Better Days
2 Capítulo 2
Os dias no Vale do Café eram lentos. Darcy estava acostumado com a agilidade das negociações na Inglaterra, mas no interior de São Paulo tudo era diferente. As reuniões eram regadas a café, bolo e biscoitos, e não havia um só parceiro de negócios que não exigisse um relatório sobre suas últimas atividades na Inglaterra.
Aos poucos algumas parcerias eram transferidas para seus representantes, outras encerradas, e em breve Julieta Bittencourt, a maior parceira de negócios de seu pai, estaria na cidade e juntos poderiam definir as maiores questões, como a ferrovia e os cafezais.
Darcy descobrira que o pai estava diversificando os negócios, e a cada nova informação parecia mais improvável que sua estadia no Vale do Café fosse ser curta. As implicações jurídicas exigiram que Darcy chamasse um advogado da capital, e ele encontrava enormes barreiras nas promessas que o pai fizera.
Mas era bom manter-se ocupado enquanto estava ali. Suas noites na Fazenda Ouro Verde eram solitárias, e por isso era bom que seus dias fossem repletos de encontros e problemas. E andar de uma fazenda a outra fazia com que não precisasse encontrar nenhum dos Benedito.
Evitara qualquer assunto sobre a família de Elisabeta, e agradeceu por, até então, seus parceiros de negócios estarem mais interessados em sua vida acadêmica do que em sua vida amorosa. Mas estava ansioso naquela manhã. Precisaria ir a uma reunião na cidade, na Casa de Chá, e conhecera poucas pessoas tão mexeriqueiras quanto Dona Ágatha, a dona do estabelecimento.
Por isso Darcy chegou praticamente na hora da reunião, grato pelo dono da Fazenda Areia já estar aguardando sua chegada. Foram direto aos negócios, e por isso Darcy sequer notou os olhares curiosos dos moradores do Vale do Café, ou os cochichos que aconteciam nas mesas ao lado.
Foi apenas quando a reunião terminou, sem uma definição acerca do preço das terras, e com a saída apressada de seu companheiro de negócios, que Dona Ágatha se aproximou. Os anos haviam feito pequenas rugas aparecerem ao redor dos olhos da mulher, e o sorriso que Darcy lembrava-se agora era substituído por uma expressão enigmática.
— Vejo que finalmente voltou ao Vale do Café. – ela disse, seca.
— Sim, meu pai faleceu e estou cuidando dos negócios. – Darcy respondeu, dando de ombros.
— Eu soube, e meus sentimentos pelo seu pai. Lorde Williamson era um excelente ser humano e cliente.
— Muito obrigado, Dona Ágatha. Meu pai gostava muito do Vale do Café e de todos os seus moradores.
— Posso lhe servir alguma coisa? – perguntou, e Darcy gostaria de responder negativamente, mas um desejo se apossou de seu corpo.
— A senhorita ainda tem aquela torta de limão? – um sorriso brincou nos lábios de Darcy, e a mais velha não conteve outro.
— É claro que tenho. Sempre foi sua preferida. Ainda lembro quando você e Elisabeta vinham e... – ela deteve-se, percebendo que falara demais.
— Sim, sempre foi minha preferida. – Darcy sorriu, triste.
E percebeu que nem a torta de limão tinha o mesmo sabor. Sua volta ao Vale do Café era um festival de decepções, e perguntava-se se Elisabeta também não seria tão bonita quanto recordava-se, se seu coração não acelerava tanto quanto em sua memória. Mas quanto a isso, Darcy duvidava.
Comeu em silêncio, sentindo aquele gosto que reativava tantas memórias, e ao mesmo tempo tudo parecia mais amargo agora. Despediu-se de Dona Ágatha com um sorriso entristecido, e estava prestes a sair do estabelecimento quando deteve-se, quase esbarrando em uma pessoa.
Os olhos eram os mesmos que ele lembrava-se, mas o sorriso de afeto que costumava recebe-lo agora era uma expressão séria, fechada. Algumas rugas estavam mais pronunciadas, mas tirando isso, Ofélia Benedito parecia exatamente a mesma. E quando ela começou a falar, Darcy foi tomado pela emoção, ao menos até ouvir as palavras dela.
— Me disseram mesmo que o senhor estava de volta. – ela começou, em voz alta, como de costume. – Achei que não seria tão cara de pau, mas o senhor sempre se achou mesmo um pouco dono do mundo, superior a todos.
