Bem Vinda Ao Campo

14 Surpresas no Campo


Heinrich nunca estivera tão ansioso ao voltar para o campo quanto naquela manhã. Iria voltar para Anne.

Antes porém teve que cumprir com suas obrigações, retomar o treinamento com seus homens, prestar contas aos seus superiores.

Não conseguia se concentrar no que fazia, e as coisas só não se tornaram um desastre porque como Löhnhoff dissera, seus homens eram realmente os melhores, já sabiam o que fazer.

- Major Von Veltheim.

Veltheim não pode crer que era aquele o homem que lhe chamara. Heinrich Himmler, o Reichsführer da SS, um dos homens mais importantes da Alemanha.

- Ja, esse sou eu.

Himmler sorriu.

- Acompanhei de longe o treinamento e comprovei que de fato, assim como me disseram você possui os melhores soldados.

- Obrigado.

Em outros tempos ficaria orgulho pelo reconhecimento do próprio líder da Schuzstaffel, mas no momento só se sentia tenso com sua presença. O vira algumas vezes antes, mas nunca trocaram palavras, Heinrich não queria fazer isso agora, queria ver Anne.

- Sei do seu caso major, e do porque de estar aqui.

Veltheim concordou com a cabeça. Sua licença da guerra era sabida, havia sido dispensado por conta da morte da mulher e da necessidade de amparar a filha pequena.

- Imagino que tenha ficado descontente com isso.

- Fiquei, mas compreendo que é necessário.

- É realmente uma pena que homens bons como você estejam fora da guerra, mas se é preciso, que assim seja.

Heinrich franziu as sobrancelhas, sentia que aquela conversa não era só uma troca de palavras casuais.

- O que quer de mim? – indagou ele.

Himmler sorriu novamente, gostava de pessoas diretas.

- Eu quero seus homens na frente de batalha, gostaria de ter você também, mas sei que não é possível já que tem a licença e...

Era claro o jogo do Reichsführer, estava tentando fazer com que desistisse de sua dispensa militar. Fosse outra época e ele teria aceitado de bom grado, mas não agora, tinha Anne, queria ficar perto dela, sentia que precisava ficar em Auschwitz, nem que só mais um pouco.

- Eu gostaria de poder aceitar a proposta, mas este destacamento de soldados ainda não está pronto, quando estiver, eles ficarão contentes em poder defender a pátria. E quanto a mim, tenho uma filha, não vou abrir mão de vê-la crescer.

- Certo major, vejo o porquê de ter chegado tão longe em tão pouco tempo. É um homem inteligente e muito consciente de até onde pode ir, gosto disso.

- Obrigado novamente.

Himmler ergueu o braço, gritou “Heil Hitler”, Veltheim se viu obrigado a imitá-lo.

- Seig Heil. – disse o major, mesmo que não acreditasse mais no que dizia.

***

Teria ido imediatamente ver Anne após o expediente não fosse a inesperada conversa com o Reichsführer, sabia que ele visitava os campos, mas não fazia ideia de sua chegada à Auschwitz.

Mudou o roteiro original, resolver que devia falar com Rudolph sobre aquilo. E falar que havia finalmente se decidido sobre o que faria.

Encontrou o medico de costas, estava examinando a garganta de um homem que Heinrich não conseguiu identificar.

- Perdoe-me pela intromissão Dr. Krämer.

- Não por isso major Von Veltheim, já estou terminando aqui.

O major então adentrou a sala, ficando ao lado da porta. Estava incomodado com aquela demora, queria poder falar logo com Rudolph, mas este ocupado em seu trabalho não dava indícios de estar se apressando, pelo contrario, ele agia com sua calma costumeira.

- Muito bem, tome o remédio que lhe indiquei, se for infecção isso passará em cerca de duas ou três semanas.

O soldado levantou, era Engels e ao vê-lo Heinrich reprimiu uma careta de asco. O homem fez uma continência, o Heil Hitler, pegou um frasquinho sobre a mesa e saiu depressa.

