Belo Desastre
20 Sirenes.
Notas iniciais
Minha cabeça batia no vidro com força conforme o carro atropelava todas as irregularidades daquele bairro imundo.
Sim, imundo, nojento e escuro.
Minha cabeça doía e um tipo assustador de suor frio molhava os cantos de minha testa, o cinto de segurança irritava minha pele e machucava meu pescoço enquanto o gosto de sangue não saía de minha boca, não importava quantas vezes eu engolisse água de uma garrafa qualquer nos cantos daquela viatura. As sirenes ecoavam em meus ouvidos e o vermelho e azul das lanternas não deixava meus olhos, mas dentro de minha cabeça, havia apenas um ruído branco. Como uma televisão velha e fora de sintonia, aquele som que nos faz companhia ao acordarmos de madrugada no sofá da sala, depois de adormecer inesperadamente.
Aquela risada. Aquele... riso de escárnio, debochado e inesperado, eu tinha certeza de já o te-lo ouvido antes, meu cérebro se esforçava para criar uma imagem, vasculhando em busca de memórias esquecidas, mas quem quer que fosse não entrava em foco, apesar disso eu sabia. Sabia que estava na ponta de minha língua.
O motor roncou embaixo de mim quando Jellal estacionou de frente para a delegacia, ele puxou o freio de mão e descansou o braço ali por alguns segundos antes de se virar para mim, forçando o ar para dentro de seus pulmões assim como eu, cansado demais para qualquer coisa, física e psicologicamente.
Eu ainda não havia me conformado, como se a ficha ainda não tivesse caído, apenas alguns momentos atrás Lisanna estava com eles, desacordada, mas ainda sim... E logo em seguida, rápido como o feixe de uma lanterna ao seu apagada, ela havia desaparecido. Sequestrada.
Franzi o cenho, os cabelos de Jellal estava grudados em sua testa graças a fina chuva que havia caído quando finalmente saímos daquele pesadelo. As gotas geladas e minúsculas aliviaram minha pele quente, como um consolo, o choro de alguém que sofre uma perda, ou mesmo apenas nuvens no local certo e hora errada. Deixei de encara-lo pelo canto de minha visão e pisquei, meus olhos arderam e só então eu percebi que não havia feito aquilo desde que começara a olhar pela janela, levemente desesperada, respirei fundo.
E então percebi.
Que não havia motivo para pegarem Lisanna. Que dizer... não há como eles conhecerem-na, certo?
Ela era uma intrusa, desacordada e vulnerável, por que simplesmente não matá-la? Pisquei, uma, duas vezes. E com um clique baixo, abri a porta do carro.
No fim das contas, Jellal teve que me dar uma carona por que a chave do carro estava com Lisanna.
Em meu estado de recém-choque, tremi em uma risada histérica e sem um pingo de humor, mas necessária. Minha garganta doía a cada gargalhada, mas eu não parei, os pingos de chuva molhavam meu rosto, entrando em meus olhos, e meu estômago doeu quando eu por fim me recompus.
O alarme da viatura apitou, Jellal se aproximou de mim com um olhar cauteloso.
–Lucy... — Ele murmurou.
–A Chave do carro. — Eu respondi.
–O que? — Ele deu um passo para trás em confusão.
–Estava com ela. — A risada doentia voltou, dessa vez com força suficiente para me fazer inclinar as costas e pressionar o abdome com as mãos.
Meu maxilar doeu.
Maxilar.
Murmurei a palavra para mim mesma algumas vezes na chuva, saboreando o modo como as sílabas deslizavam por minha língua, aquela palavra me parecia familiar também, mas por que seria?
Minha mente já estava longe do presente, fugindo para longe de tudo aquilo, e com o meu corpo agora frio encharcado nos pingos brilhantes, eu lembrei.
–Natsu, que horas são? — Perguntei, me virando para ele, que estava sentado logo ao meu lado no sofá, assistíamos um programa qualquer e, na minha opinião, ele estava próximo, próximo demais.
–17:34, porque? — Ele respondeu depois de se virar para o relógio da cozinha, aproveitei esses curtos segundos em que ele estava ocupado para observar seu rosto minuciosamente, percebi que, quando ele está se esforçando para enxergar de longe, franze os lábios e endurece a linha do maxilar, e infelizmente, seu maxilar era tudo...
Ah, agora sim.
Bufei, vapor branco saindo de minha boca conforme meus lábios tremiam, certamente em algum tom de azul.
O ruído branco não estava mais na minha cabeça, tudo o que me acalmava era o barulho dos meus passos no concreto da calçada até a entrada da delegacia, Jellal atrás de mim.
Lisanna, Lisanna foi sequestrada. Como eu pude ser tão irresponsável?
"Bem..."– Pensei. — "Minha irresponsabilidade começou no momento em que decidi ajudar você, Natsu."
Meus olhos se abriram para a luz forte que vinha de dentro, o cheiro de cafeína me deixando mais acordada.
Isso mesmo.
Tudo isso... é culpa sua.
Natsu.
Meu desespero se tornou raiva, e meus sussurros se juntaram em uma só frase, que assustou até a mim. Mas era tarde para voltar atrás.
Eu vou te caçar, Natsu.
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