Better Days

1 Capítulo 1


Notas iniciais

Darcy Williamson andava solitário pelos arredores da Fazenda Ouro Verde. O inglês, que acabara de completar 32 anos, sentia-se inquieto por estar de volta ao Vale do Café. Nem os campos verdes e o vento suave, o som dos pássaros e o silêncio do interior eram capazes de aplacar sua ansiedade. Se fosse sincero, era como se todo aquele ambiente apenas piorasse seu desconforto.

Sua última estada no Brasil havia sido sete anos antes. E nem os anos longe do país fizeram o inglês apagar as lembranças do que fora vivido ali. Era como se tudo ainda estivesse presente, intacto, mesmo tantos anos depois. Mesmo em uma casa diferente, mesmo depois de tanta ausência.

Darcy examinava a propriedade adquirida por seu pai. Conhecia aquela casa como a residência do Barão de Ouro Verde, de seu filho Aurélio e de sua neta, Ema. Perdera as contas de a quantos bailes comparecerá naqueles salões, de quantos passeios dera naqueles jardins. Nunca pensara em retornar para aquela casa, muito menos como seu único dono.

Como filho único de Lorde Archiebald Williamson, Darcy era agora herdeiro de tudo que o pai possuía. O título, os negócios na Inglaterra, os investimentos no Brasil. E estava no país com o único objetivo de encerrar qualquer vínculo com a terra natal de sua mãe. Estava disposto a vender as propriedades, encerrar as parcerias, e seguir com sua vida longe dali.

Infelizmente essa tarefa exigia sua presença física, fazendo-o retornar ao lugar onde jurara nunca mais estar. Onde ela pedira para que ele nunca mais estivesse. E foi só ao chegar ao Vale do Café que percebeu o quanto a presença de Elisabeta Benedito era um modificador em todo o ambiente.

O céu que costumava achar o mais bonito, agora era em tons de azul cinzento. O sol não brilhava como ele se lembrava, e nem os campos eram tão coloridos, ou os animais tão fascinantes. Era tudo diferente sem Elisabeta, era tudo pálido e sem vida, como os anos que se seguiram ao rompimento dos dois.

Seu amor por Elisabeta ainda estava intacto. Ainda podia recordar-se do cheiro dos cabelos, do sorriso aberto, do brilho dos olhos verdes. Se fechasse seus olhos, ouvia ainda as declarações daquela última noite, antes de sua partida para a Inglaterra, quando o futuro ao lado dela era uma certeza.

Mas seu passado e futuro desmoronaram pouco tempo depois, quando as cartas de Elisabeta puseram fim a tudo. Quando ela esmagara seu coração chamando o que tinham de aventura, de inconsequência de uma adolescente. Quando ela dissera que Darcy não precisava voltar, pois já estava comprometida e iria se casar.

Fora um golpe duro demais, e Darcy duvidara no começo. Deveria haver alguma explicação, e por isso escreveu para ela, tantas e tantas vezes, até receber as últimas palavras, aquelas que diziam que Elisabeta nunca o amara. E Darcy não soube o que fazer além de acatar a decisão da amada, além de nunca mais voltar ao Brasil.

Mas agora a vida cobrava essa atitude. Precisava encarar o Brasil, como um adulto precisava fazer. Esquecer suas dores e decepções, e resolver ao menos todas as pendências, encerrar seu vínculo com aquele lugar. Finalmente ter a certeza de que nunca mais voltaria.

A verdade é que não queria voltar. Embora parte de seu coração alimentasse a esperança de rever Elisabeta, sua razão sabia que seria errado. Elisabeta Benedito tinha um novo sobrenome agora, dormia nos braços de outro homem, declarava-se para aquele odioso estranho, da mesma forma que um dia fizera com ele.

Com a diferença que talvez dessa vez fosse verdade. Que o estranho tivesse mais sorte, que fosse capaz de cativar e conquistar Elisabeta Benedito. Ao menos fora mais afortunado por chama-la de esposa, dormir ao lado dela, construir uma família. Tudo o que Darcy sonhava e não foi capaz de realizar.

Por isso chegara ao Vale do Café na noite anterior disposto a não procurá-la, a evitar os lugares onde ela poderia estar. Não que soubesse mais onde evitar. Apenas evitaria os lugares deles, os lugares onde viveram tantos momentos. Mas ao chegar aos estábulos, rapidamente sua convicção foi abalada.

