Bem Me Quer.
10 Capítulo 10
A banheira cheia até a borda, havia muita espuma, o rosto da morena mergulhado na água até a altura de seu lábio superior. O resultado do rímel escancarado em sua face, borrões enormes que iam desde as pálpebras inferiores até o intermédio de suas bochechas. Percebia-se por seu semblante que havia chorado a manhã inteira. Até faltou do trabalho, algo não consuetudinário para Regina Mills.
Segurava uma chávena de vinho, o que provavelmente a traria uma depressão muito maior, a faria relembrar da noite de uma semana atrás. Lembrar-se da praia, das velas, do loiro e do beijo era de longe o que a morena menos precisava no momento. A mão que segurava a taça estava estendida para fora da banheira e seus pés encima da torneira no outro extremo. Ela abria e fechava tal com apenas um movimento do dedo: deixava a água escorrer e logo depois desligava a torneira, novamente com os pés, repetindo o ato logo em seguida numa ansiedade insaciável.
Ouvia-se um barulho suave vindo do andar debaixo, proveniente do atrito entre a porta e o chão. Segundos depois e o ruído se transformara em passos, botas que pisavam firmemente nos degraus da escada que levariam seu misterioso dono até o segundo andar. Era de fato algo que Regina deveria considerar, alguém invadindo sua casa. Porém permaneceu exatamente do jeito que estava.
"Eu sabia que as segundas-feiras eram o dia oficial do remorso, mas você se superou." — A voz tomou conta do toalete, caminhando até os ouvidos da prefeita. Tentativa frustada de fazê-la sorrir, xerife.
Não moveu-se, estava de costas para Graham e este, encostado na batente da porta. "Como entrou?" — Num tom frio, Regina economizou saliva, escolhendo apenas as palavras necessárias. Estava amarga demais para não ser direta.
Graham andou e agora, estando no campo de visão dela, levantou a mão direita lhe mostrando a cópia da chave que possuía. "O que houve? Estamos todos te procurando que nem loucos!" — advertiu.
Mills olhava fixamente para o acúmulo de espuma que boiava perto de seu joelho, levou a taça em encontro com sua boca e bebericou. Afastou a taça de seu rosto, a mantendo na sua frente e a virando na intenção de analisá-la e evitando ao máximo olhar nos olhos do homem. A culpa ainda batia em sua porta, todos os sete dias que passaram desde o beijo. "Como alguém se importasse."
"Eu me importo, Regina! Aurora se importa, Lacey.." — bastou o último nome escapar-lhe a fala e finalmente Regina riu, mas riu em ironia como sempre fazia quando este nome e a idéia de solidariedade eram associados na mesma frase. — "Me diga, o que aconteceu para te deixar tão pra baixo?"
Ainda receosa, suspirou em desistência e começou — "Aurora me ligou ontem avisando que Swan a procurou na prefeitura em meu horário de almoço, foi resolver umas papeladas de mudança… Emma e Henry voltarão para a antiga cidade." — contava, observando o homem sentando-se ao lado da banheira, no chão frio de ladrilho branco. Mas, querido, o problema não é apenas esse. Eu o traí. O traí antes mesmo de estar com você e o pior, me apaixonei. Evito tal homem por uma semana desde o beijo mas não sei por quanto tempo mais aguentarei. – Pensou, e cogitou a possibilidade de contar mas não teria coragem de dizê-lo.
"Há quanto tempo não vê o moleque mesmo?"
Não conseguiria formular uma réplica, mas a dor havia de responder por ela: "Três. Meses."
***
A situação de Robin era, de longe, a mais lastimável. Ao menos Regina tinha a certeza de que o loiro a amava, uma vez que investiu no beijo sem se preocupar com sacramento de matrimônio, amantes ou casos da prefeita e até mesmo com filhos. Mas bullshit, Robin não tinha nada! Não tinha idéia do que se passava na cabeça da morena, pelo contrário, tinha certeza absoluta de que Graham era o dono de seu coração e para piorar, ele ao menos tinha alguma desculpa para dar à esposa caso desabasse em um oceano de lágrimas.
Droga, oceano não! — repreendeu-se. Isso o lembrava a praia e consequentemente, Mills.
Contudo, o mais agradável foi a descoberta do advogado assim que chegou em casa naquela noite: Marian, preocupada com a demora do marido em voltar do maldito festival, foi procura-lo. Nisso, conversou com alguns conhecidos perguntando sobre o paradeiro deste e por fim uma freira a informou. "Saiu com a prefeita, ouvi dizer que iam para a costa."
Ela não sabia qual das hipóteses mais a preocupava.
Alternativa A, meu marido está com a prefeita; Alternativa B, meu marido está com a prefeita na praia; Alternativa C, meu marido está com a prefeita na praia e são quatro horas da manhã.
Pobre Locksley, desde então dormiu no sofá. Sua coluna já suplicava pelo colchão macio da cama de casal parcelada em cinco vezes. Louco seria se fosse a cama de Regina.
***
"Regina, pelo amor de Deus!" — A mulher havia surtado deixando o xerife sem ter o que fazer. Ele nunca imaginou que alguém pudesse chorar tanto. — "Se acalme."
Estavam ambos sentados, Regina encostada na cabeceira da cama e Graham sentado à beirada. Ela vestia um roupão curto de cetim que deixava uma boa amostra da lingerie abaixo. As mãos dele estavam sobre sua coxa, a culpa se escondia naquele toque como um parasita, se recusava sair.
"Sabe.. Eu já sabia sobre Emma." — confessou Graham. Assim que Aurora o ligou pela manhã contou tudo o que havia acontecido e suspeitava ser isso o que abalou a chefe.
"É mas talvez eles nem vão, talvez seja só cois..."
"Regina! Eles vão." — o moreno lamentou por ter que ser ele o responsável por 'acordar' Regina, mas qualquer coisa seria melhor que vê-la se iludindo. A incógnita natural de Robin desta vez preenchia o semblante da morena.
"Como você pode ter tanta certeza?"
"A casa."
"O que tem a casa?" — Mais lágrimas caíram do rosto da mulher, ela já imaginava.. Emma a vendera. Certeza, era isso. — "O que ela fez, Graham?!" Agora seu tom de voz era elevado, como uma caixa de som em seu último volume.
"Ela vendeu."
"Mas como alguém que demorou meses para achar uma casa consegue vender uma assim, num estalar de dedos?"
"Vendeu para alguém igualmente desesperado. Da mesma forma que ela ficou quando não tinha mais para onde ir."
"De Locksley." — concluiu Regina. — "Aquele diabinho!"
"Acha que ele comprou?"
"Tenho certeza."
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