Better Days

16 Capítulo 16


Era um domingo ensolarado e de temperatura amena no Vale do Café. Darcy estava na casa dos Benedito, para um almoço em família. Desde que descobrira a verdade sobre o pai, quinze dias antes, Darcy passara a frequentar ainda mais a casa de Elisabeta. Era como se estar perto de Tom o fizesse se sentir mais vivo.

Sua casa era enorme e solitária, e não era um lar. Lembrava-se daquela casa como a de Ema, e os quase dois meses em que estava no Vale do Café ainda não eram suficientes para que sentisse aquela como sua morada. Ao contrário da casa dos Benedito, que era viva, alegre e acolhedora.

Aos poucos Darcy estava refazendo os laços com a família de Elisabeta. Retomara as longas conversas sobre política e negócios com Felisberto, e já caíra novamente nos encantos de Ofélia. Já era parte do grupo dos rapazes, tendo inclusive sido convidado para uma noite de charutos na casa de Camilo.

Sua relação com as irmãs de Elisabeta também estava normalizada. Suas afinidades com Mariana, as conversas sobre livros com Cecília, as poesias de Jane e as implicâncias com Lídia. E agora havia uma série de Beneditinhos para conhecer e admirar. Cada uma das crianças com um temperamento próprio.

Júlia o desafiava para jogos de xadrez, e Darcy ria das expressões da menina, tão semelhantes às da avó Julieta. Helena, Clara e Vitória o convidavam para tomar chá com as bonecas. E os garotos o incluíam em todas as brincadeiras: polícia e ladrão, faroeste, brincadeiras com bola.

Era um grande divertimento fazer parte daquela família. E ao centro de tudo estava seu filho. Já praticava com ele no piano que Darcy comprara para os Benedito, e estava ensinando inglês para Tom. O levava para todos os lados, as vezes com Elisabeta junto, as vezes em grandes explorações pelo Vale do Café.

Tom já montava Tufão sozinho, e Darcy não podia sentir-se mais orgulhoso de seu filho. Vê-lo se desenvolvendo tão rápido as vezes fazia seu coração doer por todos os momentos perdidos. Mas logo sentia-se grato por, ao menos, ter a chance de ver todo o futuro que Tom tinha pela frente.

Sentado no sofá da sala, ele observava atentamente Elisabeta e Tom ao piano. Elisabeta mostrava as notas, e Tom as repetia. As vezes Darcy palpitava sobre o progresso dos dois, apenas para ver Elisabeta revirando os olhos. Lembrava-se de amar Elisabeta, mas parecia que tudo havia se intensificado.

Os dois evitavam ficar sozinhos no mesmo ambiente. Seus toques eram naturais na presença de Thomas, eram cuidadosos um com o outro diante da família de Elisabeta, mas existia sempre uma tensão que os deixava apreensivos. E era uma tensão alimentada pelos olhares perdidos e pensamentos escondidos.

Era cada vez mais difícil resistir ao que seus corpos queriam. Viam-se constantemente prendendo a respiração, sentindo arrepios pelo corpo, com a boca seca. Era mais forte do que eles, e resistir estava gerando um esforço que nenhum dos dois estava preparado.

Mas queriam seguir seu plano. Queriam se conhecer novamente, queriam reconstruir em bases mais sólidas aquela família. Havia, inegavelmente, uma mágoa que os acompanhava, uma desconfiança no futuro. Havia, porém, muito mais amor, e muito mais desejo do que podiam guardar.

A concentração de Tom foi interrompida pela chegada de seus primos, correndo pela casa. O garoto estava ansioso desde o início da manhã, e não levou mais do que meio minuto para saltar do banco e se juntar às outras crianças. Elisabeta sorriu ao ver as irmãs e os cunhados chegando praticamente juntas.

— Essas crianças estão impossíveis. – Mariana reclamou, cumprimentando Darcy.

— Nem me fale. – Lídia bufou. – Os meninos não me deixam ter um momento de paz com Randolfo.

— Não sei nem quanto tempo faz que eu e Cecília não temos um momento apenas para nós. – Rômulo piscou para a esposa.

— Quantas reclamações. – Elisabeta riu. – Quem os ouvir falando assim vai pensar que não gostam dos próprios filhos.

— Ora, não é isso. – Jane defendeu-se. – Crianças dão trabalho. Seria bom ter um pouco de sossego.

— Eu estou satisfeito. – Darcy deu de ombros.

— Isso é porque o pior não começou, meu amigo. – Brandão sentou-se ao lado dele.

— E po-po-porque Tom do-dorme aqui, com E-e-elisabeta. – Randolfo completou.

— O que torna a sua casa livre de crianças. – Camilo coçou o queixo.