Brisa, a égua negra como a noite, com olhos profundos, olhava para seu dono, em um reconhecimento surpreendente depois de tantos anos. Um relincho alto foi ouvido no ambiente, antes que o animal se agitasse um pouco ao ver a aproximação de Darcy. Levou, com cuidado, a mão à cabeça da égua, tentando apaziguá-la.

Seu nome era um eufemismo. Ele e Elisabeta haviam batizado a égua como Brisa, para que combinasse com Tornado. Mas a personalidade dos cavalos nunca fez juz à seus nomes. Tornado era um cavalo dócil, quieto, enquanto Brisa era rebelde e independente. Darcy costumava admirar a poesia daquilo.

Tornado era o cavalo de Elisabeta, como que para lembra-la de Darcy e sua personalidade contida. E Brisa era sua lembrança de Elisabeta, com suas personalidades inquietas, sempre dispostas a seguir o caminho que queriam. Era quase irônico que seus cavalos fossem tão parecidos com seus amores. E agora Brisa estava ali, como uma recordação dolorosa.

— Ei! Ei, menina! – Darcy acariciou a cabeça da égua, que relinchou em protesto. – Está tudo bem, calma.

— Senhor Darcy? – a voz de João, o antigo capataz de seu pai, fez Darcy dar um sobressalto. – Seu Darcy, que bom revê-lo!

— Senhor João! – Darcy abriu um sorriso instantâneo. – Quanto tempo sem vê-lo!

— Vejo que já encontrou nossa menina. Segue indomável, Seu Darcy. – o homem tirou o chapéu, com um sorriso banguela. – Derruba qualquer um que tente se aproximar.

— Sempre foi assim, não é João? – Darcy riu, agora com a égua mais confortável com sua presença. – Mas sempre fomos bons amigos.

— Eu lembro. O senhor foi o único que conseguiu se aproximar. Essa égua tem o diabo no corpo, seu Darcy. – a risada veio para os dois.

— Vamos ver se ainda consigo, então. Vamos para um passeio, menina?

E foi Darcy quem selou a égua, com todo o cuidado que habitualmente tinha. Sorriu com os protestos, mas quando finalmente montou no animal, a égua acalmou-se. As rédeas eram firmes, como precisavam ser, mas antes que Darcy pudesse perceber estava novamente cavalgando pelos campos do Vale do Café.

Suas promessas foram esquecidas quando, aos poucos, percebeu que qualquer lugar ali trazia lembranças de Elisabeta. Convivera com a mais velha dos Benedito por um ano, e para ele, fora amor à primeira vista. Em poucos dias já tinham trocado um primeiro beijo, e depois disso, fizeram tudo juntos até a partida de Darcy.

Todos os campos, árvores e fazendas tinham uma parte dela. Sua risada alta, a presença sonhadora, os tantos planos que faziam juntos de ganhar o mundo. Por isso não foi mais dolorido estar no topo daquele morro, onde a ferrovia podia ser vista, onde a árvore ainda tinha um vislumbre das iniciais deles.

Brisa parecia conhecer todos os caminhos e seus pensamentos turbulentos, pois por vezes o guiava para locais que Darcy sequer recordava-se. Mas quando chegavam ao destino, era mais um daqueles lugares. Onde as tardes eram longas e despretensiosas, os beijos demorados, os toques urgentes. Eram mais campos onde a amara longe dos olhos curiosos de seus pais.

Mas foi o barulho da cachoeira que fez com que Darcy sentisse a necessidade de cair uma lágrima que insistiu em correr por seu rosto. Era aquele o lugar deles, mais do que qualquer outro. Nos banhos dos dias ensolarados, no aconchego dos dias frios, e nas brigas em dias chuvosos. Fora o local onde as lembranças estavam mais presentes.

E foi por isso que finalmente desceu de Brisa, a amarrando em uma árvore que fazia sombra para sua companheira. E viu-se caminhando para a velha pedra, onde passavam a maioria dos dias, onde deram o primeiro beijo e onde fizeram amor pela última vez. Mas, a medida que se aproximava, os risos e gritos ficavam mais evidentes.

Darcy aproximou-se, curioso com os sons, e finalmente, ao chegar à pedra que procurava, viu ali cinco garotos, que não deveriam ter mais de sete anos. Todos falavam ao mesmo tempo, em voz alta, em uma discussão que parecia envolver quem seria o mais corajoso e quem deveria pular primeiro.

