Better Living Academy
12 O Bosque das Confissões e o Rio das Perdas
Notas iniciais
Eu o olhava. Mas não apenas o olhava. Vasculhava incessantemente por seus pequeninos olhos à procura de respostas para minhas perguntas, de explicações para o que ele estava escondendo de mim. Mas apenas o que encontrava era o mesmo de sempre: o meu reflexo. Era como se minha imagem estivesse gravada ali e sua vida dependesse de tê-la, de consumi-la. Tudo isso junto com aquela típica admiração e algo muito mais forte e puro, que uma criatura tão promíscua como eu não merecia nem ao menos saber seu nome, quizá o que isso era.
Talvez ele fosse digno disso. Mas não era o suficiente, afinal o objeto de seu desejo, aquele que era a fonte de seu sentimento, não o era.
“Você não vale nada.”
Aquelas palavras ecoavam em minha cabeça como notas que compunham um sinfonia; a sinfonia que era aquela verdade que já havia se tornado uma companheira inseparável.
Ah, como eu era solitário.
- Então... Acompanha-me em um passeio? – ele perguntou, sorrindo tranquilamente.
Assenti e acompanhei-o enquanto andávamos sem pressa nenhuma.
Deixamos o silêncio dominar o ambiente, afinal ambos sabíamos que logo o preencheríamos com palavras que talvez não quiséssemos proferir ou escutar.
Ao terminarmos o corredor, deparamo-nos com a brisa fria de um final de dia. O Sol se punha e as primeiras estrelas já apareciam no céu, não completamente, pois os raios do grande astro ainda se manifestavam.
O prédio do qual acabáramos de sair era o último do campus, por isso o jardim que ele escondia não recebia a visita de ninguém. Apenas as minhas e as de Onew, os únicos que não achavam justo árvores tão lindas serem tão solitárias, abandonadas ao relento e ao sereno da noite.
Paramos e contemplamos o lugar.
- Esse lugar é perfeito para os solitários naturais – eu, deixando que minhas palavras se misturassem ao início de noite, tornando-a ainda mais soturna.
Onew deu de ombros.
- Com certeza os elementos componentes dele e a noite serão bons confidentes.
- Não estaríamos pecando em misturar nossas situações tão cruéis com esse clima tão intocado de coisas impuras? – olhei-o, passando as mãos sobre meus braços descobertos já sentindo o sopro cálido da vinda da noite.
Ele desviou os olhos para mim e sorriu daquele jeito reconfortante.
- Os piores pecados acontecem à noite. Por isso, prefiro-a ao dia – ele riu roucamente e abaixou a cabeça.
Tirou as mãos dos bolsos e tirou a grossa blusa que usava, estendendo-a em minha direção.
- Vista. Vai ficar mais frio – ele disse e, quando peguei a blusa em minhas mãos, começou a caminhar a passos lentos à sua frente.
Evitei olhar para seu corpo apenas coberto por uma simples blusa branca de mangas curtas, pelo que eu pude perceber de relance.
O tecido que eu segurava detinha toda a minha atenção. Sorri.
- Esse idiota... – murmurei, vestindo a blusa.
Uma das coisas que me irritavam em Onew era que tudo o que ele era e tudo o que ele tinha combinavam perfeitamente com ele. Seu sorriso sereno de sempre combinava com a expressão contida em seus olhos. A textura lisa de seus cabelos compridos e castanhos combinava com a maciez de sua pele alva. E essa capacidade se estendia ao seu guarda-roupa, o que afetava profundamente os meus instintos mais superficiais. Eu passava horas em lojas de roupas procurando as que ficassem impecavelmente perfeitas em meu corpo. E nem sempre acertava. Mas ele parecia pôr o olho em uma peça no meio de outras milhares e dizer que era aquela. E, de fato, era. Sempre. Essa blusa que ele me dera era exemplo perfeito disso. Seu tom bege realçava o brilho de seus fios suaves. Além disso, à distância, parecia simples, porém, sob uma análise mais minuciosa, era possível perceber o quão intrincados eram as linhas, formando uma costura complexa. Exatamente como ele.
Ao vestir, voltei meus olhos para cima, hesitante.
Ele encontrava-se parado em meio ao jardim, quase no limite do pequeno bosque. Com as mãos nos bolsos e um leve sorriso, ele mantinha o olhar no céu, observando aqueles pequenos pontos de luz, agora mais aparente, pois o Sol já havia se posto.
Seria uma imagem tão pura, tão poética, um verdadeiro quadro fora da tela, não fossem pelas marcas presentes em seus braços e pescoço.
Franzi o cenho, abraçando-me novamente e com mais força que antes.
Doía o fato daqueles hematomas e arranhões estarem naquele corpo que eu tanto prezava. Mas doía mais o quanto elas eram tão familiares para mim.
Andei lentamente até ele, apertando-me ainda mais a cada passo, chegando a cravar as unhas sobre o tecido da blusa.