- O que ele tem?

- Reclama de infecção na garganta. Suspeito que seja gonorréia, e se for, tenho quase certeza de que contraiu fora do campo.

- Não me surpreendo com a natureza da doença...

Rudolph deu de ombros e tirou as luvas de borracha, jogando-as de imediato dentro da lixeira. Sentou-se em uma cadeira ao lado da mesa e indicou a outra à Heinrich.

- Diga-me, a que devo a visita?

Cuidadosamente o major fechou a porta, não queria ser ouvido e nem incomodado. Sentou-se, tirando o quepe e o pondo sobre a mesa.

- Sabe que Himmler está aqui?

- Sim, recebemos o aviso de que ele viria há algumas semanas. Por quê?

- Ele me convidou para ir para a guerra, junto com o meu destacamento de soldados atuais.

Rudolph empalideceu. Temia que o amigo, frustrado com sua impotência diante do que acontecia tivesse aceitado.

- E o que você disse? – indagou preocupado.

- Recusei. Não posso lutar por uma pátria que não amo mais, nem deixar Anne aqui sozinha.

O médico respirou aliviado, quase sorriu.

- Foi uma decisão prudente.

- Tenho outra decisão para lhe contar.

- Conte.

- Não posso me unir a você. – não deu mais explicações, Rudolph compreendia o que ele falava – Liesel precisa de mim.

- Eu entendo.

- Vou manter Anne até onde for possível.

- Está certo.

- Não posso escolher uma mulher à minha filha, ainda que eu ame esta mulher.

- Concordo Heinrich, os filhos são sempre prioridade.

- Exatamente, os filhos são sempre prioridade.

Veltheim ainda nem acreditava que tinha sido tão fácil dizer tudo aquilo, pensou que Rudolph fosse insistir, mas ele continuou sendo tão moderado como sempre, respeitando seus limites.

- Não sei como aguentaria viver sem sua amizade Rudolph.

O médico sorriu.

- Você certamente não sobreviveria.

***

Estava completamente afobado ao abrir a porta, a maleta repleta de chocolates trazidos de Berlin e biscoitos feitos pela Nana, o coração cheio de saudades.

- Anne! – exultou ele ao vê-la sentada na cadeira ao lado da janela.

Não percebeu que ela estava com a mão sobre a barriga.

- Major... – e os olhos da cigana marejaram ao mesmo tempo em que ela sorriu.

Levantou-se apressada, correu para os braços estendidos dele. Veltheim riu, ergueu-a e rodopiou com ela no ar.

- Senti tanto sua falta – confessou entre beijos – Sinto muito por ter lhe deixado aqui sozinha.

- O senhor tem suas obrigações major...

- Não me chame assim.

Anne inclinou a cabeça levemente confusa.

- Como devo lhe chamar?

- Heinrich, me chame apenas de Heinrich.

Sorriu dando de ombros, não fazia diferença. Rosas seriam rosas mesmo se tivessem outro nome, major ou apenas Heinrich e ele continuaria sendo o mesmo homem.

- Como queira Heinrich.

Veltheim sorriu, gostou do som de seu nome na voz dela, beijou-lhe a boca mais uma vez.

- Sentiu minha falta? – indagou curioso.

- De certo modo...

E deu aquela risada infante que só ela tinha. Estava brincando.

- Trouxe coisas para você.

- Primeiro me conte sobre Liesel, como ela está?

Heinrich achou graça, desde que vira a foto, Anne demonstrava grande interesse por sua filha, agia como se já a tivesse conhecido, como se sentisse falta da menina.

- Ela está bem, linda, falando muito, tentando me coagir a lhe dar doces antes das refeições.

Os olhos de Anne encheram-se de brilho, achava adorável o modo como o major se referia à filha. Devia ser um pai tão bom...

- O que você tem meine liebe?

Anne sacudiu a cabeça, tinha se distraído tanto pensando nas qualidades paternas dele que mal percebeu que fora chamada de “meu amor”.