— Boa tarde. – disse, formalmente, fazendo os cinco meninos sobressaltarem.

— Boa tarde. – disseram, em coro.

Quatro deles desviaram o olhar, mas um deles, com grandes olhos verdes, sustentava seu olhar. Os cabelos do menino caiam em sua testa, mas seu olhar era desafiador assim mesmo.

— Quem é o senhor? – perguntou, curioso.

— Isso não importa. Eu quero saber o que os senhores estão fazendo perto do rio sem um adulto por perto. – Darcy cruzou os braços, tentando não ser sério demais.

Mas sabia os perigos daquelas águas e sentiu o coração gelar ao imaginar os cinco garotos pulando daquela altura, em um rio turbulento e com forte correnteza.

— Nada, senhor. – um dos menores respondeu.

— Nós estamos competindo para ver quem é o mais corajoso. – outro respondeu ao mesmo tempo.

— E posso saber como pretendiam tirar essa dúvida? – Darcy ergueu a sobrancelha.

— Vamos pular no rio, e quem conseguir ficar mais tempo embaixo d’água vence. – mais um respondeu.

Os meninos eram todos muito parecidos, à despeito das cores dos olhos diferentes. Eram todos de cabelos castanhos, e Darcy poderia apostar que eram parentes. O menino dos olhos grandes ainda o encarava, e todos pareciam esperar sua palavra.

— Pois saibam que isso não demonstrará quem é o mais corajoso. Isso irá mata-los. – disse, de uma vez só, fazendo os cinco pares de olhos se arregalarem.

— Estamos acostumados a nadar no rio. – o menino dos olhos cruzou os pequenos braços.

— Pois eu garanto que não costumam vir para estas bandas. Do contrário não fariam essa competição aqui. Onde estão os pais de vocês? – Darcy sustentou o olhar do menino.

— Eles não sabem que estamos aqui. – o último e mais tímido se manifestou.

— Eles não nos deixam vir para esta pedra. – um dos menores completou. – Papai diz que é perigoso.

— Pois seu pai está coberto de razão. – Darcy tentou sorrir. – Então é melhor que voltem para suas casas, antes que eu resolva contar para o pai de cada um onde estão.

Os garotos foram, um a um, andando em direção à cidade. Exceto o garoto dos olhos grandes, que mantinha os braços cruzados.

— Eu não tenho pai. – disse, desafiando Darcy.

— Então eu vou contar para a sua mãe. – Darcy disse, como se fosse óbvio. – Ande, vá para casa.

O garoto bufou, passando por Darcy e seguindo os outros. Mas parou alguns passos depois, virando-se novamente e encontrando os olhos do inglês.

— Eu nunca o vi por aqui. – o esperto menino afirmou. – Como vai saber quem são nossos pais?

— Garoto, em uma cidade pequena como essa eu não tenho dúvidas que qualquer um saberia me dizer. E se o vir novamente por aqui, pode ter certeza que vou descobrir. – Darcy piscou.

O menino ainda sustentou o olhar um pouco mais de tempo, antes de abrir um sorriso discreto, como se tivesse sido vencido. E aquele sorriso fez Darcy coçar a cabeça, confuso. Havia uma semelhança naquela forma de sorrir, lembrava alguém que ele conhecia, mas não sabia dizer quem.

Quando por fim parou de enxergar os meninos e teve certeza de que estavam a caminho de casa, Darcy sentou-se na pedra que eles ocupavam momentos antes, e deixou que seus pensamentos voassem. Lembrou-se do cheiro e do gosto de Elisabeta, da forma como suas mãos pareciam se encaixar, dos beijos roubados em bailes e das cavalgadas pelo campo.

E ali imaginou como ela estaria, com quem estaria naquele momento, se ainda estaria no Vale do Café. Passou por sua mente a ideia de tentar vê-la de longe, mas tudo aquilo seria apenas mais dolorido. Era melhor guardar seus sentimentos e tentar agir de forma prática, como fizera nos últimos anos.

Mas o Vale do Café só dava a ele a certeza de que não importava quanto tempo passasse, Elisabeta Benedito sempre seria dona de seu coração e de seus pensamentos. E era por isso que precisava resolver todas as pendências o mais rápido possível. Não seria capaz de viver em um mundo onde ela estivesse tão perto e tão longe.