Best friends or more than this?
2 Você não se lembra?
Notas iniciais
"Vamos Judy. Eu sei que você tá fingindo." Claro que não estava, eu poderia ter dito isso a ele, mas estragaria meu papel e a minha vontade de dormir mais. Apenas me virei para o lado da parede esperando que Thiago me deixasse em paz, por que eu deveria acordar tão cedo? Estávamos de férias. E no instante que senti suas mãos em minha cintura, não aguentei, me virei e fitei os seus olhos verdes e logo abaixo destes um sorriso em teus lábios. "Idiota! Saia da minha cama. Eu vou voltar a dormir."
Mas em vez disso, nenhum músculo se moveu, além de seu sorriso aumentar cada vez mais até explodir em uma gargalhada. “Você é tão inocente, minha bela Judith.” Encarei em uma plena confusão, mas depois de um instante chutei sua canela para não perder o costume quando ele agia dessa forma. “Hoje tem aula. Iremos para o primeiro dia juntos, lembra?” Como poderia esquecer, foi na primeira semana da sétima série. Nós caminhávamos para a escola contando nossas expectativas para aquele ano, e com elas nossos desejo e um desses se tornou uma promessa, não uma que teve juramento com os dedinhos mindinhos, eram apenas palavras de dois melhores amigos, bem, esta era a minha concepção que havia mudado depois de alguns meses. “Como poderia esquecer, Thy? Eu…”
— Judith! Acorda. — A voz estava fraca, mas insistente e que teimava em me cortar toda vez que eu começava a falar. E sem perceber meus olhos fitavam dois olhos castanhos, como os meus. Meu irmão se levantou ao ver que havia feito seu trabalho.
— Se arrume, a mamãe tá te esperando. — Gritou ele e logo pude ouvir seus passos apressados indo para longe do meu quarto. Levantei um com um pouco de relutância, as aulas começariam dali algumas horas e era o meu último ano. E Thiago não iria comigo, seria apenas o idiota de sempre no período que está com os seus “amigos”.
Vesti o uniforme e fiz tudo que precisava o mais rápido que consegui, não que estivesse com pressa de ir para o inferno daquela escola, era por causa da minha mãe que sempre achou que seus filhos deveriam chegar sempre adiantados na escola e que seu limite máximo era vinte minutos. Eu sempre odiei essa regra, mas ao contrário de mim os meus dois irmãos adoravam.
Ao me olhar uma última vez no espelho ouvi um barulho vindo da minha janela, alguém deveria ter jogado uma pedra ou qualquer coisa que provocasse tal barulho, antes mesmo de virar soube quem era, Thiago estava em seu quarto segurando um papel. “ME DESCULPE.” Ele havia escrito com canetinha vermelha, então ele se lembrava, essa informação poderia me alegrar, mas parecia que meu coração tinha sido atingido por várias facas. Eu apenas sorri e dei de ombros, ele não poderia fazer o que tinha prometido, aliás esse afastamento não era para o meu próprio bem? Sai antes que me fizesse chorar.
Parei no lado da minha porta e suspirei pesadamente, como um pedaço de papel podia me fazer mal? Era assim tão fraca? Passando os dedos em meus olhos para constatar que não havia nenhuma lágrima, botei um sorriso no rosto e corri para cozinha pegando uma maça, e antes que me esquecesse fui até a sala pegar o meu violão, meu único companheiro quando eu chegava cedo demais na escola ou quando queria fugir daqueles alunos.
— Desculpa. Eu estava me arrumando. Isso não vai acontecer de novo. — Falei assim que entrei no carro, minha mãe apenas assentiu. — Você deveria olhar no relógio, eu entendo que hoje é o primeiro dia, mas mesmo assim. — Disse um pouco impaciente, eu havia chegado na hora certo? Ainda era seis horas e dez minutos, chegaríamos na escola por volta de seis e meia e isso não era motivo dela estar desse jeito. — O que foi? Por que o carro ainda tá desligado? — Perguntei um pouco confusa, ela nunca tinha feito isso, geralmente ela e meus irmãos que me esperavam, não ao contrário. — Cadê o John? — Notando finalmente ausência do caçula.
