Bem Vinda Ao Campo
15 O Acordo
Assim que Heinrich adormeceu, Anne levantou-se da cama sorrateira como um gato. Silenciosamente caminhou até o banheiro.
Observava a barriga no espelho, sem roupas era fácil percebê-la. Deveria ser esperta dali em diante se desejasse manter a gravidez em segredo.
Sabia que passar a simplesmente negá-lo seria suspeito, e que dizer que só faria amor com roupas ia ser mais esquisito ainda. Precisava ir além disso.
Voltou para o quarto, vestiu a camisola e tornou a deitar-se.
– O que estava fazendo...? – indagou com voz de travesseiro.
Anne sentiu gelar a espinha, ele tinha acordado.
– Nada, fui até o banheiro.
– Humm... – passou o braço sobre ela – E porque se vestiu? Nunca se veste...
– Senti frio.
O coração dela batia tão forte que provavelmente estava prestes a lhe quebrar as costelas. Por sorte Heinrich tinha engolido aquela estória de frio.
Tinha imaginado que ia ser difícil esconder depois que ele voltasse, mas não que seria tão tenso.
A verdade é que Anne sabia-se grávida desde o segundo mês, percebeu a falta da menstruação, sentiu a sonolência e os enjoos, e conseguiu disfarça-los. Por suas contas estava no quarto mês de gestação, o que a levara a concluir que engravidara nas primeiras vezes em que se deitou com o major.
Achou maravilhoso desde o princípio. Toda criança era uma benção e ser abençoada em uma condição como aquela era a maior prova do amor de Deus. Uma nova vida em meio à morte circundante.
Não imaginava o que esperar de Veltheim, mas fosse como fosse, estava imensamente feliz por saber que finalmente teria algo realmente seu, uma pessoa que a amaria para sempre, alguém que poderia amar incondicionalmente. Sentia-se mãe.
Ouvia a respiração de Heinrich se acalmando e se tornando mais profunda, e aos poucos a sua foi acompanhando o mesmo ritmo. Adormeceu antes que a mão dele escorregasse para sua barriga.
Enquanto os dois dormiam, a pequena criatura no ventre da cigana se agitou ao primeiro contato com o pai.
***
Quando o major acordou na manhã seguinte, deparou-se com Anne tossindo violentamente.
– O que tem?
– Não sei, me sinto fraca...
– Fraca? Desde quando?
– Há algum tempo me sinto assim, tenho tossido bastante, mas ontem quando você chegou fiquei tão contente que até melhorei...
Ficou orgulhoso, Anne sentira sua falta.
– E voltou a se sentir mal?
– Sim, acho que deve ser alguma gripe.
Heinrich examinou-a com os olhos, ela parecia bastante saudável, a pele estava até mais bonita e brilhante que antes, mas se dizia que sentia-se mal e tossia daquele jeito alguma coisa deveria ter.
– Vou pedir que Rudolph venha vê-la hoje.
– Mais isso não irá atrapalhar o trabalho dele?
– Não, peço para que venha durante o intervalo.
– Você vem junto?
– Não posso, tenho muito trabalho atrasado.
Anne baixou a cabeça. Do ponto de vista de Heinrich ela parecia estar decepcionada. Não estava.
A palavra correta era aliviada. Tudo estava seguindo como deveria.
– Tanto trabalho que lhe impeça de dormir comigo hoje a noite?
– Nein meine liebe, e lhe prometo que hoje chego no horário certo.
Quando o major saiu após beijar sua testa, a cigana se sentiu culpada por enganá-lo, mas assim era melhor. Não podia deixar que ele soubesse, não ainda, e o médico lhe parecera ser uma pessoa muito boa, poderia lhe ajudar.
E ainda que ele não aceitasse esconder o segredo de Veltheim, ao menos a auxiliaria a encontrar uma maneira adequada de contar.
***
Estava perto de o relógio bater três horas da tarde quando Anne comia as moedinhas de chocolates com a mão sobre a pequena barriga.
O bebê não mexia muito naquele horário, agitava-se mais a noite, mas se prestasse bastante atenção podia sentir movimentos muito delicados.
Ouviu a porta bater e imaginou que só poderia ser o Dr. Krämer, já que o major nunca batia e a moça das refeições tivesse passado há poucas horas atrás.
– Anne?
A voz a chamar foi reconhecida imediatamente, era o médico de fato.
– Sim. – respondeu ela aproximando-se da porta.
– Vou entrar, está bem?
– Claro.
Rudolph apareceu com um sorriso. Anne sorriu-lhe de volta.
– É bom ver a senhorita novamente.
– Obrigada, e digo o mesmo.
– Heinrich me disse que você está tendo tosses fortes e que se sente fraca...
– O senhor quer chocolates doutor?
– Oh, não. Agradeço, mas não.
Anne sentou-se a beirada da cama e indicou a cadeira ao lado da escrivaninha para que ele se sentasse.
