Notas iniciais
Divirtam-se.

I threw my hands in the air and I said: Show me something!

He said: If you dare, come a little closer.

Rihanna

Abri os olhos pesados. Uma névoa impedia de ver nítido. Uma dor no estômago prendia minha voz, minha respiração e forças. Alguém me arrastava e ria ao mesmo tempo. No início eram sombras, depois se transformaram nas jogadoras de vôlei. Tentei me soltar, mas minhas mãos estavam atadas.

– Acordou, aberração? – Uma delas perguntou.

– Por que estão fazendo isso comigo? – Pronunciei com certa dificuldade.

– Estamos fazendo um teste para ver se você é realmente forte...

– Eu não quero teste nenhum, me deixa ir embora!

– Calminha aí... A nossa vontade é o que prevalece. Isso é por nos fazer perder no jogo hoje. Por isso, você vai para o chuveiro mais cedo. E não vai sair de lá até amanhã.

– Vocês não têm mais o que fazer? – Interroguei.

– Não. Você está com medo? Liga para o papai vir te buscar! – Uma delas soltou uma gargalhada.

– Ele vai procurar por mim...

– Mas eu acho que ele está tranquilo, porque você está nesse exato momento na minha casa na nossa festa do pijama!

As três riram estrondosamente. Abriram a porta do banheiro. Me puxaram sobre o piso branco, frio e sujo.

– Seus aposentos reais, Vossa Majestade!

– Por que vocês não conseguem superar isso, hein? Eu já perdoei vocês.

Uma delas me esbofeteou fazendo meu rosto contrair-se de dor.

– Eu não quero que você continue boazinha! Xingue! Ponha sua raiva para fora! Mostre que você é a mesma de antes!

– Não. Não vou fazer isso. – Eu disse com certa ironia.

– À vontade... – riram me empurrando para debaixo do chuveiro. Fiquei presa entre as paredes estreitas. Giraram a torneira ao máximo.

– Não consigo respirar! – A água fria escorria por todo meu rosto, impedindo minha respiração.

– Peguem leve, garotas... Queremos uma dor prolongada, não uma morte imediata.

Cessaram o jato até se transformar em uma única gota que caía no centro do meu crânio, como naquele método de tortura chinês.

– Boa noite aberração... – Cantarolaram em conjunto, fechando a porta em seguida me deixando em completa escuridão.

Sem mais a fazer, chorei. As lágrimas se misturavam com a água. Cada gota parecia abrir uma cratera em minha cabeça em uma sequência sem fim. Fiquei ali a noite toda. Envolta pelo escuro. Congelando. Aparentemente sozinha. Aparentemente.

...

– Meu Deus! O que você está fazendo aqui, garota?! – Uma voz conhecida veio de um lugar distante.

Abri meus olhos. Era a faxineira da escola. Levantei minhas mãos amarradas e trêmulas de frio.

– O que fizeram com você? – Perguntou desamarrando as cordas.

Palavra nenhuma saía dos meus lábios arroxeados.

– Ana, venha aqui me ajudar!

– O que é isso? – Ana vinha entrando.

– Eu... – Tentei falar, mas o esforço me custou a consciência. Tudo voltou a ficar negro.

...

Elas me levaram para a enfermaria. Com uma xícara de chá quente e com uma toalha tentando me aquecer.

– Você passou a noite toda lá?

Fiz que sim com a cabeça.

– Quem fez essa monstruosidade com você?

Lembrei-me da promessa das jogadoras no fim da tarde anterior: “Isso não é nada comparado ao que vamos fazer se você abrir o bico”.

– Não foi nada... – Minha voz rouca revelava um resfriado que logo viria.

– Temos que ligar para seus pais e avisar ao diretor também.

– Não! – Pedi – Por favor, não contem. Prometo que tomarei mais cuidado, apenas não contem.

Elas assentiram e me deixaram ir para casa.

...

Pensei que minha vida não poderia piorar, mas enquanto voltava para casa começou a chover torrencialmente. Bati na porta de casa, arrependida de não ter trocado meu short e regata da educação física pela minha calça e blusa da farda. Esmurrei a porta. Quem saberia que faria tanto frio naquela noite e que a chuva desta manhã seria tão forte que congelaria meus ossos? Acho que aquelas garotas viram a previsão do tempo antes de me prender naquele banheiro. Tentei derrubar a porta com as mãos. O que meu pai fazia de tão importante para não poder vir abrir para sua pobre filha única mais ensopada que a chuva?

Ele finalmente abriu a porta. Os anjos cantaram aleluia nos céus.

– Oi princesa! – disse beijando o topo da minha cabeça molhada.

– Oi pai – murmurei, subindo as escadas.

– Filha, se arruma rápido, senão você perde o horário.

– Perder o horário de que? – Perguntei-lhe.

– Da escola!

– Pai, me escuta... Só hoje, me deixa faltar à escola... – Estava pensando na possibilidade remota de me ajoelhar.

– Nada disso, Brisa, você já se divertiu com suas amigas na noite passada!

– Pai, eu não...

– Este assunto está encerrado.

Bati a porta do meu quarto. Pedi a Deus por paciência. Por que se me desse força... Acabaria acertando a cara de alguém. Agradeci pela oportunidade de presenciar mais um amanhecer e entrei no chuveiro. Mas dessa vez com água quente e sem mãos amarradas.

O que elas tentariam fazer dessa vez?,pensei. Não estava sendo fácil. Nem um pouquinho mesmo. Tinha renunciado a tudo, inclusive ao próprio desejo e revolta e deixou Deus tomar conta dela, que não merecia Seu perdão, mas foi aceita como filha. A sensação de ser acolhida foi a melhor coisa que viveu naqueles 16 anos, mas a dor da perda não a abandonava. Ai, Deus, e aqui estou eu murmurando novamente. Até parece que é difícil só pra mim...Deixei a água lavar todo cansaço e as lembranças da noite anterior.

Arrumei-me e desci para tomar café da manhã. Quando meu pai tentou puxar conversa sobre o dia anterior eu já estava do lado de fora. Oi mundo, eu estou de volta. E eu não vou recuar dessa vez.



Notas finais
Coomentem, por favor.God bless you.