Beyond
2 Adriano
Notas iniciais

Abri os olhos tentando remover a névoa que pairava sobre eles. Hoje é finalmente sábado ou domingo? Não... Quinta, recordei, mas que droga! Tenho que ir à escola, ou ser mais uma vez reprovado e não conseguir nem um emprego na lanchonete da esquina. Não que eu queira ser bem sucedido e ser o chefe de uma grande empresa, nada disso. Só não quero traficar drogas. Não mais.Ouvi ao longe o som dos meus pais discutindo. Era sempre bom estar de volta em casa. Ao descer o pequeno lance de escadas descobri que o assunto não era novidade: Era sobre mim!
– Esse garoto não me respeita, Lúcia! — Meu pai gritava — Desaparece por quase uma semana e volta cheio de direitos como se nada tivesse acontecido!
– Calma, Pedro... – Minha mãe intervinha – Ele está passando por um período difícil, mas ainda assim, é nosso filho...
– Pode ser seu, mas meu não é mais. – A voz do meu pai tornou-se muito grave.
– Não fala assim, Pedro...
– Bom dia família infeliz! – sorri saindo do quarto – Como vai, Coroa? Mãe... – E beijei a testa de dona Lúcia.
–Não me chame desse jeito, seu moleque imprestável! – Um rubor incendiou seu pescoço e dilatou suas veias.
– Relaxa, Coroa...
– Adriano, respeite o seu pai... – A voz dela era como uma súplica.
– Olha pai, eu vou provar que estou mudado e vou à escola hoje!
– Eu quero é que você saia da minha casa de uma vez por todas! E você não é mais meu filho!
– Pedro! – Minha mãe pôs-se a chorar.
– Não esquenta, Coroa, você nunca foi meu pai mesmo... – E dei as costas deixando-o discutir sozinho.
Tomei um banho relaxante ainda ouvindo as ameaças de meu Pai.Quem você pensa que é?,ele gritava. Esteja certo de que você não volta esta noite para a MINHA casa. Você já passou dos dezoito e não é mais responsabilidade minha. Eu controlei a vontade de dar risada. Não importava quantos dias eu passava fora, minha mãe sempre dava um jeito de convencê-lo a me aceitar de volta e ele tinha a mesma reação sempre que eu me restabelecia.
Sentei-me na mesa para tomar café da manhã.
– Eu me recuso a tomar café com esse... – Seu Pedro procurou pelo termo certo.
– Delinquente? Irresponsável? Imprestável?– Eu sugeri – Você tem várias opções. Mas eu sou um peixinho e você um velho e grande peixe, o que significa... – Deixei a frase se completar por ela mesma.
O rosto dele se contorceu de raiva.
– Quando voltar do trabalho, não quero sentir nem um traço do seu fedor nessa casa. E eu vou conseguir me livrar de você, nem que pra isso seja preciso que eu chame a polícia.
– Nem precisa se preocupar, meu velho – Levante-me limpando os farelos de pão dos canto da boca. Tomei o último gole de café e me direcionei à porta – Eu não preciso da droga do seu salário mínimo pra sobreviver.
Com um baque na porta deixei a casa, e as duas pessoas que um dia acharam que eu seria um filho perfeito e bem sucedido que lhes daria orgulho e a felicidade que só os idiotas esperam.
...
As aulas passaram como um borrão diante de mim. Os três primeiros horários eram maçantes, então me forcei a olhar quem estivesse na minha frente sem sequer tocar no meu caderno em branco dentro da minha mochila. Os professores se limitavam a falar e serem ouvidos, eu nem me dava ao trabalho de fingir que entendia esparramado na minha carteira nos fundos da sala.
No recreio eu estava em uma das mesas mais afastadas do pátio, observando todas as tribos à minha frente.Nerds, CDF’s, Patricinhas, Esportistas, Mafiosos, Valentões, Rockeiros... Eu não me encaixava entre nenhum deles. Na mesa ao lado, uma garota estava em um canto também sozinha. Bem, pelo menos eu não era o único rejeitado da sociedade.
Pensei tê-la visto em outro lugar... Ela tinha uma Bíblia nas mãos e às vezes deixava o olhar viajar pela imensidão. Era como se ela tivesse conversando com alguém invisível. Umas garotas se aproximaram de sua mesa. Voltei a ser o único ser solitário na Terra, pensei.
