamente o tipo de coisa que faria.

— Não, não faz. — E definitivamente não fazia. Eu sabia que era ele, e havia uma entrada ali antes com toda a certeza. E eu tinha atendido aquelas ligações. O que tinha acabado de acontecer?

Olhei ao redor da loja devidamente movimentada, procurando pelo garoto misterioso que parecia ser um sósia do Adriano. Ele provavelmente não tinha ido embora ainda, e eu queria provar a mim mesma que eu não estava louca e/ou alucinando. Mas meus olhos pararam em mulher um pouco distante, virada de costas para nós e apesar de só poder ver seus longos cabelos vermelhos, eu a reconheci. Era minha companheira de guerra, minha conselheira sobre garotos, a última pessoa que eu vira antes daquela confusão toda acontecer. A mulher de olhos amarelos.

— Adriano, vamos embora. — Eu sabia que se conversasse com ela eu entenderia tudo, mas só de lembrar do olhar dela cravado no meu e daquele sorrisinho sugestivo, sem contar com toda aquela história do telefonema, eu queria mais do que nunca ir para casa.

— Brisa, o que foi? — a voz dele era preocupada.

— Aconteceu alguma coisa, Adriano. — virei meus olhos para ele — Aconteceu alguma coisa, e eu não faço ideia do que foi. — senti as lágrimas se acumulando — E o pior é que agora eu apavorada. — minha voz tremeu.

O olhar dele endureceu, mas ainda assim ele me puxou para um abraço.

— Tudo bem, Brisa. Vamos sair daqui. — ele tranquilizou — Quer comprar um café ou alguma coisa antes de voltar pra casa, talvez te acalme…

— Não. — gemi na camisa dele — Eu bebo nescau em casa. Vamos embora agora. — imaginei nós dois sentados na cafeteria com a mulher ruiva sendo nossa garçonete e tremi levemente.

— Certo. — ele me soltou e pegou as sacolas, depois caminhamos rapidamente em direção à saída.

Assim que senti o ar quente da tarde quebrar o frio do ar condicionado senti um peso deixar os meus ombros. O que quer tivesse acontecido já tinha acabado, e assim que eu me acalmasse eu conseguiria encontrar uma solução simples para tudo aquilo.

Respirei fundo o ar fresco e caminhei mais calmamente pela calçada, mas então eu baixei meus olhos para o chão e vi algo que fez meu coração encolher de novo.

Vi penas negras.

Notas finais
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