Better Days
10 Capítulo 10
Darcy chegou à casa dos Benedito no meio da manhã, no outro dia. Pretendia passar algum tempo com Tom, talvez levá-lo para cavalgar novamente, ou dar um passeio pelo Vale do Café. Mas assim que chegou percebeu uma movimentação estranha no local. As crianças pareciam ainda mais eufóricas que o normal, enquanto Rômulo e Brandão tentavam organizá-las, com a ajuda de Ofélia.
Darcy coçou a cabeça, observando a cena à sua frente. Todos estavam com roupas de banho, tornando óbvio que aquela era uma excursão à cachoeira. Tom não estava entre eles, mas duvidava muito que seu filho fosse perder aquele evento. Foi naquele momento que Brandão notou sua presença.
— Darcy! – o Coronel sorriu. – Que bom que está aqui.
— Darcy? – Rômulo segurava Vitória no colo. – Espero que tenha vindo como reforço.
— Planejamos levar as crianças para a cachoeira, mas Randolfo está no quartel, e Camilo não pode vir de última hora. – o sorriso de Brandão era desesperado.
— Eu pretendia passar um tempo com Tom. – Darcy disse. – Então se não for incomodá-los, terei o maior prazer em ajudar.
— Ótimo! – Rômulo respirou aliviado.
— Darcy! – Tom gritou, assim que chegou ao topo da escada da varanda.
— Ei, garoto! – Darcy não se surpreendeu quando o menino correu e jogou-se em seus braços.
Darcy segurou Tom quase de cabeça para baixo, jogando-o para todos os lados.
— O menino acabou de tomar café da manhã. – Ofélia reclamou, mas tinha um sorriso no rosto.
— Darcy, você também vai para a cachoeira?
— Eu vou para a cachoeira. – Darcy colocou Tom no chão.
— Mas você não está com roupas de banho. – Júlia se aproximou.
— É porque eu não pretendo entrar na água. – ele deu de ombros.
— Darcy não sabe nadar. – Tom disse, em voz alta.
— O que? – Darcy riu. – Eu sei nadar, eu só aprendi tarde.
Mas antes que pudesse explicar, nove crianças Benedito já cantarolavam e pulavam em volta dele.
— Darcy não sabe nadar. – diziam, em uma melodia que fez todos os adultos rirem.
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Darcy, Brandão e Rômulo estavam sentados em uma sombra, nas pedras, observando atentamente as crianças. Os primos brincavam na beira do rio, mas mesmo assim, bastava um piscar de olhos para que um deles estivesse na água e precisasse ser alertado.
Brandão e Rômulo conversavam sobre algum acontecimento do Vale do Café que Darcy não tinha qualquer interesse. Estava observando Tom brincar, e agora perguntava-se como fora incapaz de associá-lo à ele e Elisabeta em um primeiro momento. O garoto não podia ser filho de outras pessoas.
— E então, Darcy? – Brandão o chamou. – Qual é sua história?
— Minha história?
— É, por que voltou agora? – Rômulo perguntou.
— Pretendia encerrar todos os negócios no Brasil. – ele deu de ombros. – Até descobrir que tenho um filho.
— Você não sabia mesmo? – Brandão perguntou sério.
— Eu não fazia ideia. – Darcy suspirou. – Seu Felisberto esteve lá em casa ontem, falando sobre cartas onde eu dizia que não queria ser pai. Eu nunca escrevi nada disso.
— É difícil acreditar. – Rômulo coçou a cabeça. – Mas nos conhecemos há tanto tempo, foi ainda mais difícil acreditar que você não queria ser pai.
— Alguém armou para nós. – ele disse, convencido. – Mas qual é o ponto de desvendar tudo isso agora? Eu preciso conhecer meu filho.
— Talvez faça diferença para ela... – Brandão disse, cauteloso. – Para Elisabeta.
— Elisa sofreu muito pensando que você a tinha abandonado, renegado Tom. – Rômulo tinha um tom triste.
— E me doi na alma saber que ela foi capaz de pensar isso. – Darcy suspirou. – Existe muita mágoa entre nós.
— Mas você ainda a ama, não ama? – o Coronel colocou a mão no ombro de Darcy.
— Como nunca amei nenhuma mulher. – Darcy passou a mão pelo rosto. – Mas eu não sei se um dia seremos capazes de superar tudo o que aconteceu. E honestamente eu não consigo pensar nisso agora.
— Talvez você esteja certo, Darcy. O melhor é focar em Tom, e todo o resto se resolverá no tempo certo. – Rômulo sorriu.