- Nada, só me distraí.

- Pois então venha ver o que eu lhe trouxe.

Abriu a maleta e tirou os diversos tipos de chocolate que comprara, barras, bombons, pequenas moedas falsas.

- Oh! – exclamou Anne – Nunca vi tantos juntos...

O major sentia que seu amor por ela aumentava a medida que convivam. Aquela mistura de mulher e criança era simplesmente irresistível.

- Você parece Liesel, nunca vi uma mulher tão feliz em ganhar doces...

- Acha ruim?

- Não, acho engraçado. Pelo menos aceita algum tipo de presente.

Lembrava-se do vestido que lhe dera, Anne nunca usou. Teve uma ideia.

- Anne, porque não usa aquele vestido que eu lhe dei?

- Eu disse que não usaria. – e franziu as sobrancelhas enquanto mordia uma moedinha de chocolate – Disse para levá-lo embora.

- Recusou porque pensou que eu fosse casado. Use-o só hoje Anne, eu gostaria tanto de lhe ver nele...

A cigana sentia-se acuada. Não podia colocar aquele vestido, era justo na cintura, e sua barriga crescente despontaria com facilidade naquele tecido claro.

- Não gosto do vestido.

- Por favor Anne, só para que eu veja, depois você pode tirá-lo.

- Mas major...

- Heinrich.

- Heinrich, porque não deixamos isso para outra ocasião?

Suspirou e deixou o quepe de lado.

- Só por alguns minutos Anne...

- Está bem – concordou ela – Mas primeiro vá tirar essa coisa.

Não estava realmente incomodada com a farda dele, só queria ganhar algum tempo para pensar e tomar uma providência.

- Certo.

Heinrich a beijou uma ultima vez e sumiu no banheiro, ansioso para se livrar do uniforme, tomar um banho e enfim ver Anne dentro do vestido.

- Por Deus, o que eu faço agora? – indagou para si mesma assim que ouviu o barulho do chuveiro.

Correu para o armário, tirou o vestido alisou-o contra o corpo. Ainda não estava descaradamente grávida, mas se o major prestasse breve atenção em sua barriga perceberia que ela estava levemente estufada.

Chegou a tirar o vestido que usava, pensou em vestir o outro, mas aquilo seria um enorme erro.

Estava prestes a desistir e contar tudo para Veltheim quando foi agraciada por uma súbita ideia.

Colocou ambos os vestidos de volta ao armário, tirou a maleta com doces de cima da cama, ajeitando-a na escrivaninha. Apagou a luz e abriu as cortinas, fazendo com que a lua iluminasse o quarto muito fracamente.

Tirou a colcha, dobrou-a e deixou sobre a cadeira. Sentou-se na cama e cobriu apenas a barriga com o lençol branco, deixando as pernas e os seios à mostra. Soltou os cabelos de modo que eles caíssem pelos ombros à maneira que Heinrich gostava. Respirou fundo, esperando que ele voltasse e que seu plano desse certo.

- Anne...? — chamou ele intrigado com a penumbra do quarto.

- Aqui. – disse atraindo-lhe a atenção – Estou aqui.

O major esqueceu que tinha pedido a ela para colocar o vestido, nem se lembrava de que havia um vestido à ser colocado.

Estava enfeitiçado pela imagem dela, o manto de cabelos negros sobre os ombros, os seios que por algum motivo pareciam maiores, as pernas torneadas. Um convite em forma de desafio.

- Venha... – pediu Anne num sussurrou. – Acabe com nossas saudades...

- Sim meine liebe.

Enquanto Heinrich beijava seu pescoço e seus seios, a cigana se permitiu tranquilizar-se, ele não havia percebido nada. Ainda.

Notas finais
Heinrich nem sabe que tomou a decisão mais correta de sua vida ao recusar... =X
E a Anne disfarçando cheia de malandragem... ;)
Comentem. ^^