Notas iniciais
ME AMEM. Sou uma pessoa muito ótima por conceder o desejo de vocês. Boa leitura, e não esqueçam de comentar.

Eu sei que eu nunca falei sobre isso. Até porque eu não gosto de lembrar. Falar sobre esse assunto só torna as coisas mais reais. E a morte da minha mãe até hoje é uma fantasia para mim. Porque dói admitir a verdade. E mentir para mim mesma me consome um pouco, mas me permite continuar viva.

Quando Adriano me deixou sozinha eu me encostei no canto da parede e chorei. Já se passara mais de um ano, mas a dor permanecia a mesma. E todas as enxurradas que vinham com a lembrança, parecidas.

No momento em que minha barriga começou a doer com os soluços, eu me forcei a levantar. Enxuguei os olhos e entrei na escola só para pegar minha mochila e dar o fora dali.

Encontrei Fernanda, a garota loura, por quem Giga nutre certa fixação. Mas parecia que eu era quem tinha sido encontrada.

– Brisa? É esse o seu nome? — ela tinha um tom de voz bem doce. Bem diferente de como eu tinha esperado, uma voz arrogante faria mais o tipo 'patricinha'.

– Sou eu mesma.

– O seu amigo me deu isso – ela disse, tirando a Bíblia da mochila. — Ele me disse que iria me apresentar a uma pessoa que me ajudaria. Acho que é você.

– Tenho a mesma impressão – respondi.

– Então... — ela olhou para os próprios pés. — Acho que estou precisando dessa ajuda agora.

– Que bom. Porque eu também estou precisando de uma companhia feminina.

* * *

Fernanda pegou a minha mochila na sala e eu fui até a secretaria pegar uma autorização para ir embora. No caminho para a minha casa, contei a ela sobre o que tinha acontecido entre mim e as jogadoras. Ela ficou revoltada.

– E por que você não as denuncia para diretor?

– Acho melhor não. Elas vão acabar percebendo que não vale a pena continuar com essa perseguição. E eu espero que elas mudem de atitude, não só comigo, mas com todas as pessoas que elas tratam mal.

– Você espera coisa boa demais de gente que não tem nada de bom a oferecer.

– Se eu não tentar enxergar o bem em cada pessoa, eu só vou ver o mal de cada um, e só esperar atitudes ruins. Eu prefiro me decepcionar, mas pelo menos acreditar nessas pessoas.

Eu sei que eu tinha acabado de conhecer a Fernanda e já estava contando um dos meus maiores segredos que era ser perseguida pelas jogadoras. Só que ela me passava a impressão de ser diferente de quem geralmente era na escola. Ela parecia ser uma garota legal. Por isso, eu decidir acreditar no seu potencial de desabafar com uma desconhecida e perguntei:

– E você? Como está?

– Bem – ela respondeu no automático.

– Não precisa se esconder. Só estamos nós duas nessa sala. E ninguém aqui vai se incomodar se a gente falar a verdade.

Minhas palavras a libertaram e ela começou a chorar. Eu a abracei e deixei-a se acalmar para tentar ajudá-la.

– Eu não aguento mais essa pressão. Ser perfeita, usar as roupas certas, comer regradamente. Eu fico nervosa toda vez que entro na escola. Porque sei que meu namorado vai brigar se me ver comendo algum lanche. Porque as garotas da turma vão se incomodar se me virem conversando com algum zé ninguém...

– Tipo eu.

– Não – ela me interrompeu. — Você é diferente. Você muda as pessoas à sua volta.

Eu faço mesmo?

– Eu observava você durante os intervalos. Sempre na sua, sozinha, mas livre. Sem se apegar ao que as pessoas achavam ou falavam de você. E aí você passou a andar com aquele nerd da minha sala e ela começou a ter tanta confiança nas aulas. E o outro com quem você anda está tão feliz, até a expressão do rosto dele mudou. Eu já estudei na mesma sala que ele, ele sempre andava emburrado e era conhecido por armar confusão. Andar com você faz as pessoas mostrarem o que tem de melhor.

