Bem Me Quer.
9 Capítulo 9.
Notas iniciais
Como numa prece, estava ajoelhada, sentada sobre as pernas colocando nelas todo seu peso. Os grãos de areia em contato com sua pele cetinosa. Realmente parecia estar rezando, senão desejando algo. Mas o que diferenciava o porte de Regina e uma possível prece era que, de fato, suas mãos não estavam juntas em oração mas sim seguravam um isqueiro.
As cores da chama pleiteavam entre si, fazendo esta tomar uma cor azul como o oceano e depois transparecer num laranja puxado para a cor amarela do astro rei, Sol. A pouca luz fazia do rosto da mulher um mesclado de luz e penumbra, deixando a parte clara de sua face ainda mais bela de se admirar.
Eram muitas as velas para se acender, ele duvidava — demasiadamente — de que ela usaria todas. Ainda mais bêbada do jeito que estava, não teria coordenação o suficiente.
Dez velas foram acesas. Ele sorriu, como se pudesse dizer um "Eu sabia."
*
Dando três passos largos até Robin, a prefeita sentou-se esticando as pernas e costas, apoiando as mãos para trás. O loiro na mesma posição, ambos lado a lado. As velas estavam espalhadas na frente dos dois. Eram grossas, cilíndricas e na cor pêssego.
"Viemos até aqui, você acendeu todas essas velas e me lembro bem de que suas últimas palavras foram ainda no festival..." — Robin tomou a virtude da palavra. Sua alma tão desesperadamente apaixonada que até isto se tornava motivo de uma alegria eufórica, porém interna, não compartilhada. — "Seu silêncio deveria me deixar preocupado?"
Ela olhava de forma tão profunda e concentrada para o mar que Robin podia jurar que ia abri-lo, da mesma forma que Moisés. Uma pena aquele mar não ser conhecido "vermelho" como tal e, se fosse, seria numa forma esdrúxula porém simbólica do amor que os envolvia como asas de um anjo protetor. Um cupido, quem sabe…
Mills prestara atenção no que o homem dissera e lhe respondeu num balanço com a cabeça. Riu, não era de sua intenção permanecer no silêncio e percebendo que era exatamente o que havia feito, o quebrou: "Não."
"E então.." — ele sorriu, esquecendo-se de que havia uma esposa o esperando em casa — "Posso saber o porquê de ter me arrastado até aqui?"
Um suspiro. Regina almejava, ainda observando as ondas. "Bem.." — Um advérbio proferido e Robin se perguntava se após semelhante palavra, ela fugiria dos monossílabos. E teve sua resposta assim que ela deu procedência: "Há pouco tempo atrás, eu vim para cá. E por minutos me senti a pessoa mais importante do planeta, senão a única."
Sim! Você é a única para mim, Regina.
Não deveria, mas é. E daí? Ele teria dito, não fosse a falta de coragem e garantia de que o sentimento era recíproco.
"Te trouxe aqui pois quero ver se me sinto especial com você, assim como naquele dia." — continuou.
"Oh!" — A onomatopéia veio em conjunto com uma careta exclusiva do loiro. — "Então isso é um teste?"
Regina desvencilhou o olhar do mar, do mesmo modo de alguém que conseguira cortar uma corda depois de muitas tentativas. Porém o alívio de ter esta corda rompida era todo de Robin, ele a queria olhando-o nos olhos.
"Depende de como você o interpreta." — Lá estava o sorriso de todos os dentes da prefeita, de Locksley até teria sentido saudades, não fosse passados apenas cinco minutos desde o último.
"Perdão.. Mas não pude deixar de reparar na senhora dançando hoje, no festival." — mudou de assunto, hesitando inseguro sobre o que ainda estava por vir em suas falas. — "Vocês quase transformaram Granny's Dinner em um The Rabbit Hole."
O que precediu a fala do loiro foi o movimento de Regina Mills pendendo sua cabeça para trás dando um riso alto, o qual havia sido em câmera lenta para o mais venturoso espectador, Robin. Mal piscou, seu cérebro concentrado em fazer screens rápidos da cena presenciada. Ele estava amando aquele momento com ela e mal havia começado, pôde sentir borbulhos em sua barriga ao pensar desta forma.
"Por que está rindo? Falo sério, viu só os homens encostados no vidro?" — E ali estava mais um tópico para a lista de coisas que Robin demonstraria para a mulher se houvesse certeza de que o sentimento dela era o mesmo, ciúmes.
A morena gargalhava enquanto girava o abdômen para alcançar a garrafa de vinho e duas taças que Robin havia roubado de Granny. Seu polegar fazendo pressão na tampa, tentando eliminá-la. O loiro continuou contando sua história, quando se interrompeu para ajudar.
