Assim que Heinrich adormeceu, Anne levantou-se da cama sorrateira como um gato. Silenciosamente caminhou até o banheiro.

Observava a barriga no espelho, sem roupas era fácil percebê-la. Deveria ser esperta dali em diante se desejasse manter a gravidez em segredo.

Sabia que passar a simplesmente negá-lo seria suspeito, e que dizer que só faria amor com roupas ia ser mais esquisito ainda. Precisava ir além disso.

Voltou para o quarto, vestiu a camisola e tornou a deitar-se.

– O que estava fazendo...? – indagou com voz de travesseiro.

Anne sentiu gelar a espinha, ele tinha acordado.

– Nada, fui até o banheiro.

– Humm... – passou o braço sobre ela – E porque se vestiu? Nunca se veste...

– Senti frio.

O coração dela batia tão forte que provavelmente estava prestes a lhe quebrar as costelas. Por sorte Heinrich tinha engolido aquela estória de frio.

Tinha imaginado que ia ser difícil esconder depois que ele voltasse, mas não que seria tão tenso.

A verdade é que Anne sabia-se grávida desde o segundo mês, percebeu a falta da menstruação, sentiu a sonolência e os enjoos, e conseguiu disfarça-los. Por suas contas estava no quarto mês de gestação, o que a levara a concluir que engravidara nas primeiras vezes em que se deitou com o major.

Achou maravilhoso desde o princípio. Toda criança era uma benção e ser abençoada em uma condição como aquela era a maior prova do amor de Deus. Uma nova vida em meio à morte circundante.

Não imaginava o que esperar de Veltheim, mas fosse como fosse, estava imensamente feliz por saber que finalmente teria algo realmente seu, uma pessoa que a amaria para sempre, alguém que poderia amar incondicionalmente. Sentia-se mãe.

Ouvia a respiração de Heinrich se acalmando e se tornando mais profunda, e aos poucos a sua foi acompanhando o mesmo ritmo. Adormeceu antes que a mão dele escorregasse para sua barriga.

Enquanto os dois dormiam, a pequena criatura no ventre da cigana se agitou ao primeiro contato com o pai.

***

Quando o major acordou na manhã seguinte, deparou-se com Anne tossindo violentamente.

– O que tem?

– Não sei, me sinto fraca...

– Fraca? Desde quando?

– Há algum tempo me sinto assim, tenho tossido bastante, mas ontem quando você chegou fiquei tão contente que até melhorei...

Ficou orgulhoso, Anne sentira sua falta.

– E voltou a se sentir mal?

– Sim, acho que deve ser alguma gripe.

Heinrich examinou-a com os olhos, ela parecia bastante saudável, a pele estava até mais bonita e brilhante que antes, mas se dizia que sentia-se mal e tossia daquele jeito alguma coisa deveria ter.

– Vou pedir que Rudolph venha vê-la hoje.

– Mais isso não irá atrapalhar o trabalho dele?

– Não, peço para que venha durante o intervalo.

– Você vem junto?

– Não posso, tenho muito trabalho atrasado.

Anne baixou a cabeça. Do ponto de vista de Heinrich ela parecia estar decepcionada. Não estava.

A palavra correta era aliviada. Tudo estava seguindo como deveria.

– Tanto trabalho que lhe impeça de dormir comigo hoje a noite?

Nein meine liebe, e lhe prometo que hoje chego no horário certo.

Quando o major saiu após beijar sua testa, a cigana se sentiu culpada por enganá-lo, mas assim era melhor. Não podia deixar que ele soubesse, não ainda, e o médico lhe parecera ser uma pessoa muito boa, poderia lhe ajudar.

E ainda que ele não aceitasse esconder o segredo de Veltheim, ao menos a auxiliaria a encontrar uma maneira adequada de contar.

***

Estava perto de o relógio bater três horas da tarde quando Anne comia as moedinhas de chocolates com a mão sobre a pequena barriga.

O bebê não mexia muito naquele horário, agitava-se mais a noite, mas se prestasse bastante atenção podia sentir movimentos muito delicados.

Ouviu a porta bater e imaginou que só poderia ser o Dr. Krämer, já que o major nunca batia e a moça das refeições tivesse passado há poucas horas atrás.

– Anne?

A voz a chamar foi reconhecida imediatamente, era o médico de fato.

– Sim. – respondeu ela aproximando-se da porta.

– Vou entrar, está bem?

– Claro.

Rudolph apareceu com um sorriso. Anne sorriu-lhe de volta.

– É bom ver a senhorita novamente.

– Obrigada, e digo o mesmo.

– Heinrich me disse que você está tendo tosses fortes e que se sente fraca...

– O senhor quer chocolates doutor?

– Oh, não. Agradeço, mas não.

Anne sentou-se a beirada da cama e indicou a cadeira ao lado da escrivaninha para que ele se sentasse.

