Between Us
3 Capítulo 3 - Let it Burn
Notas iniciais
“Well, I felt something died
‘Cause I knew that that was the last time,
The last time”
Set fire to the Rain – Adele
O lugar que James nos trouxe é bem afastado e está deserto. Ao longe, bem distante, posso enxergar a luz de uma fogueira na areia, o único sinal de vida além de nós. Nos aproximamos de uma pequena casinha de salva-vidas perto do mar que parece abandonada. Ele se senta na rampa e faço o mesmo. Estamos bem próximos agora, com nossos ombros quase se tocando.
–Quase ninguém vem aqui, ainda mais nesse horário. Podemos ficar tranquilos.
Tranquilidade é o oposto do que estou sentindo. Olho em volta e depois pro céu. A lua está linda e parece caçoar de mim.
–Você deve trazer um monte de garotas aqui. — digo.
–Não. — ele responde — Você é a primeira. Na verdade, nunca trouxe ninguém aqui.
–Sério? – Não posso evitar questionar. Com certeza eu não esperava essa resposta.
–Sim. Aqui é uma espécie de refúgio pra mim. Sempre venho pra cá quando preciso pensar ou só fugir da realidade...
Fugir da realidade...sei bem como é sentir essa necessidade. Mas não imaginava que James também. Quero dizer, essa é a vida que ele queria, um trabalho onde ele pode fazer o que ele gosta, recebendo o prestígio merecido por isso.
–Uso os livros pra essa função... – comento baixinho.
–É, eu me lembro disso. – ele sorri de lado.
Quero perguntar se ele também se lembra de todo o resto: de brincar um na casa do outro, de ir pro mesmo esconderijo no esconde-esconde, dos pousadões e das maratonas de filmes, de compartilhar segredos e planos pra um futuro em que ambos seguiram caminhos separados. Do nosso beijo no aeroporto. Ou se ele esqueceu tudo isso quando resolveu partir e não voltar.
–Você ficava quietinha num canto, com os fones no ouvido, concentrada na leitura. Sua mãe morria de chamar e você não escutava. – ele dá uma pequena risada. -Tava perdida no mundo do livro.
–É, minha mãe ficava uma fera quando isso acontecia... – falo. Por que ele está fazendo isso? Quero pedir que ele pare, mas não quero mostrar o quanto isso me afeta. Então fico quieta, pensando.
Os livros foram minha primeira paixão, antes mesmo da fotografia. Por isso a biblioteca era o meu lugar favorito na escola. Chegava a ir mais de três vezes por semana e depois de um tempo a bibliotecária já me conhecia. Eu me sentia bem no meio dos livros, cercada por estantes e mais estantes e por aquele típico cheiro de páginas velhas. Bastava uma xícara de café e um bom livro e eu poderia ficar ali por horas a fio. Meu irmão e James sabiam que sempre que eu sumia e não respondia o celular era porque eu estava lá. Então eles iam e me “resgatavam” da minha fortaleza.
Essa minha paixão pelos livros começou bem cedo, observando meu pai ler. Ele ficava tão concentrado na sua poltrona com seu livro na mão e seus óculos de leitura que de longe poderia parecer intimidante. Mas eu sabia que não. Bastava olhar para seus olhos que você enxergava sua alma de criança. E isso me hipnotizava.
Foi por isso que logo que comecei a freqüentar a escola, aprendi o caminho para a biblioteca praticamente ao mesmo tempo em que aprendi o do banheiro. No começo, Caleb me acompanhava, mas logo ele fez amizades, então eu ia sozinha. Minha mãe disse que riu muito quando apareci em casa com um livro infantil e me sentei no meu banquinho ao lado de papai, assumindo uma pose séria e fingindo ler, já que eu não havia aprendido isso ainda.
Foi também por culpa (indireta) de um livro que conheci James.
~===~
–Tchau Alexia! – falo acenando para minha amiguinha.
–Você não quer mesmo carona Zoe? – a mãe da Alexia pergunta.
–Não, obrigada tia. Tô perando meu mano.
