Between Us

2 Capítulo 2 – Where have you been?


Notas iniciais
Heey o/ Queria muito agradecer quem leu e principalmente quem comentou porque nossa, me deixou feliz pra caramba! Vocês são uns amores,obrigada ^^ Enfim, boa leitura gente!!

“Where have you been? Are you hiding from me?

Somewhere in the crowd”

Where Have You Been — Rihanna

Seus olhos castanhos amendoados me encaram fixamente. Ele está surpreso em me ver, posso perceber de longe. Pisca duas vezes, como se não acreditasse no que vê. Quero fazer isso também porque, igualmente, não acredito que é ele ali, a alguns metros de distância. Mas estou congelada.

Tenho imaginado há tanto tempo o dia em que o veria de novo, que acho que estou sonhando. Em todas as vezes que imaginei esse momento, me forço a ir em sua direção, ao menos para cumprimentá-lo e perguntar como estão as coisas, do mesmo jeito que alguém normal faria. Porém, ao contrário da versão madura da minha imaginação, minha versão da realidade, a que está aqui agora com as mãos tremendo, quer sair correndo.

Acontece que nos meus pensamentos não seria numa festa depois do MTV Awards que James e eu teríamos o nosso, pelo menos da minha parte, tão temido e esperado reencontro. Não mesmo. Não com tantas pessoas ao redor. Não com Luke tão perto.

Só de olhar pra ele, me sinto com 18 anos novamente. Sua presença me traz lembranças de um tempo diferente, distante. Um tempo em que não haveria um dia em que ficaríamos sem nos falar. É como se ele trouxesse de volta aquela sensação de buraco no tempo, como quando você perde um pedaço importante de um filme e então não consegue entender mais nada. Vê-lo faz com que isso fique mais forte e posso sentir minha mente se esforçando para preencher essa lacuna.

Não entendo o porquê dessa sensação. Depois do acidente, quando acordei após oito dias em coma, minha memória não estava das melhores. Esquecia do nome de coisas simples, como cadeira ou sorvete. Outras coisas também faltavam. Não me lembrava do acidente e dos dias que o antecederam, mas com um mês de tratamento e a ajuda dos psicólogos, minha família e amigos, consegui me lembrar de tudo. Então é por isso que não consigo compreender esse vazio, como se tivesse perdido uma parte de mim.

Enquanto todos esses pensamentos e lembranças passam pela minha cabeça rapidamente, James começa a andar na minha direção. Entro em pânico. Não estou preparada. Não quando parece que fiquei parada no tempo durante esses anos enquanto ele seguiu em frente com sua vida. “Sem mim.”, não posso deixar de acrescentar.

Tenho que sair daqui! Tenho que sair daqui!” estou gritando em minha cabeça, igual um alarme, um sistema de defesa. O mar de pessoas que estão na pista de dança entre nós o atrapalha. É a minha chance de fugir. Olho ao redor procurando uma saída, alguém a quem eu possa recorrer pra sair daqui. Estou tão desesperada que mal percebo que Ashton se aproximou e está falando comigo.

–Hey Zoe! Tá me ouvindo? – ele fala, agitando a mão na frente do meu rosto.

–Ash! — quase grito de alívio. – Você precisa me ajudar!

–Até que enfim respondeu! Tava começando a achar que você tinha dormido de pé e olho aberto...Espera. Ajudar com o que?

Olho no lugar em que James estava e percebo que ele está mais perto, lutando pra passar entre as pessoas.

–Me tira daqui! – pego seu braço – Agora!

–Mas o que... — Ele vira a cabeça na direção que olhei, mas antes que ele possa ver algo, puxo seu braço, o forçando a olhar pra mim.

–Por favor. –digo. Devo parecer muito desesperada, porque ele concorda e começa a me puxar, indo para a direção oposta que James está. Estou sendo uma covarde, eu sei. Mas não posso deixar de me sentir aliviada quando chegamos do lado de fora da festa, uma grande sacada, um espaço ao ar livre. Há poucas pessoas aqui, a maioria está lá dentro, dançando, bebendo ou se pegando nos cantos escuros.

–Ok, agora que estamos aqui, será que você pode me explicar o que aconteceu?

