Bem Vinda Ao Campo
13 Coisas de Mãe e Filho
Anne havia se acostumado de maneira tal a presença de Veltheim, ao seu cheiro, e a dormir com ele todas as noites que as oito semanas passadas lhe pareceram uma verdadeira eternidade. Eram só dois meses. Dois meses inteiros.
Não estava brava com ele, sabia que Veltheim tinha obrigações, e além do mais, fora ver Liesel. A menina precisava do amor do pai, e ele deveria estar feliz por poder ficar um pouco com ela.
Lembrava-se muito bem do rosto da pequena, e todas as vezes em que pensava naquele rostinho sentia saudades mesmo sem nunca ter lhe conhecido.
O major parecia ser um bom pai, talvez fosse um pai realmente maravilhoso. Era um bom homem.
Anne observava a lua, havia levado a cadeira até a janela. Já estava há horas naquela contemplação absoluta. Era uma verdadeira obra do acaso que sempre pudesse ver a lua dali, através do vidro.
Não cantava mais para a lua. Nos últimos tempos apenas olhava para ela, completamente quieta, esperando poder ler alguma coisa em sua superfície. Lembrava-se da madrinha ao fazer isso, lembrava-se de como ela adivinhava o futuro.
Lia a sorte nas borras de chá, nas mãos, nas cartas, na lua. Anne não sabia ler a sorte.
Mas ainda assim buscava respostas, porque talvez por intervenção divina, ela pudesse ter suas dúvidas esclarecidas através das faces lunares.
Recapitulando, sua vida havia se transformado completamente em menos de dois anos, e agora estava a beira de uma nova transformação, talvez a maior de todas.
A cigana pensava na guerra lá fora, na morte logo ao lado, mas ainda assim, aquela coisa nova lhe fazia sorrir.
***
Há dois meses deitara-se com Anne pela última vez, sendo que fizera isso por dois meses seguidos. Sentia sua falta como nunca sentira de Gretel.
Tinha falta do cheiro, do gosto, da pele, dos sons de Anne, de vê-la.
Durante o dia, dedicava-se inteiramente à Liesel, brincava com ela de bonecas, de cavalinho, de pique, cantavam músicas de roda. Quando a menina cansava, Heinrich conversava com Nana, buscava consolo na gorda e simpática senhora da Bavária. Mas a noite quando se deitava e se via sozinho, sem o corpinho pequeno e curvilíneo da cigana para lhe aquecer, sentia-se tão morto quanto estivera antes de conhecê-la.
Anne provavelmente não sabia, mas tinha lhe enchido de vontade de viver. Não que não bastasse viver por Liesel, bastava, mas aquela jovem tinha feito com que tudo voltasse a ter cores vivas.
O major não compreendia com exatidão o motivo de sua mudança após a morte da esposa. Não a amava, nunca amou, acostumou-se com ela e por isso sentiu por sua morte. O que lamentou, no entanto foi o fato de a filha ter de crescer sem a mãe, assim como ele.
Talvez a responsabilidade de criar uma menina sozinho tivesse feito com que envelhecesse tanto em tão pouco tempo. Quem sabe, a guerra poderia a responsável por lhe acrescer alguns anos aos seus trinta e dois. Possivelmente ambas as coisas tivessem o deixado tão sério, e com restrições de carinho até mesmo com a própria filha.
– Você voltou diferente mein kind. Essa moça mudou você. – observou Nana pegando-o parado ao lado do berço de Liesel.
– Sempre vim dar boa noite para Liesel.
Valkyrie sorriu, balançou a cabeça negativamente.
– Não é disso que falo. Está dado à abraços, beijos. Parece meu menininho de muitos anos atrás.
Heinrich deu de ombros, uma última olhada para a filha dormindo tranquila, deixou o quarto acompanhado pela governanta.
– Anne é diferente de tudo o que eu já conheci Nana. É a mulher mais forte que eu já conheci, apesar de tudo ela ainda consegue sorrir...
–E consegue lhe fazer sorrir. Deve ser muito especial.
Veltheim perdeu alguns segundos fitando o nada, estava perdido em lembranças.
– Ela é.
Estava triste, cheio de saudades, padecendo com o remorso. Mentiu para ela, deixou-a sozinha por meses, fugiu dela, porque ficar ao seu lado o fazia lembrar que não podia salvá-la.
– Não se culpe por não poder ajudar querido. O fato de querer ajudar já mostra que é uma boa pessoa, Deus sabe que você é bom.
– Deus deve ter se esquecido que é justo. Se ainda se lembrasse nada disso estaria acontecendo. – resmungou amargurado.
