Between Two Paths
4 O Calor da Reação
A noite já havia caído sobre o prédio da Quimiks Marks, mas o laboratório principal ainda pulsava com luzes brancas e o som constante de aparelhos funcionando. Lá fora, a chuva fina batia no vidro das janelas, criando um ritmo quase hipnótico.
Daeron estava sozinho há horas, imerso nos cálculos. O cheiro de reagentes e café velho misturava-se ao ar frio do ar-condicionado. Ele ajeitou os óculos, digitando freneticamente enquanto tentava ajustar a simulação que teimava em não estabilizar.
O som da porta se abrindo o fez erguer a cabeça.
Derek entrou, com o blazer pendendo nos ombros e as mangas da camisa dobradas. Tinha o rosto iluminado apenas pelo reflexo das telas.
— Eu sabia que encontraria você aqui. — disse ele, cruzando os braços.
Daeron forçou um sorriso.
— A simulação travou na segunda fase. Achei que conseguiria resolver antes de ir pra casa.
Derek se aproximou devagar, o olhar curioso.
— Já são quase dez da noite, Daeron. Você devia estar dormindo.
— Eu sei… mas eu quase consegui. — respondeu, insistente. — Falta pouco.
Ele virou a tela em direção a Derek, explicando os dados, mas o diretor não prestava tanta atenção aos números — e sim à forma como Daeron falava. A paixão no olhar, o modo como gesticulava, o entusiasmo que escapava até nos tropeços das palavras.
— Mostra pra mim. — disse Derek, inclinando-se ao lado dele.
Os dois ficaram próximos demais. O braço de Derek roçou o dele, e Daeron sentiu o corpo reagir, um arrepio sutil subindo pela pele. Fingiu não notar, mas o coração denunciava.
— Aqui — disse Daeron, apontando para o monitor. — A reação deveria se estabilizar neste ponto, mas a pressão cai e…
— …e o composto entra em colapso, certo? — completou Derek, os olhos fixos nos dados.
Daeron o olhou surpreso.
— Exato.
Derek sorriu, satisfeito.
— Então talvez o problema não esteja na fórmula. Pode ser a forma como você está testando a temperatura.
Ele se abaixou, digitando alguns comandos, e o calor do corpo dele era perceptível. Daeron desviou o olhar para o teclado, tentando se concentrar, mas a voz de Derek soava mais baixa agora, mais próxima.
— Você não precisa provar nada ficando até tarde, sabia? — disse ele, sem levantar os olhos da tela. — O que você já faz aqui é mais do que o suficiente.
— Eu só… não quero decepcionar.
Derek parou.
Virou-se lentamente até os olhos deles se encontrarem.
— Daeron… — a voz era grave, serena. — Você não me decepcionaria nem se tentasse.
O silêncio que se seguiu pareceu suspender o ar ao redor.
Daeron desviou o olhar, mas o rosto já denunciava o que ele tentava esconder: o rubor, o tremor leve nos lábios.
Derek deu um passo para trás, respirou fundo — como quem tenta conter algo — e depois sorriu de leve.
— Vamos fazer o seguinte. Você salva o que conseguiu até agora, e eu te levo pra jantar.
Daeron piscou, confuso.
— Jantar?
— É. — Derek respondeu, com um meio sorriso. — Cientistas também precisam de glicose pra pensar direito.
Ele hesitou, mas acabou rindo, vencido.
— Tudo bem… mas eu escolho o lugar.
— Fechado. — disse Derek, pegando o blazer e segurando a porta aberta. — E aviso logo: se for uma lanchonete de esquina, vou fingir que adorei.
— Então vai ter que fingir muito bem. — respondeu Daeron, finalmente sorrindo de verdade.
Saíram lado a lado, e o som da chuva lá fora pareceu mais leve, quase convidativo.
Derek olhou de relance para ele — aquele sorriso tímido, o brilho nos olhos — e percebeu que algo dentro dele já começava a reagir.
Não era química de laboratório.
Era algo muito mais perigoso.
Continua…
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