Bestseller Divergente: Contos
1 Erudição
Notas iniciais
Estou bem no meio de uma multidão. Não posso ver seus rostos. É como se eles estivessem em câmera acelerada. Homens e mulheres andando em todas as direções, todos trajando peças azuis. Vozes tumultuadas, planos, pesquisas, metas. Posso ouvi-los, mas não posso compreendê-los. Estou perdido. Quero voltar para casa, mas não sei onde estou, nem para onde ir.
– você – diz uma voz feminina, porém fria – não pode ficar parado. Ande, cumpra o seu dever para com a nossa sociedade.
Não consigo reconhecê-la. Seu rosto é um borrão. Seu vestido azul contrasta com a pele alva. Seus movimentos são lentos, mas o som de sua fala ecoa como um conjunto de vozes. Seus cabelos são loiríssimos e batem na altura do queixo.
– ande – diz a voz – ande, ande... – o som ecoa cada vez mais longe, mais fraco.
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Abro os olhos. Estou em meu quarto. Olho para o teto e vejo constelações, planetas, tenho o universo inteiro sob minha cabeça. Astronomia é uma de minhas paixões, na verdade, um passatempo. No ultimo verão projetei e instalei uma luminária com o mapa astronômico de nossa galáxia em meu quarto. Meu pai costumava dizer que muito antes das guerras que nos ruíram haviam grandes planetários e viagens espaciais. Hoje isso é só uma lembrança de um passado sombrio. Hoje em dia não se ensinam muito sobre o universo nas escolas, inferiores e medianas, apenas na superior, depois que você passou pela iniciação das facções e já é um membro oficial dela.
Hoje é o dia do meu Teste de Aptidão.
Eu não estou nenhum pouco confortável.
Levanto-me, procurando meus óculos. Minha visão me embaraça um pouco. Meus óculos são grandes, eu realmente preciso usá-los, mas a maioria dos membros da Erudição usam apenas por estética. Querem parecer mais inteligentes. Tolos.
Ainda é bem cedo, mas meu pai já esta acordado. Ele diz que é um hábito antigo, dos tempos de criança, mas apenas isso, em geral ele não fala muito de si. É um homem bom, um médico dedicado, trabalha muito, é verdade, mas é o que o preenche. Sempre tão só. Sou a única família que ele tem, por isso não consigo me imaginar abandonando-o. Ele é bastante jovem, talvez eu seja fruto de sua adolescência, mas toda vez que penso nisso sinto-me como se fosse um fardo para ele.
Ele está usando um blazer azul safira sob uma blusa cinza. Fico observando-o, a barba rala e por fazer, os cabelos loiríssimos e perfeitamente penteado, seu andar tranquilo e sorriso contido. Sua fala é sempre mansa, porém firme. Nós nos parecemos, apesar de ele ser pouca coisa mais alto que eu, afinal tenho apenas dezesseis anos e ele já passa dos trinta e cinco, embora eu tenha 1,80 de altura.
– como passou a noite? – pergunta ele, assim que se dá conta da minha presença — dormiu bem?
–a principio foi tranquila – digo confuso – mas um sonho me perturbou pela manhã.
– é normal – ele caminha até mim, põe a mão esquerda em meu ombro direito e sorri – você está nervoso, apenas isso.
– com é o teste de aptidão? – sei que não se deve comentar muito sobre isso, mas mesmo assim – acha que me sairei bem?
Ele dá de ombros – se você trabalhar bastante, tudo dará certo no fim – seus olhos são de um tom azul-cobalto, assim como os meus, ele me encara e eu o encaro de volta – são suas escolhas que define que tipo de homem você é. Suas ações só reafirmam o que foi dito – eu sorrio, este é pai.
Lavo-me antes do desjejum. É primavera, mas esta manhã é fria como o outono. Visto uma blusa de cor azul pólvora, uma gravata grafite e um suéter abotoado listrado: azul Prússia e azul meia noite. Uma das regras da erudição: todos devem usar pelo menos uma peça de tom azul, pois essa coloração estimula o hipotálamo a produzir ocitocina, hormônio que acalma as tendências alarmistas. Mente calma é mente lúcida, pelo menos é o que dizem, eu quase nunca tive surtos de adrenalina, é verdade, mas minha mente costuma explodir em ideias e informações em qualquer situação, basta que eu me disponha a raciocinar.
Na mesa: suco de maracujá, ovos mexidos e uma panqueca com cobertura de mel. Nada demais, tudo muito simples. Para meu pai o desperdício é um luxo dos tolos e ele não cria um tolo em casa. Moramos décimo terceiro andar de um dos poucos prédios ativos da cidade, no complexo da Erudição. Antes, Chicago costumava ser viva e repleta de novas construções, hoje devido ao furor dos nossos antepassados, vivemos nas ruínas da velha Chicago, embora há quatro anos um grupo de voluntários da Abnegação gentilmente tenha feito alguns reparos e melhorias na cidade. Sua líder era Nathalie Pior, a esposa de um dos líderes do governo. Por aqui costuma-se falar muito mal da Abnegação. Traidores, mentirosos e corruptos, é o que dizem, para a maioria de meus amigos são só caretas, para mim são mártires, talvez até santos, mas isso não os levará longe por aqui, a Erudição bate de frente, eles são extremamente opostos um do outro.
