Bem Vinda Ao Campo
5 Um Anel Dourado, Um Vestido Recusado
Anne estava apreensiva. Quatro semanas haviam se passado, um mês, e o major ainda não voltara. Ela temia que ele tivesse lhe abandonado, todo e qualquer barulho que escutava no corredor a fazia pensar que Engels irromperia pela porta para terminar o que começara no pátio.
Os livros que Veltheim havia lhe prometido chegaram no segundo dia desde seu sumiço. Anne atacou um deles, ávida. Já tinha chegado a metade quando ouviu o som de choro e gritos vindos do pátio.
Correu para a janela, viu um novo carregamento lá embaixo, dessa vez eram judeus. A cena parecia irreal vista de cima, um filme, não era o mesmo que participar dela, disso Anne bem sabia.
Ao contrário do que acontecera na sua chegada, não houve tentativa de estupro, nem reações exaltadas de qualquer prisioneiro. Os nazistas não davam essa chance aos judeus.
Separavam-nos à socos, pontapés e cassetetes sem que eles pudessem dizer qualquer coisa. Anne viu que eles batiam com gosto.
Depois arrastaram o grupo, saindo do campo de visão da cigana, que presumiu que eles tivessem sido levados para os campos de trabalho. Mal sabia ela.
Esses fatos haviam ocorrido há cinco dias. Desde então, a jovem passou a observar a janela com mais frequência, não esperando um novo carregamento, tentava ver o major. Sua ausência era tão inquietante quanto sua presença.
O vira apenas duas vezes em sua vida, mas num momento como aquele qualquer mínimo contato, toda e qualquer generosidade representavam muito.
A cigana não tinha mais família, sabia pouco dela, só que seu pai era ariano e que a mãe era cigana, ficou órfã de mãe cedo e não chegou a conhecer o pai. Foi criada pela madrinha, uma velha cigana, e com ela vivera em Munique. Não era uma vida ruim, Anne cuidava de criança, às vezes ajudava a madrinha a vender flores e laços de fitas, em outras dançava nas festas populares, não por dinheiro, por gostar, por sentir que tinha uma identidade. Era cigana.
Tudo era bom até a ascensão de Hitler, a princípio Anne achou-o engraçado com seu bigodinho, a farda marrom e o jeito eloquente de falar, mas logo sua opinião mudou.
A coisa começou sutilmente, primeiro criaram um serviço para registrar os ciganos, ao mesmo passo em que impuserem a estrela de Davi aos judeus. Até então aceitável, afinal Anne já havia se acostumado com o fato de ser vista como uma parte estranha na sociedade.
Depois houveram deportações, e ela pensou em sair da Alemanha, mencionou o fato a madrinha, mas esta renegou a possibilidade. Disse que não fugiriam, e que principalmente ela deveria ficar, a madrinha afirmou ter lido sua sorte na borra de chá, e que havia um futuro auspicioso para Anne. Ficaram.
Foram então enviadas para o gueto de Lodz, na Polônia. Lá passaram fome, frio, medo, e com a chegada de grupos ciganos nômades infectados, muitos sucumbiram a tifo, doença terrível. A madrinha morreu, e Anne já não acreditava mais na existência de sua prosperidade vindoura.
Finalmente chegou a Auschwitz, apesar de tudo saudável, um tanto mais magra do que deveria, imensamente mais madura, e um bocado amargurada. Sem a alegria dos dias de festa quando dançava com sua saia rodada e vermelha, repleta de pingentes e moedinhas de latão. Sem o riso solto, simpático e convidativo de quando vendia fitas e flores. E sem a ternura de quando embalava nos braços, ao som de velhas canções ciganas, os pequenos de quem cuidava.
Não esperava nada de bom ao pisar naquele solo maldito, mas considerando tudo, havia se saído bem. Conhecera o major, um homem tanto quanto incompreensível, mas bastante razoável, e aquele médico simpático de olhos vivos que lhe dissera palavras tranquilizantes e que a tratara como se as definições “cigana” e “ariano” não existissem, a tratara como uma amiga. Gostaria de um dia rever o médico.
Nunca em sua vida tivera tanto tempo sozinha, tempo para pensar. Pensava muito, pensava na madrinha e na sorte lida por ela, não conseguia acreditar, mas também se permitia por vezes esperar que se tornasse realidade ainda que não soubesse o que seria. A madrinha nunca lhe contara.
Observava a lua todas as noites, cantava para ela as mesmas canções em romani que cantava para as crianças. Na verdade cantava para si, para acalentar-se. Cantava naquela noite.
***
Heinrich abriu a porta com cuidado, achava que Anne já estava dormindo, mas ouviu o som de sua voz, cantando baixinho algo que ele não entendia. Língua cigana, indecifrável, mas de pronúncias fascinantes, mágicas.
Não anunciou sua presença de imediato, ficou quieto, ouvindo mais um pouco, se permitindo encantar-se com a melodia lenta.
– Anne.
A jovem virou-se de forma brusca, não tinha escutado a porta abrir e nem ouvira o major entrar. Não o esperava, no entanto, quando o viu sentiu o peito explodir, renovado de esperanças, sentiu um peso saindo do coração.
– Eu achei que não viria mais major... – disse ela, ainda baqueada.
– Eu disse que poderia demorar um pouco a retornar – justificou Veltheim, um princípio de sorriso formado nos lábios – Os livros chegaram?
– Sim, e gostei muito deles.
– Que bom Anne. Fico feliz em saber que está bem.
Enfim o sorriso completo. Era a primeira vez que Anne via o major sorrir daquele jeito, propriamente feliz. Sorriso cativante.
