Notas iniciais
Este capítulo também foi editado. Sintam-se á vontade para quaisquer comentários acerca das mudanças, sejam eles positivos ou não (づ ̄ ³ ̄)づ

Seus olhos.

Distantes e frios, assim como ele. De um azul que só se compararia ao céu de uma tempestade, perigoso, elétrico.

Assassino.

"...Lucy..."

Ela ouviu a voz dele, no meio da tempestade, no meio do desastre.

Os olhos dele vieram de novo, mais azuis, como ela nunca tinha visto. E a preencheram com aquela sensação, quando depois de uma longa viagem você entra em casa e vê que tudo está como deixou.

"Lucy..."

E de novo. E de novo. E de novo. Mas seus olhos azuis eram tudo oque ela via, sentia, ouvia. Era a presença que a mantinha naquele estado de quase hipnose.

"Lucy."

Ela piscou, mas os olhos dele ainda estavam no fundo de suas pálpebras.

"Lucy!"

Algo estava errado. Aquela não era a voz que ela conhecia. Não era dele.

Seus braços se flexionaram, empurraram algo macio. E de repente ela não está mais cercada por caos. Sua cabeça dói na têmpora acima da orelha esquerda e ela tenta levar uma das mãos até lá, mas é impedida por algo.

E é nessa parte em que as palavras "Algo não, alguém." deveriam estar.

Uma sombra significativa passou por seus olhos ainda fechados e ela se sentiu sem peso... antes de bater as costas em algo duro.

Se debateu e grunhiu, o torpor pós-sono não deixando seu corpo assustado enquanto duas mãos quentes seguravam seus pulsos, um par de pernas grandes se encaixou em seu quadril e um peso caiu sobre suas coxas.

Seu coração batia rápido, a mente embaralhada tentava se localizar enquanto a respiração falhava cada vez mais. Um apito estridentemente fino soava em seus ouvidos ao mesmo tempo que os tambores em sua cabeça e ela virava o pescoço de um lado para o outro, tentando se libertar da lentidão com que tudo estava acontecendo.

Finalmente e com certo esforço, abriu seus olhos.

Uma gota vermelha, quase negra, caindo em câmera lenta, reluzindo com um leve brilho antes de se desmanchar na ponta de seu nariz.

Engoliu em seco. Mas não sentiu vontade de gritar. Os sentidos finalmente despertos logo confirmaram o cheiro.

Sangue. Havia sangue na ponta de seu nariz onde a grande gota havia encontrado seu fim. Mas ela não sentia dor. O sangue não era dela. Como era possível? Ela não estava sangrando. Ergueu o olhar para encontrar um nariz, havia um rastro vermelho que seguia seu contorno até despencar na ponta, ela fez o caminho inverso, passando pela pele macia entre duas sobrancelhas franzidas até a fonte, um hediondo corte em uma testa suja.

Sem perceber, franziu a testa e cerrou os lábios quando encontrou cabelos sujos e bagunçados de uma cor inesperadamente... rosa?

As lembranças da noite anterior começaram a passar por sua cabeça, a tempestade, a estrada esburacada, chuva de granizo, o lamaçal... mas em que parte aquela cor se encaixava?

Lucy não fazia ideia. Até que sentiu algo, como uma brisa quente de verão, batendo em seus lábios, fazendo-os formigarem de uma forma estranha.

Ela olhou para baixo dessa vez, esquecendo-se da linha escarlate e atravessando a pele macia entre as sobrancelhas e o nariz, chegando a uma boca semi-aberta contornada por lábios de um tom rosado que certamente não podia ser natural, dois caninos surpreendentemente brancos espreitavam, levemente maiores que o comum, por entre uma respiração pesada e rápida. Um queixo sem barba e maxilares definidos, seguiam até as orelhas quase escondidas pelos fios rosados.

E sim, essa é a parte onde ela finalmente percebe o que está acontecendo.

Lucy deixa de se mover e fixa seu olhar nos lábios rosados, não ousando olhar para cima, para o lugar onde estariam os olhos.