–Ah sim. Tudo bem então querida. Cuidado viu? – a dona Lucy diz, partindo com o carro.
Fico parada na calçada em frente à escola, esperando Caleb que esqueceu a lancheira na sala de aula. Estou segurando um livro nas mãos, sobre princesas e dragões, o meu preferido no auge dos meus 5 anos. Quando vejo que meu irmão está demorando, resolvo abrir o livro, ansiosa para lê-lo novamente.
Enquanto estou perdida lendo que a princesa guerreira está fugindo do dragão para salvar sua vida, não escuto os gritos de aviso.
–Cuidado! – alguém grita – Sai da frente!!
E então o barulho de um freio de bicicleta soa perto de mim. Perto demais. Caio sentada no chão, ralando os cotovelos.
–Oh! – o garoto da bicicleta fala, vindo na minha direção – Você tá bem?
Me encolho assustada, mal conseguindo enxergá-lo através das lágrimas que estão acumulando nos meus olhos. Um pequeno grupo de alunos já se aproximou e um deles diz que vai chamar a professora.
–Você se machucou? – pergunta o garoto se agachando perto de mim, me olhando preocupado com seus olhos castanhos arregalados.
Levanto meus braços pra olhar meus cotovelos ralados que estão ardendo. Quero chorar, mas a presença do menino me inibe. Quando ele percebe o sangue começa a pedir desculpas.
–Me desculpa, me desculpa! Foi sem querer, eu juro!
Meu irmão chega nessa hora, passando pelos alunos e correndo na minha direção.
–O que aconteceu maninha?
–E-eu...- quero falar que eu caí, mas o choro entalado na garganta não deixa.
–Foi mal... E-eu derrubei ela com a bike. – o garoto desconhecido diz.
Caleb faz uma cara feia e empurra o menino.
–Cê machucou minha irmã, seu boboca! – meu irmão diz bravo. Mesmo sabendo que era menor e mais novo, Caleb é brigão e não se intimida.
–Ei, foi sem querer! Eu pedi pra ela sair, mas ela não ouviu!
Meu pai e a professora do menino chegam e afastam os alunos que ainda estavam lá.
–Você de novo James! O que aprontou dessa vez? – a professora fala.
–Não foi minha culpa, é sério. – James parece querer chorar também.
–O que aconteceu filha? – faço um bico, no limite de começar a chorar feio. Mostro os cotovelos. – Deixa eu ver...humm, é só um raladinho. – papai sopra os machucados – Pronto!
Depois ele me pega no colo e se levanta. A professora pergunta se meu pai não quer entrar e que eles podem conversar com os pais de James já que o incidente aconteceu dentro da área escolar. Meu pai nega, dizendo que não é necessário.
–Não é preciso. A Zoe já está bem, não é filhota? Foi só um susto. – concordo com a cabeça, o machucado quase não dói, agora que papai está aqui. – E James, — meu pai olha pro garoto que arregala os olhos – Se você quiser podemos te acompanhar até sua casa, já que parece que o guidão da sua bike entortou.
James fica surpreso, acho que ele pensava que ia levar uma bronca do meu pai. Ele começa a negar, mas papai diz:
–Eu conheço seu pai, o sr. O’Donel. Moramos na mesma rua, lembra? Venha, vamos acompanhar você até sua casa. – ele dá um sorriso acolhedor.
No final, caminhamos os quatro pelas poucas quadras até chegar à casa de James. Antes de entrar, ele abre a mochila, tira meu livro e me entrega. Na confusão eu nem havia percebido que tinha derrubado.
–Seu livro... você esqueceu ele na calçada. – James diz — E desculpa de novo garotinha... – Sorrio de leve pro garoto, não estou mais chateada com ele. “Ele é bonzinho”, penso “Igual o elfo atrapalhado que ajuda a princesa guerreira.” Dou uma risadinha.
–Obligada. – respondo, pegando o livro.
Meu irmão me olha com uma cara feia, claramente bravo com James ainda.
–Vou ficar bravo com aquele menino pra sempre! – Caleb diz, quando chegamos em casa.