Eu nunca tinha visto por esse lado. Para mim, os garotos mais me ajudavam do que eu ajudava-os. Fernanda torceu as mãos como se tivesse algo mais a falar.

– Na verdade, eu procurei por você hoje para perguntar como você consegue.

– Como eu consigo o que?

– Ser perfeita – ela disse aquilo como se fosse óbvio. Eu dei risada.

– Se há alguém que comete erros nesse mundo, eu sou uma das piores.

– Não adianta mentir para mim. Você está sempre feliz, você tem amigos fiéis e nunca se abala, não importa o que aconteça.

Pensei numa resposta justa para lhe dar.

– O responsável por tudo o que acontece na minha vida é Deus. Então, se você quer saber o segredo para viver como eu vivo, é este.

– E o que você quer que eu faça? Me converta? Aí todos na escola vão me odiar.

– Para mim, valeu a pena fazer essa escolha.

– Mas eu não mereço ter Deus na minha vida – ela mudou de opinião de repente, falando muito rápido. — Eu sou uma pecadora, e erro demais, não mereço esse amor.

– Ser perfeita não vai conquistar o amor de Deus. Cometer erros não vai afastá-lo. Ele te ama e nada que você faça pode mudar isso. Mas você pode resistir a esse amor – Resistir ao amor de Deus é sobreviver sem vida, como Adriano falou. É abrir mão do maior presente deste mundo. Eu não podia deixá-la tomar aquela decisão. — Por favor, não faça isso. Para o seu próprio bem, não faça isso.

– Por que você tá falando isso.

– Porque se você se privar do amor de Deus e acreditar que Ele não é capaz de te salvar... O sacrifício de Jesus não vai valer para você.

Ela olhou em meus olhos e vi que ela estava emocionada.

– Já fui vezes suficientes para a igreja com a minha avó para saber de que sacrifício você está falando – Fernanda se distraiu mexendo nas próprias unhas. — Eu estou cansada de viver pressionada, com medo. O que eu preciso fazer para Deus mudar a minha vida?

Meu coração se encheu de alegria.

– Você só precisa falar com Ele.

– Eu não sei como se faz isso – ela admitiu.

– Eu posso te ajudar – eu segurei em suas mãos. — Eu vou orar a Deus e você repete mentalmente o que eu vou falar – respirei fundo e fechei os olhos. – Deus, eu quero entregar a minha vida a Ti. Quero que o Senhor mude tudo o que eu não te agrada. E que me ajude a ser feliz. Que eu nunca me esqueça que tu me amas e que eu não preciso fazer nada para conquistar esse amor. Que eu nunca tenha medo de perdê-lo, porque o Senhor prometeu ficar comigo, e a Tua palavra fala que Você não é homem para mentir. Quero ser tua amiga, Deus. E te peço que o Senhor seja meu também. Em nome de Jesus, amém.

Ao término da oração eu lhe dei um abraço. Logo a afastei lembrando de algo urgente?

– Agora, eu posso te fazer uma pergunta muito séria?

Ela me olhou intrigada e fez que sim com a cabeça.

– Você está com fome? Porque eu estou definhando.

Ela riu.

– Nunca estive mais faminta.

* * *

Depois de termos feito uma bagunça na cozinha, brincando de cozinhar, os meninos chegaram até a minha casa e nos encontraram no meio de uma guerra de comida.

– Opa! — Adriano gritou, entrando na cozinha. — O que houve aqui? Furacão Brisa?

Só então ele viu a nova garota.

– E o que ela está fazendo aqui?

– Galera, essa aqui é Fernanda. A nova integrante do nosso grupo.

O sorriso de Giga era tão grande que dava para ser visto de costas. A expressão surpresa de Adriano era hilária. Mas quem não ficava assim quando via Deus agindo?

E a cada dia o Senhor acrescentava ao grupo deles aqueles que iam sendo salvos”.

Atos 2: 47b

* * *

– Você tem que me ensinar o seu truque, garota ventania!

