Better Days

11 Capítulo 11


Darcy estava ansioso naquela manhã. Andava de um lado para o outro, com um sorriso no rosto. Finalmente seu presente para o filho havia chegado. Mal podia conter a ansiedade ao entrega-lo. Bom, ao mostra-lo à Tom. Fora claro em sua encomenda: precisava do cavalo mais manso e bem domado de São Paulo.

E agora estava em frente à um cavalo marrom claro, com crina dourada. O animal não parecia incomodado com sua presença, e inclusive se aproximou de Darcy, tão logo chegou à baia. Não tinha dúvidas de que Tom adoraria o presente. E não havia como batizar o cavalo com outro nome que não fosse Tufão.

Darcy montou no cavalo e galopou rumo à casa dos Benedito. O animal era calmo e lembrava muito Tornado. Seria ideal para uma criança, e sendo um cavalo jovem, acompanharia seu filho até a idade adulta. Tufão seria o companheiro de Tom, assim como Elisabeta tinha Tornado.

Elisabeta e Tom estavam na varanda de casa quando Darcy aproximou-se, saltando do cavalo. Andou até próximo à casa, puxando as rédeas do animal, com um sorriso no rosto. E o sorriso se alargou ao ver o rosto de Tom se iluminar ao notar sua presença, correndo em direção à ele.

— Darcy! – o garoto o abraçou. – Que cavalo bonito.

— Como vai, Tom? – Darcy direcionou seus olhos para Elisabeta, que se aproximava lentamente. – Elisa...

— Bom dia, Darcy. – ela sorriu, um pouco contrangida. – A que devemos a honra de sua presença?

— Eu vim apresenta-los à Tufão. – Darcy apontou para o cavalo.

Tom já estava se aproximando do cavalo, oferecendo sua mão para o animal cheirar, antes de ficar na ponta dos pés para tocar na cabeça do animal.

— Tufão? – Elisabeta arqueou a sobrancelha, desconfiada.

— Tufão. – Darcy sorriu, virando-se para Tom. – Você gostou dele?

— Eu posso montá-lo? – os olhos de Tom brilharam.

— Tom, o motivo de eu trazer Tufão para conhece-lo é que ele é um presente meu para você.

O menino travou no lugar. Seus olhos se tornaram ainda maiores com o espanto, e um sorriso aos poucos foi surgindo em seu rosto.

— Verdade? – ele perguntou, empolgado.

— Verdade. – Darcy sorriu. – Sei que você gosta muito de cavalos, e por isso o trouxe para você.

O sorriso de Thomas agora era o maior que Darcy já havia visto no garoto. Mas seu olhar vacilou por alguns segundos, buscando o olhar de Elisabeta.

— Mamãe? – perguntou, cheio de esperanças.

E Elisabeta não se atreveria a dizer não, ainda que exigisse uma conversa com Darcy.

— Parece que você tem um cavalo. – ela sorriu, contida.

— Obrigado, Darcy! – o garoto se lançou aos braços de Darcy, que o segurou no colo, aproveitando para leva-lo até o cavalo.

— Mas antes que os senhores saiam para um passeio... – Elisabeta arqueou a sobrancelha. – Eu preciso conversar com você, Darcy.

— É claro. – ele engoliu em seco.

Havia pensado sobre aquilo, sobre falar com Elisabeta a respeito do presente. Mas era o pai de Tom, e não via problemas em presenteá-lo. Era uma criança responsável e inteligente, e um animal de estimação nunca traria nenhum mal. Felisberto naquele momento se aproximava deles com um sorriso no rosto.

— Bom dia, Darcy. – o patriarca dos Benedito estendeu a mão.

— Bom dia, seu Felisberto.

— Vovô! – Tom gritou, de cima do cavalo. – Você já viu o meu cavalo? Este é o Tufão.

— O seu cavalo? – Felisberto sorriu. – Ainda não. Me deixe ver mais de perto.

— Papai, por favor fique de olho em Tom enquanto eu converso com Darcy. — Elisabeta pediu, e caminhou em direção à casa, sem esperar por Darcy.

Mas ele a seguiu, e não ficou surpreso quando ela entrou direto em seu quarto. Darcy respirou fundo ao ver a expressão que ela continha. Não era de irritação. Era uma expressão tipicamente de Elisabeta, que Darcy poucas vezes vira alguém fazer. Ela costumava usar quando queria reclamar de alguma coisa, sem iniciar uma briga.

— Darcy, você deveria ter falado comigo. – ela fez uma careta.