Valkyrie cruzou os braços. Parecia preocupada e ao mesmo tempo prestes a dar uma bronca por conta do que Heinrich tinha dito. Deu a bronca.
– Não julgue Deus meu filho, Ele sempre sabe o que faz. Não tente saber mais do que o Pai.
Veltheim calou, ainda se sentia indignado, mas Nana estava certa. Por mais que tudo parecesse errado, não tinha direito de se voltar contra Deus.
– Perdão Nana, mas não está certo, o que está acontecendo...
– O que está acontecendo é culpa do homens Heinrich, não de Deus.
– Eu sei, sei disso Nana. – suspirou ele resignado- Acho que só estou decepcionado comigo mesmo, gostaria de poder fazer como Rudolph, gostaria de poder fazer alguma coisa.
– Não faça o que exceda suas possibilidades mein kind. Rudolph é Rudolph, e você é você. Não se culpe por ser quem é, atado as responsabilidades que possui.
Veltheim sorriu melancólico, Nana não era sua verdadeira mãe, e nem mesmo sua mãe poderia lhe fazer bem daquele jeito. A governanta delicadamente tirava o peso que carregava nas costas, dizia-lhe que não era sua culpa.
– Se salvar Anne não colocasse Liesel em risco eu juro que a salvaria.
– Eu acredito querido, acredito em você.
Olharam-se longamente, sem nada dizer entendiam-se por completo. Profunda troca de pensamentos, verdadeira telepatia, coisas de mãe e filho.
– Está partindo Heinrich?
– Sim Nana.
– Sentiu saudades dela?
– Eu pensei que precisava me afastar um pouco de Auschwitz, me desligar um pouco de Anne, mas não consegui. Penso nela todas as noites.
– Então quando vai?
– O mais breve possível, daqui há dois dias.
***
Anne continuava sentada na cadeira, o rosto quase colado à superfície fria do vidro. Não estava mais tentando ver além do que o esperado na lua.
Não que houvesse desistido de encontrar suas respostas, apenas se distraíra pensando em outras coisas.
Pensava no major. Nos seus olhos e em como ele era loiro, lembrava a pele branca de porcelana e o fato de ele sempre ficar com as faces fortemente avermelhadas quando estava bravo ou quando faziam amor.
Não sabia quantos anos ele tinha. Quando usava a farda parecia ter quarenta e tantos, quando estava nu e adormecido, com os cabelos desarrumados aparentava ser tão jovem quanto ela. Talvez tivesse trinta, pouco mais ou pouco menos, mas com certeza não tinha menos que vinte e cinco, afinal era major, isso deveria demandar algum tempo de trabalho.
Fosse como fosse, era um homem experiente, era pai, tinha um trabalho importante.
Quando o conheceu pensou que ele era um tipo muito superior e que certamente não se misturava com qualquer um. Pouco tempo depois voltou atrás, crendo que ele era só mais um maldito nazista aproveitador. Mudou de opinião e passou a achar que ele era até que uma boa pessoa, para em seguida ter certeza absoluta de que o major era um verdadeiro traidor. No fim descobriu que ele era só um homem comum, viúvo e pai, e que lhe dedicava bastante carinho.
Não compreendia porque ele era tão delicado, lhe dava chocolates e beijos, tratava-a como se fosse sua esposa e talvez até melhor do que se fosse de verdade. Suspeitava que ele estivesse suprindo sua necessidade de cuidar de alguém já que não podia ver Liesel com frequência. Permitia-se gostar disso.
Nunca havia parado para pensar por quanto tempo aquilo iria durar, foram meses muito felizes os que Anne passou ao lado de Veltheim, apesar de tudo muito felizes.
A cigana não se esquecera de que pessoas exatamente como ela estavam sofrendo ao seu lado, mas quando major chegava tudo mudava e passava a ser bom. Porque ele era bom.
Triste estar ali sozinha pensando que aquele sonho de vida feliz era só um sonho de fato, triste pensar que aquela ilusão iria acabar logo, talvez assim que o major voltasse de Berlin.
Ele certamente não havia percebido nada até ter viajado, mas certamente notaria ao voltar, ela já podia ver a diferença, Veltheim veria também. Se não de imediato dentro de poucas semanas.
Anne estava seriamente preocupada, mas não conseguia deixar de se sentir abençoada, tocada por Deus mesmo estando em pleno inferno.
Sem perceber começou a cantar sua canção de ninar favorita, distraidamente pousou a mão sobre a barriga, acariciava-a lentamente. Sorria sentindo um leve movimento, passara a sentir isso há pouco tempo e ainda se emocionava todas as vezes que sentia.
Era como se conversassem, ela e o pequeno ser dentro de si. Coisas de mãe e filho.
Notas finais
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