— E se nós fizéssemos uma noite apenas dos adultos? – Cecília sorriu, conspiratória. – Mamãe não se recusaria a ficar com as crianças, se fosse na casa de Darcy.

— Nós já tentamos fazer em nossa casa. – Mariana confidenciou. – Mas mamãe disse que era um absurdo deixar as meninas aqui, se iríamos ficar em casa.

— Mamãe as vezes não percebe as coisas. – Jane se juntou a elas. – Por favor, Darcy.

— Poderíamos fazer uma fogueira, como nos velhos tempos. – Rômulo sentou-se do outro lado de Darcy.

— Agora as crianças parecem vocês. – Elisabeta reclamou.

— Não seja estraga prazeres, Elisa. – Lídia reclamou. – Deixe Darcy responder.

— Ora, é claro que serão bem-vindos à minha casa. – Darcy sorriu abertamente. – É só combinarmos o dia.

— Hoje! – as quatro Benedito falaram juntas, fazendo os maridos rirem.

— O que tem hoje? – Ofélia entrou na sala, curiosa.

— Faremos um jantar na casa de Darcy e as crianças ficarão aqui. – Jane disse rapidamente.

— O que? – Ofélia franziu a testa. – Essas pestes todas?

— Mamãe, Darcy nos convidou. – Cecília levantou-se.

— Você não quer que façamos essa desfeita, quer? – Mariana se juntou à irmã.

— Mamacita, não podemos levar as crianças. Não seria de bom tom.

— Ara, e por que Darcy faria um jantar sem as crianças? – ela olhou para Darcy, e de repente todas as Benedito olhavam para ele.

— Bem... pratos ingleses. É isso. – ele sorriu, mais convincente. – Quero apresentar a culinária inglesa, e as crianças não gostariam de pudim de rim, não é mesmo?

— De jeito nenhum. – Rômulo concordou.

— As meninas não comeriam.

— Júlia passaria um mês reclamando.

— O que está acontecendo aqui? – Felisberto veio da cozinha.

— Darcy convidou suas filhas para um jantar inglês, e você terá que cuidar dos seus netos hoje à noite. – Ofélia resmungou, saindo da sala.

— Vocês querem me explicar? – o mais velho cruzou os braços.

— Papaizinho, por favor. – Lídia abraçou o pai.

— É só por essa noite. – Cecília se juntou à eles, e foi seguida por Mariana e Jane.

— Bem, eu poderia ficar cuidando das crianças... – Elisabeta se manifestou, desconfortável.

— É claro que não. – Cecília respondeu mais rápido do que todo mundo. – Você também vai.

— Não é uma discussão. – Mariana alertou. – Papai?

— Tudo bem, tudo bem.

E então foi tomado pelo abraço de quatro de duas filhas, enquanto seus cunhados celebravam em silêncio e Elisabeta e Darcy perguntavam-se que tipo de confusão aquela noite poderia trazer.

##

O romance estava no ar. Uma grande fogueira fora armada por Brandão e Randolfo, e todas as bebidas do falecido Lorde Williamson estavam em uma mesa improvisada. Cada uma das irmãs Benedito havia trazido um prato de comida, e Cecília distribuíra cinco toalhas de piquenique em volta da fogueira.

Dessa forma, cada um dos casais estava confortavelmente ocupando um dos espaços, com exceção de Elisabeta e Darcy, pois a cada momento um deles descobria alguma coisa que precisavam buscar dentro de casa. As irmãs de Elisabeta já trocavam olhares cúmplices a cada vez que isso acontecia.

Mas, como toda reunião dos Benedito, logo o desconforto inicial deu espaço para conversas, brindes e lembranças. E sempre maravilhava Darcy sentir-se incluído naquela família, mesmo que de uma forma diferente dos demais. Ele observava seus amigos de longa data, e vez ou outra trocava um olhar com Elisabeta.

— Lembram-se de quando Darcy bateu em Xavier? – Brandão disse, já rindo.

— Xavier era um hipócrita. – Darcy reclamou. – E fez insinuações sobre Elisabeta.

— Não eram bem insinuações. – Mariana riu mais alto, já com a bebida fazendo efeito. – Se bem me lembro, Xavier flagrou você e Elisa em uma situação comprometedora.

— Mariana! – Elisabeta corou.

— É verdade. – Darcy confirmou, e Elisabeta revirou os olhos. – Mas um cavalheiro fingiria não ter visto.

— Foi um soco merecido. – Rômulo confirmou. – Pode imaginar, Camilo? Um europeu feito Darcy brigando em uma festa?

— Eu estou surpreso. Mas depois que vi Randolfo entrar em uma briga, não duvido de mais de nada.

— Ta-também ti-tive meus motivos. – ele assentiu, recebendo um beijo de Lídia.

