Heinrich já estava há cerca de cinco minutos parado em frente a porta, refletia, a mão levemente trêmula segurando o puxador. Tivera uma noite difícil, um dia pior ainda.

Na noite anterior, enquanto dirigia para casa não conseguia deixar de pensar em Anne, ou no seu rosto, no corpo envolto na toalha, ou na furtiva imagem de seus seios. Vontade irreprimível.

Ao chegar em casa não tirava os olhos da ficha médica amassada, releu várias vezes as mesmas partes. Não sexualmente ativa. Mestiça. Pai Ariano. 17 anos. Anne Kubícek.

Assim que deitou para dormir não podia esquecer as palavras da prisioneira eslava, forçosamente prostituída. Nunca fazem, até o dia que resolvem fazer.

Quando finalmente dormiu, todas as coisas se misturaram num sonho. Primeiro Anne dançando para uma roda de oficiais fardados, os seios a mostra. Em seguida Rudolph lhe gritando a ficha médica da cigana. E por fim ele se jogava sobre ela, arrancava a saia comprida e colorida, e a estuprava na frente dos nazis em roda.

Acordou no meio da madrugada, suado com o coração ribombando alto, descompassado.

Não pode mais dormir, voltou para o campo, voltou ao trabalho. Dia cansativo, pouco produtivo. Apenas treinamento de novos soldados.

A verdade é que desde que a conhecera, pensou em Anne todo o momento, ora os pensamentos eram agradáveis, ora perturbadores. Heinrich não se lembrava mais quando fora a última vez que uma mulher ocupara sua mente por tanto tempo e de modos tão diversos.

Agora fazia sete minutos que sua mão estava pousada sobre a maçaneta, respirou longamente, girou-a.

Não tinha certeza se Anne havia sentido sua presença na porta por todo esse tempo, ao abri-la teve certeza que não. A cigana dormia a sono solto.

Ainda não era tarde, passava das seis, mas Veltheim sabia que ela certamente estava cansada, precisando dormir. Conhecia a realidade dos guetos, imaginava que por lá conseguir fechar os olhos deveria ser difícil, que o medo era constante e que tranquilidade passava longe. O major também não gostava dos guetos.

Sentiu-se enternecer vendo o modo como Anne dormia, os lábios ligeiramente entreabertos, o compridos cílios negros entrelaçando-se, cortina das pálpebras, como era bonita aquela menina.

E o repouso sossegado de uma fez Heinrich lembrar-se de outra. Liesel. Sentiu um nó na garganta ao recordar e um forte desejo de abraçar Anne para esquecer. Reprimiu o anseio. Limitou-se a aproximar-se mais da cama, para vê-la de perto.

Percebeu que poderia ficar muito tempo observando, e também que quando mais a olhava, mais harmoniosas lhe pareciam as feições da moça. Difícil não estender a mão para tocá-la.

Uma mecha negra escorregou, encobriu parte do rosto de Anne e o major cheio de expectativa afastou-a, não resistindo, tocando leve na bochecha macia e suavemente corada dela. Feito isso, não pode evitar que os dedos se perdessem nas longas madeixas.

Heinrich pouco entendia de moda, mas via que as mulheres cortavam os cabelos na altura dos ombros, e os encaracolavam. Não lhe agrava muito. Gostava assim, como os de Anne, compridos, chegando até a cintura, caindo em ondas soltas.

Sentado na borda da cama penteava os fios com os dedos, espalhando-os sobre o corpo da jovem adormecida, imerso em devaneios que ultrapassavam em muito a realidade.

– Major...? – indagou uma vozinha rouca.

Veltheim se espantou, não havia percebido o despertar de Anne. Retirou a mão como se os cabelos macios dela tivessem se tornado incandescentes, levantou-se rapidamente, embaraçado.

– Perdão. – disse ele com seu tom maquinal – Mas eu precisei acordá-la.

Anne arqueou as sobrancelhas, descrente, não fora assim que sentira. Acordou de forma leve, ocasional, com a mão dele deslizando por seus cabelos não como se o major estivesse a incitando para levantar, e sim como se ele a acariciasse. Ainda assim, aceitou a desculpa dada por Veltheim.

– Pois não? –indagou ela, esperando que ele lhe contasse o motivo de ter lhe “acordado”.

– As refeições chegaram como deveriam?

– Sim.

– Sente fome?

– Não, me sinto bem.

– Vejo que descansou e que está usando as roupas novas... – apontou para a camisola branca – Deseja mais alguma coisa?

– Estou bem assim major, obrigada.

Heinrich aquiesceu com a cabeça, andou até a janela. Fora pego de surpresa, não sabia como agir agora.

– Disse que talvez não voltasse hoje, não esperei... – disse Anne levantando-se – Preciso me trocar?

Virou-se para ela, apreensivo.

– Não precisa se está confortável assim.

Viu que a moça ponderava consigo mesma. Ficou calada por alguns segundos enquanto ele evitava olhar demoradamente para o pequeno corpo envolto no tecido fino.

– Acho melhor me trocar, estou confortável, mas o senhor parece constrangido.

A cigana adiantou-se para o armário, retirou o vestido azul que usara na noite anterior e levou-o consigo para o banheiro.

Heinrich então observou que ela havia pendurado os vestidos, dobrado as camisolas e as peças íntimas, e enrolado as meias de nylon, tudo muito cuidadosamente. Tinha também alinhado os sapatos no fundo do armário.