E ainda que cativante, Anne não conseguiu retribuir, deu um leve sorriso torto, de canto de boca, tenso.
– Você parece melhor agora Anne, engordou um pouco, estava magra de mais. Parece mais saudável.
– Obrigada. Tenho me alimentado melhor aqui do que em grande parte da minha vida.
E o riso do major murchou, teve pena.
– Ao menos alguma coisa boa nesse lugar.
– O senhor parece melhor também, feliz.
– Estou feliz. Pude voltar a Berlin, rever minha família.
Anne teve vontade de perguntar por Liesel, gravara aquele nome na memória, novamente evitou.
– Trouxe algumas coisas de Berlin para você.
Balançou uma pequena maleta que trazia a mão, abriu-a sobre a cama e começou a tirar coisas dela. Uma lata de biscoitos, algumas barras de chocolate, mais dois livros, um bonito vestido cor de pérola.
Anne examinou todas aquelas coisas, gostou de receber mais livros, e os biscoitos e chocolates davam indícios de serem deliciosos. O que lhe preocupava era o vestido.
– Não tenho onde usar isso major...
– Ora, eu estava passeando, vi este vestido na vitrine e achei que ficaria bom em você. Não precisa usá-lo se não quiser.
– Acho que não devo aceitá-lo – decretou.
– Pois eu acho que deve, não posso devolvê-lo e parece perfeito para você. Se não quiser usar não use, mas fique com ele.
Foi severo ao falar ao mesmo tempo em que sorria. Realmente achava que aquele vestido fora feito para Anne, sabia o motivo dela em negá-lo, mas tinha certeza de que se a fizesse aceitar em algum momento ela se sentiria tentada a retirá-lo do cabide.
– Obrigada pelos presentes major, mesmo que eu não precise de agrados...
– Precisa sim. Você é nova demais para ser tão triste.
Uma pausa, Anne baixou os olhos. Quando tornou à erguê-los tinha um brilho diferente neles, um facho de luz.
– Não sou triste major, sou vivida...
Como evitar a vontade de abraçá-la? Veltheim tinha a impressão de que Anne era uma criança machucada, que precisava de cuidados e só, como evitar a vontade de prover isso à ela?
– O que estava cantando? – indagou suave — Era muito bonito.
– Uma canção cigana, canta-se para ninar.
Quis niná-la. A viagem a Berlin não surtira um efeito definitivo. Estava renovado, sim, revira Liesel, entretanto Anne permanecia lhe sensibilizando daquele jeito.
– É uma canção bonita ainda que eu não tenha entendido nada...
– Não se preocupe major a música não fala de roubar, trapacear, ou sequestrar criancinhas...
Veltheim percebeu o amargor na voz serena dela. Ouvira muito essas lendas sobre os ciganos.
– Aposto que fala de saudade.
E então a pequena cigana sorriu para ele, luminosa.
– A música independe de língua não é major? É universal.
– Tens razão. Deve ser assim com tudo o que se refere a sentimento.
– O senhor tem saudades major?
– Tinha, matei-as nessa viagem. Provavelmente vão voltar, mas por hora não.
O nome voltou-lhe a mente, martelava em sua cabeça. Liesel, o major fora vê-la. Quem era? Ele tinha saudades. De certo era a esposa.
Olhou para as mãos de Veltheim, lá estava ela, a aliança dourada brilhando no dedo anular esquerdo. Sentiu uma aflição inexplicável, angústia sem sentido. Andou até a janela, fitou o pátio, estava vazio.
– O que houve Anne? – indagou Heinrich.
– Nada.
Foi até a cama, recolheu os livros e ajeitou-os na escrivaninha, junto aos outros. Os biscoitos e chocolates foram guardados no armário. O vestido ficou sobre a cama.
– Pode levá-lo de volta major, dê pra outra pessoa. Não vou ficar com ele.
Veltheim não entedia a súbita mudança de humor de Anne, estavam conversando calmamente, ela parecia ter se conformado com o vestido, agora não o queria mais. Estava arredia.
– Não Anne, comprei para você, não para outra pessoa.
– Não o quero.
– O que houve com você?
– Nada major, apenas me ocorreu que esse presente não tem serventia, e que provavelmente vai ficar melhor em alguém que combine com ele. Alguém mais elegante talvez.
– Anne, não sei o que diabos se passa com você, mas imagino que seja coisa de momento, não vou levar o vestido, faça o que achar melhor com ele.
A cigana não retrucou mais, não podia. Só conseguia contrariá-lo por algum tempo, pois o major ainda exercia domínio sobre ela, mesmo sem se esforçar para fazê-lo.
– Não tenho certeza de que posso pedir isso, no entanto, se for possível eu gostaria de dormir...
Veltheim entendeu o recado, ela queria ficar sozinha.
– Claro, já está muito tarde. – aproximou-se dela, um afago nos cabelos negros, beijou-lhe a testa – tenha uma boa noite Anne.
Saiu sem questioná-la. Mulheres eram seres confusos, e mulheres ciganas deveriam ser ainda mais complexas.
Notas finais
Anne não gostou muito do que viu no dedo do major... E nem do vestido...
---X---
Gostaria de usar esse espaço para fazer pequenos agradecimentos.
Primeiramente, obrigada a todas as leitoras maravilhosas que deixam seus reviews, isso realmente me estimula muito à escrever.
E depois, um agradecimento especial dirigido à Nathalia S., que fez uma formidável recomendação da fic, e alguns comentários bem generosos sobre a autora que aqui vos fala (ou melhor, escreve). ;D
Enfim, obrigada à todas vocês que estão lendo, gostando, acompanhado e comentando. O aplauso é a moeda do artista.
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