Notas iniciais
Busque enquanto é tempo de buscar Enquanto o sol ainda nasce Enquanto há por onde andar Enquanto a música ainda toca. https://www.youtube.com/watch?v=N-ZabUcUnis *** Bonitas, voltei. Podem escutar a a música desse link acima. Eu gosto muito! É da Lorena Chaves. Capítulo big. Cheiro, cheirosas!

Eu poderia dizer que estava tendo um péssimo dia. Claro, eu deveria ter percebido isso quando acordei e bati o dedo mindinho do pé na quina da cama. Ou quando eu escorreguei e caí no banheiro. Ou depois, quando eu queimei meu café da manhã. Ou até mesmo mais tarde quando eu fui para a escola sem blusa de frio e a realidade caiu do céu em forma de chuva. Eu tinha vontade de estrangular o meteorologista que garantira um dia de sol e poucas nuvens.

E havia Adriano que não tinha ido à escola pelo terceiro dia seguido. E tinha todo aquele sentimento de culpa guardado em mim. Por gostar de quem eu não deveria. Por guardar tanta coisa por tanto tempo. E por finalmente, como um desfeche de erros, ter levado o garoto que tornava meus dias felizes para longe de mim.

Quando ele bateu a porta, três dias atrás, eu comecei a chorar, encostada naquela pia. Fernanda veio confusa da sala e me abraçou.

– Shh – ela sussurrou no meu ouvido. — Vai ficar tudo bem.

Eu não entendia por que eu chorava, nem por que ela repetia aquela promessa corrompida. Nada ficava bem na minha vida. Adriano me chamava de princesa. Mas meu castelo é feito de cartas. Não é preciso um vento muito forte para fazê-lo desabar. Eu já estava habituada a vê-lo no chão.

– Senta aqui – ela puxou uma cadeira e trouxe um copo com água. — O que aconteceu? Vocês brigaram? Porque pelo jeito que Adriano saiu por aquela porta, parecia que ele não estava muito bem. Nem você...

– Eu não quero falar sobre isso – eu disse enxugando os olhos com as costas das mãos.

– Mas você precisa, Brisa! Guardar os problemas só vai te machucar ainda mais.

Senti as lágrimas voltarem. Havia muito tempo que eu tivera uma amiga para contar meus segredos. Tanto tempo que eu nem sabia se deveria confiar novamente.

– Olha aqui, Brisa – ela disse, olhando em meus olhos, com uma mão sobre a minha. — Eu confiei em você quando nem mesmo te conhecia. Você sabe que eu só quero te ajudar, não vou contar pra ninguém. Confie em mim.

Eu não mandei nenhuma mensagem para a minha boca. Mas ela se abriu por vontade própria e contou toda a história. De como eu conheci Adriano, sobre a perseguição por semanas, e quando eu percebi sentimentos dele, e até meus.

– Brisa, não precisa fazer tempestade num copo d'água – até a Fernanda brincando com esses efeitos climáticos? — Você está apaixonada!

Não estou. Nem tente me convencer do contrário.

– Não é isso, Fê. Eu não posso ficar com ele!

– Mas por que? Você é solteira, bonita, não tem ninguém que impeça ou atrapalhe vocês. E olha que o Adriano é um gato!

– Eu não posso envolver o Adriano na bagunça que está a minha vida. Eu... Não me estabilizei ainda. Preciso consertar as coisas antes de me relacionar com alguém.

– E você percebe que o Adriano quer entrar nessa bagunça com todas as forças, pelo simples fato de você estar dentro dela? — não, eu não via nada daquilo. — Eu acho que você deveria ir atrás dele e pedir desculpa pela besteira que você fez. Ele é um bom garoto e gosta de você de verdade. Eu acho que ele é uma pessoa por quem se valha a pena lutar.

Algumas pessoas acham que eu sou perfeita. Sou conhecida na escola como a aluna exemplar, discreta e bem educada. Na igreja, sou a filha prodígio, a caridosa, disposta a fazer tudo pelo bem dos outros. Eu sou citada como um exemplo de boa garota. Chegam a pensar que eu não tenho defeitos. Mas eu os tenho sim. E são tantos que, se descobertos, encobririam toda as minhas qualidades.

Um deles tem um peso enorme. O orgulho. Eu odeio estar errada. Odeio. Odeio machucar alguém, porque eu simplesmente não consigo conceber a ideia de ter cometido um erro que deixou uma pessoa ferida. Senão por fora, por dentro, que é aonde mais dói.