–Caleb. – papai fala, o repreendendo. – Foi um acidente. E sua irmã já até o desculpou.
–Porque ela foi burra. Eu não vou desculpar.
–Não vai desculpar quem? – nossa mãe entra na cozinha perguntando.
Depois de contarmos tudo a ela, mamãe limpa meus machucados e coloca um curativo. No dia seguinte, encontramos James e sua mãe a caminho da escola e vamos todos juntos.
Isso acabou se tornando uma rotina, com o tempo nossos pais ficaram amigos e passamos a frequentar a casa um do outro para brincar. Nesse ponto, Caleb já tinha esquecido há tempos que ia “ficar bravo com James pra sempre”, principalmente depois que eles começaram a praticar beisebol juntos. Eu me sentia excluída no começo, mas isso acabou quando eu passei a praticar também, mesmo sob os protestos e reclamações do meu irmão.
–Beisebol é coisa de me-ni-no! E você é uma me-ni-na Zoe!
–Caleb ela pode jogar também se quiser. Vem Zoe – James diz me entregando o taco. – É só ter cuidado pra não se machucar. Eu sou o mais velho e tenho que cuidar de vocês dois!
Caleb bufa, não gostando. Sorrio, mostrando a língua pra ele depois.
E foi assim, em meio a idas e voltas da escola, campeonatos de vídeo game e treinos de beisebol que viramos melhores amigos.
~===~
–Falando nela, como está a dona Ana? — James desfaz totalmente o nó da gravata borboleta e a deixa em volta do pescoço, abrindo os primeiros botões da camisa.
–Vai bem. Ela e papai estão programando uma viagem agora que os “bebês dela” cresceram. — reviro os olhos.
–Ela sempre foi uma mãe coruja.
–Sim, principalmente com Caleb. Então está sofrendo agora que nós dois saímos de casa.
–E onde seu irmão está?
–E quem é que sabe? Caleb tá sempre viajando sem avisar ninguém. E isso deixa mamãe louca. – rio, lembrando de quando ela me ligou falando meu irmão tava saindo de casa. Sua voz estava chorosa e ela não se conformava que tínhamos seguidos nossos rumos. “Filho é igual passarinho. A gente cria pra depois deixar voar”, escutei meu pai dizer ao fundo.
–É bem a cara dele fazer isso. – James ri, balançando a cabeça.
Seu celular toca de nova e ele desliga. Mesmo estando muito curiosa pra espiar quem está ligando, mantenho meu olhar fixo no céu. Quando o celular toca de novo, ele suspira, se levantando e pede licença. Anda até perto da água antes de atender. Aqui de longe não posso ouvir nada além sussurros incompreensíveis, então observo sua figura parada na orla do mar. Ele está mais forte e maduro também. Percebo que James está agitado e logo depois escuto ele gritar “Agora não!” antes de desligar. Ele demora uns segundos pra voltar e ao sentar novamente sua respiração está acelerada.
–Desculpa. Eu tive que atender.
–Tudo bem. Acho que hoje em dia nem mesmo nos refúgios conseguimos escapar de tudo.
–É. Tem coisas que não dá pra fugir. – ele fala meio irritado.
Não respondo imediatamente. Toda a mágoa que senti desde o dia que James sumiu, vem à tona formando um nó na minha garganta. Sinto que vou sufocar se não falar nada.
– Deve ser chato ter que lidar com coisas que você não quer...
–Sim, mas faz parte do meu trabalho e acho que da vida também. Confesso que isso me chateia bastante, você sabe, toda a cobrança e os horários... Eu não queria isso. Tem momentos que sinto que perdi o controle da minha vida.
– Pensei que fosse o seu sonho, quero dizer, você ama atuar.
–É... mas às vezes eu não sei mais se vale a pena. – acende outro cigarro.
Estou surpresa. Nunca passou pela minha cabeça durante esses anos que James pudesse não estar satisfeito com sua vida. Será que é somente com o trabalho ou existe algo mais? É tão frustrante não saber.
–Acho que talvez você devesse tirar umas férias, pensar direito sobre isso. Só...só não deixe que essas coisas te afastem do que você ama.