— Tenho certeza que tudo se resolverá. – Brandão também sorriu. – É bom ter você de volta.
— É bom estar de volta. Não percebi o quanto sentia falta do Vale do Café até estar aqui novamente.
— Quem diria que aqueles três rapazes que faziam de tudo pela atenção das Benedito estariam aqui, cuidando dos filhos delas. – Rômulo riu.
— Mariana mal conseguia conversar comigo por cinco minutos. – Brandão disse. – Sorte que Darcy conseguiu convencê-la de que eu valia a pena.
— Ora, meu amigo. – Darcy revirou os olhos. – Tudo o que fiz foi contar a ela sobre sua motocicleta.
— E foi o suficiente. – Brandão abriu um grande sorriso.
— Darcy também foi o responsável por fazer Cecília parar de desconfiar de minha casa. -Rômulo riu. – Mas Vitória já é igualzinha à Cecília, sempre procurando mistérios.
— É bom vê-los felizes. – Darcy sorriu genuinamente. – Confesso a vocês que estou me adaptando a essa ideia de ser pai.
— Você leva jeito. – Rômulo deu um tapinha em suas costas. – Vamos nos juntar às crianças.
Logo tudo virou uma grande brincadeira, onde todas as crianças se divertiam falando ao mesmo tempo. Darcy sentia-se feliz apenas por estar naquele local, por ter a oportunidade de conviver com seu filho e os primos dele. Se fosse sincero, sentia-se já tio daquelas crianças.
Fizera parte da história de Rômulo e Brandão, e apesar de não conhecer tão bem Camilo e Randolfo, fora também parte da vida de cada uma das Benedito. Tivera aquela família como sua, cuidara e protegera cada uma das irmãs de Elisabeta como se fossem suas próprias irmãs.
E agora via florescer aquele enorme jardim de crianças, cada uma com características tão peculiares, mas com olhos esperançosos e que faziam seu coração vibrar de emoção. Era como se os últimos anos de sua vida fossem uma completa escuridão, quando comparados à luz e alegria que aquelas crianças traziam.
Ao centro delas estava seu filho. Já sentia-se orgulhoso ao notar que o menino se jogava aos seus braços com a certeza de que estaria seguro. Como fazia questão de mostrar à Darcy cada nova brincadeira e conquista. Como, aos poucos, já passava a fazer parte da vida de Tom.
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Já era início da tarde quando todos resolveram partir. Ofélia os esperava com um grande almoço, e as crianças já beiravam a exaustão após tantas horas de brincadeira. Darcy optou por permanecer à sombra da velha árvore, perto da cachoeira. Bastava descer algumas pedras, e estava diante da paz.
Por sorte sempre levava um livro de bolso, e em poucos minutos estava distraído com as histórias. Por isso não percebeu quando Elisabeta apareceu pelo local, procurando por qualquer sinal de seus cunhados, sobrinhos e de seu filho. A única pessoa que ela avistou foi Darcy.
O inglês tinha as mangas da camisa dobrada, assim como a barra das calças. Seu paletó e colete estava pendurados na árvore, e ele parecia relaxado. Elisabeta sentiu um formigamento no corpo ao vê-lo. Darcy era um homem muito bonito, e o tempo apenas o fizera mais atraente.
Sacudiu a cabeça, espantando tais pensamentos. Estava em dúvida se deveria ou não falar com Darcy. Mas precisava saber onde estava Tom, antes que Ofélia a deixasse surda com tantas reclamações. E, se fosse sincera, havia nela uma vontade de falar com Darcy, de ouvir sua voz.
— Ei! – ela o chamou, do alto.
— Elisa? – o sorriso dele foi como reflexo, aberto e alegre.
— Onde estão todos? – Elisabeta começou a descer as pedras, até chegar onde Darcy estava.
— Já foram. Os garotos mal podiam conter a ansiedade com o banquete de Dona Ofélia. – Darcy levantou-se para recebe-la.
— E você não foi junto? – ela arqueou a sobrancelha.
— Bem, eu não fui convidado. – riu, contido.
— Que bobagem, Darcy. – Elisa revirou os olhos. – Você sabe que minha mãe sempre faz comida para um batalhão.
— Também sei que sua mãe não é minha maior fã. – ele suspirou. – E nem você.
Elisabeta não respondeu. Olhou para a cachoeira ao fundo, o barulho da água em um ritmo constante. Percebeu que nos últimos tempos quase não ia à cachoeira. E gostava tanto quando mais nova.
