Notas iniciais
Nunca é fácil para ninguém sair de casa, deixar sua família, seus pertences, seu antigo eu. mudar pode ser bom, porém pode ser também perigoso. Uma decisão pode te mudar para sempre. Uma decisão pode arruinar você.

ABNEGAÇÃO

Abro os olhos. Já esta claro, vejo o teto branco do meu pequeno quarto com a luminária em forma de disco ao centro. São seis da manhã, devo me levantar rapidamente, pois tenho muito a fazer, afinal sou da Abnegação e devo por as necessidades dos outros na frente das minhas.

Abro a janela circular de meu quarto e arrumo minha cama. Não há muito para ser arrumado, na verdade, não possuo muitos pertences pessoais, só coisas básicas. O desperdício é egoísmo, pois lá fora, há quem não tem nada, ou quase nada. Poupar para o próximo ou as gerações futuras, pelo contrário, é um ato de amor, gentileza e generosidade.

Saio do quarto e dou-me com Aaron, meu primo. Seu pai morreu no verão passado, ele estava muito doente e não havia medicamentos suficientes para ele e os sem-facção. Não preciso dizer qual foi sua escolha. Todos aqui em casa lidamos muito bem com sua morte, pois foi sua decisão e sempre devemos respeitá-las, sejam elas qual forem. Não costumamos nos expor muito, pois isso seria autocomplacência e nossa facção se abstém disso. Já a tia Ellen, morreu há muitos anos, quando ele ainda era um bebê.

– acordou cedo – Digo sorrindo para ele. Seus olhos azuis piscina parecem saltitar, como se festejassem algo. Talvez seja porque hoje é o dia do Teste de Aptidão. Ele é alto, cerca de 1,80m e seus cabelos são mais claros do que os meus.

– não consegui dormir, na verdade – diz ele, mexendo no cabelo – precisa de algo.

Por um instante esqueci que devemos sempre nos certificar se alguém precisa de ajuda, antes de nos preocuparmos com outras coisas – não, muito obrigada. Mas eu posso lhe preparar um café, que tal?

– não se preocupe Miranda. Hoje é o meu dia de preparar o café – diz ele sorrindo.

– faço questão, primo – digo prendendo meus cabelos num coque – cortesia da casa.

Ele sorri – tudo bem, mas eu lavo os utensílios, está bem?

– pode ser – confirmo.

Quando passamos pelo quarto de minha mãe, conferimos se ela está dormindo. A julgar por sua careta, ela não esta tendo um sono muito agradável. Talvez seja por causa da recente perseguição da Erudição à nossa facção. Bem, é verdade que nunca nos demos bem, mas isso não justifica ataques a Abnegação através dos jornais. As pessoas aqui são todas tão boas e frugais, não entendo que motivo levaria alguém a falar mal dos membros daqui.

Eu observo a água ser convertida em café enquanto ela cai na chaleira. A água torna-se outra substancia rapidamente, e não pode se tornar o que era antes. Vejo Aaron mexendo ovos na frigideira, fazendo movimentos repetitivos e circulares com a espátula. Preparo três panquecas para nós e passo um pouco de doce de leite sobre elas. Aqui na Abnegação não temos acesso a muitos produtos naturais, na maioria das vezes comemos produtos enlatados, mas ainda assim temos acesso a coisas básicas como leite e ovos.

Enquanto Aaron lava os utensílios, eu disponho o café da manhã numa bandeja de metal. Tenho a intenção de levarmos o café da manhã para mamãe, em seu quarto.

– eu te ajudo Miranda.

– não precisa.

– insisto.

Eu não, portanto cedo. As vezes cortesia demais me irrita. Eu não quero servir a todos o tempo todo. Devo tirar esse pensamento egoísta da minha mente, ou então acabarei me tornando uma pessoa horrível e mesquinha. “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento” esse é um dos ditados bastante comuns aqui na Abnegação e na Amizade.

Assim que entro no quarto dela, afasto as cortinas e abro a janela.

– hora de acordar – digo, beijando sua testa.

– preparamos algo para você tia Marian.

Ela levanta-se lentamente, passando suas delicadas mãos sobre o rosto, depois prende o cabelo.

– que café da manhã lindo – diz ela, mas este é um típico café da manhã aqui na Abnegação. Não há nada demais. Ela só está tentando ser gentil – tenho certeza de que tudo delicioso.

Aaron a ajuda a se levantar, e eu arrumo o café na pequena mesa circular perto da janela.

– como estão se sentindo meninos? Pode parecer loucura, mas não há o que temer.

– tenho medo de como será o Teste de Aptidão – diz Aaron — como se sentiu no seu?