–E se eu não souber mais se é isso que eu quero, que eu amo? E se o que eu amar não estiver ao meu alcance mais? – James diz, passando a mão pelo cabelo.
Estou confusa agora. Do que ele está falando?
–James, tenho certeza que você pode conseguir o que quiser se esforçando. Qualquer um pode na verdade.
–Nem sempre, Zoe. – ele se levanta rápido, parecendo bravo. Seu cigarro cai na areia e ele pega outro.
–Você deveria parar. – digo, sobre o cigarro.
–Eu já tentei. Não é tão fácil largar. Todos esses problemas, o estresse, os paparazzi, todas essas coisas me deixam dependente do cigarro... É como um ciclo vicioso que nunca acaba. Eu só queria poder deixar pra trás, esquecer tudo isso...
Não posso impedir o que falo em seguida:
– Igual você fez comigo? Foi assim que você me esqueceu? – solto, mais amargo do que eu gostaria. A pergunta que há três anos está entalada na minha garganta sai e paira no ar entre nós.
James se vira pra mim, com os olhos arregalados. Então ele suspira e balança a cabeça negando.
–Zoe... – ele diz baixinho.
–Não James, me diz. Foi fácil me esquecer? Porque parece que foi... – falo mais alto, sentindo as emoções tomando conta.
–Claro que não...eu não te esqueci Zoe! – ele me olha bravo.
–Esqueceu sim! Você foi embora James, me abandonou!
–Eu tinha que ir! Era o meu trabalho, droga! – ele diz, exasperado.
–Não é disso que estou falando e você sabe! – já estou quase gritando – Estou falando sobre você ter parado de falar comigo, de não me responder, de nunca ter voltado!
–E-eu não podia...não podia, tá legal?
–Não podia?! Isso é ridículo! – paro e respiro fundo – O que eu quero saber é: por quê? Por que foi embora? Por que James?
–Você também foi embora... e eu não estou te questionando sobre isso!
–Eu fui embora? Eu saí pra estudar, pra começar minha vida. E isso depois de esperar por mais de dois meses que você fosse aparecer... Eu esperei você na minha formatura sabia? Depois esperei você na festa de Natal e então no Ano Novo... E quando você não apareceu nem se dignou a dar uma desculpa, criei razões para você ter feito aquilo, ignorando o fato que nenhum tipo de amigo faz uma coisa assim. Dia após dia eu te mandei mensagens e fiquei esperando uma resposta que nunca chegou... — engulo o choro que ameaça começar – O que você queria que eu fizesse? Ficasse lá, esperando você voltar? Se é que você um dia voltaria?!
Conforme desabafo, sinto o nó na garganta de desfazendo, pouco a pouco. James tem suas mãos fechadas firmes e seus olhos estão fechados. Ele não diz nada, então continuo:
–Eu estava apaixonada por você... Eu... Eu acho até que te amava. E depois daquele beijo no aeroporto, eu achei que você sentisse o mesmo. Você alimentou minhas esperanças e então de repente, parou de falar comigo. Sem motivos... sem nenhum aviso. Se você tinha se enganado, por que não falou nada? Eu entenderia, poxa! Éramos amigos, melhores amigos desde criança. Mas você não disse nada. E eu como a idiota que era, esperei mesmo assim.
As lágrimas estão rolando livremente pelo meu rosto agora.
– Um telefonema me falando o porquê e todo esse sofrimento teria sido evitado. Você não vê como foi covarde? Como foi cruel da sua parte? – digo com a voz embargada.
–Me desculpe Zoe... Eu sei que fui um canalha. – ele abre os olhos e seu rosto se contorce em uma expressão de dor. Ou seria remorso?
–Suas desculpas estão meio atrasadas não? Não acho que elas façam alguma diferença agora, não mais. – limpo as lágrimas de uma bochecha – Eu só preciso que você me diga o porquê... Por que fez isso comigo?
–Eu...eu não posso falar Zoe – James diz, desviando seu olhar do meu.
–O que?? Você não pode ou não quer? – me irrito.