A ficha caiu. Rosa.

Se lembrou de todas as vezes em que usou aquela cor, pintou aquela cor e até mesmo a nomeou sua preferida, seu quarto quando criança costumava ter todas as quatro paredes em um tom profundo de rosa-claro, ela sempre por algum motivo, encontrou conforto naquela cor, no que significava para ela... mas naquele exato momento, estava travada no medo que sentia.

E de supetão, ela ergueu a cabeça para cima, batendo contra o outro rosto, acertando o que ela esperava ser o corte naquela testa. Ela sentia o sangue fervente contra sua pele, mas se moveu mesmo assim. Deslizando para o lado e se pondo de pé.

As batidas desesperadoras de seu coração eram a única coisa que ela conseguia ouvir, um zumbido no fundo de seu crânio a deixada alerta.

Por isso, quando ouviu outro tipo de barulho virou sua cabeça tão rapidamente que seu pescoço estralou, mas não o encontrou, ouviu o ranger do velho piso de madeira atrás de si e não foi rápida o suficiente.

Ele agarrou seu queixo com uma mão, a outra pendia imóvel ao seu lado, não sendo necessária. E enquanto sua cabeça era erguida forçadamente para cima, a dele se virava para baixo. Ela se debateu, tentando se soltar, mas ele apenas apertou seu queixo com mais força.

Desesperada, Lucy respirou fundo. Era isso. Ela suavizou os ombros tensionados e deixou que ele levantasse sua cabeça até a posição que queria, desistindo aos poucos. Ele era forte demais.

Olhou nos olhos que tanto a assustavam.

Dois anos antes, enquanto atravessava uma viela qualquer no centro de Magnólia, encontrou um bazar de coisas antigas, lembrava-se perfeitamente de entrar em busca de um presente para sua mãe... e de acabar no fundo da galeria, vidrada em uma pequena almofada vermelha de veludo que parecia moldar perfeitamente uma pepita de ónix do tamanho de seu punho.

Agora, totalmente paralisada com apenas uma mão em seu queixo, sentiu-se ridícula e extasiada ao mesmo tempo, os olhos dele eram tão escuros que a pupila praticamente não existia, ainda sim reluziam, de certa forma.

Céus, estaria ficando louca?

A testa outrora franzida que Lucy mantinha se desfez como um copo de vidro sendo arremessado ao chão. O toque em seu queixo desapareceu e ela o sentiu descendo por seu pescoço, os olhos escuros acompanhando seu próprio movimento até duas mãos enormes pousarem nos ombros de Lucy.

–Essa é a parte. — O zumbido em sua cabeça e praticamente todas as dores em seu corpo simplesmente evaporaram quando outro som preencheu seus ouvidos. — Em que você grita.

Ele havia falado. Sua voz profunda e rouca que ainda mantinha algumas notas mais finas, se desenrolara devagar de seus lábios até ela.

Lucy sentiu algo, não medo. Não desespero.

Ele a encarou novamente e aquilo tudo finalmente foi demais. Lucy sentiu sua própria sala de estar girar ao seu redor e tudo escureceu. Felizmente, seu desmaio não chegou a ter algum impacto, já que dois braços fortes seguraram-na com uma estranha falta de hesitação.

E mesmo em seu estado de recém-inconsciência, Lucy pode discernir outra frase.

–Sem gritos? Já é um bom começo.

E ela, confinada apenas à pensamentos e privada de ações por seu corpo cansado e molhado, ainda sujo de lama e sangue que havia dormido no carpete assim que chegara em casa com um completo estranho que provavelmente a mataria enquanto ela estava desacordada jogado em seu sofá, só conseguiu desejar silenciosamente que aquilo fosse apenas mais um de seus muitos pesadelos. Daqueles em que você precisa de alguns instantes para ter certeza de que está mesmo acordado. Aquele tipo de sonho que você nunca esquece.

Mas não era.

Notas finais
Se vocês já leram as notas iniciais... sabem o que fazer.