Descemos juntos pelo elevador, não temos carro e nem sei porque, ele poderia muito bem ter um automóvel próprio, mas não ligo, não me importo em andar e ele também não. O ônibus que me leva para a escola passa no complexo por volta de 8h45. Despeço-me dele, que segue seu caminho. Quando o coletivo chega, entro e sento-me no lugar ao lado de Isaac Snowden, também da Erudição, somos da mesma turma, mas a prepotência de seus atos me fazem ignorá-lo de tempos em tempos. Faço isso com frequência na minha facção.
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– como prometi – a voz da professora de História das Facções invade minha mente barulhenta ao iniciar a aula. A turma esta incrivelmente quieta hoje. É fantástico como um único dia pode fazer pessoas irrequietas como os da audácia parecerem verdadeiros cordeirinhos. Sento-me na frente, como é de costume da Erudição. Depois vêm a Franqueza, seguidos da Amizade, depois a Abnegação e por fim a Audácia – hoje teremos a leitura do Manifesto de cada Facção, logo depois do capítulo sobre as “facções essenciais”.
Todos os anos, no dia do Teste de Aptidão, meninos e meninas de dezesseis anos são reunidos numa grande sala onde aprendemos um pouco mais sobre a histórias da nossa cidade, das facções, dos atos que nossos antepassados fizeram para preservar nossas vidas sem mais guerras.
– Stanton – diz a professora, entregando a ela uma folha de papel – queira por favor ler o manifesto de sua Facção, por favor.
Miranda Stanton é da Abnegação. Sua mãe é uma das líderes do Governo, então é bem influente em nossa sociedade. Os fios de cabelo de Miranda parecem ouro quando a luz do sol transpassa as janelas abertas. Seus olhos as vezes parecem âmbar, as vezes verde oliva. Sua estatura é mediana, cerca de 1,75 m. tem postura correta e jeito recatado, como todos da Abnegação, mas seu olhar é diferente, não está escondido ou amedrontado, pelo contrário, está curiosamente atento, como se nada escapasse de visão.
– Do Manifesto... – ela limpa a garganta e dispensa a folha de papel – Do Manifesto da Abnegação: Serei minha ruína se me tornar a minha obsessão...
– que seja... – diz Isaac, revirando os olhos. A vaidade esta mais presente na Erudição e na Franqueza do que em qualquer outra facção, mas principalmente na Erudição.
Ela o encara, depois o ignora e prossegue:
– esquecerei aqueles que amo se não os servir. Guerrearei com outras pessoas se me recusar a enxergá-los... Por isso, escolho afastar-me do meu reflexo, escolho não depender de mim mesmo, mas sim dos meus irmãos e irmãs. Escolho projetar sempre ao exterior, até que eu desapareça – geralmente o manifesto acaba neste ponto, mas há quem acrescente algo mais, o que é o caso dela – e apenas Deus permaneça.
Logo todos estão batendo palmas, mesmo que alguns o façam a contra gosto, a maioria das pessoas concordam que a Abnegação é a mais bondosa das facções.
Em seguida leu-se o Manifesto da Amizade, da Audácia e da Franqueza.
– Weston Latier – a professora diz meu nome – queira por gentileza pronunciar o Manifesto da Nossa Facção.
Assinto com a cabeça, levantando-me educadamente de meu acento. Caminho até a frente e reclino a cabeça para ela, recusando-me a folha, assim como todos. Aprendemos que "A Facção antes do Sangue" é necessária para que a ordem paire sobre todos. Aprendemos os manifestos desde sempre, para que jamais cainhamos na tentação de agir contra os princípios da facção.
– rum rum- limpo a garganta. Sinto-a áspera. Todos me olham, alguns atentos e outros vagos. Sigo olhando para todos os rostos diferentes, de cores diferentes, de facções e hábitos diferentes, até que paro em Miranda, dou-me conta de que já deveria ter me pronunciado – Do Manifesto da Erudição: Nós aceitamos as seguintes declarações como verdade: a ignorância é definida não como estupidez, mas como falta de conhecimento e a falta de conhecimento leva inevitavelmente à falta de entendimento – para mim isso é puramente verdade. Não se pode conversar sobre ciência com uma pessoa que não tem um conhecimento prévio sobre tal assunto, por exemplo. Eu mesmo já me peguei numa situação dessas com um membro da audácia. Eu estava conversando com uma garota da facção sobre determinado assunto, contudo outro garoto ouviu-me e discordou do que eu havia dito, tentei explicar-lhe, mas ele era ignorante demais para entender. Então simplesmente dei de ombros e saí.
– falta de entendimento leva à desconexão entre pessoas com diferenças. Esta desconexão gera conflitos. Logo, conhecimento é a única solução lógica para os conflitos. Portanto cada membro da sociedade deve ser versada basicamente em sociologia – resumirei o manifesto, pois é um dos maiores e eu mesmo considero algumas informações prolixas, ainda que o manifesto seja caudaloso – para que este entenda como a sociedade em geral funciona. Em psicologia, para que entenda como uma pessoa funciona sem a sociedade. Em comunicação, para que o indivíduo saiba falar, escrever e se portar de forma clara, educada e efetiva. A inteligência é um dom, não um direito.
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