– Não tenho tosses nem me sinto fraca. – começou muito seriamente – Menti para que ele te mandasse aqui.
– Como?
– Eu precisava vê-lo, dr. Krämer, e acho que é o único que pode me ajudar.
– Do que está falando Anne?
– Tenho um segredo e creio que não poderei escondê-lo do major por muito mais tempo. Preciso da sua ajuda.
Apesar de ser médico, Rudolph não imaginava o que podia ser, ou melhor imaginava, mas eram tantas as possibilidades que ele não conseguia se decidir sobre qual delas era a mais provável.
– Anne, ainda sem saber o que é sinto-me disposto a ajudá-la, mas dependendo do que for posso mudar de opinião.
– Sei disso, mas o senhor é minha única esperança.
– Então me diga o que é.
A cigana ficou calada por alguns segundos, seu olhar profundo provavelmente era capaz de ver a alma do médico, que tenso, esperava que ela voltasse a falar.
– Estou grávida.
O silêncio que segui sua frase deveria ter sido pesado, mas não, era um silêncio cúmplice.
– De quanto tempo Anne?
– Calculo que quatro meses.
– Já sente mexer?
– Sim.
– Então provavelmente é isso. – o médico abriu a maleta que trouxera consigo, tirou um estetoscópio de dentro dela – Levante-se Anne, preciso ouvir seu coração e o do bebê.
Ficou algum tempo escutando os batimentos de ambos, fazendo anotações mentais. Aparentemente os dois estavam bem.
– Acho que está tudo certo por enquanto.
– Porque por enquanto?
– Menstruou pela primeira vez com quantos anos?
– Aos quinze.
Rudolph suspirou, colocou o estetoscópio de volta na bolsa.
– Será preciso acompanhar isso de perto, você talvez ainda não esteja pronta para sustentar uma gravidez, e a tensão de mantê-la escondida pode piorar as coisas.
– Eu me sinto ótima.
– Ainda é muito cedo para dizer qualquer coisa, mas definitivamente este lugar não é adequado para uma gestação.
Anne entristeceu-se.
– Não tenho como ir para outro lugar...
– Acho que deveria contar para Heinrich, quanto antes ele souber mais cedo poderá tomar providências.
Sem se dar conta a cigana começou a chorar. Lágrimas silenciosas, realmente sofridas.
– Por favor doutor. Não conte nada para ele.
O médico compadeceu-se. Pousou a mão sobre os ombros dela.
– A barriga já está crescendo Anne, uma hora ele irá perceber.
A expressão da moça era a mais triste que poderia existir, estava desesperada.
– Por favor, só mais um pouco... tenho tanto medo...
Rudolph então começou a compreender, não era contar sobre a gravidez que a preocupava, e sim o fato de crer que esta poderia ser interrompida.
– Se ele puder ver a barriga talvez não tenha coragem... – concluiu ela chorosa.
– Heinrich nunca faria uma coisa dessas Anne, podendo ou não ver sua barriga, ele gosta de verdade de você.
– As coisas mudam muito facilmente doutor. Ajude-me só por mais alguns meses.
– Como vai evitar que ele veja?
– Eu não sei, diga-lhe que tenho alguma doença, que preciso repousar, que é algo sério.
Krämer tinha certeza de que se Heinrich soubesse que Anne estava grávida acharia um meio de ajudá-la, ele a amava e certamente amaria o filho que esperava. Só não sabia como garantir isso à moça.
– Acredite em mim Anne, contar é o melhor a fazer, quando antes melhor. Eu posso lhe assegurar que ele vai fazer alguma coisa.
A cigana negou com a cabeça várias vezes.
– Ele vai ficar bravo.
– Sim, ele vai, mas irá passar, e então Heinrich vai dar um jeito.
Anne estava irredutível, não queria contar, não agora, precisava que o médico lhe ajudasse. Talvez chamá-lo tivesse sido uma péssima ideia.
– Você não quer que seu filho nasça aqui Anne, nesse antro de morte, de tortura.
Ela respirou fundo, envolveu a barriga com as mãos.
– Eu só quero que meu filho nasça.
A situação era deveras delicada, e Anne não deveria se estressar. Rudolph decidiu fazer um acordo que agradasse à ambos.
– Eu te ajudarei Anne, e direi a Heinrich que você está com um princípio de pneumonia e que precisa repousar integralmente. No entanto, você tem de concordar que dentro de um mês ele vai ter que saber disso.
Anne abraçou-o com força, reconhecia o médico como um amigo.
– Obrigada, obrigada – repetiu várias vezes, chorando. – Nem sei como agradecer...
– Apenas tente se manter calma e saudável Anne, pelo bem da criança.
Notas finais
Ou não...
Comentem e apostem.
Será que ele vai contar toda a verdade para o melhor amigo, ou esconderá a fim de ajudar a nova amiga? ;)
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