Pegou a garrafa, quase que em desespero, agoniado de vê-la tentar sem sucesso e abriu. Maldito Robin e sua facilidade!
"Continuando.." Virou o Romanée-Conti, encostando o objeto de desejo dos maiores apreciadores de vinho de leve no vidro da taça, fazendo com que aquele o líquido cor de sangue jorrasse. — "Você e aquele pessoal, parecem bastante amigos."
Regina gargalhou, mais uma vez. Mas desta vez o riso era forçado, como se ironizasse.
"Sabe, eu meio que odeio Gold e Lacey." Disse, parecia estar em um confessionário declarando seus pecados para um eclesiástico. Para um padre que seria Robin, no momento. Oras, mas que ironia um padre cujo o que mais desejava era livrar-se das roupas da mulher e a agarrar, apalpar cada alíquota do corpo da "quase vítima" que confessava, um padre que queria mais do que a própria vida que Regina tivesse dito um último nome, dos que estavam com ela, na frase. O nome Graham.
"Mas por que?" — A curiosidade sendo vestida na face de Robin, parecia-lhe uma máscara.
"Não são confiáveis. Gold, um golpista e Lacey, uma piranha prestes a dar o golpe da barriga."
"Ela está grávida?" Robin disse, espantado.
"Não!" — sorriu — "Mas não duvido se por acaso, de repente, ela estiver."
"Gold não me parece do tipo que tenta ter filhos, quer dizer, acho que nem tem mais virilidade para isso."
Regina não pode deixar de achar graça do comentário do advogado.
Como ele poderia ser tão bonito? Por uns cinco minutos, ficou o admirando. Músculos bem desenhados, cabelos de um loiro escuro, um sorriso ameno. Estava ela apaixonando-se? Muitos dizem que quando bêbadas, as pessoas deixam escapar seus mais profundos sentimentos. Até aqueles trancados a sete chaves, em um calabouço delimitado por uma porta pesada de madeira exaurida. Será que a prefeita Regina Mills se encaixava neste grupo?
"Mas como você é bobo, não?" Riu mais uma vez, dando um tapa ligeiro no ombro do moço. "E inocente! Lacey não o ama, tampouco Gold. Ele é apaixonado há anos pela irmã de Lacey, Belle French. Ela é um amor de pessoa, namorou Gold por muito tempo e até ficou noiva, mas ao descobrir as farsas que ele aprontava com a prefeitura, assim como com todo o resto da cidade que lhe devia aluguéis, separou-se. Mas continua caídinha por ele."
"E como Lacey entrou nesse rolo todo?"
A morena voltou a explicar, gostando do empenho de Robin na conversa: "Lacey é esperta, sabe que Mr. Gold é rico. Foi preciso só uns charminhos para se envolver com ele, porém a história é estranha do mesmo jeito. Lacey pode ser esperta mas ele é mais, aposto que sabe dos planos da moça de lhe tirar o dinheiro.. E ele, sacana do jeito que é, vai acabar virando o jogo e se dando bem."
O semblante de Robin era de alguém que montava um complexo quebra cabeça, daqueles de mil peças. Mas o que ele realmente estava interessado era em outra coisa, dessa forma resolveu destilar seu veneno o materializando em apenas uma frase: "E Graham, parecia dar em cima dele.. é amante dela?"
Ele sabia a resposta, sabia que Graham e Lacey não tinham nada a ver um com o outro com exceção pela amizade, o que nem era algo real. Pura falsidade. Ele só queria ver como Regina Mills desenrolaria essa história mas, para sua surpresa, ela não desenrolou:
"Eu é que sou de Graham. Quer dizer, eu e ele temos um caso digamos assim." Por que era tão difícil para a prefeita definir? "Não somos amantes mas mais que amigos." Regina pode perceber o alívio do rosto do homem que a acompanhava, por que ele se importava? Quantas perguntas rodopiavam pela cabeça da morena, tatuavam cada parede nervosa de seu cérebro.
"E você…" Engoliu em seco. — "Você gosta dele?"
Robin não podia imaginar que semelhante frase reconstruiria seu maior inimigo: o silêncio. Aquele mesmo que o impedia de conhecer melhor as profundezas da amada. Ela era mar. Era teimosa como o mar, não bastava quebrar uma ou duas ondas, teria que formar mais destas e depois deixá-las escapar. E por minutos, Robin temeu que ela o deixasse escapar. Ela focou os olhos na areia e depois levantou o rosto, olhando para o horizonte, onde o desenho do mar era apagado de vez. O loiro estava olhando fixamente para o rosto de perfil dela, ela levantou a taça a altura da boca e deu um gole.