O Gigabyte correu até o Adriano naquele dia. Ele contou que o garoto se recusava a voltar. Ele só grunhia algo sobre deixá-lo em paz. Mas sua voz o traía uma vez ou outra. Ele estava em cacos. Eu o havia quebrado.

Era noite de sábado. Um dia depois do incidente. O celular estava na minha mão e eu estava reunindo forças para quebrar o meu orgulho e ligar para ele. Eu não sabia o que dizer. Talvez fosse por isso que minha mão suava e tremia de leve. Digitei seu nome na lista de contatos. Respirei fundo desci o dedo sobre a tela.

O celular que Giga me dera tocou sobre o criado mudo, antes de eu completar minha ação. Levantei e vi um número desconhecido. Era alguém precisando de ajuda. Decidi deixar Adriano para outro momento.

– Alô? — eu ouvi o som incessante de uma música eletrônica e muito barulho. Alguém estava no que parecia ser uma festa.

– Uhu!!! — a pessoa do outro lado gritou. — Você existe mesmo! Eu estava me perguntando quem seria otário o suficiente para mandar mensagem para o meu celular perguntando se eu precisava de ajuda.

Digamos que o Gigabyte colocou anúncios em vários sites, e agora está experimentando uma forma de fazer o nosso número aparecer nos celulares de muita gente.

– Pois é, a otária aqui existe mesmo. E você? Está precisando de ajuda?

– Estou sim – ela soava meio bêbada. — Estou precisando de ajuda financeira! Tem um dinheirinho aí pra me emprestar?

Ouvi o som de sua gargalhada. Eu conhecia aquela risada.

– Monalisa? — eu perguntei.

– E além de ajudante você é vidente também! Essa ligação vai ser de bom proveito afinal de contas.

Ela era uma das jogadoras de vôlei da escola. E costumava ser minha amiga há algum tempo. Antes de tudo mudar e ela resolver me torturar como as outras, que uma vez também foram minhas amigas.

Escutei-a fechando alguma porta e a ligação ficou mais silenciosa.

– Opa! Foi mal aí! — ela falou para alguém. — Podem continuar o que vocês estavam fazendo.

O barulho voltou durante um tempo e depois se abafou novamente.

– Pronto, agora podemos conversar, Madame Serafina.

Ignorei a piada.

– Agora, me responda uma coisa, leitora do futuro. Quando eu finalmente vou bater as botas e me despedir dessa vida miserável?

– O que? Você quer morrer?

– Claro! Seria a melhor coisa que me aconteceria.

Por que aquela menina queria morrer? Ela tinha os dois pais vivos. Tinha amigas que dominavam a escola. Ela sempre me pareceu completamente satisfeita com a vida que tinha.

– O que aconteceu com você? — perguntei cautelosamente.

– Há tanto tempo que alguém me fez essa pergunta que eu acho que vou ter que fazer uma pequena pesquisa na internet para lembrar de tudo o que aconteceu – ela soltou uma risada fraca e escutei-a dar um gole em alguma bebida. — Você é uma vidente bem falsificada. Já era para saber toda a minha vida.

– Eu não sou vidente – eu disse, irritada.

– Como não? Propaganda enganosa? Quero meu dinheiro de volta. Ah, dinheiro não vai adiantar mais, já que vou me matar hoje.

Senti algo gelado em meu estômago.

– Calma, Monalisa. Pensa bem, você é jovem, tem tanto pra viver!

– Eu não quero viver! — ela gritava comigo, ou para si mesma, não sei. — Eu cansei de sofrer! Cansei de fingir estar feliz, porque eu nunca fui feliz de verdade! Ninguém se importa comigo. E eu decidi não me importar mais também.

– Pensa nos seus pais! Como eles vão se sentir se você fizer isso.

– Mas esse é o presente deles. Tudo o que eles sempre queriam. Se livrarem de mim! — ela gargalhou no final da frase e eu senti um arrepio.

– As coisas podem melhorar, Monalisa.

– As coisas nunca vão melhorar! Eu perdi todas as esperanças. E já planejei tudo. Vou deixar essa vidinha com grande estilo. Amanhã pela manhã, quando as pessoas estiverem tão bêbadas que só vão querer uma cama para se jogar, vão encontrar meu corpo gelado sobre o lençol manchado de vermelho. Os pulsos abertos, a lá Demi Lovato. Eu vou morrer como os grandes artistas. E finalmente vou ter paz, você não acha?