Não esperei a resposta da minha mãe e nem precisava quando vi o meu irmãozinho correndo na nossa direção e logo atrás dele, um garoto alto, com olhos verdes e um sorriso que faria qualquer garota se derreter. — Mãe, me diz que ele não vai com a gente. — Implorei enquanto rezava todas as orações que conhecia, minha mãe sabia da nossa falsa briga, mas não estava a fim de fingir que estávamos bem, não hoje, eu poderia fazer isso qualquer dia. E até me sentiria feliz em ter alguns minutos com ele, porém não hoje, não com o início das aulas. Chutei as lembranças para longe e esperei minha mãe responder, mas eu só recebi um olhar de desculpas.
E depois de dois minutos Thiago estava do outro lado do carro parecendo que nada aquilo o afetava, que não mudava nada na nossa amizade. E eu apenas fiquei o encarando, suas feições mudaram pouco ao passar dos anos, claro, havia o fato da adolescência ter atuado em seus traços. Desviei o olhar para a janela, a paisagem urbana passava rapidamente.
— Não tem tanto trânsito assim… — Murmurei um pouco surpresa ao ver a quantidade de carros.
— Nunca tem trânsito esse horário.
Não me virei para ele, se fizesse isso poderia muito bem me deparar com um garoto que apenas olhava os prédios passando.
— Como sabe disso? Você nunca foi de chegar cedo na escola… Sempre chegando em cima da hora. — Agora eu não resisti e me virei para encarar o garoto. Ele me olhou de uma forma esquisita, tristeza, nostalgia? Não fiquei mais tempo fitando aqueles olhos verdes, voltei meu olhar para frente e puder ver um pequeno sorriso no rosto da minha mãe.
— Você não se lembra? — Perguntou ele, tirando dos meus devaneios por um momento. Eu apenas neguei com a cabeça, confusa sem saber o quê deveria me lembrar. Ouvi um suspiro antes do próprio continuar a falar. — Quando eramos menores, eu sempre vinha com você para escola.
Antes que eu pudesse responder minha mãe havia anunciado que já tínhamos chegado ao nosso destino. Me despedi rapidamente e sai do carro o mais rápido que pude. Por um milagre o portão já estava aberto, pelos menos não esperaria do lado de fora como muitas vezes fazia. Fui direto para biblioteca, sem saber se Thiago me seguiria ou não, guardar o meu violão, eu e o diretor fizemos um acordo em relação ao meu instrumento, assim que havia guardado com todo o cuidado segui para a sala que seria minha pelo resto do ano.
Estava vazia, exceto por ele que sempre me acompanhava ao passar dos anos, alguns diriam que era o destino querendo unir os dois amigos brigados e já outros achava que era para me fazer sofrer, talvez nenhum desses esteja certo. Aliás nunca é fácil prever o futuro ou destino, se é que existe um negócio chamado destino. Assim que me sentei em umas das cadeiras da frente. Sinto olhos cravados em mim e passos na minha direção. Me virei para encarar aqueles olhos.
— O que aconteceu? — Rápido e direto, nem um bom dia e nada, apenas aquilo que o incomodava era dito.
— Nada, Thiago. — Respondi tentando esconder o quanto aquilo me magoava, ele parecia que não se lembrava do que havia prometido. Fechei os olhos. — Já disse que eu odeio acordar tão cedo e ser umas das primeiras alunas aqui dentro da escola?
— Não mude de assunto, Judith. Eu sei que tem alguma coisa te incomodando, eu te conheço. — E como conhecia, mas por um momento eu queria que não tivesse um conhecimento tão grande em relação a mim.