Ao chegar ao seu lado, pude ver tudo mais de perto. As lembranças que eu tentava evitar também chegavam ao limite da minha resistência. Perto demais. Demais, levando-me para o fundo... Para o fundo daquele rio... Afundando...
- Flashback on -
Eu a segurava firmemente em meus braços. Nunca a deixaria. Nem que isso custasse minha vida ou a de qualquer um no mundo.
Estava prestes a chegar à superfície daquele rio quando senti seus braços empurrarem meu peito.
Olhei para baixo, assustado. Seu corpo afundava e eu, sem nem ao menos pensar, sem nem ao menos pegar mais ar, impulsionei-me para baixo novamente.
Sua cabeça balançava negativamente e suas mãos faziam gestos. Ela queria que eu me afastasse. Ela queria que eu a deixasse afundar naquele rio de lágrimas. Ela queria que eu a deixasse afundar em sua própria dor.
Eu não podia deixar aquela parte tão importante de mim – a mais importante -, a única que valia alguma coisa – valia tudo -, a única que merecia tudo de bom que esse mundo poderia oferecer.
Sem me importar com seus protestos, movi as pernas de modo a me içar em sua direção.
Seu roto se retorcia pela falta de ar e pela tristeza em seu coração tão jovem.
A água deixava sua pele ainda mais clara, o que evidenciava as marcas existentes nela. Poderiam doer nela, mas doíam muito mais em mim.
Podíamos estar envoltos por água, mas eu podia perceber que ela chorava. Afinal, sempre seríamos conectados assim... Eu também chorava.
Gritava por seu nome, embora soubesse que isso apenas faria com que eu perdesse mais ar. A razão me escapara a partir do momento que a vi se jogando nesse rio tão gelado.
YuBin! YuBin! YuBin!* Nal beorijima!**
Meu ar estava acabando e eu podia sentir que nem ao menos havia saído do lugar. Apenas me debatia, desesperado por tê-la novamente em meus braços, sã e salva.
Senti as bolhas de ar que ela expirou acariciando minha pele, como se me pedissem para ficar calmo.
Parei subitamente enquanto observava seu roto pacificar-se. Ela olhou para mim uma última vez e seus lábios abriram-se em um sorriso sereno. Seu corpo afundava cada vez mais e seus olhos se fecharam enquanto seu rosto perdia a expressão. Perdia a vida.
Toquei meu rosto. Aquelas bolhas eram parte da última reserva de água dela.
Pude sentir que a inconsciência me invadia, pesada como a água acima de mim.
Soltei meu ar também. O único motivo de minha existência havia ido embora, então eu iria junto.
Mas meu corpo não afundava como o dela. Apenas voltava à superfície pouco a pouco.
Até lá, já estarei morto, pensei, fechando os olhos.
Minha temperatura caía e o torpor invadia meu corpo e mente. Apenas lembrava-me do roto dela, de minha irmã, de Kim YuBin. Minha YuBin.
A última coisa que senti antes de desmaiar foram mãos em minha barriga, puxando-me para cima. Não me movi. Apenas me deixei levar, alheio ao que acontecia, lembrando daquele último sorriso de minha pequena.
YuBin... Nal beorijima.
- Flashback off -
- Foi uma escolha dela – sua voz disse e eu olhei para seu rosto, assustado.
Seus olhos analisavam-me e perceberam que eu não estava naquele lugar. Havia voltado àquele rio. Ele me conhecia tão bem a ponto de saber sobre o que eu pensava.
Desviei os olhos e preguei-os nas árvores. Já estava escuro e a Lua já se postava em seu lugar, no alto do céu.
- Eu sei... – murmurei. – Ela não aguentou a pressão, o sofrimento que era ter que conviver com as pessoas que a provocavam dor.
“Eu tentei, juro que tentei ajudá-la. Meu coração se partia em mil partes quando ela chegava chorando da escola. Mas eu tinha que ser forte para ela.
“Você sabe que mamãe nunca estava em casa. Sempre em suas viagens de trabalho. Papai também, mas ele nem se preocupava conosco. Quando falei que era gay, ele nem quis mais olhar na minha cara. Nunca me importei, afinal nunca precisei dele.
- Depois do acidente, você sumiu. Por mais que fôssemos vizinhos e muito amigos, nunca mais lhe vi. Só quando entramos aqui. Mas você havia mudado tanto, que nem acreditei que fosse o Kim Kibum – ele riu e eu ri junto.
- Foi a época que eu fui morar na França, em um colégio interno. A situação em casa estava ficando insuportável. Eles me culpavam por não tê-la salvado. Então, decidiram pagar uma fortuna para me ver longe – dei de ombros; a rejeição de meus pais nunca me afetara muito. – Lá, eu aprendi a ser como sou hoje. Aprendi a não me importar com ninguém além de mim mesmo. E tem dado certo.
“Você não vale nada.”
Mais uma vez, as palavras de minha mãe ecoavam, batendo de lá para cá.