–Não posso! Mas que porra! Eu sinto muito ok? Não era minha intenção te magoar, mas eu tinha que ir embora...eu...eu tinha que te deixar, seguir em frente sem você... Você não entende...
–Não entendo? Então me explica! Foi algo que eu fiz?
Ele não responde.
–Fala James! Eu preciso de uma resposta entende? Preciso pra poder seguir em frente, como você fez!
Ele continua sem dizer nada. Seu celular começa a tocar novamente e olho pro chão que é onde está o aparelho, em cima do blazer dele. James corre se abaixar para pegar o celular, mas dessa vez eu consigo ver quem é. “Láia” está escrito na tela. E então sinto um clic. Já ouvi esse nome antes, mas não consigo me lembrar quem é. De qualquer forma, não é preciso pensar muito pra entender que ela deve ser algo íntimo dele, como uma namorada. Só não entendo porque ele parece querer esconder tanto isso de mim. Não é como se a gente tivesse tido algo além de um beijo no passado.
–Pode atender James. Deve ser importante... – digo.
–Não. Eu sei que não é. – ele responde, mas o telefone toca de novo.
–Atende logo isso, caramba! – estou estressada com toda essa situação.
–Que droga! Eu não vou atender Zoe! – ele grita na minha cara. Me assusto.
–Se não vai atender, então me responde logo! – grito de volta. – POR QUÊ?!!
–PORQUE VOCÊ MUDOU! – passa as mãos pelo cabelo, deixando as mechas castanhas bagunçadas – Depois do acidente, você mudou Zoe...
–Eu mudei? O que quer dizer com isso? – pergunto surpresa com o que ele disse.
–Que as coisas não eram mais as mesmas... Nós não éramos mais os mesmos, a gente mal conversava...
–Mal conversava? – o interrompo indignada – Você era a pessoa com quem eu mais falava James! Isso até você parar de me responder claro!
Ele abaixa a cabeça. –É por isso mesmo... você praticamente só falava comigo.
–Não entendo... o que tinha de errado nisso? Você era meu melhor amigo, era normal que eu fosse buscar apoio em você depois do que aconteceu. – falo, confusa.
–Mas estava me sufocando Zoe! Eu não conseguia ir pra nenhum lugar mais, e não conseguia falar de verdade com você também, tinha que estar constantemente filtrando o que ia te falar!
–Eu nunca te pedi pra filtrar o que você falava comigo! E também nunca te impedi de sair James! Você era livre, como mostrou muito bem depois...
–EU FUI MESMO EMBORA! – ele explode – Eu tinha que ir porque se não ia ficar preso com você naquela merda de cidade!
–Não te pedi nada... – começo, mas James me corta:
–Minha carreira estava começando e eu não podia lidar com um peso como você naquele momento! – assim que termina de falar, ele percebe o que disse e passa a mão pela testa, mordendo o lábio. – Não foi isso que eu quis dizer...
–Não James, foi exatamente o que você quis dizer. – digo, magoada – Mas tudo bem. Eu imagino que não deve ter sido fácil cuidar de uma amiga "desmontada". Pelo menos você disse e agora que eu entendi que eu era a droga de um peso na sua vida eu posso ir. – as lágrimas estão escorrendo pelo meu rosto de novo.
Me abaixo, pegando minha bolsa e meus sapatos no chão. Estou tão atordoada nesse momento, a resposta que eu quis por tanto tempo finalmente dita. Por mais que seja um alívio, não deixa de machucar. E dói muito. Tudo o que eu quero agora é sair daqui. Começo a andar rápido pela praia, fugindo de toda essa bagunça que fizemos.
–Zoe, espera!...Eu não... – James corre atrás de mim. Me viro pra ele.
–PARA JAMES! CHEGA TÁ LEGAL? EU PEDI POR UMA RESPOSTA E VOCÊ ME DEU ELA. EU ENTENDI E ESTOU INDO EMBORA AGORA. NÃO SE PREOCUPE QUE EU NÃO VOU TE INCOMODAR MAIS. PODE VOLTAR PRA SUA NAMORADA E A SUA VIDINHA “PERFEITA”! – digo irônica, fazendo aspas.