O líquido de cor escura indo diretamente para a boca-coração da donzela. Que engraçado, não? Cada movimento da prefeita era observado por Robin como se fosse um crítico admirador observando uma obra renascentista. Já era uma característica renascentista o resgate da estética da cultura greco-romana, a busca incansável pela perfeição.. Mas para quê buscar perfeição sendo que a maior delas estava bem ao seu lado?
"Sabe Robin, eu sou uma pessoa extremamente difícil." — E ele já havia percebido isso, até aí sem novidades. Contudo a questão não era essa, não era isto o que o homem havia lhe perguntado e estava irritado com o fato de ela mudar de assunto, uma vez que o dito cujo era de uma relevância imensa. — "Quero ser livre mas ao mesmo tempo imponho rótulos a mim mesma. Sou uma pessoa totalmente fechada e.." — aquela era a primeira vez que a voz da mulher não saía grossa como naturalmente era. A voz era falha desta vez. As palavras sendo jogadas da mesma forma que cartas em um jogo raro e não cotidiano de poker.
A morena de olhos escuros estava demorando demais para dar procedência e isso o assustou. "Continue, milady... Estou aqui, estou ouvindo."
"E não me abro para ninguém, tenho uma dificuldade quase absurda com confiança. Não costumo me relacionar bem com as pessoas e se me relaciono, é por que elas vieram atrás de mim por surpresa."
"Assim como Graham…" E novamente, lá estava a incógnita persistente.
"Sim Robin, assim como Graham." — Engoliu em seco. — "Eu tinha Emma como a mais confidente das amigas e Henry, como um filho. Não queria perdê-los de modo algum." Robin tinha a íris correndo de um canto para o outro do rosto da moça, um rosto que esbanjava dor. Os olhos delas estavam lagrimejando. Droga! "Mas eu tenho muita dificuldade de achar amor, Locksley, muita mesmo. E quando Graham veio para mim, eu não hesitei em continuar. Quem sabe não daria certo?"
"E deu, Regina? Por que você não precisa se sentir insegura, um dia você vai ach.."
"Deu." — interrompeu.
Ficaram ambos quietos por um longo tempo. Regina chorava em silêncio, sem soluços, apenas lágrimas caindo de suas pálpebras e indo para a maçã de seu rosto. Foram terríveis momentos de tortura para o homem, até que ele se levantou: uma mão segurando a taça e a outra estendida em direção a morena, a convidando.
Mills levantou o olhar, o encarando por uns segundos. Ele sorriu e a mulher enxugou rapidamente as lágrimas paradas na altura de sua bochecha, sorriu e segurou sua mão.
Ambos passaram por meio das velas, ele a guiou até o meio da área litorânea onde a areia era macia e encostava os pés descalços de ambos de forma tão leve quanto uma pluma mas mesmo assim os servia de suporte. De Locksley desvinculou sua mão da de Regina, deu um passo para trás, ficando exatamente a sua frente e novamente estendeu a mão na direção da bela donzela, fazendo reverência: a convidava para uma dança, desta vez.
"Aqui e sem música?" Interrogou Regina.
Sorriu. "Aqui e sem música?" — a imitou, numa voz afeminada que fez a prefeita rir.
Ela pegou na mão do loiro denovo e Robin velozmente a puxou pela cintura, começando a cantarolar uma música.
"Oh, eu conheço essa!" Exprimiu, reconhecendo a canção. Era I'll Be Seeing You, de Jimmy Durante.
Continuaram, a mão da dama em suas costas ainda segurando a taça e a dele na escápula da moça, desconsiderando a outra mão que estava enlaçada na de Regina.
"Você é péssimo cantor" — disse, rindo.
"E você é péssima com o amor." Replicou, debatendo sobre a conversa que tiveram pouco mais cedo.
Se olhavam sorrindo, até que Regina encostou sua cabeça no ombro do loiro, este que se remoeu de felicidade e orgulho. Onde estava, naquele momento, a virilidade de Robin perto de Regina? Não se sabia.
O reflexo no mar era totalmente fiel à imagem real da Lua que os iluminava. A maré enfraquecia, o ritmo das ondas diminuía assim como o vento que cessava. Parecia até que a natureza — que antes era agitada — estava em aflito por vê-los juntos e agora se acalmara ao observar o casal naqueles passos lentos. Mas Gaya, a mãe natureza, não se contentara só em estabelecer calma à seus pertences. Ela queria mais e assim, lhes enviou um presente.