– Não tenho tosses nem me sinto fraca. – começou muito seriamente – Menti para que ele te mandasse aqui.

– Como?

– Eu precisava vê-lo, dr. Krämer, e acho que é o único que pode me ajudar.

– Do que está falando Anne?

– Tenho um segredo e creio que não poderei escondê-lo do major por muito mais tempo. Preciso da sua ajuda.

Apesar de ser médico, Rudolph não imaginava o que podia ser, ou melhor imaginava, mas eram tantas as possibilidades que ele não conseguia se decidir sobre qual delas era a mais provável.

– Anne, ainda sem saber o que é sinto-me disposto a ajudá-la, mas dependendo do que for posso mudar de opinião.

– Sei disso, mas o senhor é minha única esperança.

– Então me diga o que é.

A cigana ficou calada por alguns segundos, seu olhar profundo provavelmente era capaz de ver a alma do médico, que tenso, esperava que ela voltasse a falar.

– Estou grávida.

O silêncio que segui sua frase deveria ter sido pesado, mas não, era um silêncio cúmplice.

– De quanto tempo Anne?

– Calculo que quatro meses.

– Já sente mexer?

– Sim.

– Então provavelmente é isso. – o médico abriu a maleta que trouxera consigo, tirou um estetoscópio de dentro dela – Levante-se Anne, preciso ouvir seu coração e o do bebê.

Ficou algum tempo escutando os batimentos de ambos, fazendo anotações mentais. Aparentemente os dois estavam bem.

– Acho que está tudo certo por enquanto.

– Porque por enquanto?

– Menstruou pela primeira vez com quantos anos?

– Aos quinze.

Rudolph suspirou, colocou o estetoscópio de volta na bolsa.

– Será preciso acompanhar isso de perto, você talvez ainda não esteja pronta para sustentar uma gravidez, e a tensão de mantê-la escondida pode piorar as coisas.

– Eu me sinto ótima.

– Ainda é muito cedo para dizer qualquer coisa, mas definitivamente este lugar não é adequado para uma gestação.

Anne entristeceu-se.

– Não tenho como ir para outro lugar...

– Acho que deveria contar para Heinrich, quanto antes ele souber mais cedo poderá tomar providências.

Sem se dar conta a cigana começou a chorar. Lágrimas silenciosas, realmente sofridas.

– Por favor doutor. Não conte nada para ele.

O médico compadeceu-se. Pousou a mão sobre os ombros dela.

– A barriga já está crescendo Anne, uma hora ele irá perceber.

A expressão da moça era a mais triste que poderia existir, estava desesperada.

– Por favor, só mais um pouco... tenho tanto medo...

Rudolph então começou a compreender, não era contar sobre a gravidez que a preocupava, e sim o fato de crer que esta poderia ser interrompida.

– Se ele puder ver a barriga talvez não tenha coragem... – concluiu ela chorosa.

– Heinrich nunca faria uma coisa dessas Anne, podendo ou não ver sua barriga, ele gosta de verdade de você.

– As coisas mudam muito facilmente doutor. Ajude-me só por mais alguns meses.

– Como vai evitar que ele veja?

– Eu não sei, diga-lhe que tenho alguma doença, que preciso repousar, que é algo sério.

Krämer tinha certeza de que se Heinrich soubesse que Anne estava grávida acharia um meio de ajudá-la, ele a amava e certamente amaria o filho que esperava. Só não sabia como garantir isso à moça.

– Acredite em mim Anne, contar é o melhor a fazer, quando antes melhor. Eu posso lhe assegurar que ele vai fazer alguma coisa.

A cigana negou com a cabeça várias vezes.

– Ele vai ficar bravo.

– Sim, ele vai, mas irá passar, e então Heinrich vai dar um jeito.

Anne estava irredutível, não queria contar, não agora, precisava que o médico lhe ajudasse. Talvez chamá-lo tivesse sido uma péssima ideia.

– Você não quer que seu filho nasça aqui Anne, nesse antro de morte, de tortura.

Ela respirou fundo, envolveu a barriga com as mãos.

– Eu só quero que meu filho nasça.

A situação era deveras delicada, e Anne não deveria se estressar. Rudolph decidiu fazer um acordo que agradasse à ambos.

– Eu te ajudarei Anne, e direi a Heinrich que você está com um princípio de pneumonia e que precisa repousar integralmente. No entanto, você tem de concordar que dentro de um mês ele vai ter que saber disso.

Anne abraçou-o com força, reconhecia o médico como um amigo.

– Obrigada, obrigada – repetiu várias vezes, chorando. – Nem sei como agradecer...

– Apenas tente se manter calma e saudável Anne, pelo bem da criança.


Notas finais
Rudolph voltou como o anjo da salvação de Anne...
Ou não...
Comentem e apostem.
Será que ele vai contar toda a verdade para o melhor amigo, ou esconderá a fim de ajudar a nova amiga? ;)