– Papo de garotas!

– Então é melhor eu não aprender. Vai que eu me apego a esse papo contagiante... — eu gargalhei com a sua atuação afeminada.

Adriano ficou impressionado por eu conseguir fazer a nova garota falar sobre seus problemas e ainda aceitar Jesus como salvador. Nós passamos a tarde conversando sobre bobagens enquanto Giga babava sobre a Fernanda e fazia piada sobre tudo. No fim das contas, ela se divertiu e eu também.

O SuperGiga se ofereceu para levar a Fernanda em casa e eu fiquei com Adriano, sentada na porta de casa, esperando meu pai.

– Meu sogro está demorando.

– Ele me disse que já estava chegando... — meu coração se apertou. Eu não podia perder mais ninguém. Especialmente naquele dia.

– Você não negou! — Adriano apontou para mim, rindo.

– Não neguei o que, maluco?

– Não vamos contestar a verdade, princesinha.

– Eu odeio quando você me chama assim.

– Mas você adora quando eu seguro a sua mão desse jeito.

Ele tomou minha mão na sua. Senti minhas bochechas esquentarem. Maldito defeito.

– Me larga!

– Não precisa ficar vermelhinha, princesa. Quando nós estivermos namorando, isso vai ser o habitual.

Fiquei meio cega com um feixe de luz no meu rosto. Larguei a mão de Adriano e corri até o carro.

– Oi, minha linda! — meu pai me abraçou com força, saindo do carro.

– E você, rapaz? Tem cuidado da minha garota? — ele se dirigiu ao insuportável.

– Sim Senhor, Capitão.

Os dois apertaram as mãos e Adriano se ofereceu para carregar as malas. Era estranho ver os dois se dando tão bem. Era quase como se fossem pai e filho, discutindo sobre partidas de futebol e contratações erradas para o time.

Meu pai subiu as escadas para tomar um banho enquanto eu levava Adriano até a porta.

– Volte mais vezes, garoto – ele disse, de costas para nós, depois de uma gargalhada. — Um contador de piadas sempre tem espaço na minha casa.

– O Senhor manda, eu obedeço! — o garoto respondeu sorrindo.

Fomos para fora da casa e eu fechei a porta.

– Por que você não consegue me tratar bem assim?

– Porque você é insuportável.

– Ah, sou? — ele deu um passo na minha direção, estreitando os olhos.

– É um stalker, perseguidor, sem modos... — ele deu mais um passo, me obrigando a encostar na porta. Estava ficando difícil respirar. -, idiota... – eu preciso de oxigenação no cérebro agora!

– Eu sou tudo isso – ele sussurrou, com a testa quase encostada na minha. O truque da voz não... -, e você ainda está apaixonada por mim.

– O que? Eu não...

Adriano me interrompeu no meio da frase. Colocou a mão sob a minha nuca e me puxou para a boca dele. Tentei empurrar seu peito para longe, mas não sei o que aconteceu com o comando que eu dei para as minhas mãos, pois elas pousaram no tórax musculoso do garoto que eu estava beijando. Um calor tomou todo o meu corpo. Eu não conseguia pensar direito.

– Calma, mocinha – Adriano empurrou a minha cintura, me afastando. — Você precisa pedir a permissão dos meus pais antes de me beijar desse jeito.

Eu? Beijando Adriano? Nem em sonho!

– Vejo você amanhã – ele beijou a minha testa e desceu o pequeno lance de escadas sem olhar para trás.

Eu não beijei Adriano. Claro que não! Eu só estava parada na frente da minha casa imaginando coisas. Droga. Minhas pernas estavam tremendo, meu coração aos pulos. E eu ainda sentia os seus lábios sobre os meus. Das duas, uma: Ou eu estou no meio de um pesadelo, ou pior; estou apaixonada pelo Adriano.

Notas finais
Já tinham esquecido, heim? Pois eu não. Vá lá e comente. Um cheiro no coraçãozinho de vocês, pessoas românticas.