— Não é nada. Eu já disse. — Minha voz havia aumentado o pouco, porém logo controlei e virei para a porta esperando alguma pessoa para que eu pudesse dar uma desculpa para ele sair perto de mim, e como nunca fui sortuda ninguém apareceu.
Ele pareceu desisti, mas continuou no mesmo lugar. O tempo passou e o silêncio continuava. — Por que a desculpas? Eu não entendi até agora. Foi por causa da carona? — Eu me arrependi no minuto que ouvi tais palavras, mas a curiosidade era maior e não retiraria ou mudaria de assunto para esconder o que realmente queria saber.
A resposta foi um silêncio, apenas uma respiração pesada. Me virei para ver o que ele estava fazendo, e quando vi que havia um sorriso em seu rosto. Eu tive me controlar para tentar não cometer um crime. — Por que está rindo? — Grunhi antes de me levantar e ir para outro canto da sala, onde havia uma janela. Ele ainda não tinha respondido, como antes, somente uma gargalhada. Essa era a resposta dele? Estava pronta para me virar e sair da sala, quando ouço sua respiração no meu pescoço e depois seus passos se afastando um pouco. — Agora eu sei o motivo do seu nervoso.
— Ah! É? Sabe mesmo? Me fale, porque eu não sei. Adoraria saber. — Diminui a distância, fiquei de frente para ele e esquecendo do meu autocontrole, queria ouvir o motivo daquelas risadas toscas. Ele parecia um pouco intimidado pois ainda tinha aquele sorriso do rosto.
— Porque…
— É aqui a sala 305? — Dei um pulo para longe de Thiago, ele engoliu seco e voltou para a porta. Havia uma garota baixinha loira, com certeza ela era nova ali. — Desculpe se estiver atrapalhando algo. — As bochechas tomaram uma cor rosa, eu não acredito que ela achou que nós estávamos preste a nos beijar. Não, não deve ser isso. Respira Judith Maslow.
— Sim, aqui é a sala 305. Entre. — Disse sorrido para a garota e caminhei até o meu lugar, provavelmente iriam chegar mais alunos depois de alguns minutos. — Salvo pela garota. — Disse somente para ele ouvir.
— Não precisava ser salvo. — Disse alto e em bom som depois soltou uma risada e saiu sabe lá pra onde, o Thiago que eu conhecia desapareceu e ali estava um garoto popular que todos conhecem ou conheceriam. Suspirei derrotada e fui na direção da garota que havia sentado na carteira ao lado da minha. — Como se chama? — Perguntei a garota que parecia totalmente desconfortável.
— Milena e você como se chama? — Seus olhos me observava de cabeça aos pés. Eu apenas sorri e estendia mão a ela que logo foi apertada por ela. — Sou a Judith, um prazer em te conhecer.
E mais um silêncio se instalou na sala 305, eu odiava silêncios como esses, eu poderia ser tímida, mas aquilo já me incomodava demais eu precisava falar alguma coisa. — Seja lá o que você está pensando, eu e ele não estávamos fazendo nada de errado. Ele é só um idiota que vive pegando no meu pé.
Mal terminei de falar e ouvi uma risada, não era de Thiago e muito menos de outra pessoa, era da garota que acabei de conhecer, talvez, ela não era tão tímida ou fechada como pensei. — Eu não pensei em nada demais. Eu só fui educada ao dizer que esperava não ter interrompido. — Ainda estava com um sorriso no rosto, eu soltei um suspiro aliviado.
— Eu pensei… Pensei que você… — E o sinal bateu, observei as pessoas entrarem, alguns rostos eu conheciam, quer dizer, a maioria eu conhecia. Apenas um rosto era diferente e me atraia, um garoto loiro com olhos castanhos que passou por mim e foi para o fundão. Virei para trás e encontrei Alicia e Bruna conversando atrás der mim, elas não devem ter me visto ou me ignoram. De qualquer forma elas precisavam de uma lição que daria no recreio, o que poderia ser feito agora, mas o professor havia entrado na sala de aula.
Fale com o autor