— Você diria sim? – ele perguntou, com um sorriso no rosto.

— É claro que eu diria não. – Elisabeta revirou os olhos. – Você não pode fazer essas coisas.

— Elisa, é um presente! – Darcy cruzou os braços, mantendo o sorriso. – Quantos anos você tinha quando ganhou Tornado?

— Isso não vem ao caso. – ela bufou. – Você não pode comprar coisas tão caras para o Tom.

— É claro que eu posso. Eu sou rico. – disse, como se fosse óbvio.

— Que esnobe! – ela franziu o nariz, soltando uma risada. – Mas eu não sou. E Tom precisa viver de acordo com as possibilidades dele.

— Tom é um Williamson. – Darcy revirou os olhos. – Tem casas e negócios espalhados pelo mundo.

— Eu tinha esquecido o quanto você podia ser irritante! – Elisabeta bufou novamente. – O que estou dizendo é que Tom precisa aprender que não pode ter algumas coisas.

— Eu concordo. Ele não pode ter um carro, não pode ter uma casa apenas dele. – Darcy riu. – Mas não vejo porque não poderia ter um cavalo. Tom adora animais, Elisa.

— Eu sei que adora! – foi a vez dela cruzar os braços. – Mas eu não poderia pagar por um.

— Eu posso pagar por um. – Darcy falou um pouco mais sério. – E eu quero dar esse presente à ele. E admita, é um belo cavalo.

— É um lindo cavalo. – ela suspirou. – Mas eu não quero que Tom se acostume com essas coisas.

— Elisa, olhe para mim. – Darcy se aproximou, o olhar fixo no dela. – Eu não vou a lugar algum. Essa é a vida dele agora. Eu sou o pai de Tom e estou aqui pra ficar.

Nenhum deles havia percebido o garoto que entrava empolgado no quarto da mãe, com novidades a respeito de Tufão, querendo apressar Darcy para o passeio. Foi apenas quando as palavras já tinham sido ditas que o olhar de Elisabeta foi atraído para ele. E a expressão de choque de Tom era a mais dolorosa que ela já havia visto no filho.

— Você é meu pai? – ele perguntou, numa voz vacilante.

Darcy e Elisabeta olharam para o filho, mas nenhum deles achou as palavras certas. E aqueles segundos de vacilo foram suficientes para Tom sair correndo do quarto da mãe. Elisabeta estava completamente apavorada, mas viu-se seguindo o filho, sem saber o que dizer.

O menino correu para o jardim e subiu apressadamente as escadas da Casa da Árvore. Era o local preferido de Cecília quando era criança, mas agora era a fortaleza de Tom. O local era seu refúgio quando sentia-se triste ou confuso. Elisabeta parou na varanda, e Darcy quase se chocou a ela.

— Meu Deus. – ela suspirou, levando a mão aos lábios. – O que foi que nós fizemos?

— Calma, eu vou falar com ele. – Darcy sentia seu coração bater acelerado.

— Não, não! – Elisabeta falou um pouco mais alto.

Os dois trocaram um olhar que dizia mais do que as palavras. Estavam assustados e nenhum dos dois estava preparado para aquela revelação. Planejaram mentalmente tantas e tantas vezes a forma correta de conversar com Tom. Elisabeta imaginara todos os cenários e possíveis reações.

Mas não pretendiam que ele ouvisse daquela forma. Não em uma conversa que não era dele, para ele. Não quando seu próprio choque os impedisse de responder, de reagir. Foi em um impulso que Darcy levou as mãos ao rosto de Elisabeta. Os dois sentiram a descarga de adrenalina de mais aquele toque.

— Vai ficar tudo bem. – ele a olhava nos olhos, convencido.

— Não era para ele saber assim. – Elisabeta lamentou-se. – Eu preciso falar com ele.

— Elisa, eu quero explicar... – Darcy pediu, em voz baixa.

— Darcy, me deixe falar com ele. Eu conheço Tom. – Elisa se manteve segura. – Quando ele estiver mais calmo nós iremos até a sua casa, e juntos poderemos explicar tudo.

Darcy assentiu, e por reflexo beijou a testa de Elisabeta, como costumava fazer para acalmá-la quando ainda estavam juntos. Ele andou cabisbaixo, encontrando Felisberto ainda segurando as rédeas de Tufão.

— O que houve? – Felisberto perguntou, espantado com a movimentação.

— Tom me ouviu dizer que sou o pai dele. – Darcy sentiu os olhos arderem, o ar faltar aos pulmões.