– Fiz mal em usar o armário? – indagou ela reaparecendo, agora recomposta.

– De maneira nenhuma. Pode usar.

– Não comi todos os biscoitos, ainda estão no vidro.

– Poderia ter comido, disse para comer.

– Eu não sabia se o senhor iria querer comer depois.

– Gostou dos biscoitos?

Anne sorriu, que conversa mais tola aquela.

– Gostei...

– Posso trazer mais biscoitos, talvez chocolates, gosta?

– Major, não precisa me trazer nada, já fez o bastante.

Veltheim percebeu então que havia ultrapassado a linha que demarcava o limite da cordialidade, e que Anne também percebera o fato. Resolveu retroceder.

– Fiquei sabendo o que você fez quando chegou aqui Anne, conversei com o capitão Engels hoje.

– Então acha que eu não mereço mais ser salva?

Havia um tom de desafio na voz dela, e inexplicavelmente Heinrich gostou disso. Ouvira quando ela chamou Engels de porco nazista, e depois o capitão lhe descreveu o ocorrido, tinha brios aquela garota.

– Não Anne, acho que foi uma atitude corajosa de uma menina desesperada.

– Não me trate como criança major, eu já vi e vivi o suficiente por uma vida inteira.

– Sua ficha médica me diz que você tem dezessete anos.

– Isso não significa nada.

Veltheim soltou uma gargalhada. Sorriu para ela, como se fitasse uma criança fazendo pirraça. No momento era o que via.

– Está rindo de mim? – inquiriu ela furiosa.

– Não Anne, só estou lembrando.

– Lembrando de que?

– Quando você faz birra assim, me lembra de Liesel.

Silêncio. Anne esperava que ele contasse mais sobre essa Liesel, mas não se sentia segura para perguntar. Heinrich arrependia-se, achando que havia falado mais do que devia.

– Gosta de livros Anne?

– Gosto.

– Posso trazer alguns para você, para que se distraia...

Estavam de volta ao assunto de antes. Heinrich oferecendo pequenos agrados, Anne receosa por saber que aquilo uma hora seria cobrado.

– Vi o senhor no pátio hoje pela manhã. Com outros soldados.

– Ah sim, fizemos um treinamento hoje.

– Qual é o seu trabalho afinal major, o que faz aqui?

– Treino os soldados, comando eles. Só.

– Treina homens como o capitão Engels?

– Não Anne, treino homens para a guerra, não para isso... – disse ele com um leve tom de desprezo.

– Já foi para a guerra?

Heinrich respirou fundo, olhou para o lado.

– Sim, já fui, e não é algo agradável. – confessou sombrio – Não gostaria de falar sobre isso.

Anne sorriu, sentou-se a beira da cama.

– O senhor é um homem muito engraçado major.

Não pode evitar um sorriso, sentou-se ao lado dela.

– Espero que isso seja bom Anne.

– Disse ser um homem cristão major...

– Sou católico.

Anne o fitou longamente.

– Sua religião não combina com sua farda.

Ela apontava para a suástica, Veltheim olhou para o símbolo, a cruz torcida, negra dentro do o circulo branco sobre o fundo vermelho.

– Não deveria, mas seus olhos combinam com o que você é. Cigana.

Heinrich saboreou a ultima palavra como se ela fosse um doce. Cigana, gostava do som.

– Seus olhos são muito bonitos Anne. – disse ele quase num sussurro – Muito bonitos mesmo...

Tocava-lhe a face, suave afago. Tinham os rostos muito próximos, Anne podia contar os cílios do major, que a fitava daquele jeito lisonjeiro.

– Você é muito bonita...

– Eu já ouvi isso antes. – declarou Anne levantando-se da cama – Aqui mesmo, em Auschwitz.

E Heinrich compreendeu que novamente havia avançado demais. Nem percebera que estava extrapolando, as coisas haviam evoluído de modo muito natural. Precisava se policiar mais.

– Sinto muito, foi sem querer Anne. – levantou-se também, pegou o quepe da mesa e reassentou-lhe sobre os cabelos loiros – Acho que já deu minha hora.

A jovem concordou com um menear da cabeça.

– Acho que não virei amanhã, vim hoje para ver se tudo estava bem.

– Quando o senhor volta?

– Não tenho certeza, mas de qualquer modo, os livros chegarão em breve. Tenha uma boa noite Anne.

– Tenha uma boa noite major.

Veltheim saiu, dessa vez menos apressado, sentindo que ficar sozinho com ela era tão prazeroso quanto perigoso.

***

Mas uma vez ele estava na sala de Rudolph, tonto de náuseas, cheio de borboletas no estômago, e com a imagem de Anne gravada nas retinas.

– Acho que não devo vê-la tão cedo...

– Porque diz isso Heinrich?

O major deu de ombros.

– Acho que pode ser perigoso. Sei que quase a beijei agora há pouco.

O médico suspirou, revirou os olhos, como se estivesse cansando.

– Você tinha dito que iria resguardá-la Heinrich.

– Eu sei o que disse, mas não sei como explicar o que acontece, não percebi o que estava fazendo, quase fiz.

– E então?

– Vou me afastar um pouco, pensei em viajar para Berlin, rever Liesel...


Notas finais
Até que estava rolando um climinha leve...
Mas Heinrich vai viajar, rever alguém. E a Anne, como fica?