–Ah...bem...nada demais na verdade. Eu só, é que...eu tava passando mal, é isso... – não deixa de ser verdade.

–Zoe, você mente muito mal, sabia? Me conta logo o que houve, porque pela cara que você fez, não é isso que está dizendo.

Olho pra Ashton e pelo seu olhar, vejo que não tem como escapar, ele sabe quando estou mentindo e não vai sossegar até eu contar a verdade. Fecho os olhos, inspirando uma boa quantidade do ar frio da noite antes de falar:

–Ele está aqui, Ash. James está lá dentro e ele me viu. Estava vindo falar comigo quando você chegou. Foi por isso que pedi sua ajuda. Satisfeito?

–Oh. – ele diz – Bem...Eu imaginei que isso pudesse acontecer. O que eu quero saber agora é: Porque você não conversa logo com ele? Vocês precisam resolver isso, Zoe.

Balanço a cabeça, negando e concordando ao mesmo tempo. Ash está certo, eu preciso encarar isso, pelo meu próprio bem. Mas não é tão simples quanto parece. Volto a ficar nervosa e Ashton se oferece para buscar uma garrafa de água pra mim. Quero pedir algo mais forte, mas pela leve tontura que sinto vejo que já bebi o suficiente e que a água é a melhor opção. Vou em direção ao balcão e me apoio nele, olhando as luzes lá em baixo. Está uma noite razoavelmente fria, e um vento gelado sopra. Esfrego meus braços expostos numa tentativa de me esquentar um pouco.

Ouço ao fundo a conversa das pessoas e a música abafada que vem de dentro. Está tocando XO da Beyoncé e começo a cantarolar a música baixinho, aproveitando o momento sozinha para me fazer algumas perguntas. Como as coisas ficaram assim? Porque não encaro tudo de vez? E a pergunta principal: Porque ele ainda mexe tanto comigo? Fico alguns minutos tentando achar respostas. Em vão. Suspiro e olho pro céu. Está bastante estrelado para uma noite de outono. Me concentro apenas nas estrelas e nos sons. Tem o barulho dos carros lá em baixo, com pessoas chegando e saindo da festa. Um celular toca. Risadas. E então uma voz corta esses sons fazendo uma descarga elétrica percorrer meu corpo quando ele diz meu nome.

–Zoe? – seu tom é cauteloso, como se eu fosse sumir ao ele dizer isso.

“In the darkest night hour

I'll search through the crowd

Your face is all that I see

I'll give you everything”

Não preciso olhar pra saber quem é. Mesmo se não tivesse ouvido a sua voz em filmes durante esse tempo afastados, sei que a reconheceria. Tenho a sensação que talvez até no meio de um show, como os da 5SOS, com milhões de fãs gritando, eu reconheceria a voz dele. Me viro lentamente, ficando de frente para quem me chamou. E ali está James, praticamente igual a última vez em que o vi. A barba por fazer e o blazer chic são as únicas coisas que o diferem do James de três anos atrás. Ele continua lindo. Estou o observando e ao chegar em seu rosto vejo que ele me observa também. Agora nos olhamos nos olhos e me forço a falar algo.

–Oi James. – respondo. Mais alguns segundos se passam sem que nenhum de nós diga nada, nem se mova. Finalmente ele dá um passo para mais perto e limpa a garganta:

–É realmente você. – seu olhar é de descrença — Não imaginava te encontrar essa noite. Para ser sincero, ainda não acredito que você está aqui.

–Bem, somos dois. Quero dizer, faz tan-

–Tanto tempo. – ele diz junto. Rimos fraquinho – É. Então... Como está?

Como eu estou? No momento, bem nervosa. Acho que nem eu sei como responder. Penso em tudo que eu poderia dizer: como me senti desde que perdemos contato e todas as coisas que aconteceram nesse período. Mas não somos mais os melhores amigos que contam tudo um pro outro. Levanto o olhar pra ele novamente. Ele está me olhando atentamente e quando percebe que o peguei fazendo isso, vejo suas bochechas ficarem levemente vermelhas. Ele desvia o olhar, e seu rosto fica normal tão rápido que acho que o imaginei corando.

