Between Two Paths

5 Entre o Vinho e o Silêncio


O som da chuva havia se tornado apenas um sussurro distante quando Derek estacionou o carro diante de uma pequena lanchonete no centro. As luzes amareladas, o letreiro gasto e o aroma de pão quente escapando pela porta de vidro davam ao lugar um ar acolhedor — simples, mas vivo.


— Então era aqui o seu “restaurante secreto”? — perguntou Derek, arqueando uma sobrancelha.

— Não ria. — Daeron respondeu, tirando o cinto e ajeitando a mochila no colo. — Eles servem o melhor sanduíche artesanal da cidade. E o dono sempre deixa tocar jazz.


Derek sorriu, sincero. — Jazz? Então tem bom gosto.


Entraram. O ambiente era pequeno, com poucas mesas ocupadas. Um saxofone suave ecoava pelos alto-falantes, e o reflexo das luzes brincava no vidro das janelas molhadas.

Sentaram-se frente a frente, e por um instante, o silêncio pareceu confortável demais.


— Então… — começou Derek, mexendo no cardápio sem realmente ler. — Me conta, o que te trouxe pra essa área?


Daeron ergueu o olhar, um pouco surpreso pela pergunta.

— Química? Acho que… sempre gostei da ideia de entender o que está por trás de tudo. O invisível, sabe? O que as pessoas não veem, mas faz tudo existir.


Derek o observava atentamente, os dedos tamborilando na mesa.

— Bonito isso. E combina com você.


— Combina?

— É. Você tem esse jeito… de querer entender o que ninguém percebe. As pessoas, os gestos, o que está nas entrelinhas. — ele deu um leve sorriso. — Aposto que vive analisando até o que sente.


Daeron desviou o olhar, envergonhado. — Talvez um pouco.


— É o tipo de curiosidade que move os melhores cientistas. — completou Derek.


A garçonete chegou, anotou o pedido — dois sanduíches e uma taça de vinho para cada um, a sugestão dele — e se afastou, deixando o clima ainda mais íntimo.


— E você? — perguntou Daeron, finalmente revidando. — Por que decidiu virar diretor de pesquisa?


Derek apoiou o queixo na mão, olhando para ele com um meio sorriso cansado.

— Eu sempre fui o tipo que prefere ver as coisas acontecerem do que apenas segui-las. Mas, às vezes, isso cobra um preço. — fez uma pausa curta. — Já perdi pessoas por me dedicar demais ao trabalho.


O olhar de Daeron suavizou. — Às vezes acho que é por isso que você é tão exigente. Não quer que ninguém passe pelo mesmo.


Derek piscou, surpreso pela observação precisa. Depois riu baixo. — Viu? Eu avisei. Você analisa tudo.


Daeron também riu, mas logo o silêncio voltou, acompanhado de algo diferente. Um tipo de calma que vinha quando duas pessoas começavam a se reconhecer além da superfície.


O vinho chegou, e Derek ergueu a taça.

— Aos acasos bem-vindos. — disse ele.


Daeron ergueu a dele, hesitante, e sorriu. — Aos acasos.


Os cristais se tocaram com um som leve, e quando os olhos se encontraram, algo se prolongou no ar — uma pausa longa demais para ser apenas casual.


O jantar seguiu entre risos, pequenas confissões e olhares que fugiam e voltavam. Até que, na saída, a chuva ainda caía fina. Derek abriu o guarda-chuva e estendeu o braço.


— Vamos?


Daeron hesitou, mas se aproximou. A distância entre eles era mínima. O som das gotas misturava-se à respiração dos dois.


— Obrigado por hoje. — disse Daeron, a voz baixa. — Foi… melhor do que eu esperava.


— Eu também. — respondeu Derek, e havia algo na forma como ele disse que fez o coração do outro disparar.


Por um instante, Daeron pensou que o moreno fosse se inclinar — mas Derek apenas ajeitou o guarda-chuva sobre ele e disse:

— Vamos. Não quero que pegue chuva.


E seguiram juntos até o carro.

Sem toques, sem beijos — mas com algo que ambos sabiam, em silêncio, estar crescendo entre eles.


Aquela noite marcou o início de algo novo.

Não apenas uma parceria profissional.

Mas uma reação — lenta, intensa, impossível de conter.


Continua…