— Então você ainda lembra desse lugar. – ela sorriu, sem olhar para ele.
— E teria como esquecer? A Inglaterra não tem lugares assim.
Darcy respirou fundo. Era difícil estar perto de Elisabeta. Seu coração batia acelerado, e não tinha controle sobre o que falava. A vontade de elogiá-la parecia querer tomar conta. Tinha vontade de puxá-la para seus braços, apenas para senti-la de novo.
— Você sempre gostou da Inglaterra. – Elisabeta olhou para Darcy, e sentiu seu coração errar a batida.
Era assustador ter Darcy novamente em sua vida. Assustador, pois ele não estava realmente de volta. Era um desconhecido agora. Mas a forma como ele a olhava era familiar. E fazia seu coração ficar aquecido, descontrolado.
— Eu sempre gostei mais do Vale do Café. – ele abriu um sorriso que fez Elisabeta engolir em seco. – Eu fui feliz aqui.
Darcy pareceu notar o olhar diferente dela, porque ficou sério de repente. Pareciam hipnotizados naquele momento, e sem perceber se aproximaram até que seus corpos estivessem quase em contato. Havia tanto entre eles, tantas memórias, tantas histórias, tanta mágoa.
Mas naquele momento, naquele breve momento, era como se nada disso importasse. Era como se estivessem no passado, quando era tudo mais simples. Por isso Darcy não resistiu a vontade de tocar o rosto dela. Elisabeta sentiu o toque leve dele, e seu corpo inteiro pareceu receber uma descarga elétrica.
Ela fechou os olhos por uma fração de segundo, e quando os abriu eles pareciam ainda mais perto, como se buscassem um ao outro. A testa de Darcy tocou a dela, e ambos fecharam os olhos. O perfume dela era como ele lembrava, e o cheiro da colônia de Darcy ainda era o mesmo.
Bastaria que um dos dois tivesse a iniciativa. Bastaria um toque de lábios, quando suas respirações já estavam tão próximas e descompassadas. Seus narizes estavam colados, e os dois poderiam explodir naquele momento. Mas respiraram fundo, dando um passo para trás ao mesmo tempo, quebrando aquele momento.
— Eu... eu vou pra casa. – ela disse, tentando buscar o ar.
— Sim... – Darcy assentiu. – Você quer que eu vá junto? Digo, que eu a acompanhe?
— Não, está tudo bem. – ela evitou o olhar dele. – Está tudo bem.
Elisabeta subiu as pedras apressadamente, incapaz de compreender o que havia acontecido. O que quase havia acontecido.
— Elisa? – ela ouviu a voz de Darcy, e olhou para baixo, encontrando o olhar dele. – Me desculpe.
E não era um pedido de desculpas apenas pelo que acabara de acontecer. Era como se ele pedisse desculpas pelo que sentia, por não poder evitar. Ela deu um sorriso estranho antes de sair apressada. E Darcy afundou o rosto nas mãos, perguntando-se o impacto daquele momento.
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Vale do Café, 1910
Elisabeta corria apressada pelos campos à margem do rio. Darcy corria atrás dela, fingindo não conseguir alcança-la. Ela ria, desviando de todas as pedras e buracos, enquanto Darcy tentava adivinhar onde não deveria colocar os pés.
— Elisa! – ele gritou. – Chega, estou cansado.
— Mas ainda não chegamos. – ela reclamou, mas parou.
— Eu acho que aqui está bom. – Darcy resmungou.
— Não, precisamos ir para o nosso lugar.
— Meu amor, todos os lugares são nossos. – Darcy coçou a cabeça.
E antes que ela pudesse voltar a correr, Darcy a puxou para seus braços. A levantou, rodopiando a namorada sem esforço, e então a beijou. Era calmaria e amor, mas logo virou fogo e desejo, como sempre acontecia. Elisabeta o puxou para perto das pedras, já abrindo a camisa de Darcy.
Era assim com eles, ardiam um pelo outro, e mal conseguiam conter os sentimentos que brotavam por todos os lados. Darcy tentara resistir, mas era impossível. Ele não conseguia resistir à Elisabeta Benedito, e Elisabeta sequer fazia questão de tentar resistir à ele.
Mais tarde voltaram para a casa dos Benedito de mãos dadas, e antes que pudesse despedir-se de Darcy, Elisabeta cochichou em seu ouvido.
— Você tem razão. Todos os lugares são nossos.
O namorado apenas a beijou com paixão, e Elisabeta quase esqueceu de voltar para casa naquele dia.
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