–Ah...bem. Vou bem... – respondo por fim, decidindo pela resposta padrão que damos a estranhos ou apenas conhecidos, já que parece que esse é o tom que James deu a nossa “conversa”. Acho que é isso o que somos agora, desconhecidos que estranhamente tentam conversar. – E você? – Me apresso em perguntar.

–Eu? Estou bem também...

–Que bom... Fiquei sabendo sobre o novo filme. Estréia essa semana, não?

–Sim, estamos divulgando. Amanhã vou para Amsterdã.

–Ah sim. — Amsterdã. Quero tanto conhecer essa cidade. -E eu volto pra Austrália. — adiciono.

–Com a banda? – sinto um tom ressentido quando ele diz isso.

–É, com a banda. Vamos entrar em turnê agora e as coisas vão ficar uma loucura.

–Posso imaginar. – faz uma pausa — Quanto tempo?

Demoro uns segundos para entender que ele fala da turnê.

–Um ano mais ou menos. 15 países e muuitas viagens. – suspiro, dando ênfase no "muitas".

–E como tem conseguido? Quero dizer, você tinha medo de avião. – James se aproximou e agora estamos os dois encostados no balcão da varanda. Estou surpresa que ele se lembre disso.

–Ah...acho que tive que aprender a lidar com esse medo. Foi mais uma parte da minha decisão na verdade.

–Decisão?

–De sair de casa. Estudar fotografia, arrumar um emprego. Tentei evitar ao máximo aviões no começo, e nos dois primeiros anos deu certo. Carros e ônibus davam conta da minha locomoção. Viajava pelo país só assim.

James ri baixo.

–Só viajava de carro e ônibus? Isso devia ser demorado.

–Eu sei, eu era uma idiota, não precisa dizer. – rio também. O clima está um pouco mais leve entre nós. Mas ainda sinto o nervosismo e a ansiedade percorrendo minhas veias. E olha que nem estamos tão próximos.

–E então foi obrigada a encarar os aviões por causa do trabalho com a banda... – ele afirma.

–Sim, foi quando a ficha caiu de que estava na hora de seguir em frente e deixar os medos do passado para trás. – falo, diminuindo o tom de voz no final. Não sei onde esse papo furado todo vai chegar, nem se vai chegar a algum lugar. Por mais que eu queira fazer tantas perguntas a ele, eu sei que fazê-las em voz alta será como abrir uma torneira de sentimentos.

–Entendo. – ele diz.

Não era minha intenção usar a palavra “passado”, mas agora que falei, fico a espera da reação de James. Quero saber se ele sente algo ao lembrar dessa época, se ele tem algo a me dizer, se vai explicar porque foi embora.

Ele acende um cigarro. Dá uma tragada e solta a fumaça no ar noturno. Sua mão está tremendo levemente. Repete a ação e ao ver que ele não dirá mais nada, pergunto:

–Quando começou a fumar?

–Não lembro ao certo... Há uns dois anos acho. – Dois anos. Faz mais ou menos esse tempo desde o acidente. Será que é por causa disso?

–Por quê? – Não consigo deixar de perguntar. Hesita por um momento e responde:

– Por causa da pressão do trabalho. As gravações podem ser bastante desgastantes e isso ajuda a relaxar. – aponta pro cigarro.

–Ah sim. – respondo. Claro que é por isso, sua tola. Você não tem mais nenhuma interferência na vida dele, ele deixou isso claro quando foi embora. Por mais que esteja aliviada em saber que não sou o motivo de ele fumar, sinto uma leve decepção também. Não posso deixar de querer, mesmo que só um pouco, que eu o afetasse de alguma maneira do mesmo jeito que ele ainda me afeta, constantemente nos meus pensamentos.

Ficamos um tempo em silêncio. A cada minuto que passa minha ansiedade aumenta. Posso escutar meus batimentos cardíacos. Não sei mais o que dizer. E percebo que nem quero. Não consigo mais continuar com essa conversa superficial, cheia de formalidades. Fugindo do assunto que realmente importa.

– Então, se formou em fotografia? – James pergunta, apagando o cigarro.

Viro pra ele. Não posso continuar com isso.

–James, eu preciso ir. – começo a me afastar – Eu...é, eu tenho que ir agora.

