Beyond
20 Adriano
Notas iniciais

Deixei a casa de Brisa ainda sorrindo, sentindo os lábios formigarem. Não esperava que beijar a garota fizesse meu coração pular desse jeito. Espero que não tenha sido ilusão. Porque eu quero beijar ela muitas e mais vezes. Mas algo na minha mente repetia que eu não merecia alguém como ela. Continuei andando por entre as ruas desertas enquanto um vento frio viajava por elas. Um ou outro poste começava a apagar-se e acender-se novamente. Fechei os olhos por um instante e desejei que tudo fosse um sonho, um sonho muito, muito ruim.
Você consegue enxergar o que está oculto nas sombras? Não? Mas eu sim. Elas não vão embora, por mais que você implore. Eu as vejo todos os dias, quando ando pelas ruas, no caminho até à escola ou nas muitas vezes que vago pela cidade sem rumo. Estão encolhidas em becos, escoradas nas paredes ou flutuando acima das construções, rastejando abertamente nas ruas, se escondendo em casas abandonadas.
Vejo-as todas as noites em meus sonhos.
E elas também me veem.
Sempre que passo tempo demais encarando, elas me notam, algumas me deixam em paz, outras não. Então eu finjo que não as enxergo, e elas não me importunam.
Na maior parte do tempo.
Haviam algumas que gostavam de me seguir, tentando me provocar, eu sabia. Elas sussurravam coisas no meu ouvido, coisas terríveis que às vezes me faziam querer correr, gritar e me esconder, mas eu fingia não ouvir. Outras usavam humanos para me atingir. Eu preferia levar socos a ouvir aquelas coisas.
Então eu procurava sempre despistá-los enquanto voltava para casa — se é que se pode chamar aquele casarão sem luz e água de casa.
Mas quando tentava dormir elas apareciam. Vindas do nada, como se nunca tivessem saído de lá afinal, como se elas me esperassem toda noite para me atormentar.
Eu não gostava delas. Odiava-as mais do que tudo nesse mundo. Não não mais do que a mim mesmo por tê-las trazido para a minha vida. Talvez ficar com Brisa fosse um erro. Ninguém quer a mim por perto. Nem meus pais querem! Eu devo me afastar de tudo e todos, viver sozinho. Este talvez seja o meu destino.
Me encostei em um muro velho e me deixei escorregar até o chão. Pressionei meu corpo contra os joelhos e esperei que os raios de sol viessem tirando o meu medo das sombras.
* * *
Bati na porta de madeira e esperei a menina do vento abrir. Sim, a ideia louca de abandoná-la foi passageira. Eu não posso deixá-la. Estar com ela me faz melhor, e eu não quero ser ruim de novo. Não quero me sentir mau. Quero ser o namorado dela, por mais que eu repugne esse meu lado romântico.
– Bom dia, Adriano – o Pastor Calebe abriu a porta.
– Onde está a Brisa?
– Ela foi mais cedo pra escola.
Estamos falando da mesma pessoa? Brisa indo cedo a algum lugar?
– Tudo bem, eu passo aqui na volta.
Desci o lance de escadas e segui o caminho que costumava percorrer acompanhado. Ela só podia ter esquecido de fazer algum trabalho e ter ido cedo para terminá-lo.
Atravessei o portão da escola e fui direto para a sala. Os professores já estavam nas salas. Entrei no segundo ano e Brisa estava sentada em uma das cadeiras da frente. Só havia espaço no fundo, onde sentávamos habitualmente.
– Bom dia, florzinha – sussurrei quando passei por sua carteira. Ela continuou calada e com a cabeça baixa.
Me joguei na última carteira claramente irritado. Tem algum problema com a garota ventania. Ontem ela retribuiu o beijo melhor do que eu esperava. Eu me preparei para alguma resistência, mas não houve alguma. E agora ela está me evitando? O que está acontecendo com a minha pegada irresistível? É melhor eu consultar um médico.
Dois horários já haviam se passado e a garota se mantinha concentrada no quadro a frente ou no caderno. Observei sua mão deslizar sobre o papel e lembrei dessa mesma mão percorrendo meus cabelos bagunçados na noite anterior. Esse sentimento não pode ter mudado em tão pouco tempo. Ela só deve estar envergonhada por ter demonstrado sua total apreciação pelo meu corpo. Vou tranquilizá-la e dizer que eu a quero na mesma intensidade. Ou até mais.
O sinal do intervalo tocou e ela pulou da cadeira, saindo da sala. Ela não pode ir tão longe. Levantei e me direcionei ao refeitório. Nada. Gigabyte estava na nossa mesa, me aproximei dele.
– Você viu a Brisa?
– Cara, não tem nem um mês de namoro e você já está perdendo o controle sobre a sua fêmea? — o nerd brincou.
– Fala logo se você a viu, ou eu quebro a sua cara.
– Cara, você está perdendo o controle sobre si mesmo. Domine o seu gênio!
Torci o braco do garoto gordo.
– Eu estou falando sério – minha voz estava exageradamente grave. — Você a viu ou não?
– Ei, Adriano, relaxa aí! Eu não vi, não vi! Solta meu braço! Se quiser, eu posso te dar meu lanche! Ai!
Larguei-o e fui procurá-la pela escola. Não estava na quadra de esportes, nem no auditório, muito menos nas salas de aula. Ela só deve ter encontrado alguém precisando de ajuda e se escondeu por aí para conversar com a tal pessoa.