Darcy foi pego de surpresa pelas palavras de Ofélia.
— Dona Ofélia, eu... – tentou defender-se.
— Eu não quero ouvir o que você tem pra falar. Por mim pode pegar esses seus dois metros de cara de pau e voltar para a Inglaterra. – os olhos dela se afilaram.
— Me desculpe, eu não estou...
— Eu só vou dizer uma coisa pro senhor, senhor Darcy Williamson. – ela se aproximou, abaixando o tom de voz. – Fique longe da minha família.
A senhora tentou passar por ele, mas Darcy respirou fundo, incapaz de conter-se, de não responder.
— Dona Ofélia, eu não tenho qualquer intenção de me aproximar de sua família. – respondeu, um tom de voz um pouco mais arrogante do que pretendia. – Nunca tive, aliás.
Ofélia voltou-se para ele, um olhar furioso, a expressão ainda mais irritada. Mas respirou fundo, e um olhar triste de repente substituiu tudo aquilo. E ela assentiu com um movimento de cabeça quase imperceptível. Foi só então que Darcy percebeu que todos os observavam com olhares assustados.
Darcy não compreendeu o acontecido. A última vez que estivera com Dona Ofélia fora para garantir que estaria de volta em um piscar de olhos, e então poderiam planejar o casamento, para o desgosto de Elisabeta. Não fora culpa sua o cancelamento da cerimônia, o fim da relação.
Não era sequer sua escolha. Se seguisse sua vontade, teria passado menos de dois meses na Inglaterra, e retornado para casar-se com Elisabeta. Fora escolha dela. Suas cartas deixaram sempre muito claro que queria o fim do relacionamento, o fim do contato. Pedira, especificamente, que parasse de escrever para não causar problemas entre ela e o noivo.
É claro que Ofélia não precisava pedir para que não se aproximasse. Por acaso a ex-sogra imaginava que ele tinha algum desejo sádico? Talvez um chá da tarde com Elisabeta e seu marido? Era evidente que não se aproximaria dos Benedito. Todo o objetivo de sua estada no Vale do Café era garantir que nunca mais retornaria.
Montou em Brisa e saiu em disparada, querendo organizar seus pensamentos. Mas estava agitado demais, e nem a corrida do animal, o vento gelado em seu rosto ou as paisagens do Vale do Café eram suficientes. Por isso voltou para casa, a contragosto, disposto a tentar ao menos dedicar-se ao trabalho.
Após desencilhar Brisa e escovar o animal, Darcy a deixou nos estábulos. Quando saia em direção à sua casa, alguns pares de olhos o encararam. Além dos cinco garotos conhecidos, agora havia uma garota, de tamanho similar aos mais novos. Como os outros, ela parecia familiar.
— Pois não? – perguntou, curioso.
— Eu disse que ele morava aqui. – o garoto dos olhos verdes disse para os demais, com ar confiante.
— Grande coisa. – a menina respondeu. – Não era tão difícil de descobrir.
— Se não era difícil, por que você não descobriu antes? – o garoto mostrou a língua.
— Porque... porque seria muito fácil. – a menina disse, convencida.
Darcy pigarreou, fazendo os seis pares de olhos se voltarem para ele.
— Posso ajuda-los?
— Apostamos para saber quem descobriria onde o senhor morava. – o mesmo menino sincero da outra vez falou.
— Arthur, você é muito linguarudo. – um dos meninos maiores cochichou.
— Mamãe diz que não posso mentir. – ele deu de ombros, chutando uma pequena pedra. – Muito menos para um adulto.
— Ela também diz que você não deve falar com estranhos. – a menina intrometeu-se.
— Júlia tem razão. – o menino dos olhos verdes cruzou os braços.
— Bom, você é Arthur, e você é Júlia. – Darcy disse, apontando para os respectivos. – E os outros, quem são? Já que estão em minha casa, seria de bom tom se apresentarem.
— Eu sou Otávio. – o outro menino menor respondeu, com um sorriso banguela. – E esse é meu irmão Augusto.
Darcy observou os dois, de fato muito parecidos. Augusto era o menino que comentara sobre não falar com estranhos.
— Eu sou Mário. – um dos maiores disse.
Mário era o que menos se parecia com os outros. Os olhos de Darcy se voltaram então para o garoto que parecia o líder do pequeno bando, aguardando sua apresentação. Mas o menino permaneceu em silêncio, analisando Darcy.