— Ranran é muito corajoso. Pode não ser tão alto e forte quanto Darcy, mas é muito corajoso.

— Lí-lídia! – o marido ofendeu-se.

— Ranran, não precisa ter ciúme. Eu sempre disse que Elisabeta era uma mulher de sorte.

Elisabeta engoliu em seco, sentindo as bochechas corarem. Suas irmãs logo desviaram o assunto e continuaram relembrando alguns momentos, mas as palavras de Lídia foram suficientes para lembra-la o quanto era, de fato, uma mulher de sorte por ter Darcy à seu lado.

Não que agora fosse a mesma coisa, mas Darcy estava de volta. E a presença dele fazia sua vida mais estável, mais correta. Esvaziou seu copo e serviu-se de um pouco mais de bebida, já sentindo aquele familiar efeito. Darcy divertia-se com suas irmãs e cunhados, como se fosse parte da família, e Elisabeta de repente tornou-se mais consciente da situação.

Se chegasse um pouco para o lado, sentaria quase colocada à Darcy, e precisou conter o impulso de fazer exatamente isso. Observou Darcy sorrir livremente, e viu-se hipnotizada por ele. Quando o vento batia um pouco mais forte, sentia o perfume de Darcy, e o assunto da roda já não existia para ela.

Era perigoso estar ali, estar naquela situação. Tinham prometido um ao outro, tinham um plano. E naquele momento Elisabeta soube que, se continuassem bebendo, sorrindo, trocando olhares, não haveria outro resultado naquela noite. E não poderia acontecer nada, não quando estivessem completamente sozinhos na casa de Darcy.

Mas continuou bebendo mesmo assim, e não soube se foi para evitar pensar no que poderia acontecer, ou justamente para deixar seus pensamentos livres. Quando Darcy levantou-se para ir ao banheiro, seus olhos o acompanharam, fazendo Mariana pigarrear alto.

— Pare de babar, Elisabeta. – ela cochichou, à seu lado, enquanto os outros estavam distraídos.

— Eu não consigo. – Elisabeta sorriu. – Por favor, não me deixe fazer nenhuma besteira.

— Eu? – Mariana revirou os olhos. – Você sabe que eu não acharia uma besteira. Cecília?

Cecília virou-se para as duas.

— Elisabeta precisa que você não deixe que ela faça o que ela chama de besteira.

— Que besteira? – cochichou também.

— Darcy. – Mariana revirou os olhos.

— E desde quando isso é besteira? – Cecília trocou um olhar cúmplice com Mariana. – Jane?

Jane encarou as irmãs, que a olhavam.

— Elisabeta quer que você...

— Ah, pelo amor de Deus. – Elisabeta falou alto, atraindo a atenção dos rapazes.

— O que? – Jane perguntou para a irmã.

— Não é nada! – Elisabeta revirou os olhos, e nesse momento Darcy retornou ao jardim.

O olhar dela foi atraído para ele, fazendo Mariana e Cecília rirem, e Jane finalmente entendeu a situação. Mas nenhuma de suas irmãs a ajudaria naquela missão. Se quisesse resistir à Darcy, teria que fazer por meios próprios, com sua força de vontade, que naquele momento parecia inexistente.

Ele sentou-se um pouco mais perto dela, dessa vez, e o braço de Darcy encostava no dela, muito de leve. Mas era o suficiente para manter os dois concentrados naquela proximidade. A noite correu em lembranças e bebidas, e Lídia e Randolfo foram os primeiros a irem embora, algumas horas depois.

Aproveitando o embalo, Jane e Camilo partiram. Elisabeta mal percebeu a movimentação das irmãs, mas assim que se ausentou para ir ao banheiro, Cecília e Rômulo foram embora. Darcy, Elisabeta, Mariana e Brandão ainda conversaram por quase uma hora, antes de Mariana anunciar que também precisava partir.

— Elisa, eu sinto por não poder levar você. – Mariana fingiu um lamento. – Mas eu e Brandão estamos de moto.

Elisabeta de repente percebeu que, além de não a ajudarem, suas irmãs ainda provocaram uma situação que dificultava tudo. Revirou os olhos, recebendo o abraço de Mariana.

— Não faça nada que eu não faria. – Mariana riu.

— Eu não vou fazer nada. – Elisabeta sussurrou.

Darcy e Brandão se despediram, e logo o barulho dos motores já estava longe.

— Bem, você... você poderia me emprestar um cavalo?

Mas Darcy já estava próximo demais, e os dois engoliram em seco quando seu olhar se conectou. Sabiam que era o momento de decidir, o momento de recuar.

— Eu posso. – Darcy assentiu. – Ou eu posso te oferecer uma taça daquele vinho que você tanto gostava há sete anos.