Quando vejo seu olhar, sou surpreendida com o quão fragilizado ele parece. Seus ombros estão caídos e percebo que ele está com olheiras. Sinto um impulso forte de ir até ele e abraçá-lo, como eu costumava fazer quando ele ficava triste ou chateado com algo. Quase me deixo levar por esse impulso, mas me lembro que esse é um privilégio que não possuo mais. Nada desse passado existe mais. Eu pedi por um ponto final e por mais que não seja do jeito que eu gostaria, tenho que aceitá-lo.

– Tchau James. – digo num sussurro. Ele fica parado, sem dizer nada enquanto continuo dando passos para trás.

Dou mais uma olhada nele e me viro. É isso. Pronto. Hora de ir embora.

~===~

A última vez que eu tinha visto James foi no aeroporto da cidade que morávamos. Naquela época não sabia que seria a última vez, obviamente. Estávamos lá porque James ia pra LA para começar gravar a terceira temporada de Teen Wolf. Então fui me despedir do meu melhor amigo. Ele insistiu que não precisava, que era pra eu ficar em casa repousando. Fazia duas semanas que tinha colocado pinos na perna e eu estava fazendo fisioterapia. Mas eu quis ir mesmo assim.

–Tudo aí? Não esqueceu nada? Pegou seu travesseiro? – pergunto.

–Ei calma mamãe. – ele ri. – Peguei tudo sim. – Aponta a mala pequena, a mochila e o travesseiro. Dou um suspiro de alivio. Se James esquecesse o travesseiro, ficaria louco já que não consegue dormir sem ele.

–Ótimo. E não reclame,ok? Estou te ajudando para evitar futuras noites sem dormir, seu cabeça de vento. Você fica tão distraído antes de viajar que quase sempre esquece algo. Deveria me agradecer isso sim!

–Eu sei. Obrigada pequena. – me dá um beijo na testa. – O que seria de mim sem você,não é? Aliás, acho que qualquer dia desses levo você na mala pra ser minha acessora lá.

–Na mala? – pergunto estranhando.

–É. Você é tão pequena que caberia tranquilo. E assim a gente economiza a grana da passagem. – pisca um olho e ri alto.

–Mas o quê?!? James O’Donel! – falo indignada. Bato nele de brincadeira.

–Ai! – ele diz. – Me machucou Zee. – faz um biquinho fofo, fazendo drama. “Que vontade de morder esse bico.”, penso.

–Por que tá me olhando assim? – ele pergunta.

–Assim como? – desperto do meu devaneio a respeito do quão mordivel são os lábios do James.

Não sei o que aconteceu, mas depois do acidente, minha paixão platônica pelo meu melhor amigo só piorou. Penso tanto nele e em como seria a sensação de beijá-lo que em alguns momentos parece que isso já aconteceu.

–Com esse sorriso bobo. – diz, sorrindo também e tocando meu lábio inferior.

–E-eu não tô com sorriso bobo nenhum... – gaguejo.

–Tá sim. E agora tá corada.

–Não tô não. Que saco James! Vai ficar rindo de mim agora é? – Viro o rosto pra esconder minhas bochechas.

–Hey. Olha aqui. – Devagar, volto a olhá-lo – E quem disse que estou rindo? Você fica linda assim.

Coro ainda mais. Eu ouvi certo? James coloca a mão no meu queixo, o levantando. E a próxima coisa que sinto são seus lábios tocando os meus. Meu coração dá um salto e acelera. Ele se afasta e encosta a testa na minha. Está com um sorriso enorme no rosto e os olhos fechados. Toco sua bochecha.

–Não sabe o quanto esperei por isso Zoe. O quanto eu quis fazer isso...

–Eu também. – Ele abre os olhos e me encara. Parece querer dizer alguma coisa, mas então me beija novamente. Um beijo mais longo, desesperado até. Mesmo esse sendo nosso primeiro beijo (bem segundo na verdade, porque já demos um selinho no primário, que foi seguido por um “ew” de ambos), James parece conhecer minha boca.

Sua língua pede espaço e quando entra começa uma batalha com a minha. Coloco minhas mãos no seu pescoço o puxando mais pra mim, enquanto James aperta seus braços na minha cintura. Ao fim do beijo, mordisca meu lábio inferior e depois chupa ele de leve. Gemo baixinho.

–Jay...

