Belo Desastre
3 Café.
Notas iniciais
Respirei fundo.
O cheiro amargo de café preencheu minhas narinas e eu me vi mais calma, a adrenalina dos momentos anteriores começava a baixar e minhas costas começavam a doer pelo impacto que tiveram com o chão, causado por certo alguém.
Voltei meu olhar, que se concentrava na superfície amarronzada do líquido em minha caneca e o cravei nele, em seus olhos, para ser mais precisa, sentia que precisava ajuda-lo, antes de tudo, eu estava ficando louca? Meu primeiro instinto seria chuta-lo ali mesmo e sair correndo... se não fosse superado pelo de ficar ali e tentar desvenda-lo, para meu mal, sempre fui fraca em relação a decisões.
–Então, Lucy Heartphilia... ? Que nome esquisito. — Ele disse, sentado no sofá na frente da poltrona em que eu me encontrava.
–Infelizmente, não podemos escolher os nossos nomes, Natsu.– Disse rude, não havia o mínimo motivo para ser gentil, ele havia me apontado uma arma e me ameaçado, além de outros ferimentos, nessa situação, o melhor seria fugir dali, procurar a ajuda.
Mas quem disse que eu faria isso? Já havia testado sua força, e ele era mais esperto do que aparentava, seu porte desleixado demonstrava que o mesmo estava bem a vontade, talvez mais do que devesse, considerado que — mais uma vez — aquela era a minha casa.
–Quero um café também. — Ele disse.
–E oque isso tem a ver comigo? — Rebato mais uma vez na defensiva, e ele franze o cenho, mas não parece incomodado.
–Certo... você poderia por favor me fazer um café? — Ele disse, debochado, mas eu não mudei minha expressão, ou melhor, eu não tinha expressão, apenas voltei a encarar o meu café, antes de leva-lo aos lábios e senti-lo descendo quente pela minha garganta.
–Eu não sou sua serva, faça você mesmo. — Terminei o café e o posicionei em cima da mesinha de centro, me recostando na poltrona de uma forma que me deixasse confortável, eu não sabia oque fazer, como devia lidar com aquela situação, como deveria agir, só sabia que estava irritada e cansada, e ele não parecia nem ligar.
–Já que é assim, com licença.– Natsu falou antes de se esticar e pegar a minha caneca vazia sutilmente, se levantou e seguiu até a cozinha como se o lugar fosse seu.
–Socorro... — Murmurei silenciosamente, em um tom tão baixo que seria impossível a ele de ouvir, mas parece que ele se esqueceu disso, pois parou de andar por alguns segundos antes de recomeçar seu caminho, me encolhi no estofado.
–Hey Luce! Onde fica o café? — Ele disse da cozinha.
–Procure você mesmo, já não é um ladrão? — Debati.
–Eu não roubo nada, Luce.– Ele falou, agora seu tom era mais sério, apenas fechei os olhos.
–Nada, com exceção da casa das pessoas.
–Eu não roubei a sua casa, Luce. — Ele pareceu um pouco magoado, hilário, extremamente hilário.
–Então oque você está fazendo aqui? — Perguntei,.
–Pergunte isso para a garota que me salvou. — Ele disse de uma vez e eu calei a boca, não era ele que estava rindo de mim ao dizer isso minutos atrás?
–Salvei? — Perguntei, ele devia estar sendo sarcástico.
–Sim. — Mas ele disse, simplesmente.
–Porque? — Arrisquei e pude ouvir seu suspiro.
–Eu... não consigo contar. — Ele disse, e o tom de sua voz deixava claro que aquele assunto morria ali.
Não consegue ou não pode... ?
–Natsu, qual é o seu sobrenome? — Perguntei, insistente e ouvi algo se quebrar, abri os olhos e me levantei, seguindo a cozinha onde Natsu estava agachado recolhendo os cacos de uma das canecas no chão, mas ele estava muito apressado, e um dos pedaços grandes acabou por fazer um corte feio na palma de sua mão, ele respirou fundo e colocou oque segurava em um montinho no chão, em seguida, se levantou e abriu a torneira da pia, enfiando a mão embaixo da água e se esticando em direção ao detergente, mas antes que ele conseguisse e, movida por algo indefinível, eu falei.