– eu estava apavorada – ela sorri, olhando para o canto superior direito, como se estivesse tendo uma vaga lembrança – aterrorizada, na verdade. Mas não havia motivos é claro. Tudo saiu perfeitamente bem.

– para a senhora parece ser tão fácil – digo.

– e para você também será Miranda – diz Aaron – Tenho certeza de que você fará a escolha certa.

– Miranda, querida, alguém uma vez me disse que devemos pensar com o coração e sentir com o cérebro... – ela parece estar nostálgica – pois nossas escolhas são o futuro em nossas mãos. Somente desta maneira conseguiremos ver e agir da forma que necessitamos para o nosso bem e o do próximo também.

Fico observando-a. Tão jovem, tão bonita. Mas uma beleza escondida. Mesmo usando os trajes sem graça da Abnegação ela consegue ser elegante, chamar atenção. Sua pele alva, olhar penetrante. Olhos verde oliva com âmbar, iguais aos meus. É delicada, porém forte, singela, porém firme. Que mulher é minha mãe. Talvez ela fosse mais valorizada em outra facção.

Ela trabalha junto a Marcus Eaton e Andrew Prior. Inclusive é bastante ligada a sua esposa Natalie Prior, trabalham juntas no Setor de Construção e Reestruturação Voluntária, que ajudou a reparar danos causados pela destruição na cidade há uns quatro anos, por ai. Ela não era muito chegada à companhia de Evelyn Eaton, ela dizia que a senhora Eaton sabia usar as palavras muito bem quando ela queria, bem até demais.

– vocês precisam ir. Vão se arrumar. Hoje é um dia importante, eu cuidarei disto aqui – ela diz enquanto põe meu pires sob o de Aaron.

Fazemos que sim com a cabeça e nos retiramos. Dirijo-me ao meu quarto para me trocar. Está um pouco frio esta manhã, então pego um vestido cinza sem manga e ponho um blusão, aberto e sem botões, cinza escuro por cima. Calço minhas botas acolchoadas que vão até metade de minhas canelas.

– como você cresceu sabia?! – minha mãe esta parada bem na porta entreaberta, segurando uma escova de cabelo – posso?

Assinto com a cabeça e ela começa a pentear minha madeixas loiras. Ele penteia para trás e amarra-o num grande coque. Inesperavelmente ela destranca o espelho do armário e permite que eu me veja.

– você está linda!

– no começo eu a olho pelo espelho. Ela também está. Mas depois sou tragada por minha própria imagem. Estou me tornando uma mulher, mas não me sinto assim.

– já basta – diz ela em tom ameno – eu tenho tanto orgulho de você e de seu irmão? – seus olhos brilham

– meu irmão? – pergunto espantada.

– digo, seu primo, Aaron – ela se recompõe – ele é para mim como um filho que nunca tive.

Eu a entendo. Éramos tão sozinhas que quando Aaron veio morar conosco, mesmo que por um motivo desagradável, preencheu-nos de alegria.

– preciso ir agora – diz ela – sou voluntária para aplicar os testes de aptidão este ano. Mas antes preciso falar com Marcus sobre um assunto. Vocês ficarão bem?

– sim, não se preocupe – diz Aaron atrás de nós – o ônibus passará daqui a pouco. Precisamos ir agora Miranda, ainda temos que andar algumas quadras.

E é o que fazemos todos os dias. Andamos algumas quadras. Cerca de um quilometro e meio até o ponto. Passamos por algumas ruas que os sem-facções costumas ficar. Se mamãe estivesse aqui ela diria “faça o bem, sem olhar a quem” e então eu diria “sim mamãe, ouvir é obedecer”.

Há um homem velho, sessenta anos talvez, mendigando algo no lixo.

– e pensar que eu defendi esses muros durante anos – ele resmunga – e hoje é assim que me agradecem.

Seus olhos são cinzentos e frios. Em seu braço há um desenho de serpente, que sobe até onde sua roupa velha e puída. De sorte tenho um sanduíche de pão integral e mel. Sempre andamos com comida, não para nós, mas sim para dar os pobres sem-facção. Somos instruídos a ajudá-los, não importa se são ríspidos ou tímidos. Não entendo muito bem o porque de ele ter dito aquilo. Talvez ele fosse da audácia. Talvez tenha cometido um crime e suas transgressões não foram perdoadas. Na abnegação ninguém guarda rancor ou mágoa, perdoar é um ato de amor ao próximo, embora eu tenha dificuldade em perdoar quem não merece.