— Acalme-se, rapaz. – Felisberto colocou a mão nas costas de Darcy. – Já estava na hora do menino saber.

— Mas não assim, seu Felisberto. Não assim.

— Elisa vai conversar com ele. Eu tenho certeza que até o anoitecer tudo estará resolvido.

Darcy assentiu, montando em Tufão e galopando até em casa. Seria uma espera interminável.

##

Elisabeta respirou fundo antes de subir as escadas. Bateu na pequena porta de madeira e pediu licença, antes de sentar-se na parede contralateral à que Tom estava encostado. O menino abraçava os joelhos, com o rosto escondido. Elisabeta imitou sua posição, mas mantinha seu olhar nele.

Foram longos minutos em que ficaram na mesma posição. Elisabeta conhecia o filho, conhecia suas reações. Eram parecidas com as dela, e se esse fosse um assunto trivial, como uma briga dos primos ou alguma discussão boba, ela deixaria que Tom se acalmasse e voltasse para casa.

Mas não era um assunto banal. Era um assunto que Elisabeta temera por sete anos. O assunto que, sempre que surgia, fazia com que ela desviasse de todas as formas, tentando explicar de uma forma que uma criança pudesse entender, ao mesmo tempo em que omitia a verdade. Ou o que ela pensava ser verdade, já não sabia.

— Darcy é meu pai? – a voz do garoto rompeu o silêncio.

Seus olhos verdes encararam o espelho de sua mãe, e Elisabeta respirou fundo.

— Darcy é seu pai. – sua voz saiu falhada.

— Por que você não me contou? – Tom perguntou, depois de mais alguns minutos em silêncio.

— Nós estávamos esperando o momento certo. – Elisa suspirou, limpando uma lágrima que escorria por seu rosto.

Tom sustentou seu olhar, mas atormentava Elisabeta os sentimentos que vinham do filho. Confusão, tristeza, raiva, decepção. Tantas emoções que Elisabeta gostaria que ele não vivesse, que quebravam um pouco a mágica do mundo infantil de seu filho.

— Que momento? – o tom de voz dele era questionador. Como ela.

— Quando você e Darcy já se conhecessem mais, quando você estivesse pronto. – Elisa queria se aproximar e abraça-lo.

— Eu já conheço Darcy. – ele a desafiou.

Elisabeta ainda ficava surpresa com o filho. Sequer sabia de onde ele tirava tantas informações, tanta intensidade. A maioria de seus primos vivia alheia à todos os acontecimentos. Mas Tom era observador, desconfiado.

— Por que Darcy só apareceu agora? – ele deixou a raiva transparecer.

— Isso é algo que eu e ele vamos explicar juntos. – Elisa sorriu.

— E onde ele está?

— Darcy foi para casa. E quando você estiver pronto para conversar com ele nós iremos até lá.

O menino assentiu, e voltou ao silêncio. Elisabeta quase podia ouvir a cabeça do filho criando teorias, tentando processar tudo que estava acontecendo. Muito mais tempo se passou dessa vez, e Elisabeta precisou controlar a vontade de puxar o filho para seus braços, de garantir a ele que tudo ficaria bem.

Mas não ficou surpresa quando Tom novamente buscou seu olhar, e com um suspiro profundo levantou-se.

— Eu quero ir a casa de Darcy. – disse, decidido.

Elisabeta assentiu, e em pouco minutos os dois estavam montados em Tornado. Tom não disse mais nenhuma palavra no caminho, e Elisabeta contentou-se com a proximidade que tinha dele agora. Beijou os cabelos do filho e preparou-se para aquele confronto.

Gostaria de ter conversado com Darcy, de ter combinado o que dizer. Mas o destino escolhera aquele dia, em uma conversa despretensiosa. Escolhera que não houvesse preparação ou tempo.

Darcy pareceu profundamente chocado quando abriu a porta e encontrou Elisabeta e Tom. Esperava que fossem levar dias para ter aquela conversa. Mal tivera tempo de lavar o rosto e pensar no que acabara de aconter. Tom passou por ele sem dizer nada, e Elisabeta sorriu sem nenhuma tranquilidade, quase triste.

— Está pronto? – ela cochichou, ao passar por ele.

— Não. – ele admitiu. – Você está?

— Não. Mas está na hora da nossa primeira tarefa conjunta.

Tom já estava sentado quando Elisabeta e Darcy chegaram à sala. O garoto os encarava com desconfiança. E Darcy teve a certeza de que nunca sentira tanto medo em sua vida.