Beyond
3 Brisa
Notas iniciais

Segundos depois percebi que ainda estava parada na frente de casa. Mas que idiota! Girei a chave e bati a porta com força. Se aquele garoto achava que eu iria me curvar e beijar os pés dele ele estava muito enganado. Eu já tinha agradecido. O que mais ele queria de mim? Servidão total? Submissão eterna?
Antes de formar qualquer aversão concreta pelo desconhecido que me seguira, me surpreendi com o cheiro de queimado. Isso provavelmente quer dizer que meu pai está cozinhando e eu não irei almoçar hoje.
– Boa tarde, filha! – ele disse quando eu entrei na cozinha e fui em direção à geladeira. – Teve um bom dia de aula?
– Claro, pai. O que o senhor queimou?
Ele virou-se para mim como se não estivesse entendendo a razão da minha pergunta.
– Queimar o que filha?Eu só estou fazendo o almoço para você – Ele continuou mexendo nas panelas sobre o fogão totalmente desajustado.
Levantei a tampa da lixeira e encontrei uns dois quilos de miojo queimados.
– Pai... Para o bem da nossa saúde e da minha vida, me deixe cozinhar.
– Mas filha, você sempre cozinha... Eu quero te ajudar. E, aliás, esse foi o quinto e único macarrão instantâneo que deu certo.
Ele sentou-se e pôs a cabeça entre as mãos e parecia uma criança de dois anos, frustrado e indefeso.
– Pai, preocupe-se em fazer os seus sermões. Eu resolvo o lance da comida, tudo bem? A Edith já me ajuda com a casa duas vezes por semana. Não há nada de errado sobre eu cozinhar. E aliás, eu gosto de preparar a comida.
– Já que você quer assim...
E saiu em direção ao escritório. De certo modo parecia até aliviado. Suspirei e coloquei as ideias em ordem. Abri a janela para retirar o mau cheiro da cozinha e joguei o lixo fora. Depois de alguns minutos, fiz arroz, esquentei o feijão e fritei alguns pedaços de bife completando o cardápio com macarrão ao molho rosé. É, sou boa mesmo...
Antes de subir para meu quarto passei no escritório e avisei que o almoço já estava na mesa e pedi que ele esperasse, pois iria tomar uma ducha.
Subi as escadas e no meu quarto, joguei a mochila em cima da cama e fui para o banheiro. Lá, tirei minhas roupas e observei os hematomas em meus braços, a causa de eu estar usando aquele casaco no calor. Ao terminar o banho, me joguei na cama e procurei pela agenda. Se já não bastasse as jogadoras de vôlei, esse garoto agora vinha tirar a minha paz. Eu já o tinha visto algumas vezes. Era o roqueiro-estranho-recluso que sentava no fundo, sempre com olheiras debaixo dos olhos e cheirava mal. E por alguma razão resolveu me seguir. O que levou o esquisitão calado a me ajudar? Ou melhor, a me importunar?
– Será que dá pra piorar? – Eu questionei para o vazio. Fechei os olhos. – Um, dois, três – Contei esperando pelo pior. – Nada? Novidade! Mundo, pela primeira vez você aceitou a minha pergunta retóri... retóri...
E de repente...
– Achin! — Claro, demorou, mas não falhou.
...
Bom dia mundo! Bom dia Deus. Oi, gripe... Levantei, ativei minha playlist, tomei banho, engoli dois antigripais e fui fazer o café. Estava na cozinha fritando ovos para mim e meu pai quando ele entrou na cozinha, beijou minha testa e sentou-se à mesa.
– Filha, esqueci de perguntar ontem como foi a noite na casa das suas amigas.
Tentei me lembrar de quando tivera dormido na casa de alguma amiga. Até recordar que Larissa dissera que tinha ligado para meu pai na noite em que me deixou congelando na escola.
– Foi muito... – procurei não mentir – fria. Pai, tenho que ir. Tchau.
Ao sair pedi a Deus que aquelas meninas não implicassem comigo hoje, já que meu bom humor foi dar uma voltinha e o resfriado veio em seu lugar. Reprimi o desejo de voltar para meu quarto e me enterrar debaixo do edredom. Peguei o guarda chuva no caso de haver uma chuva de bolinhas de papel novamente. Abri a porta e me deparei com um pesadelo. Fechei os olhos e repeti mentalmente que era um sonho. Ao abri-los a criatura estava mais próxima.
– Bom dia desconhecida! Eu estava indo para a escola e por coincidência vi que sua casa estava na minha rota e decidi dar a vossa senhoria a oportunidade de desfrutar da minha agradável presença.
– Eu prefiro desfrutar da minha solidão e ir sozinha à escola, tudo bem?
– Sem problemas, eu te acompanho – ele disse com um sorriso debochado.
Mas não dava pra acreditar que meu dia iria começar com o esquisitão me seguindo de novo... Parti na sua frente enquanto ele vinha atrás de mim assoviando o solo de uma guitarra. Sem errar uma nota.
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