Bem Vinda Ao Campo

24 Sabor de Liberdade


Heinrich estava sufocando dentro da farda. A possibilidade de dar certo era tão grande quando a de dar errado. Rezava mentalmente para que conseguissem chegar bem até o carro.

O major já tinha posto os pés no saguão dos alojamentos quando o soldado Zeller, à frente do caixote, escorregou no último degrau da escada e quase caiu, derrubando o baú.

- O que diabos está fazendo Zeller?! – indagou furioso, prestes a lhe esbofetear a cara – Tome cuidado imbecil! Tem relíquias de família aí dentro.

Relíquias de família. Parte da família que Heinrich gostaria de ter estava ali dentro.

- Perdão major, a culpa foi do Albrecht que...

- Cale a boca e continue fazendo o seu trabalho.

Sob a probabilidade ameaçadora de serem espancados pelo major caso algo acontecesse ao baú com “relíquias familiares”, Zeller e Albrecht trataram de prestar mais atenção ao caminho.

Lentamente deixaram o bloco dos alojamentos em direção ao pátio, onde o carro do major esperava estacionado.

***

Anne ainda não sabia como conseguiu segurar o grito quando sentiu o caixote balançando no ar. Teve certeza de que iria cair.

Ouviu o major esbravejar, não entendeu exatamente o que ele disse, mas percebeu que o caixote estava sacudindo muito menos, praticamente flutuando no ar.

Evitava se mexer, mas as mãos não paravam de deslizar sobre a barriga, o bebê quase não se movia. Estava tenso também.

Respirava cuidando para ser silenciosa, sorvia o máximo de ar que conseguia, sentia que a cada minuto passado dentro daquela coisa, mais difícil era puxar ar para os pulmões.

***

Ansioso, o major abriu a porta traseira do carro e ficou observando enquanto o extremoso soldado Albrecht direcionava cuidadosamente o caixote sobre o banco, ao passo em que o bruto Zeller empurrava-o para dentro.

- Com cuidado Zeller.

Nem dez minutos haviam se passado desde que saíram do quarto, mas a essa altura Anne já poderia estar ficando sufocada. Aquilo tinha que acabar logo.

- Está ótimo, agradeço pela ajuda.

- Sempre que precisar major. – prontificou-se Luitpold rapidamente, batendo continência – estou às ordens.

- Ótimo.

E com um aceno de mãos, Veltheim dispensou os dois soldados que se afastaram depressa. Zeller gozando da disposição de Albrecht para ajudar.

- Falta pouco. – sussurrou ele com os lábios quase colados a tampa do caixote.

Tomou a direção do veículo e acelerou, desejando deixar Auschwitz o mais rápido possível.

Desesperava-se à cada vez que tinha de diminuir a velocidade para que os oficiais nas cancelas vissem que era ele no comando do veículo.

Nunca o caminho até os portões fora tão comprido, nunca o seu Mercedes 260D fora tão lento.

Apertava o volante tão furiosamente que os nós de seus dedos, costumeiramente rosados estavam brancos com cera. Ele estava branco como cera.

Olhava o caixote pelo retrovisor, como se fosse possível monitorar caso algo de errado acontecesse com Anne.

Quanto finalmente deixou para trás os grandes portões de ferro de Auschwitz, Heinrich conseguiu respirar.

Ainda assim continuou acelerando, não era seguro parar, precisava ir mais longe ou os oficiais nas torres de observação poderiam vê-lo. Tinha que estar o mais longe possível.

Rudolph indicou que Anne deveria ficar no máximo por meia hora dentro do baú, cerca de vinte e cinco minutos haviam se passado, ela tinha que aguentar mais um pouco, só mais um pouco.

- Estamos quase chegando! – gritou ele por cima do ombro – Falta pouco!

Pedia que Anne esperasse, mas nem mesmo ele podia esperar. Quase sorriu ao desviar da estrada principal, entrando no caminho de terra que levava à sua casa.

Continuou dirigindo até ter certeza de que não poderiam lhe ver dos postos de observação.

Não se deu o trabalho de parar no acostamento, desligou o veículo no meio da estrada e saltou dele, correndo para abrir a caixote.

O que sentiu foi tão forte que era como se uma energia maior tentasse o derrubar.

Anne estava com os olhos arregalados, os cabelos negros espalhados sobre os travesseiro, as mãos pousadas sobre a grande barriga.

- Você está bem? – indagou rouco de emoção.

- Sim...

A voz dela saiu fraca, como um suspiro de vento. Lentamente, a cigana se sentou, uma morta voltando à vida.

- Temi que não estivesse mais respirando... – disse ele, os olhos marejados – Temi que algo pudesse ter acontecido.

Anne acenou negativamente, tomou as mãos de Heinrich entre as suas, apertou-lhe os dedos.

- Já estamos fora do campo?

- Sim.

- Obrigada.

Permitiu-se sorrir, estava livre, fora de Auschwitz. Tinha ganhado uma nova chance, seu filho tinha ganhado uma chance. Duas lágrimas, gêmeas, correram por suas bochechas.

Heinrich esqueceu da mágoa por Anne ter lhe omitido a gravidez, esqueceu que havia prometido para si mesmo que iria apenas cuidar dela, e que nunca mais a tocaria.

Afagou os tão adorados cabelos negros, deixou que os dedos deslizassem sobre as maçãs do rosto dela, ainda levemente infantil.

- Eu te amo...

Depois de dizer as palavras mais difíceis e ao mesmo tempo verdadeiras de sua vida, Veltheim depositou um delicado beijo nos lábios de Anne, suave selar de bocas, tão cálido quanto a brisa de fim de verão que entrava pela porta aberta, e com sabor de liberdade.

Notas finais
Conseguiram! *o*
Será? '-'
Nah, parei, acho que eles conseguiram sim.;)
E finalmente alguém resolveu dar o primeiro passo não? Heinrich roubou um beijinho, resta saber se ele vai conseguir reconquistar o coração da Anne.
Comentem. ;D