Notas iniciais
Demorou minhas queridas, eu sei e explico tudo lá embaixo.
Boa Leitura.

A vida na casinha cor de fuligem na periferia de Berlin era completamente diferente da vida na mansão Veltheim no coração da cidade.

O espaço era pouco e os ocupante muitos, mas ainda assim havia alguma coisa naquela casinha que fazia com que ela fosse extremamente acolhedora.

Antes que o relógio contasse ser sete horas da manhã todos levantam, porque os Kriegel costumavam acordar cedo.

Devido à estrutura limitada, era impossível que todos ficassem na cozinha, então Heinrich e Hans tomavam café sentados na frente de casa deixando a cozinha livre, mas não menos apertada, para Muriel, Valkyrie, Anne, Kristina e as crianças.

Era comum que após as refeições os dois homens saíssem para esticar as pernas. O velho e o moleque passavam a maior parte do tempo juntos, eram um tipo estranho de amigos com um tipo aleatório de conversa.

A única coisa constante era que Hans insista em chamar Heinrich de moleque.

- Acho que essa merda toda vai estourar em breve, moleque. – disse o velho entre uma tragada e outra.

Ele e o major caminhavam ao lado do rio Spree¹, os dois enchiam os pulmões com fumaça de tabaco a fim de desanuviar a mente.

- Também não acho que vá demorar, Hans.

- Ele está agüentando mais do que eu esperava.

- Fala de Hitler?

- E de quem mais? Eu jurava que ele já teria tido um faniquito.

— Vendo por esse lado também me surpreendo, ele é um tipo bem exaltado.

- Moleque, você conhece Hitler?

Heinrich deu de ombros um pouco envergonhado.

- Não tanto quanto pensa, fui a uma reunião com ele, não somos íntimos, só estive aquela vez no bunker...

- No bunker?! Esteve no bunker?!

Não era possível dizer se Hans Kriegel estava bravo ou surpreso, provavelmente eram ambas as coisas.

- Eu nem sequer deveria ter ido lá. Fui no lugar do meu superior e...

- E...? – indagou o velho incomodado com o término inconclusivo da frase.

- E eu também tinha bombas na minha pasta, — disse o mais novo em um sussurro — bombas para matar Hitler...

Durante alguns segundos os olhos de prata de Hans o esquadrinharam por completo, e mais uma vez eram indecifráveis. Permaneceram guardando segredo até que a gargalhada do velho soou estrondosa.

Antes que Heinrich pudesse fazer alguma coisa ou assimilar o que estava acontecendo, um soco lhe atingiu o braço com uma força muito superior à que Kriegel aparentava ter.

- Eu sabia que você era diferente moleque! Eu sabia que você era diferente!

Um sorriso alucinado havia tomado conta do rosto enrugado, e os olhos metálicos brilhavam ao sol de fim de tarde.

- Venha aqui moleque! – exclamou ao dar um abraço quebrador de costelas.

Ora, estava alegre porque sabia que não podia ter se enganado com relação àquele “moleque”, no dia em que o conhecera soubera que ele era uma pessoa decente, pudera ver isso como seus próprios olhos ao acompanhar o modo como Heinrich tratava a família.

Saber que Veltheim tentara contra aquele filho-da-puta que se auto intitulara Führer, saber que o major havia tentado matar o desgraçado que mandara seu filho Johann para morte fazia com que gostasse ainda mais dele.

Mas então, tão de repente quanto veio, aquela súbita alegria se dissipou com o fim do abraço. Hans disfarçou o surto de emoção que tivera dando mais uma tragada em seu cigarro, e Heinrich também um tanto quanto constrangido, pôs-se a fixar os sapatos como se houvesse mesmo algo de muito interessante ali.

- Então... o que aconteceu com as bombas...

- Não tivemos tempo de acioná-las...

- “Tivemos”? Quem era o outro homem de verdade que estava nessa com você?

- O outro era Rudolph, na verdade, a idéia foi dele.

- Humpf... – resmungou Hans do seu jeito mais costumeiro – Eu não sabia que ele era desse tipo revolucionário.

Jogou a guimba do cigarro no chão e pisoteou-a. Não queria admitir, mas no fim até que simpatizava com o médico “penteadinho” que fazia sua Kristina sorrir tanto.

- Foi corajoso de vocês entrarem armados na toca do lobo.

- Não foi coragem, foi preciso. – Heinrich tragou o minúsculo toquinho em que seu cigarro havia se transformado e também livrou-se dele jogando no chão. – Minha mulher e meu filho estavam, estão em jogo. Eu tive que ao menos tentar.

Encararam-se brevemente. A diferença de idade entre eles era grande o suficiente para que um fosse pai do outro, mas o peso que tinham no olhar era exatamente o mesmo.

- Suas tentativas não pararam aí, pararam moleque?

- Tentei outras soluções imediatas, mas não podia fazer só com a ajuda de Rudolph, e os outros membros da Resistência estavam amedrontados demais...

- Covardes... – constatou Hans com o mesmo tom de amargura do major.

- Eu não me orgulho, ainda não sei se agi certo, mas era o único meio e eu tive que fazer de outro jeito...

- O que você fez?

- Repassei informações militares aos britânicos...

Heinrich soou devastado, e era assim se sentia assim toda a vez que se recordava do assunto. Ainda não conseguia digerir o fato de ser um traidor total.

O vento de Abril passou agitando os cabelos dos dois homens que andavam solitários ao lado do rio. A cidade ao redor estava agonizante, quase morta, Berlin era como que toda feita de entulhos chamuscados, postes derrubados, construções destruídas, e em meio as pilhas de lixo alguns corpos não recolhidos eram denunciados pelo seu cheiro de podre.

Era o montagem do caos, o próprio inferno na terra, era a cena da última batalha entre Deus e o Demônio, e o pior, era que o Demônio havia vencido.

A mão do mais velho tocou o ombro do mais jovem e o apertou com força.

- Você agiu certo, olhe em volta, o que poderia ser pior que isso?

A pergunta de Hans dançou pelo ar com cheiro de queimado e morte enquanto o sol baixava lento no horizonte, tão lamurioso como quem solta um último suspiro.

Notas finais
Heinrich ainda não está seguro sobre a decisão que tomou ao entregar a Alemanha aos "inimigos"... Situação difícil para um soldado não?

Hans tem surpreendido com seus últimos "surtos de humanidade", talvez ter contato com outras pessoas fosse tudo o que ele precisava para começar a se perdoar...

--X--

1. Rio Spree - Spree é um afluente do Havel, no leste da Alemanha. O rio tem sua nascente no Land de Saxe, perto da fronteira Tcheca, atravessa Brandenburg e Berlim e se junta ao Havel pela margem direita na altura de Spandau.

--X--

E agora as explicações...

Bem, acho que já comentei anteriormente o caos que a faculdade fez na minha vida não? Pois bem, e isso não é o bastante.

Além de toda a correria universitária o amado computador resolveu "dar pau" e fiquei um tempinho sem ele.

Tenho escrito a fic nas mensagens do celular, o pc voltou há uma semana, mas eu ainda não havia tido tempo de passar das mensagens para o Nyah.

O próximo capítulo já está engatilhado e (espero) demorará bem menos que este para ser postado.

Agradeço a paciência das leitoras, atrasar com a história não me apetece, mas acontece... ;)

Espero que tenham gostado, por ora é só. =)