–VIDINHA PERFEITA? – ele ri – É PODE ATÉ NÃO SER PERFEITA, MAS VOCÊ BEM QUE GOSTARIA DE TER ESSA VIDA!
–O QUÊ?!? – falo, enfurecida.
–É POR ISSO QUE ESTÁ COM AQUELE MOLEQUE DA BANDA NÃO É?
–NÃO COLOQUE LUKE NO MEIO DESSA MERDA! VOCÊ NÃO SABE DE NADA!
Ele ri debochado. -SEI O SUFICIENTE PRA PERCEBER QUE QUANDO VOCÊ NÃO CONSEGUIU NADA COMIGO TRATOU LOGO DE ARRUMAR OUTRO PRA ALCANÇAR A FAMA OU DINHEIRO QUE DESEJA!
Pisco várias vezes, não acreditando no que acabei de ouvir. Ele falar que eu era um peso em sua vida já tinha machucado, mas ouvir a pessoa que te conhecia por mais de dez anos dizer que você é uma interesseira é demais pra mim. Sinto meu coração se apertar.
–Retire o que disse! Retire agora o que você disse James! – falo devagar, tentando me controlar.
–NÃO! VOCÊ É UMA INTERESSEIRA, É O QUE SEMPRE FOI! – ele berra, me olhando nos olhos.
“VOCÊ É UMA INTERESSEIRA, É O QUE SEMPRE FOI! VOCÊ É UMA INTERESSEIRA, É O QUE SEMPRE FOI!”
Suas palavras ecoam na minha cabeça, me ferindo mais do que se eu tivesse levado uma facada. Então é isso o que ele pensa de mim? É o que o meu suposto melhor amigo, que esteve do meu lado por tantos anos, acha que eu sou? Olho pra ele e percebo que estava certa afinal. Não nos conhecemos mais, se é que algum dia chegamos a conhecer. Ele é um estranho agora. A imagem daquele James amigo com quem eu compartilhei tantas coisas, por quem eu me apaixonei, que eu amava, está indo embora.
E tudo que sinto agora é ódio.
–Eu te odeio James O’Donel. – digo baixo primeiro, o sentimento crescendo dentro de mim, ameaçando explodir se eu não botar pra fora – TE ODEIO!
James me olha com os olhos arregalados, sua expressão como se eu tivesse lhe dado um tapa na cara. Ele parece perceber o disse e coloca a mão no rosto.
–Não...Zoe...me desculpa – ele fala soluçando, parecendo querer chorar –Eu não quis...não foi...
Não escuto mais o que ele diz. Cansei das desculpas dele. Tudo o que sinto é uma mágoa intensa, um grande ódio.
–Você não podia ter dito aquilo... – começo a falar – Não podia...Eu odeio você...Odeio...
Vou me afastando dele, dando passos para trás, deixando um James caído de joelhos na areia com a cabeça entre as mãos. Começo a correr, ainda chorando. Mesmo sem enxergar direito por causa das lágrimas que não param de cair continuo correndo cada vez mais rápido, querendo desesperadamente fugir de tudo. O vento frio na minha pele é reconfortante de uma forma estranha e por alguns instantes consigo entender o que James disse sobre se sentir sufocado.
Mas isso não faz diferença agora. No momento eu só quero correr, o mais longe possível desse passado.
~
Chego no hotel que estou hospedada com a banda. São 5:30 da manhã agora. Depois de correr por uns vinte minutos sem parar na praia, estava me sentindo um pouco melhor, pelo menos o suficiente para pegar um táxi e ir embora.
Enquanto estou no elevador tento em vão limpar meu rosto que está com a maquiagem arruinada por causa de todo o choro. Desisto, só mesmo um banho vai resolver. Assim que a porta do elevador abre no nosso andar, encontro Luke sentado com as costas apoiadas na porta do meu quarto. Ele está dormindo, a cabeça no próprio ombro e suas longas pernas esticadas no corredor. A culpa me invade por completo. Me aproximo dele devagar não querendo assustá-lo. Mas antes que eu possa tocar em seu braço ou falar algo, ele acorda.
