Bem Vinda Ao Campo
23 Frio na Barriga
Heinrich nervosamente estalava os dedos, não tinha a menor ideia de como Rudolph havia se saído.
– É uma verdadeira pena que ela tenha morrido major.
Mais uma vez ele estava diante do general Löhnhoff, mais uma vez estavam falando sobre Anne.
– Eu sei que muitos companheiros nossos jamais admitirão, mas acontece, acabamos nos afeiçoando à elas. – explicou o general – Eu me senti realmente mal quando troquei minha primeira cigana, era uma moça bem bonita, da Renânia.
Concordou afonicamente, apenas meneando a cabeça.
– E a sua morreu, é um impacto a mais. – continuou Löhnhoff – Mas me permita lhe dar um conselho meu caro, mantenha sua tristeza entre nós, pode ser mal interpretada.
– Eu compreendo.
– É um bom momento para você tirar um tempo para ver Liesel, major. Vai esquecer rapidamente da cigana.
Veltheim acenou afirmativamente algumas vezes, era o que precisava ouvir.
– Acho que é exatamente o que devo fazer general.
– Bem, então deixe-me assinar seus papéis.
Sentia-se aliviado vendo Löhnhoff assinar sua permissão para deixar o campo. Ao menos sua parte estava dando certo, restava saber se Rudolph conseguira.
– Vou mandar que arranjem as passagens major.
– Não será necessário. Vou no meu carro, tenho que levar coisas da minha casa para a de Berlin, o baú já está em meu alojamento.
– Mesmo, porque major? – indagou o general curioso.
– Trouxe muitas coisas de Berlin quando vim para cá, percebi que há alguns objetos de estima, que estariam mais bem guardados lá.
– É uma precaução devida, nunca se sabe como podem ficar as coisas aqui na Polônia. Você é um homem inteligente.
– Agradeço pela consideração general.
– Não precisa agradecer major.
– Ainda assim agradeço. Se não precisa de mim para mais nada, prefiro viajar imediatamente.
Löhnhoff sorriu.
– Pode ir Veltheim. É incrível o modo como essas ciganas nos roubam a alma...
***
Sobre duas coisas Heinrich tinha certeza. Löhnhoff era um homem perigoso e provavelmente não seria tão fácil deixar Auschwitz com Anne.
Preocupado, atravessava o barracão médico atrás de Rudolph. Estava morrendo por não saber como o amigo havia se saído.
Entrou na sala dele e não o encontrou, sentiu que o coração parou completamente. Rudolph tinha sido pego!
Asfixiava pensando no que aconteceria. Era possível até que Löhnhoff já soubesse de tudo quando lhe assinou os papéis.
Rudolph e Anne já poderiam estar mortos a esta altura. Porque o general tinha lhe poupado?
– Major Von Veltheim...
Estava tão ocupado tendo uma síncope que sequer reconheceu a voz que o chamava, virou-se com olhos desesperados, e encontrou Rudolph diante de si.
– Por Deus! Quer me matar? – perguntou com um fio de voz – Achei que tinha sido pego.
– Perdão, não era o meu intento.
– Onde estava?
– Cremando Anne.
Respirou profundamente, aquela etapa estava acabada.
– E você, onde estava?
– Pegando minha permissão com Löhnhoff. Vou hoje mesmo.
O médico suspirou, não concordava com aquela parte no plano.
– Acho que essa sua pressa pode ser suspeita.
– O próprio general me indicou que fosse. Não posso esperar mais Rudolph, tenho que tirá-la daqui.
– Certo, eu te compreendo.
Apertaram as mãos, Rudolph lhe desejou boa sorte, abraçaram-se e Heinrich disse que muita sorte seria necessária.
– Obrigada por tudo Rudolph.
– Não agradeça. – pediu o médico — Nos vemos dentro de alguns dias.
– Assim espero.
***
A notícia da morte da cigana do major Von Veltheim já chegara aos ouvidos de todos os seus soldados.
– Bergman me contou que ela era muito bonita. – disse um – Eu só a vi de costas quando fui deixar um baú no alojamento do major, tinha cabelos bem compridos, negros.
– Era mesmo muito bonita, eu estava no pátio quando ela chegou. Belos seios. – comentou outro.
– O major não vai gostar de saber desses comentários.
O soldado a dizer isso era o que menos tinha aptidão para a coisa, mas o que mais se esforçava para seguir as ordens de Veltheim. O respeitava.
– Você vai contar enquanto lambe as botas do major, Albrecht? – indagou o que falara primeiro – É só uma puta cigana, não estamos falando da mulher dele.
Luitpold Albrecht não teve tempo de responder. Como se tivesse sido evocado, o próprio major apareceu com aquele passo firme, pisando duramente com as lustrosas botas pretas.
– Albrecht e Zeller, quero que coloquem aquele caixote no meu carro.
Entenderam. Os dois haviam o deixado no quarto, agora era a hora de levar para o carro. Albrecht estava contente pela designação, gostava de poder fazer mais pelo major, queria ser como ele. Zeller por sua vez lamentava o fato de a cigana já estar morta e cremada, gostaria de ter a visto de frente.
***
Há alguns minutos atrás o major havia passado ali. Disse-lhe que já podia sair do banheiro e que deveria contar vinte minutos e entrar no caixote. Era a hora de deixar Auschwitz.
Foi só o que ele disse.
Era completamente estranho o modo como se falavam agora, impessoalmente, mesmo sabendo o quanto gostavam um do outro.
Faltava um minuto para os vinte que deveria contar e Anne examinava o caixão de madeira. Havia muitas mantas e travesseiros para que ela não se machucasse, não que essa fosse sua maior preocupação.
Tinha medo de ficar sem ar, de ter vontade de gritar, ou de começar a se mexer, o que faria com que fosse descoberta.
Tentando se manter calma, entrou com dificuldades no caixote. A barriga lhe atrapalhava.
Ao deitar-se, sentiu exatamente como deveriam se sentir os mortos. Ignorou a sensação e puxou a tampa. Ficou quieta, esperando.
Não poderia dizer quanto tempo se passou até que a chave rodasse no ferrolho porque havia parado de contar os minutos.
Não poderia dizer em que momento exato o major entrou no quarto junto dos dois soldados, porque o caixote revestido de cobertores fazia com que o som chegasse muito abafado ou nem chegasse.
Só o que poderia precisar era o frio na barriga que sentiu quando o grande baú de madeira foi erguido no ar.
Notas finais
Vamos ver se tudo vai dar certo...
Comentem. ;)
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