Between earth and heaven

7 Hm, então, eu sou Matt!


Eu ainda estava atordoada quando acordei, dividida entre a descrença e as provas incontestáveis. A principio julguei ter sido apenas um sonho estranho com Jin e Patch, mas não me recordava de ter ido dormir, e o rosto preocupado de Patch e de seu amigo já acusavam toda a situação.

– Honnie, o que você viu? – Os olhos negros me atravessavam de maneira cortante, eu estava muito confusa, tentei falar, mas as palavras não saíram, simplesmente minha cabeça não estava em sincronia com meus lábios.

– Jin...- O nome dela foi a única coisa que saiu dos meus lábios, seguido de lágrimas quentes, a saudade angustiante da minha única família voltara com toda a força, vê-la viva naquele sonho, ou seja lá o que fosse, mexeu comigo mais do que eu poderia ter imaginado – Eu vi a Jin... – Eu disse entre soluços.

– Venha, temos muito que conversar ainda, e não queremos acordar Hany – Patch segurou meu braço e me levou até onde estavam três poltronas em um pequeno cômodo do quarto que eu acreditava ser uma salinha, o amigo de Patch apenas nos seguiu calado.

Eu não sabia mais se o que eu estava vendo era real ou mais uma alucinação, mas a dor estava ali me torturando, me fazendo implorar mentalmente para que tudo isso passasse, para que a dor voltasse a ser suportável.

– Hm, então, eu sou Matt! – O outro falou com um sorriso largo, provavelmente tentando diminuir a tensão que se formara. Enxuguei as lágrimas com a manga da minha blusa e encolhi os olhos em um sorriso forçado, eu não fiz a mínima questão de tentar parecer feliz em conhecer Matt, talvez ele fosse só mais uma enxurrada de problemas para mim.

– Honnie... – Falei meu nome sem demonstrar nenhuma emoção. Olhei para Patch que parecia estar tentando escolher as palavras certas para nos levar de volta para o assunto que abordávamos antes que eu perdesse a consciência.

– Eu não sei o que viu... Não posso controlar isso, mas, por favor, Honnie se acalme – Ele suspirou – Eu sei que parece impossível, não vou dizer que as coisas vão fazer sentido depois, porque provavelmente apenas irá piorar... Mas eu imploro que confie em mim! – Os olhos negros que em alguns momentos pareciam extremamente maldosos agora clamavam minha compreensão.

– Patch... Tudo isso é verdade? – Perguntei ainda com alguma esperança de que ele estivesse apenas tirando um sarro da minha cara, mas eu sabia que não, a verdade estava ali pronta para me ferir mais uma vez... Pronta para ferir aquilo que mais amo, Hany.

– Honnie, sinto muito. Tentei ao máximo não deixar que Hany entrasse nisso. – Ele falou parecendo ler meu pensamentos.

– Você... – Olhei para Matt – Também conheceu Jin, não foi? Estava no casamento! — Falei lembrando do dvd. Matt assentiu com um leve sorriso parecendo sentir nostalgia.

– Jin, aquela pestinha! – Ele disse parecendo um irmão mais velho – Implicávamos muito um com o outro, mas ela foi a única humana pela qual conseguir sentir algo amigável – Sorri ao ouvir aquilo, sabendo que a Jin poderia mesmo despertar bons sentimentos em qualquer um.

– Você também ...- Comecei a falar mas Matt me interrompeu.

– Um Anjo caído? Sim. Mas diferente do meu querido amigo Patch, eu não caí por ansiar uma vida com uma humana – Patch deu uma cotovelada nele, parecia não querer mostrar seu lado mais... ‘’Humano’’ – Bem, o céu não era para mim – Concluiu Matt – Mas o problema é que não consigo gostar de humanos – Ele negou com a cabeça, não pude deixar de me sentir levemente insultada.

– Matt tem medo de acabar sendo como humanos e ter sentimentos – Patch disse – Mas ele sabe que isso é inevitável – Assenti com a cabeça ainda me perguntando se isso poderia ser real.

– Então, já está meio tarde – Disse Matt se levantando – Vocês ainda tem muito que conversar, imagino que agora a cabeça Honnie esteja uma bagunça – Ele disse se retirando. Patch e eu ficamos calados por um minuto, mas uma pergunta martelava em minha cabeça e eu tinha que saber a resposta.

– E Hany? – Perguntei dirigindo meu olhar a Patch – Sendo sua filha... O que ela é? – Eu sabia que a resposta ia me assustar, mas eu queria muito mesmo saber.

– Eu sabia que essa seria sua primeira pergunta – Ele também me olhava – E é ai que moram os maiores problemas, preciso que você confie em mim – Eu não sabia o que dizer. Permaneci calada. Ele continuou – Hany é uma Nefilim, metade anjo caído, metade humana. Ela ainda não irá manifestar nada fora do comum, mas assim como eu, Hany é imortal, irá crescer apenas até os 16 anos, ela poderá invadir mentes, será forte e rápida. – Me senti ouvindo uma história com heróis e vilões dotados de superpoderes, mas era da minha filha que Patch falava. – Mas Honnie... Ela é um fruto proibido, nefilins são vistos como raças impuras, de espirito ruim... Jamais farão parte do céu, nem do inferno. Estão condenados a vagar entre os dois – Ele me olhou, cada vez mais sério – Mas você sabe, Lúcifer não dispensa quase nada, então em alguns casos ... – Ele deixou a frase subentendida. Eu estava confusa, precisava de tempo para compreender tudo isso.

– Eu nunca imaginei ...- Falei estática – Mas porque estão atrás de nós?