— Você não disse o seu nome. – o menino apontou, desconfiado.
— É verdade. – Darcy sorriu. – Meu nome é Darcy, e sejam bem vindos à minha casa.
— Obrigado. – disseram, em coro, denunciando sua educação.
— E agora é hora de você me dizer o seu nome.
O menino então deu alguns passos à frente, e Darcy surpreendeu-se ao vê-lo estender a mão.
— Meu nome é Thomas. Mas todos me chamam de Tom.
Darcy apertou a mão do garoto, como faria com um homem adulto.
— Então, agora que estão todos devidamente apresentados, o que estão fazendo aqui?
— Tom queria provar que o senhor morava aqui. – Augusto respondeu.
— Nossos pais não nos deixam vir aqui. – Arthur, com sua habitual sinceridade, respondeu.
— O Lorde Wicason não gosta de crianças. – Otávio disse, com olhos arregalados.
— Não é Wicason. É Williamson. – Tom corrigiu. – O senhor é parente do Lorde?
— Lorde Williamson era meu pai. – Darcy deu um sorriso forçado. – Mas ele faleceu há dois meses.
— Vamos embora. – Augusto pediu, de repente.
— O que? – Júlia perguntou para o garoto.
— Se o Lorde morreu, e ele não gosta de crianças, o fantasma dele vai nos assombrar. – o garoto disse, com olhos arregalados, e de repente todas as crianças começaram a falar alto.
Antes que Darcy pudesse dizer alguma coisa, cinco crianças começaram a correr em direção à saída da fazenda. O inglês observava a cena, e de repente ouviu o riso de Tom.
— Eu não tenho medo de fantasmas. – ele deu de ombros, fingindo superioridades.
— Não me parece que meu pai tenha tempo para assombrar a fazenda. – Darcy respondeu, em voz baixa.
— Daria muito trabalho assombrar uma casa com tantos quartos. – o menino disse, observando a casa. – Se eu fosse um fantasma, ficaria naquele porão assustador.
Darcy o observou atentamente, e não demorou mais do que alguns segundos para o menino arregalar os olhos.
— Eu venho aqui as vezes. – o garoto confessou, olhando para os próprios pés. – Eu gosto dos cavalos.
— Verdade? – Darcy cruzou os braços. – Você não tem cavalos?
— Temos um. – o menino olhou para Darcy. – Mas todos sempre querem montá-lo, e mamãe diz que tenho que dividir.
— Sua mãe parece sábia.
— Eu gosto da égua que o senhor estava montado. – o menino olhou para os estábulos, seus grandes olhos brilhando.
— Brisa? – Darcy arqueou a sobrancelha. – A égua preta?
— O nome dela é Brisa? – o sorriso do menino apareceu. – Eu gosto dela.
— Brisa não costuma fazer amigos. – Darcy estranhou.
— Eu sou amigo dela. – Tom de repente falou em voz baixa. – Eu já montei escondido.
— Você o que? – Darcy arregalou os olhos. – Garoto, você gosta de se meter em confusão.
— Mamãe diz a mesma coisa. – ele cruzou os braços, contrariado.
— Brisa é um animal perigoso. – Darcy disse, observando a expressão de desdém do garoto. – Mas, se sua mãe concordar, eu posso acompanha-lo da próxima vez.
— Mesmo? – Tom perguntou, desconfiado.
— Desde que prometa nunca mais montar em Brisa, ou em qualquer cavalo, sem a presença de um adulto.
O menino o encarou com aqueles olhos desconfiados e desafiadores. Pareceu estudar a proposta por alguns segundos. E então aproximou-se de Darcy novamente, mais uma vez estendendo a mão.
— Eu aceito. – Darcy apertou a mão do menino.
— Mas terá que pedir à sua mãe. – o inglês alertou.
— Mamãe adora cavalos. – Tom sorriu. – Tenho certeza que ela vai deixar.
O garoto então observou o caminho por onde os outros tinham seguido, e logo alguns deles apareceram entre as àrvores, chamando por ele.
— Seus amigos estão esperando. – Darcy sorriu, bagunçando o cabelo do menino com a mão.
— Eles não conseguem fazer nada sem mim. – o menino bufou.
Antes que Darcy falasse qualquer coisa, o garoto pôs-se a correr.
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