Uma delas pegou sua Bíblia e a jogou para as outras meninas enquanto a garota estranha pulava tentando pegá-la de volta. Era quase impossível, pois aquelas eram as jogadoras de vôlei, muito mais altas que ela.
Aproximei-me e segurei a Bíblia enquanto ela ainda estava no ar.
– Oi, garotas – Disse com um sorriso sugestivo – Posso entrar na brincadeira?
Elas me olharam com desdém.
– Sai garoto. Ninguém te chamou aqui! – A mais alta tentou tomar o livro de minha mão, mas eu levantei o braço tirando suas chances de tê-lo de volta.
– Acho melhor deixa-la em paz. Game Over pra vocês – Elas me lançaram um olhar furioso.
– Não pense que acabou aqui, aberração! Você não vai ter seu protetorzinho para sempre... – E saíram dando risadas.
A garota tinha a expressão compenetrada e confusa ao mesmo tempo. Levantei a capa da Bíblia e vi seu nome.
– Então, Sara, o que você fez de tão errado para essas garotas tomarem seu livrinho? – Eu perguntei.
– Meu... Meu... – Ela gaguejou – Meu nome é Brisa – Ela pigarreou e firmou a voz – E este não é apenas um livrinho, é uma Bíblia.
– Calma aê, florzinha. Então você roubou essa Bíblia?
– Não, ela é da... Minha mãe. – Ela pareceu fazer um grande esforço para admitir de quem era o objeto.
– Relaxa, elas já foram embora. Você quer uma água ou outra coisa assim?
– Não, obrigada. – ela pegou sua Bíblia e sem agradecer pelo meu ato heroico se afastou de mim.
Curioso..., pensei, Tem algo mal contado nessa história toda e eu não me incomodaria de descobrir o que é. Meu raciocínio foi interrompido pelo sinal que anunciava o início do quarto horário. Fui para a sala. Tudo decorria como mais cedo, mas dessa vez eu mantinha o olhar fixo do outro lado da sala, um pouco mais a minha frente. Eu olhava para a garota baixinha que vira no intervalo.
Ela tinha os cabelos curtos, logo, sempre que baixava a cabeça era quase possível ver sua nuca. Do ângulo em que eu estava só podia ver sua orelha esquerda e a dobra dos seus lábios, ela tinha a pele branca. Parecia uma versão em carne e osso da Branca de Neve.
Brisa. Nome incomum para uma garota. Eu certamente não chamaria minha filha assim, se eu chegar a ter uma. Certamente eu preferia Jéssica, Viviane, ou qualquer outro nome assim. Tentava descobrir de quem ela era filha quando uma lembrança me ocorreu.
A filha do Pastor. Sim, era ela mesma. Fui levado uma ou duas vezes na igreja e conheci de vista o Pastor Calebe, sua filha e sua esposa. Claro, havia sido há muito tempo, ela crescera bastante. Mas tinha a mesma aparência de alguns anos atrás.
De repente ela puxou o capuz do casaco branco (que por sinal me parecia uma camuflagem) sobre a cabeça, como um sinal que dizia claramente “não me importune”. Entendi o porquê logo depois. Na mesma fileira em que eu estava se sentavam as três garotas que eu vira durante o intervalo. Elas estavam rindo e atirando bolinhas de papel na cabeça dela, como se atirar bolinhas de papel nos outros fosse a coisa mais engraçada do mundo.
Bem, na realidade é. Fiz muito isso quando era mais novo. Mas apenas com desconhecidos e amigos. Tratava os inimigos de uma maneira bem mais complexa.
Vê-la sentada sem reclamar me levou de volta ao pequeno acidente no pátio. Ela me lembrava duma personagem de um daqueles filmes que passavam nas aulas de história que eu não me dava ao trabalho de lembrar o nome, mas eu conhecia aquele comportamento. Como eles o chamam mesmo?