–Atenção passageiros do vôo 407, com destino a Los Angeles. Por favor, dirijam-se para o portão de embarque D4. Atenção passageiros do vôo 407, com destino a Los Angeles. Por favor, dirijam-se para o portão de embarque D4. – diz a mulher pelos altos falantes, nos interrompendo e trazendo de volta a realidade. Sei que ela não tem culpa, mas quero bater nela nesse momento.

James percebe minha cara brava e ri.

–Eu volto em breve.

–Nós dois sabemos que isso não é verdade. – digo, ainda irritada.

–Bom, só se pensarmos no tempo total. Mas se a gente dividir, fica melhor. Pense como sendo um mês e só ao término dele é que pensamos no outro. E assim por diante. É assim que eu faço, ajuda bastante.

–É, mas não diminui de fato o tempo. – cruzo os braços.

–Vamos conversar por mensagens e skype, como sempre fazemos. E sempre tem a opção de você ir me visitar no set.

–É, quem sabe. Se a dona Ana deixar...

–Ah sua mãe deixa sim Zee. É só pedir com carinho e qualquer coisa eu posso ligar pra ela. O Caleb pode ir também se ele quiser.

–Caleb tá grudado naquela tal de Ellen... E bem...não é só isso, você sabe...

–É, eu sei. Seu medo de avião né? – concordo com a cabeça – Tudo bem. A gente vê isso depois.

A mulher faz a chamada de novo e vejo nosso tempo acabando, igual numa ampulheta com a areia caindo. James coloca uma mecha do meu cabelo castanho atrás da orelha e limpa uma lágrima que escorre no meu rosto. Me puxa pra um abraço apertado. As lágrimas caem livremente agora, molhando a camiseta dele. Quando nos afastamos, já sei o que ele vai dizer. Que não quer que eu fique assim por causa dele, que vai passar rápido e tudo o que ele sempre diz em toda despedida que fazemos desde que ele começou a ter que viajar para gravar.

Porém, dessa vez ele não fala nada. Apenas me olha, seu rosto indecifrável. Há um pouco de tristeza em seu olhar. Antes que eu possa perguntar o motivo, ele me beija de novo, dessa vez um beijo mais calmo e com uma duração menor. Depois tira do bolso da mochila uma pequena caixa e me entrega.

–É pra você colocar na sua pulseira. Pra se lembrar de mim.

Abro a caixinha e vejo um delicado pingente de coração.

–É lindo Jay! – digo – Obrigada.

Fico na ponta dos pés pra lhe dar um beijo na bochecha, mas no ultimo segundo James vira o rosto, transformando meu beijo num selinho. Então ele dá uma piscadinha e pega a mala, indo para o portão de embarque. Antes de passar por ele, grita:

–Já estou com saudades!

–Eu também! –grito de volta.

–Logo estou de volta! — ele grita também.

Mal sabia eu que ele nunca voltaria.

Então, minha ficha cai. “Que pulseira?”, penso. Mas ele já foi.

~===~

Ouço James me chamar. Estava perto de sair da varanda então paro.

–Zoe, espere! – ele se aproxima de mim, o suficiente para que eu sinta seu perfume. Minha cabeça dá um giro ao reconhecer a mesma fragrância amadeirada que ele usava antes – Eu sei que...eu...olha,eu gostaria de conversar mais um pouco com você, pode ser? – ele desvia dos meus olhos, olhando ao redor. – Talvez seja melhor sairmos daqui.

Olho ao redor também, vendo que algumas pessoas nos olham um pouco curiosas. Entendo o que ele quer dizer. Se alguém resolve tirar um foto é só lançar na internet para que o inferno comece.

–Para onde?

–Vem comigo. Eu sei de um lugar. – estende a mão pra mim.

Olho pra sua mão estendida e mesmo sem ter certeza se é o que devo fazer, automaticamente a minha vai de encontro à dele e a aperta, uma Zoe calma e decidida assume o comando. “Você quer isso. Não pode acabar daquele jeito.”, essa outra eu diz decidindo por mim. Sinto James estremecer quando o toco. “Se acalma, me repreendo. Sua mão está fria, por isso ele tremeu.”

Me deixo ser levada até a lateral da varanda onde num canto escondido tem uma escada de incêndio.