–Está errado.
–Oque? — Sua cabeça virou se para mim e eu percebi que ele não sustentava mais seu semblante malicioso, agora parecia quase triste.
–Você. Está fazendo tudo errado. — Disse enquanto me aproximava e fechava a torneira, segurei seu braço de leve e sai da cozinha com cuidado para não pisar nos cacos, lentamente e sem saber exatamente porque, o levei para o segundo andar, no banheiro do corredor, onde havia uma caixa de primeiros socorros.
–Oque você está fazendo? — Ele me perguntou enquanto eu abria a porta do banheiro, que era espaçoso mas simples, como o resto da casa.
–Primeiro, tome um banho, está todo sujo e eu tenho roupas que talvez sirvam em você, depois cuidaremos desses machucados. — Falei já ligando o chuveiro, esperando a água esquentar.
–Você está sendo bem gentil.. com um ladrão. — Ele disse encostado no batente da porta quando eu passei pela mesma.
–Pensei que você não fosse um ladrão. — Falei, parada no meio do corredor, mas sem me virar.
–Tem razão, não sou.
–Então é oque?
–Eu não sei. — Me virei com o cenho franzido, mas ele já fechava a porta, de modo que não pude ver seu rosto.
~♥~
–Caramba Luce, se você fosse médica, acabaria matando os seus pacientes. — Ele resmungou enquanto eu passava álcool no corte em seu rosto e depois em sua mão.
–Sorte sua que não sou, se bem que não seria uma má idéia...
–Ser médica?
–Não, matar meu paciente. — E assim o assunto morreu, ou pelo menos foi oque eu pensei, pois logo ele disse:
–Luce, onde você conseguiu essas roupas? — Perguntou, analisando a calça larga e branca de moletom masculina e a camiseta cinzenta que ficavam perfeitas nele porque ressaltavam seus braços e... esquece.
–Eu... — Pensei em de onde elas tinham vindo, segunda cômoda, última gaveta, quase vazia, lugar onde algumas coisas costumavam ficar...
Engoli em seco.
–Esqueça isso. — Pedi, enquanto espalhava com cuidado uma pomada sobre o hematoma roxo na maçã de seu rosto, em seguida, voltei para a caixa branca ao meu lado na pia, de onde tirei gazes e esparadrapos.
Natsu estava sentado em cima da tampa da privada e eu de pé a sua frente, de modo que ele podia ficar me encarando livremente, agora eu, se olhasse minimamente para baixo, encontraria seu rosto, e no momento, seus olhos eram oque eu mais temia, porque conseguiam me deixar desconcentrada, e isso seria ruim, muito ruim.
–Oque você estava fazendo lá? — Perguntei, quando terminei o que estava fazendo, sempre havia sido boa em fazer curativos, desde pequena.
–Eu... eu acho que não me lembro... — Ele massageou as têmporas, claramente se esforçando, me afastei um pouco enquanto guardava a caixa no armário e me sentei em cima da pia, de frente para ele, que apoiava seus cotovelos nos joelhos e olhava para baixo.
Parecia tão triste.
–Você não sabe? — Perguntei, calma.
–Eu não consigo lembrar. — Ele suspirou e eu me compadeci.
–Bom, já que pelo visto você não vai mesmo sair daqui, e o meu sofá não é cama, pode ficar com o quarto de hóspedes. — Eu falei, sabia que não estava sendo sensata, mas já havia chegado até ali, oque eu deveria fazer?
Me levantei e segui em direção a porta, mas antes ele me segurou pelo pulso, não apertava e, se eu quisesse, poderia sair, mas algo me dizia que eu precisava ouvi-lo.
–Luce... — Ele murmurou e eu soltei um "hum" para incentiva-lo a terminar a frase, fosse ela qual fosse.
–Não tenha medo de mim.
Eu desisto.
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