Bem Vinda Ao Campo
64 Crítico de Deus
Notas iniciais
Boa leitura.
Não conseguia mais suportar a expectativa daquela “chegada” que nunca acontecia. A agonia daquela moça, a mulher do major, fazia com que ele se lembrasse da agonia que sentiu quando aquele soldado batera em sua porta para lhe dizer que seu filho havia morrido.
Aquilo fora no começo da guerra, ainda em 1939, Johann tinha apenas 19 anos quando morreu na Polônia.
Se não tivesse sido assim, ele teria 25 anos. Talvez tivesse se casado, talvez tivesse lhe dado netos.
A verdade é que apesar de ter aceitado ir para a guerra, o menino não levava jeito para aquilo. Não era um soldado, era um artista. Costumava ser bom nisso. Era um artista incrível.
Sentia queimar no peito a culpa de ter feito com que o filho aceitasse a morte. Sabia que ele só fora para guerra para lhe agradar, e aquilo era algo que consumiria Hans Kriegel para sempre.
Arrastava os pés pela rua, na esperança de encontrar a babá com os filhos do major pelo caminho.
Não seria justo que Deus tivesse permitido que algo de ruim acontecesse àquelas crianças. Não mais uma vez. Não, Deus já havia falhado demais com Hans, e o velho não suportaria mais uma decepção.
Virou a esquina, seguia o caminho que havia indicado para que a mulher viesse. Não era muito movimentado, mas era razoavelmente bem iluminado.
Deu mais uma espiada no relógio de visor rachado no meio. Antes de ser seu havia sido de seu pai, e antes pertencera à seu avô que o ganhara em uma aposta.
Passava das oito. Começava a crer que talvez algo tivesse ocorrido.
– Ora vamos, aquela moça não merece perder os filhos... – resmungou ele.
Hans apertava os olhos para ver mais ao longe. Maldita idade que lhe turvava a visão.
– Vamos, eu sei que Você não deixou nada acontecer.
Mal terminou a frase e seus olhos enxergaram o vulto de uma mulher baixa e gorda carregando dois vultinhos menores.
O velho olhou para o céu, bastante crítico apontou o dedo para cima.
– É bom que assim seja, Você tem falhado muito ultimamente...
Continuou caminhando até chegar bem perto da mulher. Parecia uma matrioshka¹ com aquele corpo atarracado e redondo.
– Acho que você é a Valkyrie... – falou estendendo a mão — Eu sou Hans Kriegel.
– Prazer em conhecê-lo Sr. Kriegel.
– Bem, vamos para casa, a moça está muito preocupada.
E sem mais, virou-se para fazer o caminho de volta.
***
O barulho da porta da cozinha despertou Heinrich, Anne, Kristina e Muriel que ainda permaneciam no quarto.
Mas o que realmente fez com que se levantassem foi o som da voz de Hans Kriegel saindo rouca e por entre os dentes.
– Vão, a mãe de vocês está preocupada...
Antes que qualquer um pudesse se mexer, Anne atravessou a porta em direção a cozinha.
– Meine Kinder! – exclamou ela caindo de joelhos e braços abertos no chão da cozinha.
Ao verem a mãe, os pequenos lançaram-se para ela e abraçaram como se não a vissem há muito tempo. No fim era assim, nunca haviam se separado.
Anne abraçava-os e os beijava como se o mundo se resumisse apenas a ela e os filhos. A pequena cozinha dos Kriegel, abarrotada pela própria família e Heinrich e Nana deixara de existir, era só ela e seus pequenos.
– Lamento pela demora, mas uns soldados nos pararam perto de casa, queriam saber para onde estávamos indo...
– Não Valkyrie, não se desculpe, você os trouxe bem.
Anne levantou-se e abraçou a velha babá fortemente.
– Obrigada. – disse unindo e beijando as duas mãos dela.
– Não quero apressar ninguém... – resmungou Hans – Mas já está tarde, eu vou dormir.
E saiu em direção ao quarto como se nada acontecesse.
***
Antes das dez horas todos já estavam deitados. Hans e Muriel Kriegel em sua cama, Kristina em um colchão no quarto dos pais, Nana dormia no sofá, Wilhelm e Liesel na cama de Kristina, e Heinrich e Anne no colchão no chão do quarto da moça.
O casal abraçava-se ocupando todo e mais um pouco do colchão. Conversavam e murmúrios baixos.
– Acho que tudo vai dar certo. – sussurrou Anne aos ouvidos do marido.
– Eu também acho que sim.
– Sabe, o Sr. Kriegel é mais simpático do que aquilo que você e Rudolph pintaram sobre ele.
– Bem, ele realmente estava mais simpático hoje. Acho que tem alguma coisa a ver com as crianças.
– Porque diz isso?
– Não sei, não tenho certeza, mas... – e então ele baixou ainda mais a voz – No dia em que o conheci, perguntei por que ele era contra a guerra, ele disse que era porque não fazia sentido, mas não acho que seja só por isso.
– Acha que se trata de quê?
– Perguntei se ele tinha perdido alguém na guerra, e ele desconversou... Os Kriegel são muito velhos para serem pais só da Kristina, talvez eles tivessem outro filho...
– Oh não... será que...?
– Eu creio que sim.
– Isso é tão triste, pais enterrando filhos...
Heinrich suspirou e apertou a esposa com mais força contra si.
– É o que mais tem acontecido desde que essa maldita guerra começou...
– Pois agora está acabando...
E de fato estava. Era 12 de abril, e não só na Alemanha, como no resto do mundo, as coisas iam acontecendo e sobrepondo-se umas as outras.
Ali envoltos na fuga de casa, e a chegada à casa dos Kriegel não havia como saberem, mas naquele mesmo dia morria o presidente americano Roosevelt, sendo substituído por Harry Truman.
Para a Alemanha já praticamente rendida, tal ocorrido não faria muita diferença, mas outro país ligado ao Eixo², estava prestes a ter sua história mudada.
Notas finais
E enquanto as coisas se ajeitam para as nossa personagens, na guerra e no mundo as coisas continuam agitadas.
---X--
1. Matrioshka - Boneca russa é um brinquedo tradicional da Rússia, constituída por uma série de bonecas de tamanhos diferentes que são colocadas umas dentro das outras. Em geral de são de formato redondo.
2. Eixo - Aliança formada por Alemanha, Japão e Itália durante a Segunda Guerra Mundial.
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