Between Two Paths

6 Sob o mesmo silêncio



Os dias seguintes ao jantar pareciam diferentes, ainda que Daeron não conseguisse explicar exatamente por quê.

O ambiente na empresa continuava o mesmo — corredores longos, o som ritmado dos computadores, o perfume metálico dos laboratórios —, mas algo havia mudado entre eles.

Talvez fosse o modo como Derek o olhava agora, com atenção demais.

Ou o modo como ele próprio se sentia quando o outro sorria.

Naquela sexta-feira, o turno havia sido longo.

O grupo de pesquisa ficara até mais tarde revisando relatórios de um novo composto experimental. Todos estavam exaustos, mas Daeron insistira em terminar as análises antes de ir embora. Derek, ao perceber isso, ficou.

— Você ainda está aí? — a voz de Derek quebrou o silêncio do laboratório.

— Só mais algumas linhas. Preciso fechar esses cálculos. — respondeu o menor, sem levantar os olhos do monitor.

Derek se aproximou, encostando-se à bancada ao lado dele.

— Já passa das nove, Daeron. — disse, num tom mais suave. — Não vai desabar o mundo se isso ficar pra segunda.

— Eu sei… mas gosto de encerrar o que começo. —

O tom dele era baixo, e os olhos estavam cansados, mas havia determinação.

Por um instante, Derek apenas o observou — o reflexo da tela iluminando o rosto do garoto, o brilho de concentração, o modo distraído como mordia o lábio inferior ao digitar.

Suspirou, vencido.

— Você é impossível. — murmurou, rindo de leve.

Daeron arqueou uma sobrancelha. — Diz o homem que ficou até agora só pra se certificar de que eu não desmaie sobre o teclado.

— Toque de consciência profissional. — Derek tentou parecer sério, mas o olhar o denunciava.

— Claro. — Daeron sorriu, sem se conter. — Só consciência profissional.

O riso dos dois preencheu o espaço vazio, leve, sincero.

E então o silêncio voltou — mas dessa vez, diferente.

Mais denso.

Mais íntimo.

Derek se aproximou um pouco, sem pensar.

Podia sentir o perfume leve de Daeron, algo entre menta e livros velhos, e percebeu tarde demais o quanto estava próximo.

— Você trabalha duro demais, sabia? — disse ele, quase num sussurro. — Isso vai te consumir.

Daeron virou o rosto devagar, e o olhar que o encontrou o desarmou.

— E você… se preocupa demais.

Os olhos de Derek o prenderam. Nenhum dos dois se moveu por alguns segundos — que pareceram minutos.

Havia ali algo que nenhuma palavra conseguiria traduzir: admiração, cansaço, desejo e medo, todos se misturando como elementos de uma reação inevitável.

Derek foi o primeiro a desviar, soltando um riso baixo.

— Acho que preciso mesmo parar de me envolver demais com meus estagiários.

— E eu deveria parar de ficar nervoso quando o meu chefe me olha assim. — respondeu Daeron, num tom tão sincero que surpreendeu até a si mesmo.

O silêncio voltou — carregado, elétrico.

Derek respirou fundo, recuando um passo.

— Você é… perigoso, sabia? — disse com um meio sorriso, tentando disfarçar o que sentia.

— E você é péssimo em esconder o que sente. — retrucou Daeron, com coragem nova.

A tensão se desfez em um riso baixo dos dois.

Derek passou a mão pelos cabelos e murmurou:

— Acho melhor te levar pra casa antes que eu diga mais do que devo.

Daeron apenas assentiu, o coração acelerado.

No carro, o caminho foi quieto. As luzes da cidade passavam devagar pelo vidro, e a chuva voltava a cair fina. Nenhum deles falou.

Mas quando chegaram ao prédio de Daeron, o silêncio pesou novamente.

— Obrigado pela carona… de novo. — disse o menor, com um sorriso contido.

— Sempre que quiser. — respondeu Derek.

Daeron abriu a porta, mas antes de sair, virou-se.

— Derek…

O moreno levantou os olhos.

— Sim?

— Não precisa se conter tanto. — disse baixinho, antes de sair do carro.

E entrou no prédio, deixando Derek sozinho, com o som da chuva e um sorriso incrédulo no rosto.

Pela primeira vez, o diretor percebeu que já não era capaz de manter a distância que jurara preservar.

Continua…