Bem Vinda Ao Campo
65 Vento de Abril
Notas iniciais
Boa Leitura.
A vida na casinha cor de fuligem na periferia de Berlin era completamente diferente da vida na mansão Veltheim no coração da cidade.
O espaço era pouco e os ocupante muitos, mas ainda assim havia alguma coisa naquela casinha que fazia com que ela fosse extremamente acolhedora.
Antes que o relógio contasse ser sete horas da manhã todos levantam, porque os Kriegel costumavam acordar cedo.
Devido à estrutura limitada, era impossível que todos ficassem na cozinha, então Heinrich e Hans tomavam café sentados na frente de casa deixando a cozinha livre, mas não menos apertada, para Muriel, Valkyrie, Anne, Kristina e as crianças.
Era comum que após as refeições os dois homens saíssem para esticar as pernas. O velho e o moleque passavam a maior parte do tempo juntos, eram um tipo estranho de amigos com um tipo aleatório de conversa.
A única coisa constante era que Hans insista em chamar Heinrich de moleque.
- Acho que essa merda toda vai estourar em breve, moleque. – disse o velho entre uma tragada e outra.
Ele e o major caminhavam ao lado do rio Spree¹, os dois enchiam os pulmões com fumaça de tabaco a fim de desanuviar a mente.
- Também não acho que vá demorar, Hans.
- Ele está agüentando mais do que eu esperava.
- Fala de Hitler?
- E de quem mais? Eu jurava que ele já teria tido um faniquito.
— Vendo por esse lado também me surpreendo, ele é um tipo bem exaltado.
- Moleque, você conhece Hitler?
Heinrich deu de ombros um pouco envergonhado.
- Não tanto quanto pensa, fui a uma reunião com ele, não somos íntimos, só estive aquela vez no bunker...
- No bunker?! Esteve no bunker?!
Não era possível dizer se Hans Kriegel estava bravo ou surpreso, provavelmente eram ambas as coisas.
- Eu nem sequer deveria ter ido lá. Fui no lugar do meu superior e...
- E...? – indagou o velho incomodado com o término inconclusivo da frase.
- E eu também tinha bombas na minha pasta, — disse o mais novo em um sussurro — bombas para matar Hitler...
Durante alguns segundos os olhos de prata de Hans o esquadrinharam por completo, e mais uma vez eram indecifráveis. Permaneceram guardando segredo até que a gargalhada do velho soou estrondosa.
Antes que Heinrich pudesse fazer alguma coisa ou assimilar o que estava acontecendo, um soco lhe atingiu o braço com uma força muito superior à que Kriegel aparentava ter.
- Eu sabia que você era diferente moleque! Eu sabia que você era diferente!
Um sorriso alucinado havia tomado conta do rosto enrugado, e os olhos metálicos brilhavam ao sol de fim de tarde.
- Venha aqui moleque! – exclamou ao dar um abraço quebrador de costelas.
Ora, estava alegre porque sabia que não podia ter se enganado com relação àquele “moleque”, no dia em que o conhecera soubera que ele era uma pessoa decente, pudera ver isso como seus próprios olhos ao acompanhar o modo como Heinrich tratava a família.
Saber que Veltheim tentara contra aquele filho-da-puta que se auto intitulara Führer, saber que o major havia tentado matar o desgraçado que mandara seu filho Johann para morte fazia com que gostasse ainda mais dele.
Mas então, tão de repente quanto veio, aquela súbita alegria se dissipou com o fim do abraço. Hans disfarçou o surto de emoção que tivera dando mais uma tragada em seu cigarro, e Heinrich também um tanto quanto constrangido, pôs-se a fixar os sapatos como se houvesse mesmo algo de muito interessante ali.
- Então... o que aconteceu com as bombas...
- Não tivemos tempo de acioná-las...
- “Tivemos”? Quem era o outro homem de verdade que estava nessa com você?
- O outro era Rudolph, na verdade, a idéia foi dele.
- Humpf... – resmungou Hans do seu jeito mais costumeiro – Eu não sabia que ele era desse tipo revolucionário.
Jogou a guimba do cigarro no chão e pisoteou-a. Não queria admitir, mas no fim até que simpatizava com o médico “penteadinho” que fazia sua Kristina sorrir tanto.
- Foi corajoso de vocês entrarem armados na toca do lobo.
- Não foi coragem, foi preciso. – Heinrich tragou o minúsculo toquinho em que seu cigarro havia se transformado e também livrou-se dele jogando no chão. – Minha mulher e meu filho estavam, estão em jogo. Eu tive que ao menos tentar.
Encararam-se brevemente. A diferença de idade entre eles era grande o suficiente para que um fosse pai do outro, mas o peso que tinham no olhar era exatamente o mesmo.
- Suas tentativas não pararam aí, pararam moleque?
- Tentei outras soluções imediatas, mas não podia fazer só com a ajuda de Rudolph, e os outros membros da Resistência estavam amedrontados demais...
- Covardes... – constatou Hans com o mesmo tom de amargura do major.
- Eu não me orgulho, ainda não sei se agi certo, mas era o único meio e eu tive que fazer de outro jeito...
- O que você fez?
- Repassei informações militares aos britânicos...
Heinrich soou devastado, e era assim se sentia assim toda a vez que se recordava do assunto. Ainda não conseguia digerir o fato de ser um traidor total.
O vento de Abril passou agitando os cabelos dos dois homens que andavam solitários ao lado do rio. A cidade ao redor estava agonizante, quase morta, Berlin era como que toda feita de entulhos chamuscados, postes derrubados, construções destruídas, e em meio as pilhas de lixo alguns corpos não recolhidos eram denunciados pelo seu cheiro de podre.
Era o montagem do caos, o próprio inferno na terra, era a cena da última batalha entre Deus e o Demônio, e o pior, era que o Demônio havia vencido.
A mão do mais velho tocou o ombro do mais jovem e o apertou com força.
- Você agiu certo, olhe em volta, o que poderia ser pior que isso?
A pergunta de Hans dançou pelo ar com cheiro de queimado e morte enquanto o sol baixava lento no horizonte, tão lamurioso como quem solta um último suspiro.
Notas finais
Hans tem surpreendido com seus últimos "surtos de humanidade", talvez ter contato com outras pessoas fosse tudo o que ele precisava para começar a se perdoar...
--X--
1. Rio Spree - Spree é um afluente do Havel, no leste da Alemanha. O rio tem sua nascente no Land de Saxe, perto da fronteira Tcheca, atravessa Brandenburg e Berlim e se junta ao Havel pela margem direita na altura de Spandau.
--X--
E agora as explicações...
Bem, acho que já comentei anteriormente o caos que a faculdade fez na minha vida não? Pois bem, e isso não é o bastante.
Além de toda a correria universitária o amado computador resolveu "dar pau" e fiquei um tempinho sem ele.
Tenho escrito a fic nas mensagens do celular, o pc voltou há uma semana, mas eu ainda não havia tido tempo de passar das mensagens para o Nyah.
O próximo capítulo já está engatilhado e (espero) demorará bem menos que este para ser postado.
Agradeço a paciência das leitoras, atrasar com a história não me apetece, mas acontece... ;)
Espero que tenham gostado, por ora é só. =)
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