– Bem, essa é a outra parte do problema – Ele respirou fundo antes de continuar – Existe uma profecia – Ele olhou para um lado e para o outro – Eu costumava ser um dos mais fortes arcanjos, minhas asas eram as maiores e sempre fui elogiado pela minha força, inteligência, de fato eu me destacava – Ele pareceu convencido, como sempre – E Hany é minha filha, isso quer dizer que ela também é muito forte. Honnie, é muito raro um anjo que se destaca no céu cair, porque geralmente eles são valorizados e paparicados, mas eu nunca gostei muito disso, sempre observei a terra e a forma como viviam aqui me parecia muito melhor comparado ao que eu tinha lá em cima, então eu caí. Quando caí fui perseguido, até então eu não tinha conhecimento dessa profecia, e ainda não tenho certeza, mas os boatos entre os nefilins, caídos e arcanjos correm a uma velocidade incrível e eles não querem correr risco algum.

– Mas que profecia, Patch? – Eu estava muito preocupada e não tentei esconder isso.

– Um forte anjo irá procriar, o começo da grande guerra se dará por um nefilim, e o final por uma humana – Ele recitou isso de forma profunda e eu senti um frio percorrer todo meu corpo – Na época que começaram a desconfiar disso, acharam que Hany e Jin eram essas pessoas... Honnie não se assuste com que vou dizer agora – Ele estalou os dedos escolhendo as palavras – Na época que Jin ficou grávida ela já estava ciente de tudo isso, sabíamos dos riscos, e concordamos em enfrentar isso tudo juntos... – Eu sabia que ia me machucar de novo ouvindo isso... Existia tanta coisa sobre Jin que eu não sabia! – Mas Jin para proteger a mim e a Hany, se sacrificou – Patch lamentava. Uma vez ele disse que não conseguiu amá-la, mas eu podia perceber que ele tinha fortes sentimentos, que queria proteger Jin, mas não conseguiu e se culpava por isso – Os malditos arcanjos mataram Jin... Mas ela planejou tudo, ela fez parecer que Hany estava com ela e até então os arcanjos achavam que havia resolvido o problema! –

– Ai meu Deus... Eu sempre soube que não era um acidente – Senti meu coração se partir novamente, igualzinho a vez em que recebi a noticia que jamais veria Jin outra vez. A confirmação de que ela havia sido roubada de mim de uma forma tão cruel me corroía por dentro, aquela noite estava sendo esgotante.

– Honnie, por favor, preciso que confie em mim, quero proteger Hany e você... – Ele era sincero, e eu podia sentir isso.

– Patch... Não imaginei que se sentia assim – As palavras saíram naturalmente.

– Você é a mãe da minha filha... É importante! – Não pude conter os cantos dos meus lábios se erguerem em um leve sorriso.

– Obrigada! – Falei o fitando, a dor pela ausência de Jin estava lá, mas por Hany, eu conseguia forças para continuar. Patch continuou falando por algum tempo, explicando sobre seu antigo mundo, e meus olhos atentos não perdiam nada, eu tinha muitas perguntas.

–Ele existe...? Quero dizer, o paraíso? – Perguntei um tanto sem jeito. Patch sorriu de uma forma estranha.

– Bem, vamos dizer que existe um lugar que boas almas vão para ter seu descanso... – Ele fez uma pequena pausa – E também existe o lugar para onde almas ruins vão. – Aquele Patch misterioso estava ali novamente. Mas minha cabeça ainda procurava desesperadamente por mais perguntas.

– Você disse que pode invadir a mente das pessoas ...-

– Invadir, criar ilusões, deixar alguém confuso – Ele estava sendo malicioso. O Patch de sempre. – Pode falar... Eu sei que você quer ver como funciona – Ele disse com uma sobrancelha levantada.

– O quê? Acha que sou tão curiosa? – Menti

– É de a natureza humana ter elevada curiosidade – Nesse momento ele levantou-se da poltrona onde estava e curvou-se olhando-me fundo nos olhos, seu rosto estava a pouquíssimos centímetros do meu, minha respiração ficou ofegante e foi então que ele sem nenhum motivo aparente selou meus lábios, macios e quentes. Meus olhos se arregalaram com o susto e eu tentei afastá-lo mas foi em vão, então fechei os olhos com força tentando pensar em uma forma de para-lo, quando abri meus olhos novamente lá estava Patch, sentado na outra poltrona, dando risadas de mim.

– O...O...O QUE FOI ISSO? – Perguntei atordoada e assustada, me senti extremamente violada, a raiva me tomou.

– Isso, era a demonstração que você queria, é assim que funciona um truque de mente – Ele fez uma reverencia em agradecimento – Não se assuste não te beijei – Ele me olhou dos pés a cabeça – Digamos que você não faz o meu tipo – Patch provocou.

– Mas pareceu muito real – Falei ainda atordoada passando o dedo pelos lábios – O quê? Fico muito feliz, convencidos cheios de segredos também não fazem o meu tipo! – Falei na defensiva, ele riu.

– Convencidos cheios de segredos ? – Ele me examinou de novo – Asiáticas com um vácuo na área do tórax não são muito atraentes para mim – Ele piscou um olho, pensei um pouco e percebi que Patch se referia aos meus seios.

– Não fale dos meus seios! – Berrei totalmente sem graça e era evidente que Patch se divertia com a situação.

– Está vermelha, parece uma adolescente envergonhada! – Ele disse rindo de mim, eu queria esconder minha cara, mas não tinha onde. Cruzei os braços irritada e bufei.

– Idiota! – Neguei com a cabeça, não sabia como me defender. – Vou dormir – Disse por fim, não sentia sono, mas era melhor do que ter que ouvir Patch zombar dos meus seios, ou da falta deles.

– Durma com os anjos, chefinha – Ele sorriu e piscou de novo, e eu apenas me retirei.