Mártir. É isso. Uma pessoa que sofre por causa de suas crenças e opiniões. Enquanto eu a via sentada mais parecida com um ela ficava. E não só aquela vez, mas também quando as mesmas garotas pegaram sua Bíblia, ou a Bíblia de sua mãe. Não havia apenas pirraça naquilo. Elas claramente a haviam escolhido. Depois de dois horários elas ainda estavam na mesma. Atirando papeizinhos na cabeça dela. Existia algum motivo para elas estarem assim no pé dela e ela não reclamar nem mesmo ao professor, e o fato de ser cristã não me parecia o único para tal implicância. Havia algo mais. Tinha de haver.
A aula acabou. A garota levantou-se rapidamente e saiu pela sala quase correndo. As outras tentaram ir atrás dela, mas tiveram que costurar entre as carteiras e os outros alunos que estavam saindo, assim, quando elas chegaram à porta, ela provavelmente já estaria saindo pelo portão principal.
Aproximei-me da carteira onde ela estava sentada. Havia uma agenda no chão que ela provavelmente esquecera. Ou deixara cair, na sua pressa em fugir. Peguei-a e coloquei em minha mochila praticamente vazia.
Várias bolinhas de papel no chão. Algumas foram abertas e rasgadas. Então percebi que eram bilhetes. Abri três bolinhas diferentes, a mensagem interna era a mesma. Algo como “bico calado”, “se alguém souber você sabe o que acontece”, e até um que dizia “aberração!”.
Pensei em falar ao diretor, mas que vantagem me traria? Ela não era a única garota que sofria bullying na vida, e eu não era exatamente um garoto que seguia as regras discentes.
Bem, talvez não houvesse nada para fazer.
Quando fiquei em pé, a sala estava silenciosa. Hora de ir embora, mas eu não iria para casa.
Corri pelo corredor até o portão principal por onde todos saíam. Tentei avistá-la em meio à multidão. A maioria se dispersou e ainda não pude vê-la. Ela não andaria tão rápido... Voltei para o corredor e a vi saindo do banheiro. Mas antes olhou para os dois lados em busca das outras meninas.
Me encostei na parede na esquina do corredor e esperei que ela passasse despercebida por mim para dizer:
– Fugindo novamente? – Ela girou com os olhos arregalados pelo susto e eu senti o canto da minha boca se levantar.
Ela me lançou um olhar corrosivo e se dirigiu à saída.
– Vai fugir de mim também?
– Me deixa em paz, garoto. Eu nem te conheço...
– É assim que você me agradece por eu ter salvado sua Bíblia?
Ela não me respondeu.
– Só porque é a santinha, filhinha do pastor que não pode falar com os pobres pecadores? – Talvez houvesse um pouco de sarcasmo na minha voz. Só talvez...
Ela apressou o passo. Já estávamos na rua quando puxei seu braço e olhei em seus olhos.
– Você poderia engolir o seu maldito orgulho e me agradecer? Não vai fazer seus dentes caírem.
– Certo – falou puxando seu braço de volta. -, obrigada por recuperar minha Bíblia.O que você quer agora? Que eu te coloque em um pedestal e te venere? Você por acaso evitou que um meteoro destruísse a Terra? Acabou com a fome no planeta? Você me ajudou hoje, e estou grata por isso, mas não precisa ser meu amigo.
Deu-me as costas e partiu. Fui atrás dela.
– E o que você está pensando? Que vou me tornar seu amigo por pena? Você não é a única que sofre bullying na escola...
– Que descoberta impressionante! Pode seguir seu caminho agora.
– É o que eu estou fazendo – falei sarcasticamente. –Indo para casa!
– Não adianta me enganar, você nunca passou por esta rua...
– Há várias maneiras de se chegar a um lugar.
Permanecemos em silêncio por alguns instantes.
– O que você faz com um casaco em um dia tão quente como esse? – Perguntei.
– E por que você não faz a mesma pergunta a si mesmo, afinal, está com um casaco também.
Eu vestia meu casaco preto favorito de uma banda de rock americana.
– Algum problema?
– Tem sim- disse olhando para mim. – Um garoto estranho me seguindo até em casa.
– Se é assim, desculpe-me Vossa Majestade – eu disse fazendo uma reverência enquanto ela me olhava atônita. – Só vim devolver a sua agenda.
Entreguei-lhe a agenda e continuei a andar na mesma direção. Ao virar na esquina vi que ela ainda me olhava com o queixo caído.
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