–É melhor tirar isso aí – aponta para minhas sandálias de salto. As retiro e quando termino o pego olhando para minhas pernas. Ele desvia o olhar logo depois, e coça a parte de trás do pescoço. Ele fazia isso quando ficava nervoso, e acabou se tornando uma mania. “Algumas coisas não mudam”, penso.

–Podemos ir? – aceno com a cabeça, dizendo sim.

Descemos as escadas, sempre olhando pra cima para ter certeza que ninguém está nos seguindo. Tenho vontade de rir, mas seguro, mordendo o lábio. Me sinto uma fugitiva e por alguns momentos parece que estamos de volta ao ensino médio, matando aula e indo nos esconder atrás da quadra, onde havia muitas árvores. Nós subíamos em uma delas e passávamos a aula toda conversando.

~===~

–A Jessie pediu pra ficar comigo, sabia? – James diz. “Grande coisa”, quero responder mas ao invés disso falo:

–Ah é? – tento parecer desinteressada – Ela parece uma árvore de natal ambulante.

Naquela época, eu com 15 e James com 16, estava começando a desenvolver sentimentos pelo meu amigo, mas ainda não havia percebido na real isso. Achava que todo meu ciúme era normal, “coisa de amigo”, eu dizia.

–Mas até que ela não beija tão mal. – ele diz, arrancando uma folha da árvore.

–Então você ficou com ela! – o olho incrédula, minha folha destruída agora.

–Claro ué. Porque não ficaria?

–Talvez porque ela não faz seu tipo.

–Pode até não fazer, mas é bem gostosinha.

–Está querendo me dizer que os garotos só querem saber das garotas gostosas? Inclusive você?

–Quando se trata de ficar, sim. Agora para namorar é diferente. Você, por exemplo, é uma garota para namorar. Entende?

–O quê?! – Estou explodindo de raiva agora. Ele acabou de dizer que não sou gostosa? É isso mesmo? – Onde vocês ficaram?

–Por que quer saber?

–Porque sim oras. Vamos, responde logo James.

–Tá, calma! Na festa do Jake, na sexta.Eu te chamei pra ir, lembra? Mas você preferiu ficar em casa lendo.

James sempre me chamava para as festas que ele ia, mas eu nunca havia ido, não era exatamente um ambiente que me agradava. Música alta demais, pessoas gritando e se pegando no meio da sala. Eu me senti um peixe fora d’agua na única vez que fui. Jurei que era a primeira e última.

–Quando vai haver uma próxima festa? – pergunto, disposta a quebrar minha promessa para provar que James estava errado.

–Sábado. Por quê?

–Porque eu estarei lá, O’Donel. – respondo antes de pular do galho e sair pisando duro.

No dia da festa, me arrumei totalmente diferente do que costumava usar. Pequei um vestido tubinho com manga longa que estava escondido no meu closet. Usei salto e fiz uma make mais forte, marcando bem meus olhos verdes. Quando escutei vozes no primeiro andar, o que significava que minha carona tinha chego, desci e deixei meu irmão e James de queixo caído. Meus pais também pareceram surpresos mas não falaram nada.

–Zoe...você tá...diferente. – James conseguiu dizer depois do choque. Sorri em resposta.

Quando chegamos na festa, quase me arrependi de ter ido. Mas não demorou muito e um garoto veio me chamar pra dançar. Antes que James dissesse algo ou que eu pensasse demais, aceitei e fui dançar com o garoto. Naquele noite dei meu primeiro beijo de verdade. Porque o selinho com o Jay no primário e o beijo desastroso um ano antes com um amigo do meu primo na festa de aniversario dele definitivamente não contavam. Também foi naquela noite que tive minha primeira briga feia com meu melhor amigo. Pelo visto,ele tinha presenciado o meu beijo de longe e não gostou nem um pouco. Assim que o menino que eu havia beijado saiu pra me buscar um copo de refrigerante, James se materializou na minha frente e disse que íamos embora naquele instante. Daí quem não gostou do que ouviu foi eu. Falei que se ele quisesse ir embora podia ir, que eu estava me divertindo e ia ficar.

–Então ficar se agarrando por aí com qualquer um é sua definição de se divertir agora?

–E se for, algum problema? Você acha que só você pode se divertir?