– Como você vai ter paz, se vai estar morta? Como vai aproveitar essa sensação se não vai sentir mais nada?

– Você é idiota? — a fúria tinha voltado. — Morrer é o meu sonho. Porque é só quando eu estiver morta que meu pai não vai me estuprar toda maldita noite, sua desgraçada!

Ela começou a soluçar depois daquela confissão. O próprio pai dela? E não conseguia imaginar.

– Você não sabe como é se esconder na sua própria casa. Como é ver uma mãe que finge não saber o que acontece. Como é se sentir suja, como é sentir o hálito de bebida por todo o seu corpo mesmo quando ele já saiu de lá – ela fez uma pausa para recuperar a voz. — Eu os odeio – falou com firmeza. – Eu me odeio, por não tem forças pra fugir. Me odeio por esconder, por me envergonhar ao ponto de não contar a ninguém. Eu já estou condenada ao inferno de qualquer jeito. Só vou antecipar a minha ida.

Eu sentia um bolo preso à minha garganta. Como ninguém tinha percebido sua tristeza. Por que ninguém se importava? Eu conhecia alguém que ligava.

– Monalisa, o único que pode te livrar desse sofrimento é Deus. Se você o deixar...

– Quem? — ela me interrompeu com ironia. — Deus? O responsável por tudo no universo e que permitiu tudo de ruim que aconteceu na minha vida? Não, não preciso dele.

– Deus não é responsável pelo o que as pessoas fazem. Ele não é responsável por sua maldade. Cada um escolhe ser o que quiser, pois tem o livre arbítrio.

Okay, querida, você já me cansou por hoje. Foi bom conversar como você, mas eu vou ali morrer – ela riu. — Sempre quis dizer isso! Adeus.

Ela finalizou a chamada. Pulei da cama e desci as escadas correndo.

– Aonde vai com tanta pressa, mocinha? — meu pai inquiriu quando eu passei na frente do escritório.

Não tive tempo de responder. Mas eu estava indo para a casa da Larissa, onde estava acontecendo uma festa daquelas, com muitos jovens bebendo, e uma amiga à ponto de se matar. Mas deixar uma pessoa morrer não estava nos meus planos para hoje.

* * *

O que ela está fazendo aqui?”, ouvi as pessoas cochicharem enquanto subia as escada para o primeiro andar. A casa cheirava a álcool e fumaça. O ambiente era opressor. Me dirigi ao último quarto. Eu conhecia bem aquela casa, até porque estivera muitas vezes ali.

Abri a porta e encontrei o quarto vazio. Quase desisti, até que eu escutei um choro baixo. Entrei e fechei a porta.

– O quarto está ocupado, imbecil! — Monalisa gritou.

A encontrei encostada do outro lado da cama, com uma garrafa no chão, segurando uma lâmina de barbear sobre o pulso.

– Você acha que eu vou te deixar morrer assim tão fácil? — ela me olhou como se eu fosse a maior assombração do mundo – Oi, Mona.

– Brisa? Você é a depressiva do celular? Só podia ser, mesmo...

– Começaram as ofensas, hein?

– Vai embora, sua louca. As pessoas não podem mais nem morrer em paz!

– Não precisa me agradecer, eu vou te tirar desse lugar horrível, te levar para a minha casa e amanhã você estará bem melhor.

– Melhor não, filha. Vou estar com uma ressaca do diabo. Então é melhor morrer mesmo pra não passar por isso – Eu mencionei que ela tinha a boca suja? Não? Ela tinha.

– Deixa de birra! Vem logo! — eu lhe estendi a mão.

– Vai procurar o que fazer! Vender bijuteria na praia, cavar poço de petróleo no teu quintal, plantar bananeira debaixo do sol quente. Inventa alguma coisa! Essa festinha aqui é particular.

Eu abaixei e a encarei.

– Você disse que ninguém se importa com você. Mas eu estou aqui. Eu não quero que você morra. Eu me importo. Quero ser sua amiga.

– Depois de tudo o que fiz com você? Isso é um plano maligno seu para acabar com a minha vida, vidente de araque!