A princípio ele parece perdido, sem saber onde está. Então seus olhos encontram os meus e ele parece aliviado. Porém isso dura pouco tempo, e seu rosto assume uma expressão chateada, brava até. Ele se levanta e diz seco:
–Então a Cinderela resolveu voltar. Pelo que vejo, me preocupei à toa.
–Luke desculpa...eu tive que...
–Onde você estava Zoe? – ele me corta – Se bem que nem precisa responder. Dá pra ver que com o príncipe... – aponta pra mim. Não entendo logo de cara, mas então a ficha cai. Estou com o moletom de James ainda.
–Não é isso que está pensando Luke...
–Zoe para. Você não me deve explicações. Eu é que fui um bobo de te esperar.
–Não Luke, não... – quero falar que ele não é bobo e que aprecio sua preocupação. Mas percebo que isso só vai piorar.
–Eu vou ir dormir agora. Sugiro que faça o mesmo. Nosso vôo sai daqui algumas horas. — ele diz.
E então sai, me deixando parada no meio do corredor.
Entro no quarto e começo a chorar de novo. É como se tudo estivesse dando errado. Vai ver eu sou mesmo um problema na vida de todos que se aproximam de mim. Constantemente magoando quem me rodeia. Lentamente me dirijo ao banheiro e começo a tirar o moletom. Quando ele cai no chão ouço um tilintar de algo metálico. Ao olhar pra baixo percebo que se trata de uma pulseira, e examinando ele mais de perto encontro o pingente que James me deu no dia do aeroporto, que misteriosamente tinha sumido há tempos atrás. Tinha me sentido tão mal por achar que havia perdido, mas aqui está ele, no bolso do casaco dele.
Deixo a pulseira em cima do balcão da pia, não querendo pensar nisso. Ligo a ducha no quente e fico lá até que meus dedos enruguem. Então me lavo e saio, pegando qualquer coisa confortável na mala e deitando na cama. Acordo horas depois com o cheiro de café. Abro os olhos lentamente e encontro Ashton ao meu lado fazendo carinho no meu cabelo.
–Achei que nunca fosse acordar. – ele diz.
–Como entrou aqui? – minha voz quase não sai.
–Você não abria a porta nem respondia minhas mensagens, então imaginei que tivesse perdido a hora e esperei a moça da limpeza vir pra conseguir entrar. Trouxe café junto porque sei que isso sempre te acorda.
–Inteligente da sua parte. – digo me sentando na cama.
–Eu sempre sou inteligente. — Ele me entrega a xícara e não fala nada enquanto bebo o café.
–Que horas são? – pergunto.
–13:00h. Nosso vôo sai as 15:00h, você precisa se arrumar. Sua cara está horrível a propósito.
–Cala a boca. – me levanto e vou em direção ao banheiro e ao olhar meu reflexo vejo que Ash tem razão. Meu cabelo parece um ninho e estou com os olhos inchados e vermelhos.
Suspiro. Se quero parecer minimamente apresentável tenho que começar a me arrumar agora. Ashton vem até a porta do banheiro e parece querer perguntar algo.
–Fala Ash. – digo.
–O que aconteceu? – ele pergunta cauteloso. Sinto as lágrimas querendo sair de novo.
–Não quero falar sobre isso agora... Desculpa. – respondo chorosa.
Ele se aproxima e me dá um abraço. –Tudo bem Zoe. Vou te deixar se arrumando. Não demore, volto daqui uma hora.
~
Estou no avião agora. Ashton está na poltrona do lado, onde previamente era o lugar do Luke. Não perguntei quem quis trocar, mas já imagino quem foi. Luke está me ignorando. Quando desci pra irmos embora ele mal olhou pra mim e não falou nada. Também se sentou longe de mim no carro. Os meninos parecem ter percebido que aconteceu alguma coisa porque não falam nada e tentam agir o mais normal possível perto de nós dois. Não é preciso pensar muito pra sacar que ele está bastante chateado comigo. Todo mundo tem um limite de paciência e sei que ultrapassei o de Luke.