No final, acabei ficando mesmo e o garoto, que aliás se chamava Bryan me levou pra casa. “Namorei” com ele por duas semanas. O tempo que eu e James ficamos brigados e sem nos falar. Assim que o namorico terminou, meu melhor amigo apareceu na porta da minha casa, com os DVDs de Star Wars. Mandei ele entrar e fui pra cozinha preparar a pipoca. No final dos filmes, ele me pediu desculpa pelo seu comportamento.

–Senti sua falta Zee.

–Também senti Jay.

E foi assim que as maratonas de Star Wars se tornaram nosso símbolo oficial para pedir desculpas.

~===~

Estamos numa rua lateral. Não tem ninguém por aqui, provavelmente por causa do horário. São quase duas da manhã. Não posso deixar de pensar em Ash que vai voltar com a água e não me achar. E em Luke. Uma pontada de culpa invade meu peito. “Mas eu preciso resolver isso”, penso “Colocar um ponto final de vez nessa história.” Vou mandar uma mensagem pra eles assim que chegarmos num lugar menos perigoso. Escuto o barulho de alarme de carro e leve um pequeno susto. Mas é só James abrindo seu carro. Segura a porta do passageiro pra eu entrar. É um Audi, prateado e cheio de pompa. Não faz seu estilo.

Ele senta no banco do motorista e fecha a porta.

– Não fui eu que escolhi. – ele responde a meus pensamentos não ditos.

Percebo que estava franzindo as sobrancelhas e por isso ele deve ter dito aquilo. Quero perguntar quem escolheu então, mas acho que é melhor não. O nervosismo do começo voltou, mais forte agora que estamos dentro de um espaço menor e fechado.

–Coloca o cinto. – ele diz, ligando o carro e arrancando dali pras avenidas de Los Angeles. — Tem um moletom meu no banco de trás. Pega, você parece estar com frio.

Um silêncio reina por quase cinco minutos antes que eu resolva dizer algo.

–Você parece ter prática em fugir de festas. – comento.

–É. Tenho algumas fugas no currículo já.– ri amargo.

Estamos parados no semáforo e James aproveita pra afrouxar a gravata borboleta. Seu celular toca, mas ele não atende. Isso me faz lembrar que preciso mandar as mensagens. Pego o celular e digito rapidamente uma mensagem, explicando resumidamente o que aconteceu e que estou com James no momento. Mando para Ashton. Pauso quando vou escrever para Luke. Tem várias mensagens dele, perguntando onde estou. As últimas são mais desesperadas: “Zoe cadê você? Me responde, pelo o amor de Deus, estou realmente preocupado aqui”, seguido de outras com pontos de interrogação. Respondo a ele que estou bem, que ele não precisa se preocupar. Volto à aba do Ash e peço a ele que não conte nada ao Luke.

Olho pra janela do carro, soltando um suspiro longo.

–Tudo bem? – James pergunta.

–Sim. – e logo depois meu celular apita duas mensagens novas. A primeira é do Ash, com um sinal de ok. A segunda do Luke, "Mas onde vc está???" diz a mensagem. Não respondo. Não tenho como dizer a verdade agora, não sem magoá-lo.

James vira à esquerda e entra numa rua secundária. Viramos mais algumas vezes até sairmos numa pista à beira mar. Me pergunto como ele sabe andar tão bem pela cidade e então me lembro que ele mora aqui agora. Logo aqui onde ele dizia odiar ter que ficar, mesmo que apenas por algum tempo. Esse pensamento me faz perceber que eu não sei praticamente nada desse James de agora. Não concretamente.

O espio pelo canto do olho. Seu rosto está sério enquanto dirige e mesmo que esteja escuro, consigo ver suas pintinhas daqui. Ele tem várias e lembro de quando eu as contava. Morria de vontade de beijar cada uma delas. Agora sinto que só de olhá-las estou violando algum limite de privacidade.

Volto a olhar pra frente. Um pouco depois paramos. Assim que saio do carro uma rajada de ar gelado vem em meu encontro e me encolho com frio mesmo estando com a blusa de James.

– É aqui. Chegamos. — ele diz.

Notas finais
E aí, o que acharam? O que será que vai acontecer agora? ~suspense~ hahahah Espero que gostem e comentem suas opiniões :3 Kisses e até o próximo!!