Uma flor, mais especificamente uma Margarida que vôou até os pés de Robin, se arrastando pela areia. Robin baixou a cabeça e a viu assim que sentiu suas pétalas brancas e delicadas lhe tocarem a pele nua de seus pés.
Abaixou-se e a pegou.
Encaixou a flor entre a orelha direita e os fios negros do cabelo da prefeita. Sorriram. Nesta hora, imagina-se que Gaya estaria em festa, aonde quer que esteja e se é que existe.
Voltaram a dançar, um sorriso bobo na face da mulher e notas musicais saindo-lhe da boca de Robin. Ela se juntara na canção e nesse exato momento o loiro lembrou-se de quando fez um pequeno paralelo entre Regina Mills e as sereias que cantavam e encantavam os homens. Esquece tudo! Além do olhar, Regina tinha o dom da voz.
A prefeita empolgou-se, girando duas ou três vezes, fazendo Robin a rodopiar como numa dança de salão. No quarto giro, atrapalhou-se e caiu, fazendo Robin cair também. Se não fosse a areia almofadada da praia de Storybrooke, as taças teriam virado cacos. Mas o amortecimento permetiu com que apenas o vinho se espalhasse, tornando a areia bege em cor de sangue. Enquanto isso, Robin e Regina. Ou melhor, Robin encima de Regina.
Ele olhou profunda e precisamente para os olhos de Regina, ela o admirava os lábios. Mas que merda! Já era a quarta vez que isso acontecia: ambos estarem próximos demais os olhando nos olhos mas ao mesmo tempo, distantes. Uma hora isso teria que acabar, não aguentava mais esperar. Determinado, Robin lhe roubou um beijo. A morena, em um primeiro momento, arregalou os olhos e depois deixou-se levar por sua vontade e sentimentos. E agora, tinha certeza, estava apaixonando-se pelo advogado romântico.
O coração do homem martelava audivelmente em suas costelas e a respiração dele parecia ficar presa na garganta. A língua explorando cada pedaço da boca de Regina, se fosse possível chegaria até sua úvula. O beijo poderia ser vulgar mas não perdia seu romantismo em sequer um milésimo de segundo. O beijo não era profano em amor, nunca seria. A pele quente de Robin era o antídoto perfeito para o frio que entrava em contato com a epiderme de Regina, fazendo-a arrepiar-se. Eu, como escritora onisciente, diria que foi o loiro que lhe causou tal horripilarão.
Tinha a sensação de que cada terminação nervosa de seu corpo era um fio desencabado. Mills abriu os olhos, ainda durante o beijo, e observou o céu. Ignorava totalmente sua situação, deitada no meio da areia que lhe sujava unhas e cabelo. Observou as estrelas, as inúmeras constelações cujo nomes não eram de seu conhecimento. Porém não conseguia se concentrar em nenhum detalhe, a pulsação violenta por trás de seus ouvidos toldava tudo.
De repente um sobressalto a fez lembrar de Marian e mais importante, de Graham. Indo mais a fundo em pensamentos, se desvinculou dos braços que a prometiam proteção.
"Graham!" Disse.
E Robin, incrédulo, a via partir. Ela corria em direção ao extremo oposto da praia. Deixando para trás o homem, as taças, o vinho derramado, seus sapatos, as velas ainda acesas e por último mas não menos importante: sua alma. Era óbvio que ela queria ficar mas sentia a culpa acariciar-lhe o rosto. O pecado já havia sido cometido, o que lhe restara agora era dizer alto e incontáveis vezes para si mesma de que tentou fazer a coisa certa. Quem sabe assim, acabaria se convencendo e acreditando naquilo de uma vez por todas.
Robin, por sua vez, olhou para areia. Estava jogado no chão, resultado este do empurrão que a prefeita o deu.
Viu a margarida.
Não pensou duas vezes e a tomou nas mãos, a ponta dos dedos tocando as pétalas de forma singela. Sorriu por segundos e depois sentiu ódio, um mesclado de sensações lutavam pela porcentagem maior de seu peito.
Começou a arrancar as pétalas da flor, uma por uma. Em uma brincadeira ridícula, parecia estar contando-as.
Mas não estava.
A cada puxão, uma frase nova. "Mal me quer, Bem me quer."
E ao ter a última pétala arrancada e posteriormente levada pelo vento, teve sua resposta: Bem me quer.
Jogou o caule do que antes podiam-se chamar de flor no mar, num movimento fel. Lembrou-se da frase que lhe escapara os lábios de Regina, pouco mais cedo. "Eu é que sou de Graham."
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