– Eu não sou vidente, já disse! — eu segurei seu pulso e tirei a gilete de seus dedos. Ela estava bêbada demais para me impedir. — Vamos pra casa, agora!

– Tá bom, mãe.

Eu a puxei pela mão e ela quase caiu.

Hello, gravidade. O que é isso? Tá zoando com a minha cara?

Passei seu braço por cima dos meus ombros e a ajudei a descer a escada. Me dirigi rápido até a porta dos fundos para que ninguém nos notasse.

– Cadê o seu carro – ela perguntou meio embolado.

– Eu vim correndo.

Demônia! Quem tá louca aqui é você! — ela ficou rindo, sentada na calçada, enquanto eu ligava para o meu pai.

Quando eu a coloquei no banco de trás, olhei para o pai confuso ao meu lado, sussurrei um “Depois eu explico” e fomos para casa.

Eu lhe dei um banho contra a sua vontade, enquanto ela me xingava de nomes que eu nem conhecia, e a coloquei na minha cama. Ela dormiu como uma pedra, enquanto eu a observava do colchão no chão. Lembrei que na maioria das vezes que eu apanhava das jogadoras, ela me lançava um olhar final. Um olhar de pena. Igual ao que estava no meu rosto naquele momento.

* * *

– Quero ir embora dessa espelunca.

– Isso aqui é uma igreja! — Eu sussurrei para a garota emburrada. Ela estava comigo no ultimo banco e com os braços cruzados. Eu praticamente a arrastei para a igreja naquele domingo de noite.

– Isso é idiotice! Todo mundo aqui tem a vida perfeita. Ninguém entende o que eu passei. Ninguém me quer aqui. Eu vou embora!

– Cala a boca.

– Tenha bons modos – ela disse, com uma expressão de desaprovação. — Você está numa igreja, sabia?

Rolei os olhos. O pastor se dirigiu para o púlpito.

– Teu pai faz alguma dancinha antes de começar a falar sem parar?

Lancei-lhe um olhar e ela se calou. Tenho que fazer isso mais vezes. Ele leu um versículo sobre o amor de Deus e começou a pregação. Meu pai estava particularmente inspirado, pois falava numa autoridade que eu vira poucas vezes.

– Eu vou embora desse lugar – Monalisa falou, levantando-se e eu a puxei pelo braço. — Sua traidora! Você contou tudo ao seu pai!

– Eu não falei nada!

– E por que ele está lá em cima contando a história da minha vida pra essa gente aqui?

– Eu não sei! Mas eu não falei nada a ele. Talvez Deus esteja querendo falar com você!

– Nem vem com essa que isso não existe. Deus está entediado agora pra querer conversar comigo?

– Deus quer falar com você hoje! — o pastor falou mais alto no microfone. Monalisa arregalou os olhos. — Ele quer te dizer, que você pode ter tido um péssimo pai terreno. Mas Ele será melhor do que qualquer pai que já existiu, para você.

Ela fixou os olhos na frente, boquiaberta.

– Deus viu sua dor. Ele viu o seu sofrimento. Mas Ele não está conformado com isso. Ele quer curar esse seu machucado, quer te dar uma nova vida! Não foi à toa que Jesus morreu por você. E ele te ama e se importa com você mais do que qualquer um um dia vai se importar. E Ele morreu para tirar a sua tristeza, para te libertar da sua aflição – as lágrimas escorriam por suas bochechas. — Você quer que Jesus leve essa dor de você?

Monalisa levantou-se e caminhou por entre os bancos, ajoelhando-se no altar, diante do Senhor de todo o Universo.

Ó Sião, bela cidade, prisioneira e sentada no chão, livre-se das suas correntes, sacuda o pó das suas roupas e sente-se no seu trono.”

Isaías 52:2

* * *

Acordei no dia seguinte com um bilhete de Monalisa sobre a cama. Ela estava arrependida por ter tomado aquela decisão. Falava que tinha feito tudo por impulso. Se desculpava e dizia que ia sumir da minha vida.

Três dias depois, eu estava na porta da escola. Molhada e sozinha. Triste por Monalisa. Morrendo de saudades de Adriano.

Notas finais
https://www.youtube.com/watch?v=IgzzRT_C6Dw Assistam a esse vídeo. Eu me inspirei nela (Lacey Mosley) para fazer a Mona. E eu gosto da banda também (Flyleaf). Próximo capítulo promete! Beijão!!