Notas iniciais
Well, well. Here we go again.

Ela virou-se bruscamente pisando forte, um sinal bem claro de que não queria ser seguida. Brisa subiu a ladeira, e eu, como uma ótima companhia, fui atrás dela. Ela não olhou para trás, mas percebeu que eu estava próximo, ou então ela teve uma vontade súbita de cerrar os punhos.

Acho que a irritei. Só acho, sabe?

Caminhamos em silêncio por muito tempo, cerca de um minuto quando comecei a me entediar. Reparei que ela andava com a cabeça baixa, encarando o chão. Normalmente eu atribuiria vergonha a esse comportamento, mas, no caso de Brisa, podia muito bem ser raiva. Ela girou sobre os calcanhares e me encarou.

– Escuta aqui — ela disse. –, que parte do ‘me deixa em paz’ você não entendeu?

– Nenhuma – falei.–Eu entendi o que você quis dizer.

– E? – ela perguntou exasperada.

– E eu não me importo – eu disse dando de ombros.

Ela rolou os olhos e voltou a caminhar. Mantendo sempre uma distância segura, eu a segui. Eu até podia ser mais forte que ela, mas, sei lá. Aquele olhar que ela me lançava fazia parecer que ela queria me matar, estrangular, espancar, enforcar, esquartejar, estripar, escalpelar ou incinerar. Não queria estar perto quando ela decidisse o que fazer, não ia ser nada bonito. Garotas tendem a ser destrutivas quando estão zangadas.

O tédio começou a assolar, então assoviei uma melodia do Guns’n Roses, deixando minha mente viajar. A música sempre acalmava meus nervos. Infelizmente nem todos se sentiam assim. Estava com a cabeça há anos luz da Terra quando ela me olhou de soslaio e perguntou:

– Você quer parar com isso? – lá estava aquele olhar assassino de novo.

– Isso o quê?

– Esse... – ela lutou pela palavra certa – Barulho.

Meu queixo caiu em choque.

– Esse é um clássico do Guns! – estava indignado – Não ouse chamar de barulho!

– Barulho. Barulho. Barulho. – ela repetiu com um tom de voz raivoso me encarando.

Suspirei e voltei a assoviar.

Ela rolou os olhos.

– Você não cansa de me encher não?

Fiz que não com a cabeça sem parar de assoviar.

– Por que você está fazendo isso, afinal?

– Porque você me odeia. Esse é um bom motivo.

Ela virou de costas e voltou a caminhar, dessa vez um pouco mais rápido. Um óbvio sinal de ‘não me siga!’.

Acho que nem preciso dizer que eu fui atrás dela. Chato? Eu? Imagina!

Dessa vez eu não assoviei, fiquei encarando seus punhos ameaçadoramente cerrados. Os nós das mãos estavam brancos, e eu sabia quem levaria um soco. Assustador.

Resolvi puxar assunto.

– Então, você joga bem?

Ela me ignorou.

– Por que suas colegas de time estavam implicando com você?

Olhou por cima do ombro sem parar de caminhar. Devia estar com o olhar de novo.

– Não é da sua conta – ela disse docemente.

Abri a boca para responder, mas não tive tempo. Um grito de mulher chamou minha atenção. Virei de costas e vi um carro descendo a ladeira. Atrás dele estava uma mulher jovem com cabelos loiros gritando:

– Meu bebê!

Você pode falar o que quiser de mim. Que fui idiota, imprudente e impulsivo. Mas o que qualquer outro faria no meu lugar? Banquei o herói.

Deixei Brisa sozinha e corri na direção do carro. A ladeira era bem inclinada, o que fazia o veículo importado ganhar mais velocidade à medida que descia, correndo em direção a um muro de concreto. Eu não podia deixar o bebê ser esmagado.

Tentei fazer como vira muitas vezes em filmes de ação e agarrei a porta da frente, colocando o braço pela janela meio aberta. Meus punhos doeram com o esforço do tranco. Ia tentar pular pelo teto solar, mas não tinha como me impulsionar para cima do carro. Pensei em puxar o trinco, mas a porta me jogaria longe com o impulso. Coloquei mais força nos braços e me joguei pela janela, minhas pernas ficando para fora durante alguns instantes, mas consegui trazê-las para dentro do carro. De alguma forma consegui sentar no banco do motorista.

Tentei controlar a adrenalina. Freio de mão estava fora de possibilidade, não gostaria de provocar um acidente maior. Olhei pelo espelho retrovisor e vi o muro logo atrás. Então, de súbito, uma ideia me ocorreu.

Pisei no freio.

O carro deu uma freada brusca, parando a cerca de um metro do muro. Respirei aliviado e me joguei no banco. Eu tinha conseguido.

Algum tempo depois escutei o som de saltos contra o asfalto, logo depois a mulher loira que eu vira antes apareceu ao lado do carro.

– Meu bebê!

Ela abriu a porta de trás enquanto eu saia do carro. Ela estava evidentemente feliz por ver o bebê dela a salvo.

– Você está bem, querido? – ela estava debruçada sobre um berço cor de rosa. – Não se preocupe meu bem, a mamãe está aqui.

Então ela pegou a criaturinha no colo e virou-se sorrindo para mim.

– Obrigada! Você foi tão corajoso! Tão heroico! Se não fosse você, meu pobre bebê teria morrido.

Eu geralmente aceito elogios. Mas não consegui nem manter minha pose heroica, pois meu queixo havia caído ao ver o que ela segurava no braço.

– Cadê o bebê? – foi tudo o que eu pude perguntar.

– Aqui! – ela levantou o chihuahua marrom nos braços.

– O rato comeu ele? – perguntei espantado.

Ela pareceu ofendida, e a coisa no colo dela também. Mas a culpa realmente não era minha, uma mulher chamando aquela criatura minúscula desprovida de pelos com uma coleira de diamantes e uma jaqueta de couro rosa de bebê não parecia ser muito normal.

– Esse é o princesa! – ela disse quase exultante.

– Princesa? – minha cara de choque deveria estar maravilhosa. – Mas... – eu disse analisando. – Ele é macho!

– E daí? – ela sorriu como se aquilo não importasse.

Fiquei horrorizado com o desprezo da masculinidade do cachorro.

... Acho melhor eu ir – falei virando de costas e ignorando os agradecimentos dela.

Brisa estava parada atrás de mim. Desnecessário dizer que ela estava rindo. Minha expressão de surpresa devia tê-la divertido muito, pois ela não parecia mais querer me matar. Pelo contrário, estava com o maior sorriso que eu já vira.

– E então, ó bravo e destemido salvador de cães-bebê indefesos – ela disse em tom de zombaria. – Como está se sentindo?

– Como um pequeno ou médio herói – respondi. – Porque super tá difícil! Na verdade, depois desse choque de adrenalina já pensei em quinze maneiras diferentes de implicar com você.

O sorriso dela murchou, ela rolou os olhos e virou as costas, voltando a caminhar. Quantas vezes ela já fez isso, mesmo?

Acompanhei-a até chegar em casa. Tudo bem, acompanhei não é a palavra certa, pode-se dizer que eu a segui por todo o caminho assoviando a música do Guns’n Roses.

Quando ela chegou à porta de casa fiz algo sem pensar.

– Brisa! – gritei. – Você devia sorrir mais. Seus dentes não vão cair por isso.

Como resposta a porta bateu com toda a força. Ela estava caidinha por mim. Isso será divertido...

Notas finais
Comentem, meus babies. Ou eu paro de escrever essa bagaça! Brincadeirinha... #AArteDeAmeaçarEuDomino. Beijos!