O sinal soou novamente e eu a avistei saindo da banheiro feminino com a Fernanda pendurada em seu braço. As duas riam descontraídas. Vi quando a loura se despediu e a outra entrou na sala. Fui até sua carteira.
– A gente precisa conversar.
– Não temos nada pra falar – sua voz estava sem emoção.
– Nós obviamente temos um problema e precisamos resolvê-lo – mudei o peso do corpo para a outra perna. — Você sabe que eu...
– Você pode se sentar, senhor Adriano? — a professora de física ordenou atrás de mim.
– Ainda vamos terminar essa conversa – sussurrei para a garota que me olhava com desprezo.
Essa menina simplesmente acordou mal-humorada ou está na temporada para matança? Se isso vai acontecer mensalmente eu vou rever a ideia de namoro. Eu devo ter feito algo errado para ela estar assim. A Brisa que eu conheço é dócil, e teimosa. Mas ela não me trataria assim por nada.
Esperei que as aulas acabassem e deixei-a escapar às pressas. Quando todos foram embora, encontrei Giga me esperando no portão.
– Você não vai me bater de novo, vai? — ele falou encolhido.
– Foi mal, cara – eu disse dando um tapa amigável em suas costas. — Eu estou com a cabeça cheia.
– A reunião hoje vai ser na casa da Fernanda. Vamos?
– Acho que eu não vou.
– Qual é? Vai me deixar ir sozinho?
– Você sabe se cuidar, gordinho.
– E por que eu te pago pra você ser meu guarda-costas mesmo?
– Mas você não me paga...
– Mas vou no futuro.
Ri de sua piada.
– Beleza, então vamos enfrentar o dragão.
– Se você está se referindo à Fernanda, eu vou sonegar o seu salário por um mês.
– Ainda bem que eu não entendo o que você fala! Vamos logo.
* * *
– As pessoas têm essa mania de achar que só serão dignos de Deus se forem perfeitos. Ou que aqueles que erram não podem chegar até Ele. Mas é uma ideia absurda. Há um versículo em Salmos que diz que o Senhor se agrada dos que tem o coração quebrantado, arrependido (Salmos 51.17). Deus não procura perfeição, ele já é perfeito. Ele procura aqueles que querem uma segunda chance.
Brisa falava para a plateia de três pessoas que a observavam. Era incrível como sua expressão mudava só pelo fato de ela falar sobre quem mais amava.
– Deus não veio em busca dos fortes. Ele veio em prol dos fracos e oprimidos. Eu não me envergonho da minha fraqueza. Porque, quando eu perco toda a minha força, então eu tenho a força de Cristo em mim.(2Coríntios12.10b). E é bom saber que Deus acredita em mim. Apesar das falhas, ele acredita que eu posso ser sempre melhor, e não se envergonha de andar comigo, ao invés disso, tem prazer de estar ao meu lado.
“Alguns mestres da Lei, que eram do partido dos fariseus, vendo Jesus comer com aquela gente e com os cobradores de impostos, perguntaram aos discípulos:
— Por que ele come e bebe com essa gente?
Jesus ouviu a pergunta e disse aos mestres da Lei:
— Os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. Eu vim para chamar os pecadores e não os bons.”
Marcos 2.16,17.
* * *
Brisa foi levar os pratos sujos para a cozinha, a fim de lavá-los. Eu a segui. Passei meus braços por suas costas, abraçando sua cintura. Encostei meu rosto no seu, sentindo seu calor. Ela ficou tensa.
– Qual é o problema? — sussurrei no seu ouvido.
Brisa segurou minhas mãos e por um momento fiquei feliz. Até ela separá-las e levá-las para longe de si. Aquilo doeu. Ela continuava de costas para mim.
– Dá pra você parar de me ignorar e pelo menos me dizer o que eu fiz de errado para você ficar assim?
– Você não fez nada errado! — a garota se virou para mim, os olhos molhados. — Eu fiz. Fiz você acreditar que a gente daria certo, mas não vamos, Adriano. Eu não sou quem você pensa. Se você soubesse quem eu sou de verdade, você não iria querer andar comigo. Eu fiz você acreditar que eu sou uma boa pessoa, mas eu não sou!
– E eu não me importo! — segurei seus pulsos. — Não me importo sobre quem você era, quem deixou de ser, eu quero você do jeito que é agora.
As lágrimas escorriam por suas bochechas. Ela fazia que não com a cabeça.
– Adriano, eu quero pedir – ela prendeu um soluço. — Eu quero pedir pra você se afastar de mim.
– E você acha que eu sou do tipo que vai embora assim tão fácil? Eu te segui durante muito tempo pra desistir assim. Nós dois sabemos o que sentimos um pelo outro, Brisa, não tente negar. Eu não vou desistir de nós.
– Adriano, eu estou pedindo – ela olhou em meus olhos, o que era um golpe baixo, já que eu me perdia dentro deles. — Eu preciso de um tempo. Por favor, vai embora.
Sua voz se quebrou no final da frase. Engoli os cacos que arranhavam minha garganta.
– Tudo bem – eu disse. — Pode navegar por aí, menina do vento. Eu tenho certeza de quem eu sou e com quem quero estar. Agora só falta você descobrir.
Eu soltei seus braços, peguei a mochila na sala, fechei a porta e deixei-a sozinha, assim como ela desejara.
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