A questão é: O que farei agora para consertar isso?
*James POV*
–Você a chamou de interesseira?!? – Tyler me pergunta chocado.
–Sim...e então ela disse que me odeia. Que me odeia, Tyler!
–Mas também, olha o que você disse pra ela! O que estava pensando cara?
Estou na casa de Tyler agora, falando sobre minha conversa com Zoe e me escondendo de Láia. É isso que eu faço ultimamente, me escondo e fujo. Sou um covarde mesmo, como a Zoe disse.
–Eu não sei... Eu só estava confuso e frustrado... Eu não sabia o que falar! Ela ficava me perguntando o porquê repetidamente e aquilo estava me matando, ver ela naquele estado e saber que eu era a causa. – Dou um gole na minha cerveja. – E ainda por cima ela ficou defendendo aquele garoto... Eu tenho certeza que eles estão juntos.
–Mas você também está com alguém cara.
–Você sabe que Láia não significa nada. Nenhuma garota com quem eu fiquei durante esses anos significou. Era só uma forma de tentar esquecer ela. – falo, bufando.
–Eu só sei que o que você disse não ajudou em nada...
–E o que você queria que eu tivesse dito!?
–Você podia ter falado a verdade... – meu amigo diz.
–A verdade Tyler? Que eu fiz isso porque era o melhor pra ela? Que toda essa merda que a minha vida se tornou sem ela é porque eu pensei nela em primeiro lugar? Acha que ela iria acreditar?
–Eu não sei. Mas dizer que ela só estava interessada em dinheiro e fama não foi a melhor escolha, não acha? Isso só a afastou ainda mais de você.
–Vai por mim, eu sei. Se você visse o olhar que ela me deu antes de sair correndo... Ela nunca vai me perdoar. – Digo, esse momento em replay na minha mente.
~===~
–Eu te odeio James O’Donel. – ela fala, sua voz baixa, com os olhos cheios de lagrimas que não param de cair – TE ODEIO!
Suas palavras me pegam de surpresa. Percebo o que eu disse e o quão errado e idiota isso foi. Nunca disse uma mentira tão grande.
–Não...Zoe...me desculpa – falo desesperado, sentindo o choro começar –Eu não quis...não foi... – mas ela não me escuta, e posso sentir seu ódio saindo nas próximas palavras que ela diz:
–Você não podia ter dito aquilo... Não podia... Eu odeio você...Odeio...
Caio no chão de joelhos, com as mãos no rosto, não conseguindo mais segurar o choro, querendo implorar que ela me desculpe, desejando que eu não tivesse dito aquilo. Mas quando levanto a cabeça de novo ela já foi, está longe até que desaparece de vista e tudo parece que foi um sonho. Um sonho muito ruim.
–Mas eu ainda te amo... – falo baixinho, uma bola de tristeza me envolvendo.
~===~
– Você já parou pra pensar no quanto essa sua decisão machucou vocês dois? Que talvez o melhor pra ela fosse você?
–Tyler não começa... Eu fiz o que tinha que ser feito. E agora tenho que lidar com as conseqüências disso. – coloco a mão no bolso da calça, procurando meu amuleto, a pulseira que dei pra ela há tanto tempo. Mas não o acho em nenhum dos bolsos. Então me lembro de onde tinha deixado. No bolso do moletom que está com Zoe agora.
–Maravilha... – digo irônico.
–O que? – Tyler pergunta.
–A pulseira. Ficou no bolso do moletom.
–E... – ele diz, não entendendo.
–E o moletom está com Zoe agora. Não é irônico? Na mesma noite perdi ela e a única coisa que eu tinha que me lembrava que ela era real. Que foi real...
–James, talvez isso seja um sinal que está na hora de você esquecer e seguir em frente de verdade.
Meu melhor amigo me dá um aperto no ombro, antes de entrar.
Olho para o céu, os raios do sol começando a aparecer. Acho que ele tem razão.
Está na hora de seguir em frente.
De verdade.
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