- Mas isso não cura sua solidão, Kibum.
Olhei-o e ele me encarava. Não havia nem um pouco de coerção em seu olhar. Ele apenas queria meu bem.
- Mas eu gosto do seu novo eu. Mas, ainda assim, ainda sinto que algo te aflige.
Seu olhar não me deixava mentir e, de qualquer forma, eu não mentia para Onew desde que havíamos nos conhecido – ou seja, nunca.
- O que me aflige não é a sua morte ou a culpa por sua morte. Não mais. Claro que ainda tenho alguns traumas...
- Piscinas.
- Sim. O que me aflige é o fato de ter ficado tão desesperado para salvá-la por puro egoísmo. Eu apenas a queria para ser minha felicidade particular. Afinal, ela era a única coisa que me fazia sorrir – encarei o chão, a vergonha de minha confissão pesando em meus ombros.
Senti seus braços envolverem-me fortemente, aconchegando-me em seu peito.
Franzi o cenho, mas envolvi sua cintura e deitei minha cabeça em seu ombro.
- É claro que você quis salvá-la porque a amava e queria o seu melhor. Ninguém é tão egoísta a esse ponto, muito menos você – suas palavras eram suaves, mas eram suficientes para derrubar uma a uma todas as paredes que eu levantava para que as pessoas não tivessem acesso ao que eu sentia, ao que eu realmente era.
Abracei-o mais forte.
- Obrigado, Jinki – sussurrei.
Ele beijou o topo de minha cabeça.
- Há um jeito muito melhor de me agradecer – ele disse, seu tom aparentando ostentar um sorriso.
- Sabia que você tinha dito isso para ganhar frango – ri.
Ele riu também. Pôs a mão em minha nuca, circundando meu pescoço e puxando minha cabeça. Nossos rostos estavam próximos o suficiente para eu sentir seu hálito quente em um contraponto perfeito com o frio do vento ao nosso redor, que se tornava cada vez mais intenso.
Seus lábios tocaram meu olho esquerdo, fazendo-me fechar os dois. Lentamente, ele passou para o outro, beijando-o também. Era como se, assim, ele pudesse fechar os canais hidráulicos da região, impedindo que qualquer vestígio de água saísse por ali.
Beijou meu nariz, beijou minhas maçãs, beijou minhas bochechas... Beijou meus lábios.
O vento soprava ainda mais, fazendo com que nossos cabelos se misturassem e entrelaçassem, assim como nossos lábios, que se movimentavam lentamente em perfeita sincronia.
Eu não sentia nem um pouco de frio, embora sempre o sentisse com facilidade. Eu estava aquecido pelo misto de sensações que aquilo me proporcionava. Sensações boas que nunca havia sentido antes.
Nossas línguas logo exploravam as bocas um do outro, sem pressa, mas com um pouco de urgência.
Meus braços envolveram seu pescoço e os seus, a minha cintura, puxando-me ainda mais para si.
Era tão diferente de beijar JongHyun. Eu e Onew já nos conhecíamos há tanto tempo, então seu gosto era de nostalgia e intimidade. Seus toques eram delicados, mas expressavam o quão possessivo ele era, o que ele nunca deixaria transparecer em uma situação normal. Jong sempre me tocava como se esperasse que eu simplesmente desse para ele. E eu sempre dava ‘-‘
Os movimentos de nossos lábios em conjuntos com os de nossas línguas e até os de nossas mãos fizeram com que o ar se dissipasse.
Separamos nossas bocas e, ainda abraçados, tentávamos recuperar o ar faltante.
- Eu esperei... tanto... por isso – sua frase foi entrecortada pela falta de fôlego.
Não respondi. Apenas me concentrei em deixar o ar frio correr em meus pulmões.
Havíamos nos recuperado e seu nariz acarinhava minha face, provocando arrepios gostosos.
Sorri. Eu sentia uma coisa que há muito tempo não sentia. Uma coisa que todos lutam com unhas e dentes para ter e eu apenas deixei-me levar por um amigo de infância. Uma coisa que talvez eu não merecesse, mas ignorei esse fato. Eu estava feliz. Pela primeira vez em anos, eu me sentia verdadeiramente aliviado. Graças a Onew.
Notas finais
** "Nal beorijima": do coreano, "não me abandone". É uma parte de "Obsession" *-*
Então, leitores, como foi? Acho que algumas pessoas não irão gostar, afinal tem OnKey e não é todo mundo que gosta desse ship. Mas espero que possam olhar além disso, hehe Eu gostei muito de escrever e sei que isso vai ficar na minha memória e no meu coração para sempre. É um capítulo muito especial que eu não tive nenhuma dificuldade em fazer. Saiu rapidamente. Mas tive que parar no meio do flashback para me acalmar. Sim, soltei o berreiro, rs. Postei um dia antes, porque queria compensar semana passada e porque ficou pronto antes do que eu esperava. Bom, é isso. Espero que tenham gostado. Até semana que vem (:
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