Assim que chegamos ao ponto o ônibus passa. Está cheio, mas há um lugar que Aaron sede gentilmente para mim. Duas paradas depois entra um senhor, da Franqueza e logo meu primo me cutuca, fazendo sinal para que eu me levante para ele. Dou de ombros e ignoro ele e o senhor. A franqueza é imparcial quando se trata da rincha entre a Abnegação e a Erudição, mas mesmo assim, eles não são muito gentis, então tanto faz.

+++

– Miranda – diz a professora de História das Facções – queira por favor ler o manifesto de sua Facção.

Eu assinto com a cabeça. Levanto-me cuidadosamente para não chamar atenção, embora todos já estejam olhando para mim. Não gosto nenhum pouco de chamar atenção, pois em geral eles costumam chamar a mim e aos outros membros da minha facção de Caretas. Um insulto que não perdoo. Somos pessoas boas, nos sacrificamos por todos e qualquer um, não importa quem seja, até mesmo se for da odiável Erudição. Quer dizer, eles se sacrificam pela Erudição, eu não.

Olho fixamente para o chão enquanto passo por inúmeras carteiras. Quando passo por uma delas, sinto um delicioso aroma no ar: absinto. O cheiro é de Weston Latier, da Erudição. O aroma me preenche, é fantástico. Nunca nos falamos e, enquanto ele for dessa facção, pretendo nunca falar. Ele é bem bonito, mas é uma beleza singela, diferente. Me desperta afeto, não desejo. Seus olhos são fascinantes, azuis safira, cabelos loiros e bem domados, da altura de Aaron, só que tem mais corpo.

Chego na frente da sala, a professora me oferece uma folha onde esta escrito o manifesto da Abnegação. Eu recuso, sei de cor. Todos nós sabemos, ou pelo menos a maioria interessada. Eu tento jamais esquecê-lo, para que eu não caia na tentação de renegá-lo.

– Do Manifesto... – limpo a garganta – do manifesto da Abnegação: Serei minha ruína se me tornar a minha obsseção...

– que seja... – diz Isaac numa das cadeiras da frente, revirando os olhos. Tão nojento e vaidoso, age como se fosse um rei. Eu o encaro por um instante, mas evito, não devo me portar assim, pelo menos não em público.

– esquecerei aqueles que amo se não os servir – prossigo – guerrearei com outras pessoas se me recusar a enxergá-los... Por isso, escolho afastar-me do meu reflexo, escolho não depender de mim mesmo, mas sim dos meus irmãos e irmãs. Escolho projetar sempre ao exterior, até que eu desapareça – alguns de nós simplesmente param aqui, minha mãe diz que só conseguiremos adquirir a paz plena e a bondade verdadeira quando reconhecermos que somos falhos, mas que em Deus podemos achar a perfeição – e apenas Deus permaneça.

Palmas seguem os segundos de silencio após o término da minha oratória. E assim facção após facção tem seu manifesto pronunciado até que a professora chama a ultima delas.

– Weston Latier – a professora diz seu nome, quando o vejo percebo que ele ainda está olhando para mim, mesmo após eu ter terminado de declarar o Manifesto da Abnegação – queira por gentileza pronunciar o Manifesto da Nossa Facção.

Ele faz que sim com a cabeça e anda lentamente até o ponto mais setentrional da sala.

– rum rum – ele também limpa a garganta. Todos o olham, e ele segue olhando para cada um de nós, até que ele para em mim. Ele está me encarando, e eu o encaro de volta, até que ele finalmente se pronuncia – Do Manifesto da Erudição nós aceitamos as seguintes declarações como verdade: a ignorância é definida não como estupidez, mas como falta de conhecimento e a falta de conhecimento leva inevitavelmente à falta de entendimento, falta de conhecimento leva à desconexão entre pessoas com diferenças. Esta desconexão gera conflitos. Logo, conhecimento é a única solução lógica para os conflitos. Portanto cada membro da sociedade deve ser versada basicamente em sociologia – ele tem omitido várias partes do Manifesto da Erudição, é claro que a maioria não sabe disso, mas eu sei porque procurei o livro sobre a história das facções há algum tempo, para tentar entender o porque de tudo isso – para que este entenda como a sociedade em geral funciona. Em psicologia, para que entenda como uma pessoa funciona sem a sociedade. Em comunicação, para que o indivíduo saiba falar, escrever e se portar de forma clara, educada e efetiva. A inteligência é um dom, não um direito.

“A inteligência é um dom, não um direito”. Lembro-me destas palavras ao fim do manifesto, fiquei revoltada quando o li pela primeira vez. Então só a Erudição é regalada por esse dom?! Quanta prepotência e petulância. Idiotas é o que realmente são.